Viver no limite financeiro não é uma exceção — é, para muitas famílias, o ponto de partida. Há rendimentos regulares, trabalho estável, contas pagas a tempo e, ainda assim, o dinheiro parece nunca chegar ao fim do mês. Esta realidade repete-se com tal frequência que já não pode ser explicada apenas por “má gestão” ou “falta de cuidado”. Há padrões. E ignorá-los tem custos.

Quando se olha com atenção para a vida financeira das famílias, percebe-se que o problema raramente está num único erro grave ou numa decisão isolada. O mais comum é a combinação de vários fatores que, somados, reduzem drasticamente a margem de manobra mensal e criam uma sensação permanente de aperto.

O primeiro desses fatores é o peso das despesas fixas, sobretudo das prestações associadas a crédito. Crédito à habitação, automóvel, pessoal ou cartões de crédito são normalmente compromissos assumidos em momentos diferentes, muitas vezes sem uma visão global do impacto conjunto. Cada prestação, analisada isoladamente, parecia comportável aquando da contratação, mas quando englobadas condicionam o mês inteiro.

Ao peso dos créditos juntam-se outras despesas fixas que passam despercebidas precisamente por serem recorrentes e socialmente indispensáveis: eletricidade, água, gás, telecomunicações, seguros, subscrições e outros serviços contratados há anos e nunca mais revistos. Quantas destas faturas refletem, hoje, as melhores condições possíveis e/ou as necessidades? O problema raramente está numa despesa “absurda”. Está no efeito acumulado de decisões automáticas que nunca mais foram questionadas.

Outro fator é a falta de consciência real sobre para onde vai o dinheiro. Muitas famílias não têm uma noção clara do seu orçamento mensal — não por desleixo, mas porque nunca criaram um sistema simples que lhes permita perceber quanto entra, quanto sai e desta forma perceber onde estão os desvios. Sem essa base, qualquer decisão financeira é tomada no escuro, baseada em perceções e não em dados.

Depois surge o efeito da automatização das decisões. Débitos diretos, pagamentos recorrentes, renovações silenciosas de contratos criam a ilusão de controlo quando, na prática, retiram espaço à reflexão. O dinheiro sai antes de ser pensado. E quando se percebe o impacto, já não há margem para escolher.

Por fim, há a ausência de revisão periódica das decisões financeiras. Muitas escolhas são feitas uma vez e nunca mais revisitadas: créditos que já não fazem sentido, contratos desajustados à realidade atual, serviços que deixaram de ser utilizados. A vida muda, mas as decisões ficam. E isso custa dinheiro.

O problema, muitas vezes, não é ganhar pouco. É decidir uma vez e… nunca mais voltar a decidir.

É aqui que muitas famílias ficam presas: trabalham para cumprir compromissos assumidos no passado, sem tempo e, sobretudo, sem espaço para reavaliar o presente. O stress financeiro não nasce apenas da falta de dinheiro, mas da sensação de não haver alternativas.

Ter finanças com cabeça começa precisamente neste ponto: identificar onde estão os compromissos, perceber o impacto real das decisões tomadas e recuperar capacidade de escolha. Não se trata de cortar cegamente nem de viver em contenção permanente. Trata-se de alinhar decisões financeiras com a realidade atual e com aquilo que se pretende — e se necessita — preservar.

Ao longo das próximas semanas, nesta rubrica iremos aprofundar cada um destes eixos: o peso real das prestações, a leitura crítica dos créditos, os erros mais comuns no orçamento familiar, a importância de rever contratos e serviços e o impacto que pequenas decisões podem ter quando são tomadas com método e consciência.

Viver no limite não é inevitável. Em muitos casos, é apenas o resultado de decisões que nunca mais foram revistas. E rever decisões — ao contrário de aumentar rendimentos — é um ponto de partida que está, hoje, ao alcance de qualquer um de nós.

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Tempestades sucessivas, vítimas, destruição e um padrão que a ciência climática descreve há décadas – enquanto as decisões políticas continuam a empurrar o problema para a frente.

Portugal entrou em 2026 como quem entra num túnel em velocidade e perda do controlo porque percebe que não há travões.

Em pouco mais de duas semanas, quatro tempestades com nome próprio atravessaram o País como carruagens de um mesmo comboio desgovernado.

Não foi azar. Não foi surpresa. Foi a confirmação, no terreno, de tudo o que a ciência climática vem a descrever há décadas, mas que a política insiste em tratar como exceção.

Viver em crise climática

Desde janeiro de 2026, o País tem sido atravessado por uma sucessão anómala de sistemas depressivos. Ingrid (23-24 de janeiro), Joseph (25-27 de janeiro), Kristin (27-31 de janeiro) e Leonardo (4-7 de fevereiro).

A proximidade temporal entre eventos, a intensidade do vento e da precipitação e a extensão dos danos deixaram de ser um desvio estatístico. São, hoje, a tradução prática do que significa viver em crise climática.

A passagem da tempestade Kristin deixou um rasto de destruição que dificilmente será esquecido – não apenas pela violência dos elementos, mas também pela forma como expôs fragilidades estruturais, logísticas e humanas num país que ainda trata estes fenómenos como “anormais” e pensa que crise climática é coisa que só existe nos livros.

Quando Kristin passou sobre o centro e o norte do País, rajadas de vento superiores a 200 km/h foram registadas em Soure – uma intensidade equiparável a um furacão moderado e inusitada para depressões extratropicais nesta latitude. O Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) emitira alertas vermelhos, mas a fúria da tempestade ultrapassou as expectativas de muitos habitantes e dos serviços de proteção civil.

O balanço humano é devastador: pelo menos, seis mortes foram oficialmente atribuídas à tempestade em território português, entre causas diretas – como quedas de árvores, estruturas metálicas arrancadas pelo vento ou veículos atingidos por destroços – e efeitos indiretos imediatos. Centenas de pessoas ficaram feridas ou sofreram lesões em situações de risco durante e após a intempérie, quer fosse tentando proteger a sua propriedade, quer participando em trabalhos de emergência.

No auge da crise, cerca de um milhão de clientes ficaram sem eletricidade em várias regiões do País – um recorde que tardaria a inverter-se, com centenas de milhares ainda sem luz ou com restabelecimento parcial passados vários dias. Em muitas localidades, moradores relataram dias inteiros sem eletricidade, sem telefone móvel nem internet estável, sem água corrente e, por vezes, sem combustíveis básicos – uma combinação que transformou o pós-tempestade numa crise de sobrevivência.

Mesmo depois de o vento abrandar, a tempestade continuou a matar. Registaram-se acidentes durante a reposição de telhados e fachadas, quedas de pessoas em estruturas instáveis e casos de intoxicação associados ao uso inadequado de geradores em casas sem eletricidade. Um padrão trágico e repetido em eventos extremos, quando a urgência de recuperar substitui a segurança e a informação não chega a tempo.

