A Netflix estreou em 2022 uma modalidade que tem uma mensalidade mais baixa e, em troca, os utilizadores aceitam ver anúncios publicitários durante as transmissões. Nesta fase, estes planos estão disponíveis apenas em mercados selecionados, mas a base de utilizadores está em franco crescimento: 40 milhões em maio de 2024, 70 milhões em novembro e agora nos 94 milhões de utilizadores.

O sucesso destas modalidades explica que a Netflix esteja interessada em explorar mais hipóteses. Até 2026, o mercado deve assistir à introdução de anúncios durante as pausas (que já foram testados no ano passado) ou mesmo anúncios interativos que aparecem durante a transmissão de conteúdos, explica o The Verge.

A Netflix tem uma plataforma interna onde coloca estes novos formatos e revela que pretende trazê-la para os 12 mercados onde já é possível fazer subscrições de modalidades com anúncios. Amy Reinhard, a presidente da Netflix para este domínio, conta que “as fundações para o negócio dos anúncios está aí. Daqui para a frente, o ritmo do progresso será ainda mais rápido”.

Ontem à tarde, não terei sido a única a ficar boquiaberta com o anúncio da candidatura do ex-chefe do Estado-Maior da Armada, almirante Henrique Gouveia e Melo, 64 anos, à presidência da República. Não pela notícia em si – já estou como Paulo Raimundo: notícia seria se ele tivesse anunciado que não se candidatava

Mas o timing, já todos o referiram entretanto, foi do mais desajustado que existe. Mau começo, diz-se da esquerda à direita, num consenso pouco usual.

Tanto tempo a arrastar este pseudo-segredo, cultivando uma espécie de tabu, negando as evidências a todo o momento e até prometendo em abril – no mês passado!não querer desviar as atenções das legislativas para as presidenciais, apesar de ter dito, nessa altura, que já tinha tomado uma decisão.

Mesmo sendo ainda um político em formação, não se coíbe de dizer uma coisa em público e fazer uma outra… em público.

Mantém-se inexplicável a razão para ter afirmado à Renascença: “Não há dúvidas. Vou ser mesmo candidato”. Para depois tentar justificar que a sua decisão se precipitou por causa do agravamento da guerra na Ucrânia, da tensão na Europa e com a eleição de Trump, pondo ainda a culpa em “alguma instabilidade interna que se tem prolongado”.

As desculpas continuam com a aproximação da data do anúncio oficial, marcada para dia 29 em Lisboa e 31 no Porto, já muita gente sabia dela e o segredo podia deixar de o ser a qualquer momento. Na mesma entrevista à Renascença, o almirante, como é tratado na gíria política, fala ainda do envio de convites poder ficar comprometido se só seguissem depois de domingo, dia 18. Então porque não afastar mais as cerimónias da data das eleições, para que não houvesse problemas nos correios?

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A bitcoin faz este ano 16 anos. Nasceu envolta em promessas… A Europa, em 2023, parecia ainda continuar a acreditar no potencial das moedas virtuais. No regulamento relativo aos mercados de criptoativos, aprovado nesse ano, consta: “As ofertas de criptoativos poderão abrir caminho a uma forma inovadora e inclusiva de financiamento”, ou seja, uma nova fonte de financiamento para as empresas em alternativa às bolsas e aos bancos – os investidores financiariam empresas em troca de criptomoeda.

Também se avançava a possibilidade de as criptomoedas serem um concorrente da Visa nos pagamentos ou substituírem os bancos nas transferências bancárias, por terem preços mais competitivos, ao eliminarem intermediários. “Quando utilizados como meio de pagamento (…) podem proporcionar (…) pagamentos mais baratos, mais céleres e mais eficientes.”

A par das promessas, existiam riscos. O anonimato facilitaria o branqueamento de capitais, e o elevado custo energético das operações de transferências e da mineração, assim como a montagem da infraestrutura, teriam um custo ambiental acrescido.

Após 15 anos de vida, multiplicaram-se as moedas eletrónicas (existem hoje mais de 20 000 disponíveis), confirmaram-se os riscos, mas não se concretizaram as promessas. E, se na tecnologia o conhecimento dobra a cada 24 meses (Moore’s law), será realista continuar a acreditar?

Os efeitos negativos, já os conhecemos bem.

As criptomoedas são utilizadas por criminosos para branqueamento de capitais, existindo verdadeiras “empresas” que oferecem os seus serviços online. As moedas virtuais são utilizadas para “branquear” a origem de fundos de cibercrimes (como pagamento de resgates em ataques informáticos), mas também o tráfico de drogas e pessoas.  Estima-se que, em 2023, mais de 20 mil milhões de euros foram branqueados utilizando criptomoedas (Chainanalysis 2024 Cryptocrime Report).

As criptomoedas são também utilizadas em esquemas de burla. Só em 2024, as vítimas terão perdido mais de dez mil milhões de euros. No ano passado, um banco (Heartland Tri-State Bank of Elkhart) nos EUA faliu quando o seu administrador canalizou os recursos do banco, os seus próprios e os da igreja (da qual era tesoureiro) para criptomoedas, ludibriado por um esquema e acreditando estar a fazer um investimento altamente rentável.

O custo ambiental é igualmente elevado. O consumo anual de energia em transações de bitcoins é igual ao consumo de energia da Polónia, um país de 36 milhões de habitantes e um dos cinco mais industrializados da União Europeia. A tal, acresce o uso da água (para manter os sistemas refrigerados). De acordo com os cálculos divulgados pela Universidade de Amesterdão em 2023, uma única transação de bitcoin utiliza seis milhões de vezes mais água do que uma transação de pagamento com cartão de crédito.

A China, sempre pragmática, baniu em 2017 os criptoativos, declarando que o custo de supervisão destas operações era demasiado elevado, face aos sucessivos escândalos de burlas e branqueamento de capitais. Não menos relevante, na decisão do Partido, terá sido o facto de as criptomoedas estarem a ser utilizadas para evitar os controlos de capitais. Em 2017, nenhum cidadão chinês podia deter ativos no estrangeiro, incluindo depósitos, em montante superior a 50 000 dólares. Nos dez anos anteriores, este ativo foi um meio relativamente simples de transferir fundos para o estrangeiro, pondo em risco, na perspetiva das autoridades chinesas, a estabilidade financeira do país.

A União Europeia divulgou, em janeiro passado, o primeiro relatório do impacto do Regulamento dos Criptoativos. No mesmo, reconhece os efeitos negativos das moedas virtuais e que os eventuais benefícios ainda estão por concretizar. As criptomoedas permanecem um ativo que nada acrescenta à economia, a não ser custos, e cujo valor é meramente especulativo, baseado em expectativas sem qualquer fundamento na realidade.

