“A abstenção é um ato de cobardia política. “
Francisco Sá Carneiro

(Faço um não raro mas desta feita longo disclaimer: não tenho especial simpatia por António José Seguro porque sempre me pareceu, em especial enquanto líder do Partido Socialista, demasiado low profile e pouco exigente no que eu entendia deverem ser as bandeiras de um qualquer partido que se diga de esquerda. Faço também o exercício oposto: nunca consegui deixar de ter André Ventura como um oportunista. Foi capaz de escrever um conto erótico de péssimo calibre e defender uma noção de família incompatível com aquelas linhas erráticas. Elaborou uma dissertação de doutoramento num sentido e, passando uma esponja sobre o assunto como se tal nunca tivesse sucedido, inviabilizando até a consulta da mesma, defender exactamente o oposto. Fala que pretende erradicar os designados “tachos” mas o que se tem visto nos últimos tempos, sob a sua batuta e sem qualquer demonstração de oposição da sua parte, com a capital tristemente à cabeça, é a distribuição de lugares entre familiares e apoiantes, em qualquer dos casos sem qualquer competência para o seu exercício.

Deixo um último e derradeiro comentário: nem sempre concordei com o meu Professor preferido, Marcelo Rebelo de Sousa, mas foi sempre o meu Presidente. Para os particularmente críticos, tenho apenas a dizer que, independentemente do resultado da segunda volta, creio que iremos ter saudades. Foi o Presidente dos afetos, foi por vezes excessivo nos comentários mas, nunca por nunca, perdeu de vista o Estado de Direito Democrático em que vivemos, nunca deixou para trás os valores mais básicos da Humanidade, nunca se fechou numa bolha, sem pelo menos ouvir as pessoas. De novo, Meu Professor: obrigada.)

Ao contrário do que se tem procurado fazer crer, o que se discute no dia 8 de fevereiro de 2025 é muito mais do que uma mera escolha entre dois perfis de candidatos.

No dia 8 de fevereiro de 2025, para além das visões políticas diferentes, está em causa o Estado de Direito Democrático tal como o conhecemos. Princípios que damos como adquiridos, como os da igualdade de oportunidades, em especial entre homens e mulheres, da presunção de inocência ou da separação de poderes, entre outros, podem passar a letra morta e é isso que devemos reter no momento do voto.

É absolutamente inegável que estas décadas de democracia não tiveram apenas virtudes e que o principal mal que se tem deixado proliferar é a corrupção, habilmente usada pelo Chega como se, no seu seio, a situação não seja igual ou pior.

Por outro lado, obviamente, André Ventura não pretende ganhar a eleição mas usar o seu resultado para tentar canibalizar o PSD, aliás à semelhança do que já fez ao CDS. Uma vez mais, trata de usar com total indiferença os meios errados para atingir os fins, igualmente errados, a que se propôs. Deste modo, um voto em André Ventura não se destina a escolher o Presidente da República mas é um meio para se procurar impor um caminho ainda mais xenófobo, racista, discriminatório e indiferente ao sofrimento, seja ele humano ou animal. De qualquer forma, se um dia Ventura se convencer, como parece já estar a suceder, que capitaliza votos junto dos trabalhadores, rapidamente tratará de alterar o discurso e procurar fazer até sindicatos, pese embora toda a gente minimamente informada saiba que ele é apoiado em especial pelos patrões.

Ventura dirá, desta forma, tudo o que tiver que dizer para granjear simpatias e não hesitará em mentir, ainda que contra si mesmo, como aliás tem feito desde que se iniciou na vida política lá para os lados do PSD.

Seguro nunca o conseguiria fazer, preso que está à sua circunstância de ser um homem honesto e educado e, pelo menos aparentemente, com princípios.

Dito de outra forma, nesta eleição, como provavelmente em nenhuma outra até agora, há de facto, dois lados da barricada e não há como ficar em cima do muro, a hesitar para que lado pender.

No limite, e para aqueles que, sabe-se lá como, ainda estão indecisos, há sempre uma derradeira pergunta: a qual dos dois compraria um carro usado? Tem aí a sua resposta.

(Numas derradeiras linhas, a outra interrogação que trago é a de saber quanto vale o jornalismo independente, para lá do crivo e dos interesses dos acionistas dos grandes grupos. Se considera que estar informado pode ser relevante, a sugestão é a que tenho feito: ajude o grupo de pessoas que, acreditando na valia do projeto, continuam a fazer milagres e a fazer sair a VISÃO a cada semana. Se não puder contribuir com dinheiro, pelo menos partilhe. Há boas ações que também se refletem em quem as pratica.)