Passageiros de um “comboio demolidor”

Foi neste cenário que chegou Leonardo com solos ainda saturados, telhados ainda a descoberto ou protegidos por lonas precárias, populações exaustas e ainda nalguns casos sem serviços mínimos repostos. Leonardo chegou trazendo chuva persistente e, em muitos casos, forte até 7 de fevereiro, com períodos de precipitação intensa que equivalem ao que normalmente cairia em vários dias de inverno em poucas horas – um fenómeno que os meteorologistas qualificam como um “rio atmosférico” capaz de transportar enormes volumes de humidade para a Península Ibérica.

Nos primeiros momentos, a depressão Leonardo causou, pelo menos, uma vítima mortal em Portugal – um homem nos seus 70 anos que foi encontrado sem vida após ser arrastado pela corrente enquanto atravessava uma zona inundada no concelho de Serpa, no Baixo Alentejo. Além disso, a Proteção Civil registou centenas de ocorrências associadas ao mau tempo, incluindo cheias em zonas urbanas e rurais, linhas de água transbordadas, cortes em estradas e condicionamentos em serviços essenciais (energia, comunicações e transportes).

Ingrid foi a primeira carruagem. Joseph manteve o comboio em movimento. Kristin acelerou. Leonardo chegou antes de o País recuperar. Este é o comboio demolidor construído por aqueles que continuam a emitir cada vez mais gases com efeito de estufa para a atmosfera, apoiados em estratégias de crescimento infinito e de acumulação de riqueza. A Ciência chama-lhe efeito composto de eventos extremos, ou seja, crise climática: quando fenómenos sucessivos amplificam riscos e impactos, mesmo sem valores-recorde isolados.

Atlântico mais quente

O que a Ciência nos diz é que atmosferas mais quentes retêm mais vapor de água e libertam mais energia.

O Atlântico mais quente alimenta sistemas depressivos mais intensos.

O resultado são tempestades mais violentas, mais húmidas e menos previsíveis – exatamente o que a ciência climática prevê para o sul da Europa e que ninguém quer assumir como uma realidade para a qual todos devemos estar preparados.

Portugal combina urbanização desordenada, infraestruturas envelhecidas, solos impermeabilizados, que planeia expandir com opções políticas como a flexibilização da lei dos solos e fraca adaptação climática.

Quando cai em horas a chuva que antes caía em semanas, o território responde com cheias, derrocadas e falhas em cascata. Quando os ventos sopram, a tempestade leva o que os fogos não queimaram.

Após cada tempestade, repetem-se os mesmos discursos: “evento excecional”, “fenómeno inesperado”, “força da Natureza”. Mas ações reais para travar a crise climática e os planos de adaptação avançam lentamente, o investimento em prevenção é residual e a lógica de emergência substitui a política estrutural.

As emissões de carbono não desaparecem no final do ano. Acumulam-se. Aquecem oceanos. Alteram padrões climáticos durante décadas.

Apesar de cimeiras e metas, as emissões globais continuam a subir. Fala-se em transição energética, mas vive-se uma expansão energética, onde renováveis crescem lado a lado com novas infraestruturas fósseis. Todos sabemos que a Ciência não se engana com mercados de carbono e cada decisão tomada hoje define o grau de violência climática que enfrentaremos amanhã.

Menos surpresa e mais decisão

Na COP30, países produtores de petróleo bloquearam um plano claro de saída dos combustíveis fósseis. Pouco importaram as populações que já vivem as consequências. Documentos internos das empresas do setor mostram que os impactos climáticos eram conhecidos desde os anos 1970. Ainda assim, investiu-se em desinformação, captura política e expansão da exploração.

Os mesmos mecanismos que intensificam estas depressões alimentam incêndios extremos, secas prolongadas e ondas de calor. É a mesma crise, manifestada de formas diferentes, sobre um território cada vez mais vulnerável.

Quantas tempestades seguidas são necessárias para deixar de falar em exceção? Quantas vítimas justificam mudar prioridades políticas? E quanto tempo mais vamos chamar “catástrofe natural” ao que resulta de escolhas humanas?

O que está a acontecer em Portugal desde o início de 2026 não é um acidente meteorológico. É a confirmação de um padrão global, cientificamente descrito, politicamente ignorado e economicamente alimentado. Enquanto as emissões continuarem a subir e o lobby do fóssil, a dominar as escolhas políticas, o País continuará a contar mortos, prejuízos e reconstruções – sempre depois do estrago feito.

A crise climática não pede mais surpresa. Pede decisão.

Desde dezembro do ano passado que Portugal tem vindo a ser assolado por uma sequência de depressões severas, algumas associadas a rajadas de vento destruidoras, bem como a valores elevadíssimos de precipitação que causaram perdas de vidas e prejuízos avultadíssimos que irão ter impactos marcantes na nossa economia.

Naturalmente, têm-se levantado inúmeras questões acerca da excecionalidade do evento, do papel desempenhado pelas alterações climáticas e do grau de preparação do País para fazer face a eventos desta ou de semelhante magnitude. .

1. A ministra da Energia afirmou recentemente que, desde janeiro, as barragens portuguesas já descarregaram a quantidade de água equivalente à consumida durante um ano inteiro. No entanto, em finais de agosto de 2023, 97% do território estava em seca e, dois anos depois, em finais de setembro do ano passado, a mesma ministra tinha vindo a garantir o financiamento a 100% para projetos de modernização da rede de distribuição de água do Algarve, severamente debilitado em recursos hídricos após 12 anos de seca. Como se explica esta transição abrupta de falta de água para água em demasia?

Portugal situa-se na borda da rota das depressões que se deslocam no Atlântico Norte, de oeste para leste, e se comportam como conversores da energia armazenada na atmosfera em vento e precipitação. Essa rota, ao longo dos anos, ora se desloca mais para norte, ora mais para sul, passando, no primeiro caso, as depressões muito a norte de Portugal e tendo-se um inverno seco ou, no segundo caso, ficando o território sujeito à sua influência em termos de vento forte e precipitação intensa. Esta variabilidade fica bem patente quando se analisam as séries temporais de precipitação que mostram uma grande variabilidade de ano para ano, nomeadamente quando se consideram valores acumulados no período de inverno.

2. Essa variabilidade da rota das depressões deve-se às alterações climáticas? E pode ser prevista com alguma antecedência?

A circulação atmosférica no Atlântico Norte é regulada pela posição e pela intensidade do anticiclone dos Açores e da depressão da Islândia. Por sua vez, as características destes dois grandes centros reguladores são moduladas pela posição da corrente de jato polar que é uma cintura de ventos a uma altitude de cerca de 10 km com velocidades superiores a 180 quilómetros por hora e cuja posição regula a rota das depressões à superfície. Quando a corrente de jato se desloca para sul, o anticiclone dos Açores contrai-se e dá-se ainda o estabelecimento de centros de altas pressões nas latitudes polares, tendo-se como resultado o desvio para sul da rota das depressões no Atlântico. A corrente de jato é, por sua vez, uma consequência dos constrangimentos impostos pelas leis da física, nomeadamente a conservação do momento angular e a conservação da energia. Como as oscilações da corrente de jato e as modificações da posição e da intensidade quer do anticiclone dos Açores, quer da depressão da Islândia são processos lentos, tem-se alguma predictibilidade do seu comportamento e da consequente severidade do inverno. Assim, por exemplo, desde finais do ano passado que os modelos de previsão a longo prazo indicavam uma forte probabilidade de virmos a ter um inverno rigoroso.