Mantendo-se a possibilidade de investir em criptoativos, cabe-nos pensar se é este o melhor destino das nossas poupanças e, sobretudo, manter uma postura vigilante – quando o investimento parece demasiado bom… provavelmente não é.

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Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

Nos primórdios da democracia, há 50 anos, um célebre estribilho publicitário, concebido para promover a participação eleitoral dos cidadãos, lembrava que “o voto é a arma do povo”. E logo os chamados “anarcas” [anarquistas], tipos com sentido de humor que assinavam as suas pichagens nas paredes com um A maiúsculo dentro de um círculo, advertiam: “Então não votes, senão, ficas desarmado”. Mais uma vez, agora decorrido apenas pouco mais de um ano, os portugueses são chamados a mais uns “disparos” de esferográfica, nas secções de voto. Na hora de fazer um balanço da campanha – e deve ressalvar-se que este texto está a ser escrito alguns dias antes do seu encerramento –, é difícil uma conclusão que não ado déjà vu. Há um ano, tínhamos o aliciante de várias estreias, entre os líderes partidários. Eram os casos de Paulo Raimundo, pela CDU, Rui Rocha, pela IL, Mariana Mortágua, pelo BE, e, sobretudo, os candidatos a primeiro-ministro, Luís Montenegro (AD) e Pedro Nuno Santos (PS). Passado o efeito de novidade, o País está mais ou menos na mesma e os problemas são os de sempre – o SNS, a Habitação, os pensionistas, os impostos. Os protagonistas são os mesmos, os temas são os mesmos, o País é o mesmo e a mudança de ciclo entre a esquerda do PS e a direita da AD não se notou (afinal, uma maioria relativa tão frágil não consegue mudar nada…), embora, aqui e ali, houvesse, para o bem e para o mal, nuances de competência nalgumas áreas e diferenças de liderança no estilo. A suspeita confirmou-se: não há qualquer motivo que justifique estas eleições antecipadas.

Mas, pelo meio, tivemos cinco pequenas novidades. A primeira foi um almoço de ex-presidentes do PSD, no 51.º aniversário do partido. Em declarações aos jornalistas, um deles, Pedro Passos Coelho, afirmou que o País precisa de um governo com “espírito reformista”. Talvez por isso, ou para puxar pelo eleitorado que, supostamente, deverá valorizar a “estabilidade”, AD e IL passaram à segunda novidade: a narrativa eleitoral que induz a ideia de uma maioria de ambos, coligados, e que visa motivar indecisos fartos de serem chamados às urnas. Essa conduziu à terceira novidade: recordado de como funcionou a dramatização ensaiada por António Costa, na última semana de campanha de 2022, em que o PS, sem ser desmentido, denunciou a iminente associação do PSD e Rui Rio à extrema-direita do Chega, e de como essa dramatização terá ajudado à maioria absoluta, Pedro Nuno Santos ensaia, agora, dramatização idêntica colocando, no lugar do Chega, a Iniciativa Liberal: “Vem aí um governo de direita radical!” Não se sabe se isto cola ou se o fantasma liberal assusta tanto os eleitores de esquerda como o “mostrengo fascista”. No fundo, de uma forma ou de outra, os partidos esforçam-se para que o eleitorado coma a sopa toda, senão, vem aí o papão. Por exemplo, o papão da “instabilidade”. Ora, se os eleitores prezassem tanto a estabilidade como Pedro Nuno e Montenegro julgam, não votavam como votam: nas últimas três eleições, e mesmo descontando o fator irrepetível da maioria absoluta, os portugueses começaram a dispersar o seu voto por partidos mais pequenos, colorindo a Assembleia da República com a sua maior diversidade de sempre. A estabilidade que conta é a económica, e nem sempre ela depende da estabilidade política, como se tem visto. O que nos conduz à quarta novidade: de repente, um dado estatístico veio perturbar a modorra vigente: a retração económica do País no primeiro trimestre deste ano foi maior do que é normal em primeiros trimestres e teve uma dimensão que há muito tempo não se via. A oposição, distraída por folclores de TikTok, cavalgou pouco este, lá está… papão. É possível que, nestas horas finais de campanha, isso seja mais relevado pelos socialistas. Pelo menos, é suscetível de assustar mais do que a IL no governo…

Mas não esqueçamos a quinta e última novidade: o mundo sindical, controlado pelo PCP, escolheu o período eleitoral para dar uma vigorosa prova de vida, com a dolorosa (para os utentes) greve dos caminhos de ferro. Com ou sem grupo parlamentar, seja ele mais robusto ou mais diminuto, os comunistas estão a dizer que se encontram de regresso às barricadas ‒ e nada como uma crise económica para lhes dar tração.

Já agora, uma nota final para o “espírito reformista” de Passos Coelho: as estafadas “reformas”, que, neste ambiente, sempre vêm à baila, costumam ser um eufemismo para medidas que lixam o mexilhão. Convém, portanto, que se saiba quais são.

Golpe de vista

Porque morreram tantos bebés?

Apressadamente, boa parte da oposição responsabilizou os fechos das urgências como a causa direta do aumento da mortalidade infantil, no último ano. É uma pulsão populista e eleitoralista, não sustentada, para já, por qualquer estudo. E é por isso que, no próprio dia em que se conheceu este número, a ministra da Saúde devia ter constituído uma equipa multidisciplinar para reconstituir, no prazo de poucas semanas, todas as circunstâncias ocorridas entre o período de gravidez e o pós-parto de cada um dos 252 recém-nascidos que faleceram. Os factos são o único antídoto contra o populismo.

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Palavras-chave:

Foi no domingo. Encontrei a mãe de uma velha amiga que me conhece desde os meus 10 anos e, entre considerações sobre as minhas opiniões televisivas, disse-me: “Olha, não votes no Montenegro, vota no PSD.”

Não tenho qualquer dúvida de que se fosse o líder do PS ou de outro partido qualquer a receber avenças de empresas privadas enquanto exerce as funções de primeiro-ministro, o discurso da senhora estaria cheio de adjetivos pouco simpáticos sobre a pessoa em causa. Mais, lançar-me-ia uma praga se eu sugerisse votar nessa pessoa ou nesse partido.

O mesmo aconteceria se o tal líder, que não o do partido em que ela sempre votou e no qual ela sabe que eu votei muitas vezes, tivesse mentido descaradamente sobre os objetivos da Spinumviva (era o vinho e o património familiar, e assim) e fingisse que não sabia que a única e exclusiva razão para que tivesse os generosos clientes que tem é a sua influência política e não as suas eventuais qualificações profissionais.

