Há quem continue a vender a ideia de que o futuro passa por copiar os EUA..
Li recentemente um artigo de opinião, assinado por Nicholas Kristof, baseado no Social Progress Index, sobre a degradação da qualidade de vida nos Estados Unidos, que me inspirou a escrever este texto.
Os Estados Unidos são hoje uma das economias mais ricas do mundo e ao mesmo tempo, um dos países desenvolvidos onde se vive pior. Segurança, saúde, educação, bem-estar, democracia: em todos estes indicadores, os EUA caem há décadas.
E porquê?
Porque escolheram substituir direitos universais pelo mercado, serviços públicos por seguros, direitos que passam a depender do dinheiro que cada um tem.
É exatamente esse o caminho que os liberais querem impor a Portugal.
O que está a ser feito ao SNS não é nem erro, nem incapacidade.
É uma destruição lenta e programada: subfinanciar, deixar falhar, criar medo para depois dizer que “o privado é inevitável”.
Não é inevitável. É uma escolha política.
E sabemos que ela acaba na insegurança permanente, na desigualdade e em mortes por falta de dinheiro.
Quando ouço os políticos a admirar o “modelo liberal americano”, pergunto:
– Admira o quê? Um sistema onde uma doença pode levar uma família à falência? A descida da esperança média de vida apesar do crescimento económico?
Segundo o Social Progress Index:
- Os Estados Unidos estão em 32.º lugar em qualidade de vida, entre 171 países – atrás da, Lituânia e Chipre;
- Em saúde, caem para 45.º lugar, atrás do Panamá;
- Em segurança, estão em 99.º lugar, atrás de Paquistão e da Nicarágua;
- Em educação básica, ficam em 47.º, atrás do Vietname e do Cazaquistão.
Tudo isto apesar de serem uma das economias mais ricas do mundo.
Estes dados desmontam a narrativa liberal.
A teoria liberal diz que o crescimento económico basta, que o mercado distribui bem-estar, que o Estado deve enfraquecer.
A realidade mostra o oposto.
O mercado não garante acesso a qualidade de vida, garante lucro às empresas.
O PIB não mede dignidade humana, mede produção.
E a qualidade de vida não surge por osmose económica.
Países com menos PIB, mas com serviços públicos fortes, transformam os recursos em maior qualidade de vida.
Os EUA não conseguem porque privatizaram os direitos.
Cotrim de Figueiredo representa este projeto com discurso polido e sapatos engraxados.
Ventura representa-o aos gritos e de chinelos.
O conteúdo é o mesmo: menos Estado social, menos proteção, menos igualdade.
Não queremos um Presidente que normalize esta agenda.
Não queremos um país onde o direito à saúde dependa de um seguro.
Não queremos trocar o SNS, uma das maiores conquistas da democracia, por um modelo que já falhou onde foi aplicado.
Portugal não precisa de ser “mais liberal”.
Precisa de ser mais justo, mais humano e mais democrático.
O futuro não é privatizar direitos.
O futuro é defendê-los.
Pensa em ti e em quem és quando fores votar. Cuida-te!
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.