3. A depressão “Kristin”, que teve consequências trágicas no País, foi um evento sem precedentes do ponto de vista meteorológico?

Portugal é regularmente assolado por tempestades violentas associadas à passagem de depressões. O denominado “ciclone de 1941”, que ocorreu a 15 de fevereiro, foi acompanhado por rajadas de vento que se estima terem ultrapassado 160 quilómetros por hora e provocou mais de uma centena de mortes e prejuízos muito avultados. As “cheias de 1967”, que assolaram Lisboa a 25 e 26 de novembro, provocaram cerca de sete centenas de mortos. Mais recentemente, a “depressão Gong”, que afetou Portugal a 18 e 19 de janeiro de 2013, o “furacão Leslie”, que ocorreu a 22 e 23 de setembro de 2018, a “tempestade tropical Alpha”, que atingiu o País a 18 de setembro de 2020, e as “tempestades Martinho e Cláudia”, que se deram a 20 de março e a 15 de novembro de 2025, produziram avultadíssimos prejuízos materiais, nomeadamente em termos de infraestruturas destruídas, terrenos agrícolas devastados, interrupções na rede de distribuição de energia elétrica, deslizamentos de terras, cortes de vias de comunicação e derrube de árvores. De mencionar, ainda, a “tragédia de Entre-os-Rios”, em 4 de março de 2001, quando o aumento dos caudais do rio Douro, devido a um episódio de precipitação muito intensa, levou ao colapso da ponte Hintze Ribeiro que resultou na morte de 59 pessoas e, o evento extremo de precipitação em Lisboa, ocorrido a 10 de dezembro de 2022, responsável pelo valor máximo de precipitação registado no Instituto Geofísico Infante Dom Luiz, em funcionamento desde 1863. Apesar de se tratar igualmente de um evento extremo, que se notabilizou pela vastidão da área afetada, pela ocorrência de mortes e por prejuízos materiais enormes, a depressão Kristin insere-se no quadro da variabilidade climática de Portugal.

Imagem do satélite Meteosat, em que se pode observar o “ferrão” associado à depressão Kristin junto à costa portuguesa.

4. Qual o papel das alterações climáticas na ocorrência destes eventos extremos?

A emissão por humanos de gases com efeito de estufa tem vindo a tornar a atmosfera cada vez menos transparente à propagação do calor, de que resulta uma acumulação de energia traduzida por um aumento de temperatura do ar e por uma maior quantidade de vapor de água armazenado. Um dos efeitos dessa acumulação de energia é a intensificação do ciclo da água, que favorece eventos de precipitação mais fortes e concentrados no tempo e episódios de seca mais severos e prolongados. Ora, se a variabilidade climática implica uma alternância entre anos secos e anos chuvosos, acompanhados de tempestades severas, as alterações climáticas contribuem para o exacerbamento dos contrastes, tornando mais provável a ocorrência de anos extremos, sejam secas extremas, sejam eventos duradouros de precipitação extrema associados a inundações. O aumento observado na última década da amplitude das oscilações da precipitação entre anos secos e húmidos, bem como dos valores máximos anuais de precipitação, constitui porventura uma assinatura das alterações climáticas.

5. As notícias acerca das sucessivas tempestades têm vindo acompanhadas de termos preocupantes como ciclogéneses explosivas, tempestades de ferrão e rios atmosféricos. Trata-se de toda uma nova terminologia indicadora de que estamos em presença de fenómenos que dantes não ocorriam?

Estes termos fazem parte do jargão técnico e designam conceitos bem estabelecidos na comunidade de meteorologistas. Uma depressão consiste numa zona central onde a pressão é mais baixa e em torno da qual circula o ar no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio. Tal como no caso de uma funda, em que a pedra gira tanto mais depressa quanto maior a força com que a correia a puxa para o centro, também no caso de uma depressão o ar circula com maior velocidade quanto maior for a força com que é puxado para o centro pela força devida à diferença de pressão entre o centro e o bordo. A queda de pressão no centro da depressão é, portanto, uma medida de intensificação da “ciclogénese”, isto é, da velocidade de circulação do ar. E tem-se uma ciclogénese explosiva quando essa queda é superior a 24 hectopascal (uma unidade de medida da pressão) em 24 horas. Por sua vez, um “sting jet” ou “tempestade de ferrão” consiste essencialmente numa corrente muito intensa de ar descendente no interior de uma depressão que pode originar rajadas de vento muito fortes à superfície, com velocidades superiores a 180 quilómetros por hora. Finalmente, os rios atmosféricos são regiões muito longas e estreitas de ar carregado de vapor de água e que, tal como um verdadeiro “rio de vapor”, transportam humidade a milhares de quilómetros de distância que pode originar grandes quantidades de chuva. A conjunção destes fenómenos amplifica os efeitos de uma depressão.

O rio atmosférico que alimentou a depressão Leonard que afetou Portugal a 5 de fevereiro. A paleta de azuis indica a concentração de vapor de água na atmosfera, sendo os valores tanto mais elevados quanto mais claros os tons de azul

6. Como pode preparar-se o País para fazer face à alternância de anos muito secos e muito húmidos, bem como à ocorrência de rajadas de vento muito intensas?

A única forma de atenuar o impacto da alternância de anos muito secos e muito húmidos é diminuindo a amplitude das oscilações dos níveis de água disponível, o que só se consegue através de um sistema bem gerido de barragens. Além da importância que têm para a produção de energia hidroelétrica e de armazenamento de água, as barragens, que também constituem “caudais do futuro”, servem de encaixe contribuindo para a regularização de caudais. As cheias recentemente registadas no Tejo, no Douro e no Mondego teriam sem dúvida sido muitíssimo mais catastróficas se não fosse a gestão de caudais efetuada pelas barragens. As cheias do rio Sado e os efeitos dramáticos que tiveram em Alcácer do Sal ilustram bem a reatividade de um rio à precipitação quando os meios de regulação do caudal não são eficazes. Por sua vez, o agravamento dos episódios de seca, quer em frequência, quer em extensão, quer em intensidade, implicam uma análise cuidada da forma como a água é utilizada e o melhoramento da rede de distribuição, em particular no que respeita a perdas.

Já a recente destruição operada em muitas estruturas e na rede de distribuição elétrica obriga a uma revisão das normas de construção e a um estudo de viabilidade económica de redes de distribuição elétrica subterrâneas nas regiões mais sujeitas a ventos fortes. Finalmente, os problemas observados em habitações localizadas em leitos de cheia sugerem uma atualização urgente dos planos municipais de ordenamento do território.