Tenho poucas dúvidas de que muitas pessoas que vão votar no PSD (poupem-me a dar alguma importância ao morto e enterrado CDS) estão conscientes dos evidentes problemas éticos de Luís Montenegro. Colocam assim a ética e a seriedade como fatores não importantes para a escolha do mais importante cargo político executivo do País.

Estivesse Portugal numa circunstância em que todas as outras opções políticas nos conduziriam a uma ditadura ou a uma catástrofe pior, e seria fácil entender a opção. Contudo, não sendo essa a realidade, há aqui um conjunto de fenómenos preocupantes.

Claro que se ouve gente a dizer que “os políticos são todos iguais” para justificar o voto em Montenegro. Assim sendo, haveria não uma admissão das falhas, mas a convicção de que os outros também as têm. A diferença seria que as de alguns ainda não tinham sido descobertas. Porém, não me parece que, apesar de muitas pessoas o dizerem, seja essa a verdadeira razão para a relativização ou até a normalização da conduta do atual primeiro-ministro.

O clima de trincheiras é evidente. Aliás, estou convencido de que se Pedro Nuno Santos ou qualquer outro dirigente partidário tivesse o comportamento de Montenegro, os respetivos eleitores fariam o mesmo que agora tanta gente do PSD se prepara para fazer. 

Vivemos tempos em que a opinião do outro nem deve ser ouvida se não reproduzir exatamente aquilo em que acreditamos – curiosamente, o debate político televisionado é bem menos sectário e extremado do que aquele a que assistimos entre as pessoas, nomeadamente nas redes sociais. 

Aos nossos consente-se tudo e tudo pode ser relativizado ou mesmo desculpado.

Atingimos o ponto em que se vota sem pestanejar em alguém só por estar na nossa trincheira, esquecendo a mais básica ética e desprezando aquilo que exigimos aos outros.

O caminho que se abre a partir daqui não pode ser mais iníquo: desde que não seja ilegal, qualquer detentor de cargo político pode fazer o que lhe der na cabeça. Dou três exemplos: mercadejar a sua influência política, receber avenças de câmaras municipais do partido a que pertence e receber donativos para campanhas de pessoas donas de empresas para quem alegadamente se trabalhou. Enfim, um nunca acabar de comportamentos que, não sendo ilegais, atropelam a mais elementar lisura comportamental.

Não falta quem ingenuamente diga que é a vitória final da transviada leitura da ética republicana que a reduz à lei. É bem mais do que isso, é a vitória do mais absurdo sectarismo: legal ou ilegal, ético ou não ético, a nossa cor é o mais importante.

Mas não esqueçamos a referida senhora: ela sugeria o voto no PSD como quem diz “ignora o Montenegro, ignora os princípios dele e concentra-te nos valores do partido”.

Não seria um mau argumento. Pressupõe que os valores de um partido são mais importantes do que as pessoas que conjunturalmente o servem. Aliás, este entendimento é importante para o bom funcionamento da democracia. Há uma previsibilidade de voto que garante estabilidade ao sistema.

No caso concreto do PSD, aquilo que eram os valores e o que o definia estão abastardados. A defesa do ideário social-democrata é uma memória distante e os seus valores fundacionais estão mortos e enterrados; o PSD é o que o seu líder for sem nada que o defina ideologicamente. Ou seja, o PSD transformou-se definitivamente numa organização que segue o seu líder, independentemente do que ele professe.

Talvez seja esse niilismo ideológico que permite a chegada a cargos importantes nos partidos de pessoas sem requisitos éticos, com curriculum limitado, com histórias de vida pouco esclarecidas e sem provas dadas. Mas existindo ou não essa, digamos, flexibilidade ideológica, quando os partidos deixam de ter esses filtros, deixam também de exercer uma das suas principais funções: a da seleção dos melhores para os cargos políticos. 

Aquilo que sabemos estar a acontecer aos partidos – terem-se tornado agências de emprego, serem organizações de busca do poder pelo poder, etc. – torna-se um problema sistémico quando até essa escolha deixam de conseguir fazer.  

Concluindo, uma comunidade entrincheirada, na qual a ética é algo que se exige ao outro, e partidos estruturantes da democracia que defendem valores segundo o homem ou a mulher que episodicamente os dirigem não são boas notícias para a nossa democracia.

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Boys will be boys” diz a famosa expressão condescendente em língua inglesa… e agora os rapazes preferem a extrema-direita.

No relatório From Provider to Precarious: How Young Men’s Economic Decline Fuels the Antifeminist Backlash, publicado há dias pelo European Policy Center, vemos que, em Portugal, por cada rapariga (com menos de 25 anos) que vota num partido de extrema-direita, 4,9 rapazes fazem o mesmo. O número é tão alto que só a Croácia nos ultrapassa.

Outro estudo, de que um artigo no site do European Consortium for Political Research dá conta, mostra que, em 2024, 21% dos jovens rapazes europeus (com idades entre 18 e 29 anos) apoiavam partidos de extrema-direita, enquanto as raparigas se ficavam pelos 14%. O que se passa aqui?

Estávamos habituados a que o clássico voto de protesto antissistema, tão caro à juventude, se situasse na extrema-esquerda. Mais liberais do que os seus pais conservadores, radicais e revolucionários, os jovens pendiam para um extremo político antes de se “aburguesarem”, com a meia-idade, no colo do centrão. O voto antissistema foi capturado pela extrema-direita. Com uma grave distinção: se o sistema que a extrema-esquerda combate é o capitalismo, o sistema que a extrema-direita repudia é a democracia.

Para Đorđe Milosav, um dos autores do segundo estudo acima mencionado, a questão dos rapazes vai muito além do simples “boys will be boys”, no sentido em que o voto masculino jovem reflete a idade da exploração da identidade, do testar de limites, do correr riscos, atitudes mais acentuadas do que no sexo feminino. Se assim fosse, esclarece o investigador de Ciência Política, essa realidade estaria refletida em toda a juventude de décadas passadas. Mas não está. “Esta diferença de género do voto na extrema-direita por parte dos jovens é muito mais pronunciada agora, na Geração Z (nascidos entre 1997 e 2012), do que foi nas gerações passadas. Mas também vemos isso, embora em menor grau, nos Millennials (1981-1996)”, escreve.

“Muitos homens jovens veem o crescente sucesso das mulheres na educação e no trabalho como uma ameaça. Isto alimenta o ressentimento e o desejo de controlo”, acrescenta Đorđe Milosav, alertando para o facto de o voto na extrema-direita lhes dar um sentido de propósito e validação. Pior: “Os partidos de extrema-direita movem-se das franjas para o mainstream. Já não se trata só de um voto de provocação contra pais e professores – à medida que estes partidos se normalizam, a tendência é a de que o voto dos jovens neles não cesse à medida que vão envelhecendo.”