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

A vida corre depressa, mas há momentos em que tudo pode mudar num segundo. O Acidente Vascular Cerebral (AVC) é essa paragem súbita, muitas vezes brutal, que altera o fluxo da vida tal como altera o fluxo de sangue no cérebro. Seja por um bloqueio, como uma “rolha” que impede o oxigénio de passar, ou por uma rotura de um vaso, o resultado é o silêncio onde deveria haver vida.

Em Portugal, esta é ainda a principal causa de despedidas prematuras acima dos 65 anos. Mas não tem de ser uma fatalidade. O corpo avisa, e nós precisamos de estar presentes para ler os sinais. Existe uma mnemónica simples, a regra dos 3 “F”, que nos pede para olhar verdadeiramente para o outro:

  • Face: Peça um sorriso. A boca mexe-se de forma diferente? Está descaída?
  • Força: Tente levantar os braços. Há um lado que cede, que não acompanha?
  • Fala: Uma frase simples. A voz sai enrolada, sem sentido?

Se notar algum destes sinais, ou uma súbita falta de visão ou dor de cabeça intensa, não espere. Não é altura para “ver se passa”, nem para beber um chá ou ir dormir um pouco. O AVC é uma emergência e o tempo é cérebro. Existe uma janela de esperança – quatro horas e meia – onde o tratamento pode minimizar os danos. Ligue imediatamente para o 112.

Prevenir passa por nutrir o corpo com bons alimentos e movimento, sim. Mas saber agir passa por não ignorar o que vemos. Às vezes, salvar uma vida depende apenas da nossa atenção ao detalhe.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

Pela análise do gráfico das responsabilidades da revista Forbes que aqui apresentamos, a resposta à pergunta que colocamos lá em cima parece simples: ganha o próprio Donald Trump. Se durante o primeiro mandato, entre 2017 e 2021, a sua fortuna pessoal se manteve em valores estáveis e até desceu ligeiramente, neste ano do regresso à Casa Branca o valor líquido do património pessoal do Presidente dos Estados Unidos da América atingiu um valor estimado que ronda os 6,2 mil milhões de euros, o mais alto de sempre.

O Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) deu nome, esta segunda-feira, à próxima depressão a afetar Portugal: Chama-se Leonardo, tem um sistema frontal associado e a sua influência deverá começar a sentir-se a partir de quarta-feira. O IPMA emitiu já um aviso vermelho para esse dia para ilhas do grupo Ocidental dos Açores e laranja para o Central e Oriental, devido à agitação marítima.

A depressão Leonardo deverá provocar “um aumento significativo da intensidade do vento, com rajadas que poderão atingir os 110 quilómetros/hora nos grupos Ocidental (Flores e Corvo) e Central (Terceira, São Jorge, Pico, Faial e Graciosa) e os 100 quilómetros/hora no grupo Oriental (São Miguel e Santa Maria).”

No Continente, a sua influência deverá começar a sentir-e ainda antes de quarta-feira, devido a uma extensa frente fria associada, cuja precipitação será intensificada por um rio atmosférico proveniente do Mar das Caraíbas.

Segundo a Meteored, “a chuva será generalizada, abundante e persistente”. O pico de intensidade deverá ocorrer nas últimas horas de terça e sobretudo na madrugada de quarta-feira. Nas horas seguintes, a chuva passará a um regime pós-frontal, com a instabilidade a aliviar temporariamente, sobretudo na Região Centro. No Norte e no Sul a precipitação persistirá, com poucos intervalos de abertas. Ao final da tarde de quarta-feira espera-se um novo agravamento da precipitação, especialmente nas regiões a sul do Tejo e em particular no Algarve.

O risco de cheias em todo o País é muito elevado.

Agravamento na quinta-feira

Os mapas da Meteored apontam para um agravamento do vento na quinta-feira, com rajadas entre 70 e 100 km/h nas zonas mais expostas, principalmente nas terras altas do Norte.

A praia do Furadouro tornou-se, ao longo dos últimos anos, um retrato inquietante da forma como Portugal tem lidado com a erosão costeira, com urgência nos discursos, mas com insuficiência nas soluções. O avanço do mar, a perda acelerada de areia e a ameaça direta a habitações, comércio e infraestruturas deixaram de ser um problema distante ou sazonal. São, hoje, uma realidade permanente que coloca em causa a segurança de uma comunidade inteira e a credibilidade das políticas públicas para a gestão do litoral.