7. Os alertas foram dados a tempo e horas? Será que foram tomadas as medidas adequadas?

As previsões meteorológicas que têm sido disseminadas durante a vaga de depressões sucessivas têm tido uma qualidade inquestionável e os avisos meteorológicos e da Proteção Civil que decorrem dessas previsões têm sido disseminados de forma atempada e chegado à população, quer através dos média, quer de mensagens por telemóvel. No entanto, estes avisos apenas respeitam ao denominado perigo de um evento extremo, isto é, à probabilidade da sua ocorrência. Ora, quando se analisa o risco, além do perigo, há ainda a considerar a exposição, isto é, a propensão para se ser afetado pelo evento extremo e a vulnerabilidade que respeita ao grau de perda. A migração de população e de infraestruturas para o litoral tem aumentado quer a exposição, quer a vulnerabilidade, e muito há a fazer, em termos de gestão ao nível do governo central e das autoridades municipais, para minimização do risco. Finalmente, não pode deixar de se mencionar a importância crescente da educação cívica da população face à ocorrência de eventos extremos. Tal como é prática corrente em países como o Reino Unido e os Estados Unidos, impõe-se a introdução dos programas pré-escolares e escolares de noções de como atuar e das precauções a tomar por forma a que venha a ter-se uma população cada vez mais informada e sobretudo mais bem formada.

Chuva

Valores anuais da precipitação acumulada em Lisboa durante a estação de inverno climatológico, definido como os meses de dezembro, janeiro e fevereiro. Os valores foram calculados a partir das observações efetuadas na estação do Instituto Geofísico Infante Dom Luiz, a estação mais antiga de Portugal, com registos desde 1863. A série corresponde aos valores dos invernos cobrindo o período desde 1863/1864 até 2018/2019. A curva a vermelho corresponde às médias da precipitação de inverno calculadas numa janela climatológica deslizante de 30 anos e a curva a verde aos correspondentes valores do desvio-padrão que é uma medida da variabilidade da precipitação. Uma inspeção a olho nu sugere um aumento de variabilidade a partir de finais dos anos 70 do século passado, que se traduz numa correspondente subida bastante acentuada da curva a verde que mede essa variabilidade. Já a curva a vermelho mostra uma oscilação de longa duração, com uma diminuição de precipitação desde finais do século XIX até aos anos 20 do século passado, a que se segue um período de aumento até finais dos anos 70 seguido de um ligeiro decréscimo.

Há dias em que olhar pela janela pesa mais do que devia. Tudo está no seu lugar e, ainda assim, a angústia sobe ao lembrar que, naquele mesmo momento, há quem tenha perdido o que levou uma vida inteira a construir.

Nas localidades afetadas pelas tempestades, a perda não é abstrata. Está nas portas inchadas que já não fecham, nos móveis empilhados à pressa, nas ruas onde o silêncio substituiu o movimento. Casas destruídas. Negócios parados. Pessoas a tentar perceber por onde se recomeça quando o chão falha.

O que se perde não é apenas material. Perde-se segurança, rotina, a ideia de futuro tal como era conhecido. Tudo fica suspenso entre o antes e o depois.

No meio disso, há gestos pequenos que seguram tudo: alguém que ajuda a limpar, quem oferece um café quente, quem fica ali só para não deixar o outro sozinho. Não apagam a perda, mas impedem que ela seja vivida em isolamento.

Quando regressamos a casa, o desconforto não é culpa. É consciência. É saber que a tempestade passou para uns, mas continua para outros.

Talvez o mais importante agora seja isto: não fechar demasiado depressa este capítulo. Não transformar estas histórias em mais uma notícia que se esquece. Continuar atentos, disponíveis, solidários.

Porque para estas comunidades, a tempestade terminará em breve. Mas o impacto, esse permanecerá por décadas.

E quando as câmaras partirem e o ruído diminuir, começará outra fase: a de reconstruir por dentro aquilo que a água levou por fora.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

Portugal entrou numa nova fase política — não por efeito de um acontecimento isolado, mas pela convergência de três forças que, em simultâneo, testam a maturidade do regime democrático: a eleição de um novo Presidente da República, o crescimento político da extrema-direita, apesar da sua derrota eleitoral, e a sucessão de fenómenos climáticos severos que expuseram fragilidades estruturais do Estado. Em poucos dias, condensou-se um ciclo inteiro de tensões latentes. O País não mudou subitamente; tornou-se mais consciente das pressões profundas que há muito o atravessavam e que agora emergem com nitidez histórica.

A eleição de António José Seguro encerra um período de transição prolongada e inaugura outro, mais exigente e menos previsível. A escolha do eleitorado representou uma reafirmação de confiança nas instituições democráticas e na moderação como princípio estruturante do sistema político. Num contexto de polarização crescente, a opção por uma figura associada à previsibilidade institucional e ao sentido de Estado constituiu uma mensagem clara de contenção democrática: a recusa de soluções assentes na confrontação permanente com o próprio regime.

Não esteve apenas em causa a eleição de um Presidente; definiu-se o perfil de solidez institucional que o país pretende num momento de recomposição política. Seguro chega a Belém com legitimidade robusta, mas preside a um sistema mais fragmentado e sujeito a escrutínio permanente. A previsibilidade deixou de ser um dado adquirido para se tornar uma construção quotidiana, dependente de arbitragem institucional fina e de diálogo contínuo com uma sociedade simultaneamente mais informada e mais desconfiada.

A segunda leitura destas eleições reside no desempenho de André Ventura. A derrota foi inequívoca, mas o crescimento eleitoral confirma que a extrema-direita deixou de ser um fenómeno episódico para se afirmar como polo estrutural do sistema partidário. Este é o paradoxo central do momento político: a alternativa populista não venceu, mas reforçou a sua capacidade de influenciar agendas e tensionar o debate público. Ignorar este crescimento seria um erro analítico; dramatizá-lo em excesso, um erro político.

A política portuguesa deixou, assim, de ser essencialmente bipolar. Entrou numa configuração triangular em que um terceiro polo, numericamente reduzido, mas vocal, condiciona consensos e redefine a linguagem do conflito político. Este reposicionamento reflete clivagens sociais mais profundas — insegurança económica, desigualdade territorial, pressão migratória e desconfiança face às instituições. O crescimento da direita radical não explica o país, mas revela tensões que exigem resposta política estruturada.

Neste contexto, a eleição presidencial ganha significado mais amplo. Ao escolher um perfil de moderação institucional, o eleitorado procurou reforçar o papel do Presidente como garante de equilíbrio num sistema em recomposição. A magistratura presidencial surge investida de uma dupla função: estabilizar o funcionamento das instituições e impedir que a fragmentação partidária se traduza em bloqueio político permanente.

O novo quadro institucional coloca desafios imediatos ao Governo liderado por Luís Montenegro. Em posição parlamentar sem maioria própria e perante uma oposição plural, o Executivo vê-se obrigado a governar num ambiente de legitimidade continuamente testada. A governação deixa de ser apenas execução programática; transforma-se num exercício permanente de negociação e preservação de equilíbrios institucionais delicados.

Foi, porém, a natureza que introduziu o terceiro elemento nesta equação política. A sucessão recente de depressões atmosféricas, com vítimas mortais, desalojados e danos relevantes em infraestruturas, revelou a vulnerabilidade estrutural do País perante fenómenos climáticos extremos. Quando serviços essenciais são interrompidos e comunidades inteiras são afetadas, a perceção pública desloca-se rapidamente da fatalidade para a responsabilidade governativa. A emergência converte-se, assim, em avaliação direta da capacidade do Estado.