“Há uma crescente divisão ideológica entre os géneros”, diz, por seu lado, Javier Carbonell, autor do relatório do European Policy Center, “em que as mulheres são mais progressistas e os homens mais conservadores. Esta divisão mostra o poder eleitoral das forças antifeministas”. Mas a ascensão do feminismo não explica tudo.

“A deterioração das condições económicas tem levado a que os rapazes sejam menos escolarizados, ganhem menos e se debatam para estar à altura do que tradicionalmente é esperado do papel masculino: ser o sustento das suas famílias. A extrema-direita tem sabido explorar isto, oferecendo uma visão regressiva da masculinidade”, continua Javier Carbonell.

A ideia tradicional de masculinidade está ultrapassada e entrou em crise. O problema é quando são os próprios jovens a preferir olhar para trás em vez de seguir em frente.

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Palavras-chave:

Luís Montenegro tinha seis anos quando, em 1979, foi a um comício da AD no estádio do seu clube, o Futebol Clube do Porto, nas Antas. Ficou tão impressionado, que guardou para sempre a bandeira de cetim que de lá trouxe. Mas foi só durante o cavaquismo que se inscreveu como militante. Para Montenegro, Cavaco foi sempre o modelo de um líder “reformista e progressista”. Foi Cavaco Silva e não Pedro Passos Coelho, de quem foi líder parlamentar, que Luís Montenegro escolheu evocar quando, em 2022, anunciou a candidatura que o levaria à liderança do PSD. A ideia era clara: afastar o fantasma da Troika e recuperar o legado social dos anos do cavaquismo, com os investimentos públicos na altura financiados pela União Europeia e a criação do 14.º mês para os pensionistas.

Quatro anos mais novo, Pedro Nuno Santos entrou na política quando ser contra o cavaquismo era sinónimo de resistência a um sistema que se perpetuava no poder (Aníbal Cavaco Silva governou durante uma década), com tiques de arrogância e autoritarismo, que faziam os jovens entoar o Talvez F…, de Pedro Abrunhosa, como um hino contra Cavaco. Em 1993, apenas dois anos antes da queda do cavaquismo, Pedro Nuno tinha 16 anos e já discursava no Congresso distrital da JS em Oliveira de Azeméis, onde conheceu Pedro Vaz, que é um dos seus conselheiros mais próximos e, hoje, o responsável pelas estruturas do PS.

Dois políticos precoces

Este apetite precoce pela política levou ambos a chegar cedo a lugares públicos. Luís Montenegro foi vereador na Câmara de Espinho aos 24 anos, candidato a presidente da mesma câmara aos 28 e deputado aos 29. Pedro Nuno Santos foi ainda mais precoce. Aos 18 anos, foi eleito para a Assembleia da Junta de Freguesia de São João da Madeira e, coisa pouco comum para tão tenra idade, presidiu àquele órgão. Aos 28 anos, já estava sentado no Parlamento, um ano depois de chegar à liderança da JS, onde teve a sua primeira grande batalha política: a despenalização do aborto.

Nem um nem outro dedicaram muito tempo à vida profissional. Montenegro, licenciado em Direito e filho de um advogado, só viria a dedicar-se a sério à advocacia quando, depois de não conseguir tirar Rui Rio da liderança do PSD, decidiu sair do Parlamento em 2018. Saiu contrariado: “Não vou abandonar o combate”, avisou logo no Congresso do PSD de fevereiro desse ano.

Licenciado em Economia pelo ISEG, Pedro Nuno começou por trabalhar na Tecmacal, a empresa do pai, mal saiu da faculdade e até ser eleito deputado em 2005. Quando, em 2009, não conseguiu recusar ser candidato autárquico a São João da Madeira, teve de deixar de ser deputado. Sem grande surpresa, foi derrotado pelo veterano Castro Almeida, e voltou à gestão da fábrica da família. Uma experiência curta, entrou em 2010 e saiu em 2011, mas que já invocou para mostrar que sabe o que é ser empresário. “Pude viver de perto as dificuldades dos pequenos e médios empresários. A luta diária para conseguirem encomendas, para melhorarem a qualidade do seu produto e para se diferenciarem no mercado, com vista a sobreviverem e a desenvolverem-se”, disse ao DN em plena campanha pela liderança do PS.

A (má) fama dada pela Troika

Os anos da Troika encontraram Luís Montenegro e Pedro Nuno Santos novamente em trincheiras opostas. Montenegro era o líder parlamentar de Passos Coelho e o País ficou a conhecê-lo quando, numa entrevista ao JN, disse que “o País está melhor, as pessoas é que não”. Choveram críticas.

Em 2007, Pedro Nuno Santos criou, com José Gusmão e o economista João Rodrigues, o blogue Ladrões de Bicicletas, que se apresentava como “um espaço de opinião de esquerda, socialista”, mas escreveu pouco aí. O que o tornaria conhecido no País seria uma frase de efeito, dita num jantar de Natal do PS em Castelo de Paiva. Pensando que o evento era à porta fechada, defendeu que a “bomba atómica é simplesmente não pagarmos” a dívida. Era na altura vice-presidente da bancada parlamentar de António José Seguro e foi esse o cargo destacado pelos títulos dos jornais em 2011.

Foi, porém, em 2014 que Pedro Nuno Santos começou a dar nas vistas como um dos “jovens turcos”, como lhe chamou então o jornal Sol, num texto em que aparecia ao lado de Duarte Cordeiro, João Galamba, e Pedro Delgado Alves. Nessa altura, os quatro trabalhavam ativamente para pôr António Costa no Largo do Rato, que viria a ganhar o partido a Seguro, numas primárias inéditas no País.

Dos quatro “jovens turcos”, restam três. João Galamba e Pedro Nuno Santos afastaram-se depois de Galamba ter sucedido a Pedro Nuno no Ministério das Infraestruturas. Mas Duarte Cordeiro e Pedro Delgado Alves continuam a fazer parte do núcleo duro do líder do PS.

De “jovem turco”, Pedro Nuno Santos passou a “homem da geringonça”. Quando, no dia 7 de outubro de 2015, António Costa foi à sede do PCP levou Mário Centeno, Ana Catarina Mendes e Pedro Nuno Santos. A mesma comitiva que no dia seguinte iria à Rua da Palma negociar o apoio do BE. Pedro Nuno passaria a secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, encarregado da negociação constante necessária para manter a “geringonça” a funcionar.

