Todos os anos, durante o Ramadão, surge a polémica das escolas.
A escola portuguesa tem uma herança cultural profundamente marcada pelo catolicismo. Está no calendário, nos feriados, nas pausas letivas, nos ritmos que tomamos como “normais”. É uma tradição histórica. Mas Portugal de hoje não é o de há mais de meio século! É mais diverso. E essa diversidade não vem apenas da imigração. Vem da liberdade e do progresso. Existem cidadãos portugueses muçulmanos, judeus, hindus, evangélicos, ateus, entre outros. Fazem parte da nossa sociedade e, evidentemente, das escolas.
A questão não deve ser colocada como: devemos adaptar-nos a outras religiões? Mas sim, se queremos que a escola reconheça a realidade do País.
Não será melhor apenas flexibilizar? Isto não é ceder. Nenhuma prática religiosa é imposta e ninguém é privilegiado. O que é importante é que cada criança possa viver a sua fé, se a tiver, sem ser penalizada.
Para mim, uma escola pública laica nunca foi para impedir a religião. É exatamente o contrário: permitir que cada um viva a sua, ou não tenha nenhuma. A nossa escola pública é laica. Eu não cresci com essa liberdade. Nos meus tempos de escola primária, empurravam-me para o catolicismo, que era a única religião que parecia existir e que era imposta.
Aceitar que um aluno possa estar mais cansado durante o Ramadão, ou justificar uma falta num dia religioso importante, não fragiliza a escola. Pelo contrário, fortalece-a enquanto espaço de inclusão, respeito e democracia.
O que fragiliza a escola e a sociedade é transformar estas diferenças em teorias da conspiração e alimentar a ideia de que há cidadãos “normais” e outros que estão sempre a pedir tratamento excepcional.
E aqui entra o maior problema.
Todos os anos, vemos forças políticas como o Chega e setores da direita conservadora, ancorados numa visão culturalmente católica dominante, pegar nestes casos pontuais e ampliá-los, fazendo-os parecer uma ameaça à ordem do País.
Existem escolas que, e muito bem, fazem ajustes pontuais e proporcionais que são justos e legais de acordo com a nossa Constituição.
Circulam nas redes sociais versões deturpadas da realidade afirmando que há “imposições religiosas” e que a identidade do País está “em risco”.
Nada disto corresponde aos factos e não passa de uma narrativa para causar medo.
É a desinformação no seu estado mais puro, com um objetivo claro: dividir, criar ressentimento e transformar as diferenças, que se podem viver em harmonia, num conflito permanente. Tudo porque uma sociedade dividida é mais fácil de manipular.
E, enquanto isso, passam quase em silêncio situações que deveriam, essas sim, indignar-nos profundamente.
No Colégio dos Salesianos de Manique, veio a público que crianças partilham o mesmo espaço escolar mas não a mesma cantina. Há, na prática, comida “dos ricos” e comida “dos pobres”. Aqui, não estamos a falar de identidade cultural ou liberdade religiosa. Estamos a falar de desigualdade social institucionalizada dentro de um espaço educativo.
Estamos a falar de crianças a aprender, desde cedo, que ocupam lugares diferentes consoante o dinheiro dos pais.
Isto, sim, deveria mobilizar o País inteiro.
Mas não gera o mesmo barulho. Não incendeia as redes. Não serve a mesma agenda.
Se há coisa que devia medir uma democracia, não é o barulho feito em torno dos muçulmanos e do Ramadão mas sim o silêncio que se mantém perante desigualdades como esta, precisamente pela forma como trata as suas minorias e pelo combate (ou falta dele) às desigualdades que muitos escolhem ignorar.
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