Em cidades particularmente atingidas, como Coimbra, o impacto foi também simbólico: ficou exposta não apenas a violência dos eventos meteorológicos, mas a necessidade de um Estado mais preparado para prevenir e responder a crises que tenderão a tornar-se mais frequentes. A questão climática deixou de ser tema programático para entrar no núcleo duro da governação, como critério de eficácia estatal e de credibilidade política.

A conjugação destes fatores — recomposição institucional, crescimento da nova direita e pressão climática — produz um efeito cumulativo raro: cada decisão política passa a ser interpretada à luz de tensões simultâneas. Uma medida de proteção civil deixa de ser apenas política sectorial; torna-se um teste à capacidade do Estado. Uma negociação parlamentar deixa de ser mera aritmética legislativa; converte-se num sinal sobre estabilidade ou fragilidade do regime.

Neste cenário mais exigente, as narrativas simplificadoras encontram terreno fértil. Crises sucessivas alimentam a tentação de soluções rápidas para problemas complexos, reforçando discursos que opõem “o povo” às instituições e prometem respostas imediatas onde só existem soluções estruturais de médio prazo. O risco não reside apenas na força eleitoral dessas narrativas, mas na sua capacidade de reduzir a complexidade democrática a slogans mobilizadores e corroer a confiança nas mediações institucionais que sustentam o regime.

O desafio das forças democráticas tradicionais será, por isso, particularmente delicado. Terão de responder com eficácia às dificuldades concretas — habitação, serviços públicos, segurança e coesão territorial — enquanto reconstroem confiança institucional num contexto de escrutínio permanente. A derrota eleitoral da extrema-direita não elimina as causas do seu crescimento; apenas adia a prova de maturidade que o sistema político terá de enfrentar.

Importa evitar leituras alarmistas. O momento atual não representa um declínio da democracia portuguesa, mas a transição para um novo ciclo. O modelo assente em maiorias claras e previsibilidade governativa está a dar lugar a um sistema mais plural e mais exigente em termos de negociação política. A estabilidade já não decorrerá automaticamente dos resultados eleitorais; terá de ser construída através de compromissos alargados e responsabilidade institucional.

Perante este quadro, impõe-se a questão decisiva: estará a democracia portuguesa preparada para uma era de crises simultâneas e interligadas? A resposta dependerá menos da robustez formal das instituições — que permanece elevada — e mais da sua capacidade de adaptação a um contexto de incerteza permanente. Resiliência institucional, capacidade reformista e comunicação pública credível serão os pilares do novo ciclo.

A confluência entre eleição presidencial, crescimento da nova direita e evidência incontornável da crise climática não constitui coincidência histórica; é o sinal de um sistema político em reajuste profundo. Observados em conjunto, estes fatores revelam uma democracia em transformação, obrigada a provar diariamente a sua utilidade prática e a sua capacidade de proteger os cidadãos.

Num tempo em que a confiança pública se constrói menos em torno de promessas e mais em torno de resultados, a legitimidade política dependerá da capacidade de transformar tensão em reforma e crise em oportunidade. Se o novo ciclo institucional conseguir responder a estas três pressões — política, social e climática —, este momento será recordado não como fragilidade, mas como maturidade democrática: resistir ao ruído, adaptar-se à mudança e fortalecer-se sem abdicar da moderação que continua a ser o seu mais sólido garante de estabilidade.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

O tema da liderança tem vindo a ser cada vez mais abordado, num momento em que ferramentas como a inteligência artificial e questões sobre o papel humano estão a impactar a gestão das organizações. Quando falamos de estilos de liderança, e principalmente no que toca a Portugal, pode surgir muitas vezes a perceção de que os líderes portugueses são mais rígidos, hierárquicos e menos flexíveis do que os seus pares internacionais. Efetivamente, as comparações com modelos de trabalho mais “modernos”, associados sobretudo a países do norte da Europa ou aos Estados Unidos, podem até fazer-nos questionar se estaremos, ou não, perante uma crise de liderança. Mas não será esta perceção – sem ter em conta o contexto e a realidade atual –, limitadora?

De acordo com vários estudos e inquéritos realizados em Portugal, observamos nos líderes nacionais um tipo de liderança transformacional, isto é, focado em inspirar, crescer e criar propósito. Esta é uma realidade verificada sobretudo nas pequenas e médias empresas, que representam cerca de 99,9% do tecido empresarial português, o que demonstra como a proximidade entre líderes e equipas é um traço distintivo, que contrasta com estruturas mais impessoais que observamos noutros mercados considerados “mais avançados”.

Paralelamente, é fundamental compreender que as estratégias de liderança são profundamente influenciadas pelo contexto cultural, social e económico. À semelhança de outros países do Sul da Europa, Portugal apresenta, historicamente, uma maior valorização de princípios como a hierarquia, a estrutura e a estabilidade. Estes traços refletem-se, naturalmente, na forma como as organizações são geridas e na relação entre líderes e equipas: de acordo com um estudo recente, Portugal está entre os principais países com os maiores níveis de aversão à incerteza, o pode ajudar a explicar porque muitos líderes tendem a privilegiar modelos mais estruturados.

Embora possamos estar associados a uma liderança mais tradicional, limitar esta realidade a uma falta de flexibilidade é um erro. Quando olhamos para dados mais recentes, a narrativa está já a mudar. Segundo o Instituto Nacional de Estatística, em 2025 já cerca de 21% do total da população empregada em Portugal trabalhava de forma remota ou híbrida, valor muito acima do registado no pré-pandemia. Esta é uma resposta direta às atuais necessidades dos profissionais, que veem o equilíbrio entre a vida pessoal e profissional como um fator absolutamente imprescindível para aceitar e permanecer num determinado emprego.

Mas as lideranças em Portugal ainda enfrentam alguns desafios – sobretudo perante o contexto de escassez de talento – que exigem uma adaptação. De acordo com dados do ManpowerGroup, atualmente quase 90% dos empregadores nacionais revelam dificuldades em atrair o talento qualificado de que necessitam. Além da importância de atrair talento, este desafio obriga as empresas a priorizar também a fidelização das suas pessoas, de forma a assegurar uma evolução consistente dos negócios e das equipas. Estratégias como oferecer benefícios adaptados às diferentes realidades e necessidades dos colaboradores, bem como promover programas de formação que permitam uma atualização de competências que responda aos desafios emergentes, devem ser prioritárias para as empresas que se querem diferenciar, dispondo do melhor talento.