O governo era popular e o PSD afundava-se. Luís Montenegro impacientava-se com a liderança de Rui Rio, incapaz de descolar nas sondagens. “O estado a que o PSD chegou é mau, preocupante e irreversível”, dizia Montenegro numa conferência de imprensa no Centro Cultural de Belém, marcada para anunciar a convocação de um Conselho Nacional do partido para tentar forçar a queda de Rio. “Face a este estado de coisas, sinto a responsabilidade de sair da minha zona de conforto. Não me resigno a esta situação”, dizia, acusando o líder do seu partido de ser incapaz de uma crítica a António Costa e de estar a conduzir os sociais-democratas para uma “derrota humilhante” nas legislativas que aconteceriam em outubro desse ano.

As curtas travessias no deserto

O Conselho Nacional, no Porto, ficaria conhecido entre os apoiantes de Rui Rio como o “do golpe de Estado”, mas falhou o seu propósito. Para o convocar, Luís Montenegro contou com um aliado que hoje parece improvável: o então conselheiro nacional do PSD André Ventura, que ajudou a recolher assinaturas sob o mote “chega de Rui Rio”. Ambos vinham da ala passista, que se sentia posta de lado com Rio. Nessa altura, Hugo Soares já era o braço-direito de Montenegro. E continuou a sê-lo até hoje. Mesmo não tendo sido ministro, é o homem com mais poder no partido a seguir a Montenegro e aquele que o líder mais ouve.

Foi preciso Rui Rio perder duas eleições com António Costa, a última delas com uma maioria absoluta socialista, em 2022, para chegar a vez de Luís Montenegro ocupar a sala que já foi de Francisco Sá Carneiro, na São Caetano à Lapa. Luís Montenegro parecia, então, um líder destinado a fazer uma longa travessia no deserto.

Pedro Nuno Santos caiu em desgraça a 29 de dezembro de 2022. Depois de meses de notícias sobre a TAP, com uma pressão pública enorme sobre os 3,2 mil milhões de euros postos pelo Estado na empresa, acabaria por ser uma indemnização de 500 mil euros a Alexandra Reis que o faria apresentar a demissão do Ministério das Infraestruturas, aonde tinha chegado em fevereiro de 2019, quando já era evidente que o seu trabalho na “geringonça” estava feito e sonhava com um cargo mais executivo. Pedro Nuno não tinha caído quando anunciou a localização do novo aeroporto de Lisboa sem articular o anúncio com Costa, mas não resistiu a mais uma polémica.

Pedro Nuno Santos mentalizou-se para uma travessia no deserto. Pelo menos desde o Congresso da Batalha, em maio de 2018, que era evidente que ambicionava ser líder do PS. Mas o desgaste acumulado na governação e a maioria absoluta de Costa faziam parecer que esse dia demoraria a chegar. Preparou-se: voltou à estrada, para contactos constantes com a máquina socialista e assinou um contrato como comentador político com a SIC. A meta era 2026. Parecia ter tempo e, por isso, dedicou-se ao ginásio, onde fazia boxe, e aproveitou para voltar a dedicar-se mais ao filho.

As vidas de Luís Montenegro e Pedro Nuno Santos mudaram para sempre no dia 7 de novembro de 2023. António Costa demitiu-se depois de a Procuradoria-Geral da República anunciar, em comunicado, que era visado na Operação Influencer. Caía com estrondo uma maioria absoluta. A primeira da história a ser interrompida. Com essa queda, Montenegro e Pedro Nuno foram atirados para legislativas antes do que qualquer um dos dois contava. A AD ficou apenas 54 mil votos à frente do PS. A vantagem mais curta da democracia.

Negociadores duros

Há um ano, a campanha eleitoral era marcada pelos protestos dos polícias. Quando Luís Montenegro chegou ao poder, percebeu que essa tinha de ser uma das suas prioridades: pacificar o setor das forças de segurança. “A negociação com as forças de segurança foi uma coisa em que se envolveu muito. Fez muitas diligências. Mesmo diligências que não foram públicas. Queria devolver a paz, mas estava preocupado em não conseguir chegar a um acordo por um esticar de corda dos sindicatos”, conta à VISÃO um dos elementos mais próximos do seu núcleo duro.

Quem conhece bem Luís Montenegro sabe que a determinação é uma das suas características mais vincadas. “É muito duro a negociar. É muito difícil fazê-lo ceder, se já tem uma posição tomada. Tem um processo de decisão maturado, pensa bastante”, descreve um dirigente social-democrata. É frequente ouvir quem trabalha de perto com Montenegro dizer que “está tudo na cabeça dele”, quando se procura antecipar o que poderá vir a anunciar. É um líder habituado a ouvir, mas a decidir sozinho. Zeloso da informação, chega a fazer pequenos testes de lealdade, passando informações diferentes a pessoas diferentes para perceber de onde poderá vir uma fuga para os jornalistas. O método deu resultados: durante os 11 meses de governação da AD poucas foram as vezes em que algum anúncio saiu do timing definido pelo governo. Dois exemplos? As escolhas de Maria Luís Albuquerque para o lugar de comissária europeia ou de Amadeu Guerra para o lugar de procurador-geral da República. Em ambos os casos, Luís Montenegro guardou segredo até à última. E isso incluiu o Presidente da República, que soube sempre das escolhas no último momento possível.

Sete pecados mortais

Os tropeções pessoais e políticos que os atrapalham nestas eleições

PEDRO NUNO SANTOS

1 – O WhatsApp da TAP
Aquele WhatsApp em que autorizava o pagamento de meio milhão de euros à administradora da TAP, Alexandra Reis, há de persegui-lo como uma mosca. A mensagem, da qual se tinha inicialmente “esquecido”, compromete-o e revela uma discutível informalidade na condução dos negócios do Estado. Uma comissão de inquérito depois, e o mea culpa feito, o caso devia estar morto e enterrado, mas, em campanhas eleitorais, ele há de sempre ser recordado…

2 – O dossier do novo aeroporto
No início do verão de 2023, com o primeiro-ministro ausente, em Bruxelas, o ministro das Infraestruturas anunciou a localização de um novo aeroporto e a solução transitória de uma alternativa. Em pouco mais de 12 horas, foi desautorizado por António Costa. Com “o baraço ao pescoço”, qual Martim Moniz, Pedro Nuno Santos veio pedir desculpas públicas e fazer a sua autocrítica à boa maneira estalinista. A solução final para o aeroporto, mais coisa, menos coisa, veio dar-lhe razão. Mas ter razão antes do tempo pode ser fatal.

