Há em Portugal uma obsessão com a disciplina na escola. É uma situação um pouco estranha porque, ao mesmo tempo que, aparentemente, já ninguém educa as suas crianças, toda a gente se queixa de que as crianças não têm educação.
O discurso público sobre a escola é frequentemente populado por termos como autoridade, disciplina, exigência, excelência e mérito, mas raramente vai além da proclamação de serem coisas boas sem grande exercício crítico que o suporte.
A ideia é articulada mais ou menos assim: é preciso que os professores tenham autoridade para impôr disciplina e implementar um sistema de alta exigência que identifique a excelência e premeie o mérito. Zás, trás, pás. Fácil, não é?
Vamos por partes. A escola trata todos os alunos por igual. Por exemplo, exige-lhes que cumpram as mesmas regras de comportamento e partilhem o mesmo conjunto de valores. Mas as crianças, quando entram na escola, vêm todas de contexto diferentes, alguns deles onde vigoram regras e valores muito parecidos com os da escola, outros onde não é bem assim.
Peço que sossegue a voz interior que já está a perguntar se por acaso estarei a sugerir que haja regras diferentes para alunos de contexto diferentes. A questão não é essa. A escola pública democrática tem a obrigação de promover um conjunto de valores e regras democráticas, mas não podemos ignorar que a entrada na escola é uma experiência radicalmente diferente para crianças diferentes contextos.
Uns terão de fazer um trabalho árduo de adaptação ao novo meio, às novas figuras de autoridade, às novas rotinas, aos novos horários. Outros terão de fazer isso tudo sem saberem antecipar o que podem e o que não podem fazer ou, pior, a ter de escolher entre as regras e os valores da escola e os muitas vezes contraditórios regras e valores de casa.
Quando pensamos nos problemas de disciplina na escola, temos obrigatoriamente de ter isto em conta. Pelo contrário, uma das coisas que certamente não faz sentido nenhum na equação é a autoridade dos professores. É uma lógica intrigante aquela que associa a disciplina à autoridade. Se entendermos a disciplina como o cumprimento das regras, pensar que elas só se cumprem se houver uma figura de autoridade é conceder que só a repressão (ou a ameaça dela) consegue garantir que as pessoas não prevaricam.
A lógica parece indestrutível: se as crianças tiverem medo das consequências e aceitarem a autoridade de uma figura de referência sem a questionarem, andarão todas quais formigas no carreiro. Isto levanta vários problemas. Um deles é que isto forma cidadãos que sentem que as regras só são para cumprir quando está alguém a ver, cidadãos exemplares que cumprem o limite em zona de radar e carregam no acelerador no restante troço. O outro, mais grave, é que isto cria cidadãos que cumprem as leis porque a isso são obrigados e apenas na medida em que forem obrigados, mas não cria sociedades fortes e coesas com cidadãos que respeitam a regras porque as sentem como deles, porque as questionam antes de as aceitar.
Além do mais, este desejo por “mais autoridade” é frequentemente expresso no espaço público, mas raramente concretizado. Como se concretiza? Através da repressão? Se não entendermos as causas mais profundas arriscamos a não ser mais do que velhos rezingões a queixarem-se que os miúdos nos roubaram as maçãs porque “já não há respeito por nada nem por ninguém”.
Bem sei que isto entra num domínio mais psicológico, mas pergunto-me frequentemente se estas pessoas que defendem tão afincadamente o reforço da autoridade terão elas próprias uma atitude de respeito pelos outros e pela justiça quando ninguém está a ver. Mas adiante.
Ora, para além da constatação óbvia de que mais autoridade não corresponde a mais disciplina mas ao aumento da invisibilidade dos maus comportamentos, temos ainda de lidar com estas ideias de excelência e de mérito.
Comecemos por fazer as perguntas óbvias na esperança de que as respostas revelem algo novo. Por exemplo: o que é a excelência e como se mede? Este é um daqueles conceitos que à partida não desagradam a ninguém, toda a gente quer “excelência” porque cada um de nós formula na sua cabeça uma ideia muito própria do que este conceito quer dizer.
Para percebermos se isto é verdadeiramente desejável, devemos tentar perceber a definição deste conceito tal como a escola o promove. Na nossa escola a excelência é um conceito quantitativo. Ele tem de se expressar num número porque é preciso diferenciar os alunos, é preciso colocá-los numa hierarquia, numa escala do melhor para o pior que os ordene e permita aos “melhores” aceder aos lugares mais desejáveis.
Esta ideia parte de um princípio que não costuma mas devia ser questionado: o de que a excelência é medível. Mesmo dando de barato que entendamos a “excelência” como o domínio de conhecimentos académicos, é líquido que esse domínio seja completa e justamente medido através de provas escritas? Ou de trabalhos feitos em casa? Ou de apresentações orais? Não é perfeitamente possível que alguém tenha um grande domínio dos conhecimentos académicos e, ao mesmo tempo, dificuldades em expressá-lo através de avaliações quantificáveis. E, por outro lado, não é perfeitamente possível dominar as formas de avaliação de tal forma que se tem bons resultados sem que eles reflitam o domínio duradouro, crítico e substantivo dos conteúdos?
Trocando por miúdos, e em linguagem que a maior parte de nós usou em algum momento na escola, não é possível ter boas notas numa avaliação e no dia seguinte não nos lembrarmos de nada? Ou ter uma má nota e termos a convicção de que até sabíamos a matéria? Isto já para não perguntar se o papel da escola é o de medir conhecimentos, especialmente quando ele é medido através de modelos que atropelam qualquer tentativa de criar cidadãos livres, críticos e justos.
No final, fica-nos a restar olhar para o mérito, essa ideia de que as recompensas recaem sobre quem as merece. Tendo tudo isto em consideração, fico indeciso entre etiquetar essa fé como ingénua ou mal intencionada.
Contra todos os discursos de valorização da escola como “elevador social” e contra todos os casos de “sucesso” exibidos como se representassem uma realidade mais vasta, temos a dureza da persistência da pobreza ao longo de gerações. A solução até poderá estar na educação, mas não é na repetição acrítica da ideia de que as famílias precisam de apostar nela que está a solução. Porque a educação não é neutra, discrimina ao tratar todos da mesma forma e está mais concentrada em formar trabalhadores produtivos do que em criar cidadãos ativos, com capacidade de agência e a certeza de que fazem parte da sociedade.
Dizer simplesmente que é preciso as famílias apostarem na educação das suas crianças é ignorar por completo que as próprias famílias têm historiais completamente diferentes no sistema escolar. Se, para uns, a passagem pela escola correspondeu à validação daquilo que já tinham como certo, para outros, ela é uma experiência de constante atrito. Se para algumas crianças os exemplos do sucesso por via escolar estão ali mesmo dentro de casa, para outras eles são coisas longínquas, de outro mundo.
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