Qualquer líder deve ser consciente do impacto do seu estilo de liderança e estar aberto a feedback para adaptar as suas práticas às necessidades dos profissionais. Na era da tecnologia, manter uma abordagem humana, centrada nas pessoas e no seu bem-estar, é a verdadeira mais-valia para atrair e fidelizar talento, seja em Portugal ou em qualquer outra parte do mundo.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

Fomos todos chamados à redação. De pé, no meio da sala, até parecíamos muitos. Alguém fez essa piada, com o riso nervoso de quem sabe o que aí vem, mas tem no humor uma espécie de fé supersticiosa. Como se nos rirmos da desgraça que aí vem pudesse impedi-la de acontecer. À nossa frente, os diretores de olhos baixos, presos ao chão, os pescoços curvados. A cena que descrevo não aconteceu uma vez nem duas. Na verdade, perdi a conta às vezes em que assisti na primeira fila a despedimentos coletivos em jornais. A cada nova leva de saídas, invariavelmente, os títulos afundaram-se mais um pouco. É como ir tirando as tábuas de um barco para o tornar mais leve. Na verdade, estamos só a apressar o seu naufrágio.

Nos sítios por onde passei havia sempre carros de alta cilindrada, combustível pago e cartões de crédito para os cargos de direção, mesmo quando ir em reportagem era sempre demasiado dispendioso. Havia quase sempre instalações grandiosas, com muitos lugares de garagem, mesmo que fosse difícil arranjar transporte para ir fazer um trabalho fora de Lisboa. Havia muitas vezes figuras pagas a peso de ouro, cuja função ninguém sabia bem qual era, mas também ninguém questionava, à medida que na base da pirâmide se acumulavam os trabalhadores mal pagos, que só se aguentavam com os salários que lhes pagavam porque a família os ajudava com a renda ou a alimentação ou ambas. Não era que o dinheiro faltasse, era que as prioridades estavam sempre trocadas.

De vez em quando, apareciam novos acionistas. Dinheiro fresco e uma espécie de esperança coletiva, que esmorecia rapidamente. Não tardava até virem novos despedimentos, reformulações gráficas caras que ninguém sabia bem para que serviam, anúncios de novos “produtos”, feitos pelos mesmos do costume, cada vez mais esmifrados e mal pagos. Mas na altura do Natal ou do aniversário das publicações, os acionistas desfilavam orgulhosos, faziam proclamações sobre a liberdade de imprensa e distribuíam um ou outro brinde pelos trabalhadores, a quem insistiam em chamar “colaboradores”, mesmo que estivesse cada vez mais em queda a vontade de colaborar com um caminho que nos parecia que só podia ter um triste fim.

Nestes anos todos, estive quase sempre nos quadros das empresas por onde passei. E, ainda assim, senti-me sempre a prazo. “Quantos anos vou aguentar-me?”, ia-me perguntando, enquanto tentava equilibrar-me em cima de salários baixos, muita pressão, demasiado trabalho.

Os milionários compram jornais porque acham que isso lhes dá poder. Destroem-nos quando essa é a forma de ter ainda mais poder. Não é o dinheiro que está em causa. O que é preciso é que o seu poder continue a alastrar-se, quer isso se faça controlando os jornais ou silenciando-os

Nestes anos todos, pensei durante muito tempo que a incompetência e o deslumbramento eram parte da explicação para os sucessivos erros de gestão que qualquer estagiário deteta em empresas de comunicação uns três meses depois de lá começar a trabalhar. Mas mudei de ideias: não é incompetência nem sequer deslumbramento. Reforcei essa convicção ao ver as notícias sobre a forma como Jeff Bezos está a desmantelar o The Washington Post, cortando a eito nos gastos, depois de ter pagado 40 milhões de dólares pelos direitos do documentário Melania – que no fim de semana de estreia teve em Portugal uma média de seis espectadores por sessão – e cerca de 35 milhões para promover o filme sobre a mulher de Donald Trump.

Bezos faz parte da oligarquia de Trump. Doou um milhão de dólares para a cerimónia de tomada de posse do Presidente dos Estados Unidos e obrigou o The Washington Post a redefinir a linha editorial da sua secção de opinião, para incluir uma “visão mais libertária”. A ironia é que esse defensor do libertarianismo é o mesmo que tem acumulado milhares de milhões de dólares em contratos públicos. Não é que Bezos tenha alguma coisa contra o dinheiro do Estado. Ele só não quer que seja gasto a tratar da saúde das pessoas ou a garantir-lhes algum tipo de proteção, quando pode ser diretamente canalizado para a sua obscenamente bem recheada conta.

Quando a interferência de Bezos no The Washington Post ficou evidente, as assinaturas do jornal caíram a pique, afundando mais as contas. Quando anunciou que iria despedir 30% da redação, os jornalistas despedidos angariaram mais de 350 mil dólares na plataforma Go Fund Me, em poucas horas. Alguém que acredita no mercado como regulador de tudo deveria ver aqui uma mensagem clara. O apoio aos jornalistas e a rejeição da inclinação do jornal em direção à extrema-direita são evidentes. Mas a economia nunca fez parte desta equação.

Quando nos falam do mercado que tudo regula, omitem a peça mais importante desta engrenagem: o poder. Os milionários compram jornais porque acham que isso lhes dá poder. Destroem-nos quando essa é a forma de ter ainda mais poder. Não é o dinheiro que está em causa. Nunca foi. Não lhes falta dinheiro. O que é preciso é que o seu poder continue a alastrar-se, quer isso se faça controlando os jornais ou silenciando-os.

Os média são sempre apresentados como um negócio em ruína, destinados a desaparecer. Isso tem uma parte de verdade. O modelo de negócio em que estão assentes contém a semente da sua destruição. Mas eles são uma ferramenta poderosa e é por isso que são um alvo a abater pelos teóricos do “jornalixo” que se congratulam sempre com a nossa “falência”, mas ainda assim nos dão importância suficiente para continuarem a atacar-nos. Porquê? Porque há poucas coisas mais poderosas do que questionar. E essa é a nossa arma.

Enquanto os milionários iam atirando dinheiro para cima das empresas de média, encaminhando-as para o engodo do digital – onde eles ditam as regras e a publicidade cai para valores irrisórios –, nós esquecemo-nos de que os jornalistas são as máquinas das fábricas que são os jornais e que a grande força que os títulos têm é a comunidade que se constrói em torno de valores partilhados e confiança. Histórias como as do The Washington Post ajudam-nos a abrir os olhos. Para não voltarmos a ser enganados. E quem não cai nas teses sobre o “jornalixo” tem de perceber que consegue dar a volta a isto. Como? Comprando jornais e revistas. Se forem muitos a fazê-lo, nem os Bezos da vida conseguirão calar-nos.

Estamos a passar nas últimas semanas por uma sequência de fenómenos naturais extremos, que começaram por provocar uma devastação de grande dimensão na região Centro, sobretudo entre Leiria e Coimbra, seguidas de inundações que extravasaram os leitos das bacias do Mondego, do Tejo, do Sado e do Guadiana e seus afluentes.

Os fenómenos extremos têm características muito diversas, como os incêndios rurais, as depressões como o furacão Leslie ou a ciclogénese explosiva Kristin, a pandemia Covid-19, as enxurradas na Madeira ou os sismos nos Açores, mas as alterações climáticas e o aquecimento global, negados pela extrema-direita, tendem a torná-los cada vez mais frequentes e com consequências mais graves.