As intervenções realizadas no Furadouro têm sido, na sua maioria, apresentadas como “obras de contenção” ou “medidas de mitigação”. Na prática, funcionam como cuidados paliativos, respostas temporárias que não alteram a dinâmica de fundo nem travam o processo de erosão. Sacos de areia, reforços provisórios e pequenas estruturas defensivas sucumbem aos primeiros temporais mais intensos, obrigando a novos investimentos, novas obras e, invariavelmente, ao mesmo resultado, a linha de costa continua a recuar, metro a metro, inverno após inverno.

Este ciclo repetitivo levanta uma questão incontornável sobre a forma como são tomadas as decisões e aplicados os recursos públicos. A Agência Portuguesa do Ambiente, enquanto entidade responsável por aprovar e executar investimentos de vários milhões de euros, não pode ficar imune à crítica nem à exigência de responsabilização. Não se trata de procurar culpados fáceis, mas de exigir uma avaliação séria da eficácia das medidas adotadas e de reconhecer que insistir em soluções de impacto nulo é, no mínimo, um desperdício de dinheiro público e de tempo, dois recursos que o Furadouro já não tem em abundância.

O problema não pode continuar a ser tratado com leviandade ou como um dossier técnico que se arrasta de inverno em inverno. O Furadouro é uma comunidade viva, com pessoas, histórias, economia local e um património que se esvai a cada vaga mais forte. As imagens de galgamentos, de pedras arremessadas, ruas inundadas e zonas interditas por risco da aproximação do mar, não são apenas sinais de degradação ambiental, são alertas claros de um problema de segurança pública que exige respostas à altura da gravidade do cenário.

Neste momento, importa chamar a atenção do risco eminente de um desastre ambiental devido à proximidade do mar a um aterro sanitário em Maceda e do facto de incompreensível plano de gestão florestal continuar a ser executado, ou seja, continua-se a abater a floresta. Há talhões inteiros depauperados junto à linha de costa, o que além de chocante, deixa à vista de todos, a eliminação irresponsável de uma barreira natural de proteção da costa com o patrocínio do ministério do ambiente e a conivência dos autarcas no poder.

Cabe ao Governo assumir que a resposta tem de ser estrutural e imediata. A proteção da costa exige uma visão integrada, sustentada em conhecimento científico e numa estratégia de longo prazo que vá além das soluções de emergência. Seja através de sistemas de defesa mais robustos, de uma gestão mais eficaz dos sedimentos ou, dos desejados quebra-mares destacados último, o que não pode continuar é a política do remendo, que apenas adia o inevitável e agrava os custos futuros.

Estamos perante um risco real de que uma tragédia venha a acontecer. Ignorá-lo ou adiá-lo por razões administrativas, orçamentais ou políticas é inadmissível e, para muitos dos que ali vivem, profundamente injusto. O caso do Furadouro não é apenas um problema local, é um teste à seriedade com que o país encara a proteção do seu litoral e a responsabilidade de quem decide em nome do interesse público.

A erosão não espera por relatórios, estudos que ficam nas gavetas ou calendários eleitorais. Avança todos os dias, silenciosamente, mas de forma implacável. A resposta, se quiser ser credível, também não pode esperar. É tempo de trocar as soluções paliativas por decisões corajosas e eficazes, que defendam não apenas uma praia, mas o direito das comunidades costeiras a viverem em segurança e com dignidade.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

A passagem da tempestade Kristin por Portugal deixou marcas profundas em pessoas, territórios e infraestruturas. Como acontece em cenários de emergência extrema, o impacto não se mede apenas pelos danos materiais, mas sobretudo pela rapidez — ou falta dela — com que chega a ajuda a quem mais precisa.

Foi neste contexto que nasceu a Tempestade SOS, uma iniciativa independente, criada e operacionalizada por cidadãos com experiência em tecnologia, comunicação, logística e gestão de equipas. Em menos de 24 horas, a Tempestade SOS conseguiu aquilo que muitas vezes demora dias: organizar pessoas, estruturar pedidos reais, mobilizar ajuda concreta e fazê-la chegar de forma ordeira e eficaz às vítimas.

Sem ruído, sem protagonismo e sem depender de processos morosos, a plataforma demonstrou que, quando existe vontade, competência e foco, é possível responder rapidamente a uma crise humanitária. Através de um sistema simples e funcional, foi possível ligar quem precisava de apoio a quem estava disponível para ajudar — desde bens essenciais, alojamento temporário e apoio técnico, até mão-de-obra especializada para intervenções urgentes no terreno.

Este resultado não foi fruto do acaso. Foi o reflexo de decisão rápida, confiança nas pessoas certas e eliminação de barreiras desnecessárias. Enquanto muitas famílias aguardavam respostas formais, a Tempestade SOS já estava a agir.

