Interrogo-me, muitas vezes, sobre esta necessidade quase instintiva que as pessoas têm de criar um inimigo.
Talvez venha do medo de existir, o medo de não compreender bem o mundo, o de sentir que não temos controlo sobre quase nada. E, em vez de nos aproximarmos uns dos outros, fazemos o contrário e escolhemos um culpado com as costas muito largas.
O inimigo parece que simplifica tudo. Tem nome e cara e assim personifica o que nos inquieta. Enganamo-nos, mas acalmamo-nos.
Uma sociedade sem inimigos é obrigada a olhar para si própria. Obriga-nos a questionar e a contestar o que achamos que não está certo, a mudar crenças e hábitos. Não é confortável. Talvez por isso seja tão mais fácil descarregar todos os males num culpado, até os nossos.
O inimigo também nos une. Não é uma união bonita, nem empática. Nasce do medo e da rejeição de alguém. Une-nos pela negativa em que assumimos que “nós não somos eles”. É uma união frágil, mas que acaba por funcionar. Quem nos governa sabe muito bem disso.
Enquanto estamos ocupados a desconfiar uns dos outros, deixamos de prestar atenção a quem está a definir as regras. Quando estamos emocionalmente envolvidos contra alguém, aceitamos coisas que, em circunstâncias normais, nunca aceitaríamos.
Assim, pouco a pouco, quase sem dar por isso, vamos cedendo.
Com pezinhos de lã, o inimigo desumaniza-nos.
Primeiro estranha-se, depois normaliza-se. Deixa de ser uma pessoa como nós e passa a ser o símbolo de uma ameaça. A partir daí, a violência deixa de ser chocante e passa a ser aceite porque se justifica como “um mal” necessário. Torna-se inevitável. É quando, mesmo que não se diga, se começa a sentir que há vidas que valem mais do que outras.
Isto assusta-me e devia assustar toda a gente.
Estamos constantemente a falar de inimigos. Criam-se, alimentam-se e quanto mais se fala deles, menos se fala da forma como vivemos, do que aceitamos e do que ignoramos.
Não acho que isto seja por acaso.
Um povo com medo é mais fácil de convencer e de ser conduzido e um povo ocupado a odiar o inimigo tem menos tempo para reivindicar e questionar o poder.
E então há uma pergunta que que faço: E se o problema nunca tivesse sido “eles”?
E se, em vez de procurarmos constantemente um inimigo, começássemos finalmente a olhar uns para os outros como aquilo que realmente somos, pessoas frágeis, imperfeitas, com capacidade de cuidar uns dos outros?
Talvez seja ingénuo.
Mas talvez seja a única forma de não perdermos completamente a nossa humanidade.
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