A resposta a estes fenómenos passa por dar prioridade ao planeamento, à prevenção ativa, à pedagogia dos comportamentos dos cidadãos e à realização regular de exercícios de coordenação e preparação da resposta de todas as entidades envolvidas.

O trauma dos incêndios de 2017 e as recomendações da Comissão Técnica Independente levaram a que fosse dada a prioridade política e financeira ao investimento em prevenção, o que permitiu o desenvolvimento de uma Estratégia de Proteção Civil Preventiva, aprovada em 2017 e revista em 2021, e o desenvolvimento do sistema de Planeamento Civil de Emergência que propiciou seis anos sem mortes civis nos incêndios, a resposta antecipada sem vítimas mortais aos furacões Leslie na região de Coimbra ou ao Lorenzo nos Açores, e a uma notável resiliência coletiva durante a pandemia sobretudo durante as 18 quinzenas de Estado de Emergência.

Luís Montenegro é um pragmático sem cultura de planeamento estratégico que desprezou o investimento na prevenção de riscos, desaparecido do discurso político, e que em momentos de crise aposta tudo na resposta política e nos apoios financeiros que julga serem a garantia da sobrevivência do seu Governo.

O padrão é perigoso e passa pela desvalorização política da centralidade e comando das operações pelo MAI, com as desastradas escolhas das duas ministras que sendo respeitáveis juristas não tinham qualquer capacidade operacional, e pela fragilização da Proteção Civil que perdeu Autoridade e passou a ser vista como um serviço de bombeiros.

O resultado viu-se nos incêndios de 2024 e de 2025, na resposta atabalhoada ao apagão e culminou na reação tardia à calamidade que estamos a viver.

Ana Abrunhosa, pela sua capacidade de prevenção de riscos, antecipação da resposta às cheias do Mondego, coragem a tomar decisões difíceis e capacidade de liderança, tem feito em Coimbra tudo o que o Governo, com exceção da ministra do Ambiente, não foi capaz de fazer na resposta à emergência climática.

Gonçalo Lopes, em Leiria, liderou a resposta imediata à destruição extrema da região desde a primeira hora, quando Luís Montenegro ainda falava em avaliação da situação por Secretários de Estado que iriam ao local mais de 12 horas depois das piores ocorrências. Neste momento, a recuperação dos prejuízos vai ser uma longa e penosa marcha, mas ninguém explica como é possível que mais de 35 mil casas continuem sem eletricidade ao fim de mais de duas semanas e as operadoras de comunicações recusem o roaming nacional entre elas.

Clarisse Campos foi, em Alcácer do Sal, a líder de uma comunidade solidária que, apesar de o centro da cidade parecer a Veneza do Alentejo, foi excluída na declaração inicial das zonas de Estado de Calamidade feita pelo Governo em 30 de janeiro.

Estamos ainda em fase de prevenção de riscos extremos e de avaliação de prejuízos, mas a centralidade de Luís Montenegro, agora que passou a ser MAI e mandou calar os desastrados propagandistas Leitão Amaro e Castro Almeida, torna-o no primeiro responsável político pela ausência de prevenção, pela reação tardia à tragédia e pela insuficiência da resposta à profunda crise para as infraestruturas, as empresas e as famílias.

As medidas de apoio inicialmente aprovadas só se aplicam nos 68 municípios abrangidos pela declaração de Estado de Calamidade, o que exclui, entre outros concelhos, Arruda dos Vinhos que nem votou no domingo passado, Alenquer inundado e largamente intransitável ou Almada que procedeu à evacuação de centenas de pessoas de zonas de risco.

A teimosia de Montenegro em recusar alargar os territórios com direito a apoios tem sido permanente, com uma renitência perante a realidade da calamidade disfarçada agora com o anúncio às televisões de um PRR nacional de conteúdo ainda desconhecido e que nem sequer consta do comunicado do Conselho de Ministros de ontem.

Já sabemos é que os 500 milhões de euros para empréstimos a 5 anos, de apoio à tesouraria das empresas, se esgotaram em 10 dias e tiveram já de ser reforçados, que ainda ninguém recebeu apoios para recuperar casas, que o lay-off aprovado não garante a totalidade dos salários, e que quem tiver uma dívida à segurança social ou se atrasar no pagamento do IMI não terá direito a apoios à recuperação de prejuízos.

As populações confiam nos avisos, conselhos e apoios dos seus autarcas, na Proteção Civil mobilizada a nível regional e local e na preciosa logística das Forças Armadas a partir do momento que foram chamadas ao terreno, tanto quanto já desistiram de esperar pela segurança e tranquilidade que devia ser transmitida por um Governo, à toa.

Pela improvisação e descoordenação na resposta à calamidade, pela preocupação com a propaganda e pela insuficiência e inconsistência dos apoios para a recuperação dos danos, o prémio Laranja muito Amarga de hoje vai para o comando operacional do MAI Luís Montenegro.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

Os utilizadores partilham uma fotografia pessoal e pedem a ferramentas de Inteligência Artificial que criem uma ilustração com base na sua vida ou no seu trabalho, mostrando versões animadas dos utilizadores no escritório, com a sua família ou no seu ambiente de trabalho. A partilha destas imagens tornou-se viral no Instagram, TikTok e LinkedIn, mas os especialistas da Kaspersky explicam os riscos associados a esta aparentemente inócua “trend”.

O mais evidente é a exposição de informações pessoais que podem facilitar a criação de mensagens fraudulentas personalizadas e em grande escala.

Segundo os especialistas da Kaspersky, especializada em cibersegurança, este tipo de pedido não funciona como um simples filtro visual. Para obter imagens mais precisas, os utilizadores permitem que a IA aceda a todas as informações associadas ao seu perfil, sem restrições, uma vez que a própria instrução inclui comandos como “cria uma caricatura sobre mim e o meu trabalho com base em tudo o que sabes sobre mim”, ou, em alternativa, o utilizador fornece estes dados para maior precisão. Para além da fotografia de referência, são incorporados dados adicionais como o nome da empresa, logótipos corporativos, cargo, cidade, rotinas diárias, hobbies e outros detalhes familiares.

Cada um destes dados é uma peça-chave para a construção de um perfil digital detalhado. Ao combinar imagem, texto e contexto, são revelados hábitos, relações, locais frequentados e responsabilidades profissionais que podem ser explorados por cibercriminosos para criar burlas mais sofisticadas. Desta forma, uma fraude que mencione a empresa onde alguém trabalha, o seu cargo ou até um familiar torna-se muito mais credível, aumentando a probabilidade de a vítima confiar e partilhar informações sensíveis ou dinheiro.

Além disso, ao interagir com estas plataformas, não é partilhada apenas a imagem final. Dependendo do serviço e das respetivas políticas de privacidade, podem também ser armazenados a fotografia original, os textos ou instruções introduzidas pelo utilizador, o histórico de utilização e determinados dados técnicos, como o endereço IP, o dispositivo utilizado ou padrões de interação. Parte desta informação pode ser conservada para garantir o funcionamento do serviço, melhorar o seu desempenho ou treinar modelos de Inteligência Artificial, o que significa que o conteúdo não desaparece necessariamente após a geração da caricatura e pode permanecer disponível durante mais tempo do que o utilizador imagina.

