Há um mito que persiste nas consultas de Odontopediatria e que, por vezes, é alimentado até por alguns profissionais de saúde: “É um dente de leite, vai cair, por isso não precisa de ser tratado.”
É uma ideia compreensível, mas errada. O facto de um dente ser temporário não significa que seja dispensável. Os dentes de leite desempenham funções importantes durante vários anos: ajudam a criança a mastigar e a falar, participam no desenvolvimento das arcadas dentárias e mantêm o espaço necessário para os dentes permanentes, que os irão substituir.
Além disso, permanecem na boca durante uma parte significativa da infância. Alguns começam a cair por volta dos seis anos, mas os últimos podem permanecer até aos 11 ou 12 anos, ou mesmo mais, dependendo de cada criança. Durante esse período, estão sujeitos a doenças como a cárie dentária.
Uma lesão de cárie num dente de leite não é, portanto, apenas um problema “à espera de cair”. Se não for identificada e controlada, pode evoluir para dor, infeção ou abcesso e interferir com a alimentação, o sono e o bem-estar da criança. Em determinados casos, uma infeção num dente de leite pode também afetar o dente permanente que ainda está em desenvolvimento.
É por isso que a prevenção deve começar cedo.
As recomendações internacionais de Odontopediatria defendem que a primeira consulta deve acontecer quando nasce o primeiro dente ou até ao primeiro ano de vida. O objetivo não é necessariamente tratar dentes: é, sobretudo, avaliar o risco de doença, prevenir problemas e orientar a família.
A partir daí, a frequência das consultas deve ser adaptada a cada criança, tendo em conta o risco individual de cárie, os hábitos, o desenvolvimento e as necessidades individuais. Não devemos esperar que apareça um problema para começar a acompanhar a saúde oral.
E o que acontece nessa primeira consulta?
Para muitos pais, é surpreendente perceber que pode haver muito mais conversa do que procedimentos clínicos. O médico dentista procura conhecer os hábitos da criança e da família: como é feita a higiene oral, que alimentos e bebidas são consumidos, a frequência das refeições, a utilização de chupeta ou biberão, os hábitos de sono e outros fatores que possam influenciar a saúde oral. Depois, é feita uma observação da boca, dos dentes e dos tecidos que a rodeiam.
É, por isso, também uma consulta de educação e orientação dos pais, que procura responder a questões como: Como devem escovar os dentes? Quantas vezes por dia? Que quantidade de pasta dentífrica usar? Qual a concentração de flúor adequada? Que hábitos alimentares aumentam o risco de cárie? Quando é necessário começar a utilizar fio dentário?
Mas começar cedo pode ter outra vantagem: permite construir uma relação positiva com o médico dentista antes de surgir a necessidade de tratamentos mais complexos.
Isso não significa que uma criança que comece cedo nunca terá medo. A ansiedade dentária resulta de vários fatores, incluindo experiências anteriores, características individuais e o contexto familiar. No entanto, estratégias de comunicação e preparação adequadas à idade podem ajudar a criança a compreender o que vai acontecer e a sentir-se mais segura.
Uma das técnicas mais conhecidas é o “dizer–mostrar–fazer”: primeiro explicamos, com uma linguagem adequada à criança, o que vamos fazer; depois mostramos o instrumento ou o procedimento; e só então avançamos. Quando existe ansiedade, pode também ser necessário introduzir os procedimentos gradualmente, respeitando o ritmo e a capacidade de colaboração de cada criança.
Por isso, quando uma criança chega ao consultório, os primeiros minutos podem ser simplesmente para conversar. Perguntar o que gosta de fazer, que desporto pratica ou de que brincadeira gosta pode parecer não ter relação com os dentes. Mas tem: é uma forma de estabelecer confiança.
A confiança não se impõe. Constrói-se através de experiências previsíveis, de uma comunicação adequada e da sensação de que a criança é ouvida e respeitada.
No fundo, cuidar dos dentes de leite é muito mais do que prevenir a cárie dentária. É prevenir dor e infeção, proteger a saúde geral e oral e criar hábitos que acompanharão a criança durante toda a vida.
Não devemos esperar que um dente de leite doa para começar a cuidar dele. A prevenção começa cedo — e a relação com o médico dentista também.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.