Importa dizê-lo com clareza: o papel do Governo e das entidades oficiais é essencial e insubstituível em qualquer cenário de crise. No entanto, a experiência vivida durante a tempestade Kristin volta a expor uma fragilidade conhecida — o tempo que se perde entre a identificação do problema, a decisão e a ação. Em situações de emergência, esse tempo tem consequências reais na vida das pessoas.

A Tempestade SOS não surge para substituir o Estado, mas para mostrar que é possível fazer diferente. Que a agilidade, a descentralização e a confiança na sociedade civil organizada podem — e devem — ser integradas nos modelos oficiais de resposta a crises.

Por isso, a equipa da Tempestade SOS deixa uma mensagem direta e construtiva ao Governo português: estamos disponíveis para colaborar. Disponíveis para partilhar métodos, ferramentas, aprendizagens e para integrar equipas de resposta em futuras situações de emergência. A experiência demonstrou que conseguimos mobilizar, organizar e agir rapidamente — uma capacidade que pode reforçar significativamente a eficácia das respostas institucionais.

Quando se quer, e quando se trabalha com as pessoas certas, é possível mover o mundo — mesmo no meio de uma tempestade. A Tempestade SOS é prova disso. Agora, o desafio é transformar este exemplo numa oportunidade de evolução coletiva, onde decisões rápidas salvam tempo, recursos e, sobretudo, pessoas.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

“Olá professora Carmo. Sou o Fábio. Seu ex-aluno na disciplina de Português no 11° ano (ano letivo 2017/2018). Sim, o aluno, que em conjunto com outro, fez imensa estupidez e parvoíces, uma incluindo a sua pessoa. Venho, depois destes anos, pedir-lhe desculpas. E garanto-lhe, do fundo de mim, que a nossa intenção nunca foi magoá-la diretamente. Foi um meio para… Não sei, sinceramente, diversão? Ser aceite?  

O pior é que a professora não merecia, o seu lado empático (desde logo percebi isso), atento. Eu tinha recuperado de uma crise de ansiedade que tinha durado algum tempo, por conseguinte estava, internamente, super confiante, com vontade de fazer amigos, desfrutar da vida… A par disso, uma escola nova, necessidade de acolhimento, fazer novas amizades. Apaixonei-me verdadeiramente pela primeira vez e sofri também com todo esse processo. Amar dói, mas vale a pena o risco. Podia ter feito de outra forma? Claro que podia! E, hoje, não faria metade do que fiz. Não entendo, apesar de não justificar nada do que fiz nos anos em que estive nessa escola, a si foi especialmente mais grave: precisamente pela pessoa que estava a ser “atacada”, exatamente pela descrição que fiz de si no início da mensagem. Uma pessoa empática, boa, preocupada, para além do ato de ensinar. Se recusasse no tempo, teria aproveitado para desabafar consigo, conversar, porque sei que me iria ajudar.  

Entretanto, cresci, amadureci (queria mais, mas pronto), consegui transferência para outra escola e, a título excecional, consegui regressar ao 10° ano no mesmo curso (ciências e tecnologias), no regime normal (diurno). Completei o ensino secundário e fiquei com uma ótima relação com a maioria dos professores, em especial duas professoras, com quem ainda mantenho contacto. Percebi a importância do professor, o quanto ele nos pode ajudar a crescer, a enfrentar dificuldades. Muitas vezes ficava a falar com a minha professora de Filosofia no fim das aulas. No fundo, aprendi a tratar com respeito quem se dedica a educar, a ensinar. Sabe, ouvi uma frase da minha ex-professora de Matemática A que me marcou – estávamos na biblioteca da escola, onde ela dedicava um tempo do seu horário para esclarecer dúvidas, e ajudar. E perguntamos-lhe: “professora, porque se dedica tanto?” (Respondia a e-mails ao fim de semana e fora de horas a esclarecer dúvidas). A resposta foi: “isto… isto é a minha vida”. Isto foi tão bonito de ouvir, e diz muito sobre a docência – nem todos são assim, é verdade, mas acredito que a professora Carmo se encaixa neste “pacote” bonito.  

Como já referi, concluí o secundário e entrei na faculdade. No entanto, ainda não no curso que pretendo, lá chegarei. A minha saúde mental passou por alguns abalos, entrei no clube de quem toma antidepressivos, não por ser fraco, pelo contrário, por ser forte o suficiente para enfrentar o problema. Tenho um problema com ansiedade? Ok, vamos procurar ajuda. Estou no processo, já tentei fazer uma descontinuação da medicação, mas o meu psiquiatra optou por deixar mais um tempo. Eu, sinceramente, não gosto muito dos efeitos secundários, parece que me deixam anestesiado, odeio isso! Tudo indica que estará para breve a tentativa de retirada, com calma e cautela para minimizar possíveis efeitos de abstinência, pois já os tomos há alguns meses. 