“O maior risco não está na ilustração criada, mas em tudo o que as pessoas revelam para a obter. Quando alguém partilha detalhes sobre o seu trabalho, a sua família ou a sua rotina, está, muitas vezes sem se aperceber, a disponibilizar informações que podem ser usadas em fraudes altamente direcionadas ou em casos de usurpação de identidade. Neste contexto, a exposição acumulada de dados pessoais pode transformar-se numa porta de entrada para ataques de engenharia social, roubo de identidade ou burlas personalizadas”, afirma Fabio Assolini, diretor da equipa global de investigação e análise da Kaspersky para a região da Europa e das Américas.

Embora estas ferramentas possam ser uma forma divertida de explorar a criatividade digital, os especialistas recomendam a adoção de hábitos mais prudentes ao participar neste tipo de tendência. Para reduzir os riscos, a Kaspersky aconselha que:


• Evite inserir nos prompts dados identificáveis como nome completo, cargo, empresa, cidade, morada, horários ou rotinas, mesmo que pareça ser “apenas para personalizar” a imagem;
• Ao realizar pesquisas ou pedidos de natureza pessoal em ferramentas de IA, dê preferência ao modo “Temporary Chat” ou “Modo Incógnito”, que permite conversas que não são armazenadas no histórico, nem utilizadas para treinar modelos de IA ou recordadas em interações futuras;
• Não partilhe informações nem imagens de menores de idade, nem revelar dados familiares que possam ser usados para se fazer passar por pessoas próximas ou criar burlas de carácter emocional;
• Reveja a política de privacidade e as permissões da plataforma antes de a utilizar, em particular no que diz respeito à retenção de conteúdos e à utilização de dados para treino ou melhoria do serviço.

A eleição de um novo Presidente da República é sempre um momento de recomposição simbólica de um regime democrático. Não apenas porque muda o titular do mais alto cargo do Estado, mas, sobretudo, porque se renova a expectativa de que, através da sua palavra e da sua influência, se possa corrigir o que tem corrido menos bem no funcionamento das instituições. É nessa medida que o novo Presidente, que tem feito da defesa do Estado de Direito um dos eixos centrais do seu discurso, encontrará na Justiça mais um exigente teste ao alcance dessa preocupação.

De facto, o Estado de Direito não é um conceito abstrato, nem uma fórmula de circunstância para discursos de ocasião. Ele vive ou definha no quotidiano das instituições que o sustentam. E é neste ponto, precisamente, que tem vindo a ser denunciada, sem sucesso, uma das mais inquietantes fragilidades com que o nosso sistema e configuração parlamentar se têm deparado: a incapacidade de assegurar, em tempo útil, a nomeação para órgãos essenciais à arquitetura constitucional.

O exemplo mais evidente tem sido o da Provedoria de Justiça. A demora no preenchimento deste cargo, repetidamente assinalada, não é apenas um problema de agenda parlamentar. É já um sinal de desvalorização institucional de um órgão que, sendo independente, é muitas vezes o último recurso dos cidadãos perante o mau funcionamento da Administração. Já o escrevi, neste espaço, em “Provedoria vacante”, e vale a pena repetir: não se trata apenas de uma cadeira vazia, mas de uma função constitucionalmente relevante que fica amputada da sua capacidade de intervenção quando se arrasta o vazio institucional.

O problema, contudo, não se esgota na Provedoria. O Tribunal Constitucional, órgão de cúpula do sistema de controlo da constitucionalidade, tem enfrentado sucessivos adiamentos na escolha de novos juízes, com as forças políticas a falharem, repetidamente, os prazos para apresentar nomes. No final de 2025, as eleições para três juízes do Tribunal Constitucional e para o Provedor de Justiça tiveram de ser adiadas para 2026 por ausência de candidaturas apresentadas pelos partidos. E não se trata de um episódio isolado: foi já a terceira vez, na mesma legislatura, que estas nomeações ficaram por fazer. Aliás, e com especial proximidade ao Presidente da República, cumpre assinalar que mesma lógica de bloqueio atingiu também o Conselho de Estado, com vários lugares dependentes de eleição parlamentar a ficarem por preencher no mesmo processo adiado.

Ora, quando órgãos desta natureza, que constituem peças-chave do funcionamento constitucional, ficam meses a fio à espera de consensos, o problema deixa de ser meramente político e passa a ser institucional. Na verdade, este quadro não surgiu de um dia para o outro, mas tende já a espelhar uma cultura que se vai enraizando de remeter a Justiça para um plano secundário. Na campanha eleitoral para as últimas legislativas, como escrevi em “A conversa do costume”, o tema quase não teve expressão, como se fosse possível falar de democracia sem falar de tribunais, de magistrados, de oficiais de justiça ou de órgãos de controlo. Nas recentes presidenciais, o cenário não foi muito distinto e o resultado está à vista: para além das estruturas deficitárias, das faltas de quadros e de meios, das faltas de perspetiva de carreira para quem trabalha na Justiça, somam-se também as relevantes nomeações adiadas por falta de entendimento político.

De facto, é muito preocupante quando se constata a inércia ou a incapacidade que se tem verificado nestas situações e que se traduz numa desatenção institucional que enfraquece a confiança dos cidadãos no sistema. E a confiança é o cimento invisível que sustenta o Estado de Direito.

Por tudo isto, impõe-se sublinhar que este é, precisamente, um dos pontos em que a figura do Presidente da República assume um papel insubstituível. A Constituição não lhe confere poderes executivos na área da Justiça, mas atribui-lhe algo que, em determinadas circunstâncias, pode ser ainda mais relevante: a magistratura de influência. O Presidente não governa, mas pode convocar, persuadir, pressionar, expor bloqueios e exigir soluções. De facto, velar pelo regular funcionamento das instituições não é uma cláusula decorativa do texto constitucional, mas antes constitui um mandato concreto. E, num contexto em que órgãos essenciais se encontram por preencher durante meses, esse mandato exige uma atuação determinada e persistente.

O novo Presidente tem, portanto, e desde já, uma oportunidade clara de afirmar, na prática, o seu compromisso com o Estado de Direito. Sem prejuízo das áreas de intervenção prioritárias que tem elencado, seria igualmente importante que fizesse da Justiça uma prioridade política, nunca no sentido de se imiscuir na sua independência, mas sim no de exigir que os responsáveis políticos cumpram as suas obrigações institucionais. Caso a situação não se desbloqueie no horizonte da sua tomada de posse, poderá então convocar os partidos, promover consensos, tornar visível o custo institucional dos bloqueios e, sobretudo, não permitir que a normalização da anormalidade se torne regra.

O regular funcionamento das instituições não se mede apenas pela ausência de crises. Mede-se, sobretudo, pela capacidade de garantir que os órgãos constitucionais estão completos, operacionais e são respeitados. Uma Provedoria vacante e um Tribunal Constitucional incompleto são sintomas de uma doença institucional que não pode ser ignorada. A eleição de um novo Presidente oferece, por isso, uma ocasião fundamental para o rumo seja corrigido.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.