3 – A habitação
Sem dúvida, o setor mais negligenciado durante oito anos de governo do PS. Ora, em boa parte desse tempo, Pedro Nuno Santos deteve a pasta, no quadro do Ministério das Infraestruturas. O currículo não é brilhante e a obra feita é ainda mais modesta – embora ele reivindique o lançamento de vários programas que outros inaugurarão…

4 – O radicalismo
Parece um cliché, que Pedro Nuno Santos levou esta campanha a tentar desmentir. Pelo contrário, apresentou-se cordato, contido e sereno e virou a acusação contra o adversário: a associação PSD/IL é que é “radical”.

5 – A imaturidade
Outra ideia feita que tem sido confundida com impulsividade. Ele mesmo já destacou o papel “maduro” que teve em negociações difíceis, quer no quadro da Geringonça, para a aprovação de quatro orçamentos, quer com os camionistas de matérias perigosas.

6 – As casas e os dinheiros de família
Os adversários bem tentaram recuperar a campanha negra sobre alegados favorecimentos do Estado à empresa de família, gerida pelo pai. A compra e a venda de casas próprias, que beneficiaram da ajuda paterna, vieram a público durante esta campanha, mas o pronto esclarecimento de PNS terá desarmadilhado a bomba…

7 – As pernas dos banqueiros alemães
A frase colou-se a ele como um selo e atestaria os pecados da imaturidade e do radicalismo: “Não pagamos! E, se não pagarmos a dívida, as pernas dos banqueiros alemães até tremem…” Tudo isto, claro, foi retirado do devido contexto, mas isso, para os adversários, não interessa nada…

LUÍS MONTENEGRO

1 – A Spinumviva
Houve quem viesse dizer que a Lei dos Solos seria o caixão do Governo de Luís Montenegro. E, de facto, começou por aí – de início, pensou-se que o primeiro-ministro também detinha uma imobiliária, mas ele desmontou bem essa parte. O pior é que a empresa Spinumviva acabou por se revelar, afinal, uma consultora prestadora de serviços a empresas com negócios com o Estado, que continuaram a pagar avenças.

2 – A casa de Espinho
Juntamente com o caso da Spinumviva, vieram a lume outras novidades. Nomeadamente, a falta de faturas dos fornecedores de material de construção da sua mansão de Espinho, sobretudo, da ABB, que vendeu o betão e que foi alegadamente beneficiada por um parecer do próprio Luís Montenegro em prejuízo da Câmara Municipal de Espinho, para quem ele, afinal, trabalhava…

3 – As casas pagas a pronto
No rol de revelações “subsidiárias” do caso Spinumviva, soube-se que Luís Montenegro pagou, a pronto, dois apartamentos no centro de Lisboa. Levantou-se uma questão sobre a declaração de rendimentos que o teria justificado…

4 – As contas bancárias
Foi revelado que Montenegro separou montantes por várias contas bancárias, nenhuma delas ultrapassando o limite que o obrigava a esclarecimentos mais pormenorizados à Entidade da Transparência. Afinal, declarou ou não declarou as contas, ou devia ou não ter declarado? As interpretações jurídicas dividiram-se, mas a nebulosa adensou-se.

5 – As promessas na Saúde
No plano político, Luís Montenegro prometeu um programa de emergência, para a Saúde, a ser apresentado em 60 dias após a tomada de posse e que iria resolver os problemas mais imediatos. Passados 11 meses, os problemas mais imediatos – o fecho de urgências, o encerramento de serviços de Obstetrícia e a falta de médicos de família –, em vez de ficarem resolvidos, agravaram-se. Pelo meio, uma política de purgas e nomeações difíceis de explicar, dois diretores executivos da Saúde que nada resolveram e uma greve do INEM que terá provocado mortes.

6 – O desempenho económico
Soube-se que, no primeiro trimestre deste ano, o País sofreu uma retração económica como há muito não se via. É verdade que, normalmente, o primeiro trimestre é o mais fraco do ano, e sempre inferior ao trimestre anterior, sendo que, depois, a economia recupera. Será o caso?

7 – O País está melhor…
Tal como “as pernas dos banqueiros alemães” se colaram à imagem de Pedro Nuno, também a cumplicidade do ex-líder parlamentar de Passos Coelho com as políticas para atingir os objetivos da Troika, entre 2011 e 2014, cortes de pensões incluídas, se colam a Montenegro, de forma indelével. Todos se lembram da célebre frase, a dado ponto do programa de intervenção, quando disse que o País “estava melhor, as pessoas é que não”… F.L.

Quando Pedro Nuno Santos chegou ao Ministério das Infraestruturas, também teve uma negociação dura pela frente. A greve dos motoristas de matérias perigosas ameaçava deixar o País sem combustível. O governo acusava os sindicatos de não estarem a cumprir os serviços mínimos. Pedro Nuno usou uma técnica dos tempos da “geringonça”, chamando patrões e sindicatos para reunir em salas diferentes, falando ora com uns ora com outros. Foi uma maratona que durou quatro horas e acabou com um acordo que lhe valeu um elogio de Marcelo Rebelo de Sousa à sua “capacidade política”.

Quando em plena campanha, Luís Montenegro se irritou com a paralisação na CP e disse que era preciso “pôr cobro” a greves com impactos grandes na população, defendeu-se das críticas citando as palavras ditas por Pedro Nuno em 2019 sobre a necessidade de “com cautela refletir sobre a lei da greve, sobre a organização sindical e sobre o abastecimento das nossas infraestruturas críticas”.

As maiores crises da campanha

Esta é uma campanha em que Pedro Nuno não queria estar. Apostado em dar tempo ao governo da AD enquanto reconstruía o PS, viabilizou o programa de governo, aprovou o Orçamento e chumbou moções de censura. A gota de água foi, contudo, a moção de confiança apresentada pela AD, na sequência das notícias que lançavam dúvidas sobre as avenças da Spinumviva, a empresa que Montenegro criou quando saiu da AR e que passou para a mulher quando chegou ao governo. Pedro Nuno avisara que não votaria a favor de moções de confiança e tinha cada vez mais dúvidas sobre as condições éticas do primeiro-ministro.

Pedro Nuno Santos tinha ido buscar João Gabriel, um consultor de comunicação que tinha estado com Jorge Sampaio, mas que há muitos anos trocara a política pelo futebol, pouco antes de o calendário lhe baralhar as voltas outra vez. João Gabriel tem sido uma peça importante. “Dá-lhe muita confiança. É quase como um treinador que motiva um jogador”, diz quem conhece há muitos anos Pedro Nuno e assistiu ao efeito do novo consultor de comunicação. De resto, a equipa de Pedro Nuno é a mesma há muito. Nuno Araújo, um dos seus braços-direitos desde o tempo da “geringonça” e líder da Federação do PS do Porto, é o seu diretor de campanha, encarregado de organizar uma volta pelo País com muita rua.