Em suma, o Fábio de hoje pede perdão pelo Fábio do passado, deseja o melhor à professora Carmo. Continue assim, cultive boas relações com os alunos, como o fazia. Eu, apesar de tudo, não fiquei indiferente ao que era capaz de fazer para ajudar um aluno seu. Termino parafraseando a professora: “a vida vale a pena ser vivida até ao fim, sem batota.” 

Um beijinho.  

Do seu ex-aluno.   

P.S. Talvez um dia passe pela escola e  a encontre! Seria um prazer trocar uma conversa consigo. “

Passaram sete anos. Abro as mensagens do Facebook e sou surpreendida por este desabafo.  

Muito se poderia dizer de um adolescente que comete todo o tipo de atos censuráveis numa escola, agride emocionalmente os professores e, anos mais tarde, sem que ninguém lho exija, reconhece o erro e vem pedir desculpa: 

Que coisa bonita. 

Este amadureceu e refletiu. Ainda bem… Muitos não chegam nunca a fazê-lo. 

Maravilhoso. 

Mais vale tarde do que nunca. 

Reconheceu o valor da sua professora. 

Que linda mensagem de profundo reconhecimento pelo que fez, por aquilo em que se transformou e pela professora que teve. 

Assim, sim. Muitos não conseguem crescer nem admitir os seus comportamentos, muito menos justificar e pedir desculpa, reconhecendo os bons profissionais que tiveram pela frente. Uma atitude bonita, esta! 

Quando se toca a alma de alguém, a magia acontece e isso faz a diferença. 

Tão bom. Cresceu, refletiu e em consciência, vem pedir desculpa a alguém que o marcou. 

É bom deixar marcas nos alunos. 

Reconheço neste miúdo o crescimento mas também a decência e a coragem, não importando o tempo que passou. 

Profissão de professor: trabalho tantas vezes difícil e desafiante. 

Há professores que mudam vidas: para o bem e para o mal. 

Marcas indeléveis! Eis o reconhecimento que nunca deixou de existir e o mais importante de todos. 

Parabéns, Fábio. Você é uma raridade. Não sei o que fez mas, seja o que for que tiver feito, tenho a certeza que a professora não merecia. 

Há professores que são raros e, por isso mesmo, acabam por inspirar alunos raros a pedir desculpa passados alguns anos. 

Intenso e maravilhoso pedido de desculpas! 

É difícil lidar com o arrependimento. Não apaga mas apazigua. Este aluno está claramente num processo de reabilitação e de encontro com o seu “eu”. 

Tão bom, mas tão bom, ver um jovem crescer e progredir desta maneira com tanto carinho e humildade e sobretudo reconhecendo o valor da sua professora. 

Marcar é o que torna a nossa profissão gratificante. 

Emocionei-me muito quando li o depoimento deste seu ex-aluno. 

Resposta do aluno a todos estes comentários: O tal Fábio sou eu. Nunca pensei que a minha mensagem tocasse a professora Carmo ao ponto de a partilhar. Depois dos erros que cometi, foi muito bonito o seu gesto. E se tornei o seu dia bonito, fico feliz. Dei uma vista de olhos nos comentários e, é de facto orgulho o que sinto por ter tido a coragem de pedir desculpas, Mas, sobretudo, por poder contribuir para que os professores possam sentir o carinho dos seus alunos ou ex-alunos. Na altura, não percebi mas agora recordo-me que, na primeira aula desta professora (era aluno recém chegado a uma escola nova onde não conhecia ninguém, numa turma do 11º ano com sequência do ano anterior) não se falou de Camões, Garrett ou muito menos de gramática. Fizemos um exercício e depois a professora pediu-nos para fechar os olhos e partilharmos o que que tínhamos sentido nesse momento numa única palavra. Lembro-me da minha resposta: Ansiedade. A professora, curiosa, quis saber a razão. Vivemos tanto, experienciamos tanta coisa que a nossa psique não regista tudo. Mas este momento ficou lá. Porque foi sincero. Eu, um novo aluno, senti que importava e que não era mais um número naquela escola nem naquela sala. No entanto, depois não respondi da forma devida. Feito está e já fiz o que me cabia fazer. Hoje percebo que a escola vai muita para além das aprendizagens. Muitas vezes é um lugar de aprendizagem emocional, de formação de laços, de criação de empatia, de inclusão. 

E o leitor, a que professor gostaria de pedir desculpas ou, simplesmente, agradecer? 

Observação: Este texto foi partilhado com autorização do meu ex-aluno. 

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

Quando ouvimos falar do Ministério Público, é comum associá-lo a crimes, julgamentos e investigações criminais. No entanto, o seu papel na sociedade vai muito além disso. O Ministério Público é uma Magistratura essencial para garantir que a lei protege todas as pessoas — sobretudo aquelas que estão em situação de maior fragilidade.

Num país onde persistem desigualdades sociais, onde a população envelhece e onde surgem novas formas de precariedade e exclusão, nem todos partem do mesmo ponto quando precisam de justiça.

É precisamente aqui que o Ministério Público assume um papel fundamental: assegurar que os direitos não dependem da condição económica, da idade ou da força de quem os reivindica.

Na área penal, o Ministério Público não existe apenas para investigar quem comete crimes. Tem também a responsabilidade de proteger vítimas especialmente vulneráveis, como crianças, idosos, pessoas com deficiência ou vítimas de violência doméstica. Ao acompanhar de forma efectiva os processos e promover medidas de coacção adequadas, o Ministério Público ajuda a garantir que a justiça não ignora o sofrimento de quem foi vítima de um crime.

No âmbito da família e das crianças, o papel do Ministério Público é também decisivo. Em processos que envolvem menores — como a regulação das responsabilidades parentais, situações de perigo ou processos de adopção, o Ministério Público não toma partido por nenhum dos pais. A sua função é defender o superior interesse da criança, garantindo que as decisões judiciais protegem o seu bem-estar, segurança e futuro.

Também na jurisdição laboral o Ministério Público tem uma função primordial. Em contextos de precariedade ou desigualdade entre empregadores e trabalhadores, nem sempre é fácil reclamar direitos. O Ministério Público pode intervir para garantir o respeito pela lei laboral e proteger interesses que não podem ser negociados ou renunciados, contribuindo para relações de trabalho mais justas.

Menos conhecida é a intervenção do Ministério Público face à Administração Pública. Quando decisões do Estado afectam direitos fundamentais — como o acesso à saúde, à habitação, à educação ou à segurança social — o Ministério Público pode actuar para fiscalizar a legalidade dessas decisões.

O Ministério Público tem ainda um papel relevante na protecção de interesses colectivos, como o ambiente, a saúde pública ou os direitos dos consumidores. Estes são interesses de todos, mas cujos efeitos negativos recaem muitas vezes de forma mais pesada sobre as populações mais vulneráveis.

Importa ainda destacar o papel do Ministério Público na representação de incapazes e ausentes, assegurando que pessoas impossibilitadas de exercer plenamente os seus direitos não ficam privadas de protecção jurídica.

É o caso, por exemplo, de pessoas com doença mental grave ou com deficiência intelectual que não têm familiares ou representantes legais capazes de actuar em seu nome. Nestas situações, o Ministério Público intervém para assegurar que os seus direitos pessoais e patrimoniais são respeitados, evitando abusos, negligência ou decisões contrárias ao seu interesse.

Apesar da importância das suas funções, o trabalho do Ministério Público continua pouco visível. A falta de recursos humanos, a sobrecarga de processos e a crescente complexidade dos problemas sociais dificultam uma resposta rápida e próxima das pessoas.

Na verdade, muitos magistrados do Ministério Público acompanham centenas, por vezes milhares, de processos em simultâneo, o que lamentavelmente limita o tempo disponível para analisar cada situação com a atenção que merece. Esta realidade afecta especialmente os casos que envolvem pessoas vulneráveis, que exigem tempo, escuta, acompanhamento e articulação com outras entidades sociais.

Acresce que os problemas sociais actuais — como a violência doméstica, a exclusão social, o envelhecimento da população ou a precariedade laboral — são cada vez mais complexos e exigem respostas especializadas e articuladas. Sem recursos adequados, torna-se mais difícil garantir uma justiça verdadeiramente eficaz, humana e acessível.

O Ministério Público desempenha um papel absolutamente central na defesa da legalidade e do interesse público, tornando-se urgente o seu reforço de quadros e meios para que possa responder, de forma célere e eficaz, aos desafios concretos que diariamente lhe são colocados.

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Há dois cenários distintos – e convém não os confundir: a recusa pontual (um dia mau, um desconforto, uma fase) e a recusa persistente (um padrão que se repete, quase todos os dias, com intensidade). Em ambos, a regra é a mesma: segurança não se negocia. Mas o caminho até lá pode (e deve) ser mais humano.