“O Pedro gosta mesmo de estar com as pessoas. Gosta de ouvir. E usa o que ouve nos comícios”, conta quem está na caravana socialista. Em Portalegre, o caso de um doente oncológico que precisa de medicamentos no valor de cinco mil euros por mês para estar vivo serviu-lhe para falar da importância do SNS. E no Porto a aflição de uma idosa que não sabe como pagar os 800 euros de IRS que o Fisco lhe pede ajudou-o a explicar o que diz serem “os truques” do governo em matéria fiscal.

As sondagens não têm sido boas para o PS, mas os socialistas garantem que isso não o desanima. “É um homem de trabalho. Reage com mais energia quando acontecem coisas negativas. Outro líder ia abaixo com as sondagens. O Pedro motiva quem está com ele”, garante um dos mais próximos. “Quando há uma crise, fica frustrado, mas depois é o primeiro a levantar cabeça. É otimista e positivo”, diz outro membro da equipa.

“A maior crise desta campanha foi o anúncio da averiguação preventiva [sobre a compra das suas casas]. Teve o choque, ficou abalado, mas depois seguiu em frente. O impacto não durou muito tempo”, revela quem está na campanha.

Na caravana laranja, também não é difícil identificar o momento mais duro dos últimos meses para Luís Montenegro. “O que mais o abalou foram os ataques pessoais”, confessa Hugo Soares. Tudo o que mexe com a família mexe com Montenegro, mas isso não impediu – pelo contrário – a sua mulher Carla ou o seu filho Hugo de aparecerem na campanha, com Hugo Montenegro a garantir mesmo que irá “com toda a confiança e tranquilidade” a uma eventual Comissão Parlamentar de Inquérito sobre a Spinumviva. “A Carla foi determinante para o Luís ter a força que tem. Tem vindo quase todas as semanas e é porque quer mesmo”, comenta um elemento da comitiva da AD.

O que tem tirado Luís Montenegro do sério são as perguntas dos jornalistas, sobretudo sobre a Spinumviva. Geralmente muito simpático, Montenegro tem perdido a paciência para a insistência no caso e não se coíbe de criticar os repórteres. Um estilo muito diferente do de Pedro Nuno Santos, que tende a criar alguma proximidade com os jornalistas que conhece há mais anos, tratando vários por tu.

Cavaco com Luís, Costa com Pedro

Curiosamente, o mesmo Cavaco que inspirou Luís Montenegro a militar no PSD e Pedro Nuno Santos a fazer-lhe oposição no PS, tem sido uma figura presente nesta campanha, tendo aparecido diversas vezes a manifestar apoio ao líder da AD. Sem poder manifestar-se publicamente, por causa do dever de reserva a que está obrigado como presidente do Conselho Europeu, António Costa tem – garante-se na comitiva socialista – falado várias vezes ao telefone com Pedro Nuno Santos. E se Montenegro contou com uma foto histórica de todos os líderes sociais-democratas – à exceção de Durão Barroso, que não pôde estar presente –, Pedro Nuno também não está sozinho: Carlos César é um conselheiro frequente, a ala direita do PS (com Francisco Assis e Fernando Medina) já apareceu na campanha e figuras que vão de Vieira da Silva a Marta Temido, passando por Basílio Horta e João Soares, também estiveram presentes.

Os dados estão lançados. Um destes homens será o próximo primeiro-ministro. Os portugueses decidirão qual no dia 18 de maio.

A galáxia de PNS

O núcleo duro de Pedro Nuno Santos é quase todo muito jovem e mantém-se o mesmo há muitos anos. Além destes, são também peças essenciais Pedro Vaz (que o conhece desde os 16 anos), Alexandra Leitão, que foi até agora líder parlamentar e saiu das listas para ser candidata a Lisboa, Duarte Cordeiro, que mesmo na sombra está sempre por perto, e Márcia Galrão, a assessora de imprensa e antiga jornalista

Carlos César
Presidente do PS

É dos conselheiros mais velhos de Pedro Nuno Santos, num núcleo duro que é em regra bastante jovem. Puxa Pedro Nuno ao centro

João Gabriel
Consultor de comunicação

Foi contratado para melhorar a imagem de Pedro Nuno antes de o governo cair. Há quem diga que ele é como um “treinador” que motiva o jogador

Hugo Mendes
Ex-secretário de Estado das Infraestruturas

Apesar de ter ficado associado a polémicas relacionadas com a TAP, é um dos principais conselheiros do líder, que o considera “uma grande cabeça”

Pedro Nuno santos
Secretário-geral do PS

Chegou a líder antes do previsto e não contava com legislativas já. Há um ano, ficou a 54 mil votos de ganhar o País

Nuno Araújo
Diretor de campanha

Foi chefe de gabinete de Pedro Nuno nos Assuntos Parlamentares. O líder tem absoluta confiança nele

António Mendonça Mendes
Deputado

Visto como o potencial ministro das Finanças. Não era próximo de Pedro Nuno, mas aproximou-se e é um dos conselheiros que mais ouve

Pedro Delgado Alves
Deputado

É um dos “jovens turcos”, como ficou conhecido o grupo que integrava Pedro Nuno, nos tempos de Seguro. Visto como possível líder parlamentar

O universo de LM

O núcleo duro de Luís Montenegro não é grande. Além destes nomes, inclui António Leitão Amaro, Pedro Duarte, o secretário-geral adjunto Ricardo Carvalho, o seu chefe de gabinete, Pedro Perestrelo Pinto, e a secretária Célia, que o acompanha desde que era líder parlamentar. Está habituado a ouvir os que o rodeiam, mas partilha informação com poucos e é difícil que, mesmo os mais próximos, o consigam fazer mudar de ideias

Ana Cristina Gaspar
Assessora de imprensa

Está com Montenegro desde que ele era líder parlamentar e é alguém em quem ele sabe que pode confiar cegamente

Castro Almeida
Ministro da Coesão

É muito próximo do líder e foi sempre visto como um dos mais capazes na equipa, mas teve gaffes e casos que o fragilizaram

Miguel Pinto Luz
Ministro das Infraestruturas

Chegou com vontade de se afirmar como fazedor. Anunciou o novo aeroporto e habitação pública. Ajuda Montenegro na estratégia

Paulo Rangel
Ministro dos Negócios Estrangeiros

Na orgânica do governo, é o n.º 2. Peso-pesado na política e homem de combate, capaz de respostas eficazes aos adversários