1) Recusa pontual: começar pelo básico (antes de “inventar técnicas”)

Na maioria das famílias, a recusa aparece em dias banais – e vale lembrar o óbvio: um bebé não tem noção de que “são só 12 minutos” nem de que “vamos a um sítio incrível”. O bebé só sabe isto: estou desconfortável agora. A noção de tempo e espaço é diferente num bebé; ter isto presente ajuda-nos a ajustar expectativas.

Antes de procurar grandes explicações, vale a pena fazer uma lista rápida:

  • Alimentação: terá fome? Ou estará demasiado cheio?
  • Descanso: terá sono? Ou acabou de acordar e quer mexer-se?
  • Temperatura: terá frio? Ou estará demasiado agasalhado?
  • Fralda: estará suja ou a incomodar?

Se isto estiver resolvido e a recusa continuar, passa-se ao próximo nível: o que é observável na própria cadeira.

2) Quando o problema pode ser a cadeira (e não “birra”)

Às vezes, a recusa é o corpo a dizer “assim não dá”. E isso pode ser tão simples como:

  • pressão em zonas sensíveis (etiquetas, costuras, roupa rígida, botas duras);
  • cabelo preso a puxar quando encosta;
  • arnês a roçar no pescoço;
  • inclinação desajustada para a fase em que a criança está.

Depois vem o fundamental: ajuste e ergonomia. Uma recusa que surge “de um dia para o outro” pode coincidir com uma destas situações:

  • chegou o momento de subir cabeçal, ajustar arnês ou retirar redutores;
  • a cadeira deixou de servir bem (mesmo sem o adulto se ter apercebido);
  • a criança cresceu e o encaixe “que era perfeito” passou a ser apertado, torto ou desconfortável.

E há um ponto mais comum do que parece: muitos primeiros sistemas de retenção são comprados antes do nascimento – o que limita a capacidade de aferir, na prática, a adequação àquele bebé específico.

Se a recusa vem acompanhada de dor, irritação marcada, choro “diferente” ou alterações de comportamento, faz sentido excluir desconforto físico com pediatra (e, quando indicado, com profissionais que avaliem postura e mobilidade). Um simples torcicolo, por exemplo, pode transformar o momento da cadeira num tormento: ali o corpo fica contido e o posicionamento é inevitavelmente mais restrito.

3) O carro também conta: condução, medo e o “corpo em viagem”

Nem sempre o problema é a cadeira. Às vezes, é a experiência.

A criança sente cada travagem e cada aceleração. Uma condução prudente, defensiva e suave beneficia todos – e pode ser decisiva para crianças mais sensíveis. Depois de um episódio de stresse na estrada (uma travagem brusca, uma discussão, um susto), algumas crianças desenvolvem mesmo medo genuíno de entrar no automóvel.

Há ainda um fator pouco falado: algumas crianças ficam desconfortáveis com o movimento do carro (tontura, náusea, desequilíbrio). Em certos casos, um posicionamento mais verticalizado, quando a cadeira o permite, pode ajudar – respeitando sempre os limites e indicações do fabricante.

Nota importante: este é um dos motivos clássicos para alguns pais anteciparem a viagem a favor da marcha. Mas a segurança não é negociável. Se uma criança reage mal ao movimento, o foco deve ser melhorar conforto e estratégia – sem abdicar da viagem contra o sentido da marcha, enquanto for possível e adequado.

4) Segurança não é negociável – mas o caminho pode ser mais sereno

Uma frase que ajuda muito os adultos (e, paradoxalmente, acalma as crianças): “A cadeira é regra. O modo como chegamos lá é que pode mudar.”

Ou seja: não vale tudo para “parar o choro”. O objetivo não é ganhar uma batalha; é construir previsibilidade e confiança.

E antes que alguém pense “que exagero”… não é. A recusa da cadeira é comum, sobretudo em idades em que a criança está a treinar autonomia (“eu decido!”), a testar limites (“até onde posso ir?”) e a lidar com frustrações que ainda não sabe regular.

A boa notícia: na maioria dos casos há estratégias simples – e repetíveis – que baixam o conflito e aumentam a cooperação. A menos boa: não há magia instantânea. (Sim, eu também preferia que houvesse.)

O que ajuda é repetir o que funciona – com calma e consistência.

5) Estratégias que funcionam (na vida real)

A) “Ligação antes da contenção” (30 segundos que poupam 10 minutos)
Antes de tentar sentar e apertar, faça um micro-momento de ligação:

  • ajoelhar ao nível da criança;
  • olhar e nomear: “Percebo que não te apetece. É difícil.”
  • mensagem curta: “Temos que ir. Eu ajudo.”

Isto não é ceder. É regular primeiro, para cooperar depois.

B) Dar escolhas dentro do inevitável
A criança quer sentir controlo. Dê-lhe controlo onde é seguro dar:

  • “Queres subir sozinho ou queres que eu pegue?”
  • “Hoje vais com o livro ou com o boneco?”
  • “Preferes pôr primeiro um braço ou o outro?”
  • “Queres que eu conte até 10 ou preferes música?”

O truque é simples: duas opções, ambas aceitáveis.

C) Rotina fixa e previsível
A recusa piora quando cada dia é um guião novo. Crie um ritual curto:

  1. entrar
  2. sentar
  3. “abraço do banco” (um aperto simpático do arnês)
  4. música do arranque / história curta / “check” do espelho

E repita. Repetição é segurança.

D) Treino sem viagem (a estratégia subestimada)
Se o momento está muito contaminado, faça 2 ou 3 sessões sem sair do lugar:

  • brincar a “sentar e levantar”;
  • apertar e desapertar (com o adulto a controlar);
  • oferecer um “prémio de experiência” (uma canção, um jogo de dedos, uma mini-história).

A mensagem passa a ser: “A cadeira não prevê sofrimento. Prevê previsibilidade.”

E) “Primeiro… depois…” (melhor do que “se…”)
Em vez de “Se te portares bem, damos…”, use:

  • “Primeiro sentamos e apertamos. Depois escolhes a música.”
  • “Primeiro o arnês. Depois o snack.”

Isto reduz negociação infinita e dá sequência clara.

F) Um “kit do carro” (coisas que só existem ali)
Ter objetos exclusivos do carro aumenta atratividade:

  • um livro pequeno;
  • cartões de procurar coisas na rua;
  • um áudio curto.

Atenção: nada que comprometa segurança nem que vire projétil. Menos é mais.

G) Ajustar o contexto físico (muita recusa é logística)

  • arejar o carro antes;
  • evitar roupa volumosa na cadeira (e compensar com manta por cima, se necessário);
  • garantir que o arnês não fica torcido;
  • rever inclinação/apoios conforme a idade;
  • para crianças maiores: subir sozinhas com um degrau pode aumentar a sensação de autonomia.

6) O que costuma piorar (mesmo quando é bem-intencionado)

  • Apressar com pressão: “Anda, despacha-te!” (a criança ouve “perigo”).
  • Negociar sem fim: cada “só mais uma coisa” ensina que chorar rende.
  • Ameaças (“vou embora sem ti”) ou humilhação (“portas-te como bebé”).
  • Afrouxar regras de segurança para reduzir choro (arnês frouxo, cinto mal posicionado, “vai só ali”). O risco não faz pausas.

7) Um mini-plano de 7 dias (para famílias que precisam de estrutura)

  • Dias 1–2: rever conforto e ajustes + ritual fixo
  • Dia 3: treino sem viagem (2 minutos) + reforço “primeiro/depois”
  • Dias 4–5: escolhas dentro do inevitável + objecto exclusivo do carro
  • Dia 6: elogio específico (não “boa menina”, mas “sentaste-te logo e ajudaste no braço”)
  • Dia 7: repetir e simplificar (tirar estímulos a mais)

A consistência é o “ingrediente secreto” que ninguém quer ouvir… porque dá trabalho. Mas dá resultado.

8) Quando pedir ajuda extra

Se a recusa é intensa, diária, com pânico, vómitos frequentes, dor, ou se há sinais sensoriais marcados, pode fazer sentido:

  • avaliação com pediatra (excluir dor/enjoo/refluxo);
  • orientação de terapia ocupacional (perfil sensorial);
  • e revisão técnica da instalação e ajuste por alguém especializado – porque muitas “recusas de comportamento” afinal são “recusas do corpo”.

O objetivo não é silêncio – é cooperação segura

Nem sempre vamos ter uma criança feliz no banco de trás. Às vezes vamos ter uma criança zangada… mas segura. E isso também é parentalidade: segurar o limite com calma, sem transformar o carro numa arena.

A cadeira não é um castigo. É um abraço firme. E sim — às vezes é um abraço que a criança não pediu. Mas é precisamente por isso que existem adultos.

Joana Freitas é formadora e consultora em segurança rodoviária infantil e fundadora do D’Barriga, projeto com mais de 18 anos a apoiar famílias.