Luís Montenegro
Presidente do PSD

Chegou a primeiro-ministro há um ano. As suspeitas sobre a Spinumviva, a sua empresa familiar, ditaram o fim do seu governo

Pedro Esteves
Diretor de campanha

Assessor de Paulo Rangel em Bruxelas, ajudou Carlos Moedas a ganhar Lisboa. Controla a comunicação em São Bento e garante a coordenação dos ministérios

Hugo Soares
Líder da bancada parlamentar

É o seu braço-direito. A pessoa em quem mais confia, aquele que ouve sobre tudo e o que mais poder tem no partido, a seguir ao líder

POSSÍVEIS COLIGAÇÕES

Os arranjos parlamentares de que se fala… e não fala

“ILDA”
AD e IL têm feito a campanha a preparar o eleitorado para uma coligação de governo – assim obtenham maioria. O PS diz que esta seria uma solução de direita radical. Mas é o único cenário em cima da mesa…

“Não é sim”
O cenário só se coloca se o PSD ficar em 2.º lugar, mas houver uma maioria de direita. Montenegro deveria sair e poderia entrar alguém que enterrasse o “não é não”…

Geringonça 2.0
A grande coligação da esquerda só seria possível se estes partidos tivessem, em conjunto, a maioria absoluta. Possível, não: quase certa.

Bloco Central
A hipótese mais remota, pelo menos, com estas lideranças no PS e no PSD. Talvez, se a Europa entrasse em guerra… o que não se deseja. F.L.

Não é novidade a entrada do Almirante Gouveia e Melo nas presidenciais de janeiro de 2026. Estava escrito. E também não faz sentido invocar como estranho o facto de uma democracia ter um como chefe de Estado um ex-militar. A sério?

É pena, pelos vistos e para alguns, que essa restrição não esteja prevista na Constituição. Almirante ou cabo, sargento ou capitão, advogado ou médico, serralheiro ou agricultor — todos com mais de 35 anos e de nacionalidade portuguesa podem ambicionar o Palácio de Belém. Assim sendo, também não é novidade colocar as coisas nesses termos, sobretudo por parte daqueles que já estão no terreno a preparar as suas candidaturas.

Gouveia e Melo tem uma vantagem difícil de contrariar: perfil de rigor, empenhado em causas nacionais (como a Covid), atento às dificuldades das Forças Armadas e inquieto com a agitação na Europa e no mundo. Também joga a seu favor o facto de não estar, à partida, preocupado com o apoio deste ou daquele partido. Seria bom, aliás, que os partidos se abstivessem de intervir nas eleições presidenciais, evitando escolher perfis ou excluir candidatos.

Quem vai para Belém representa todos os portugueses, cá e lá fora, e essa distância entre partidos e Presidente deve manter-se em todas as circunstâncias. Marcelo não é, nem foi, o presidente da AD ou do PSD, e esse cordão sanitário tem de ser preservado. Que venha o Almirante.

1. De Quatro
Miranda July

A canção dos Talking Heads, On the road to nowhere, “a caminho de lugar nenhum”, combina bem com a narradora nas primeiras páginas de De Quatro. O marido mostra-se desinteressado quando ela lhe conta que o vizinho do FBI os alertara de que “alguém” os fotografara em casa com uma teleobjetiva: “Fiquei com o bilhete na mão com aquela curiosa sensaçãozinha de abandono que se tem um milhão de vezes por dia no ambiente doméstico.” E a descrição da intimidade sexual da amiga Jordi deixa-a atordoada: “Não por ter ficado a perder naquela conversa; por estar a perder na vida.” Celebridade menor nas suas próprias palavras, aos 45 anos ela tem as emoções “à solta como comboios desgovernados”. O discurso é desassombrado – é também a voz de July, atriz, argumentista e realizadora, que faz autoficção sobre a menopausa. Quando a protagonista se faz à estrada, e, depois de uma mera conversa com um rapaz numa gasolineira, faz inversão de marcha, instala-se num motel deprimente, e enceta um caso platónico com este Davey, acontece um laboratório: o regresso do desejo de “querer comer o mundo”. Quetzal, 384 págs., €19,90

2. Um Episódio na Vida do Pintor Viajante
César Aira

Biografia parca, mas relato do arco-da-velha, cheio de ironia e imagens que ficariam bem nas telas de Goya. O escritor leva-nos com destreza na garupa das mulas “perpetuamente mal humoradas” que transportam o pintor paisagístico alemão Johan Moritz Rugendas (1802-1858), em trote pela América do Sul, convencido de que “só nos trópicos se encontrava o necessário excesso de formas primárias para caracterizar uma paisagem”. Ao lado, tem o fiel mas medíocre Robert Krause. E se as boas intenções não produzem boa arte, ainda salvam: Rugendas apanha com dois raios em cima, a natureza zangada a transformá-lo num pintor-monstro que entenderá a pulsão da arte face a face com uns temíveis índios. Cavalo de Ferro, 88 págs., €€14,35

3. A Cidade e as Suas Muralhas Incertas
Haruki Murakami

Seis anos de silêncio para criar esta “novela longa”, uma reencarnação do relato publicado pelo autor japonês em 1980 numa revista, que lhe cravara um “espinho” de frustração. A Cidade… é um objeto surreal, movediço, algo comovente. Haverá quem o leia como uma reflexão sobre o que é a realidade e a literatura, a memória e o sentido da vida, o isolamento do Covid, o luto. Outros, poderão citar o espectro do personagem do velho bibliotecário que usa saia porque isso o faz sentir “como fazendo parte de um bonito poema”. O que é (in)certo? A narrativa de um homem que que não esquece um amor de juventude, que transita entre mundos, que perde a sua sombra, e faz-se “leitor de sonhos”, até perceber que há muralhas também contra a “epidemia do espírito”. Casa das Letras, 560 págs., €26,90

4. O Palácio de Gelo
Tarjei Vesaas

Traduzida do norueguês por João Reis, esta narrativa editada em 1963 tem um vigor e um lirismo não vencidos pelo tempo. Marcada pela inclemência da paisagem escandinava, é uma história descrita por sobressaltos e fragores e pontuação exaltada, a simbolizar a natureza imprevisível da neve, da água, da cascata de gelo que inspira o título – e das emoções das meninas de onze anos que protagonizam este clássico. Um retrato de uma “cintilação”, a que emerge entre Sis e Unn – a primeira é a menina privilegiada e popular da escola, a segunda é a recém-chegada, solitária e avessa às seduções dos outros –, é também a do despertar da perda, a de Unn no labirinto do “palácio de gelo” que fende a paisagem. D. Quixote, 224 págs., €17,70

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