A guerra é, hoje, um espetáculo quotidiano. Milhões, longe dos campos de batalha, veem sem parar a sua crueldade e sofrimento. Tão longe que, por vezes, se sentem alheios. Ouvimos que é “mais um conflito”, nalgum lugar que mal conhecemos, onde morre e vive gente com quem nunca nos cruzaríamos. Em boa medida, foram os meios e tecnologias de comunicação que “trouxeram” estas guerras, mais ou menos remotas, ao nosso mundo, isto é, ao mundo que percebemos, àquele que vemos e ouvimos.
A lista de conflitos hoje, como ontem, é ampla: o conflito do nosso continente, mantido a todo o custo pela propaganda; o extermínio sistemático de povos; tiroteios em escolas; perseguições étnico-raciais, entre outros. Às manchetes e coberturas televisivas juntam-se agora os conteúdos que circulam e se viralizam na internet, nas redes sociais, nas lives. Embora se crie a sensação de um acesso mais “puro”, os conteúdos que consumimos são sempre recortes produzidos com intenções concretas. Neles, muitas vezes, quem ataca aparece como vítima e quem se defende surge como carrasco. Sem passado e com pretensões de verdade, muitos desses conteúdos vão deixando carimbos de “violência imoral” aqui, “legítima defesa” ali e “herói” acolá.
A psicologia da paz tem mostrado, repetidamente, que estas manobras discursivas sustentam a legitimidade da violência e servem intenções políticas que importam ser escrutinadas. Mesmo mais acessível e mais terrível, o mundo continua dependente de quem decide o que mostrar. Esta disputa é hoje descrita como guerra cognitiva, uma luta pela perceção. No turbilhão, o espectador oscila entre certezas rápidas e dúvidas crónicas. No ecrã, tudo parece nítido, menos o que ficou de fora. Resultado: cansaço, confusão e desmobilização.
Em paralelo, desenha-se uma nova revolução do “real”, em que realidade virtual ou deepfakes ampliam a guerra cognitiva. Segundo Noami Klein, têm-se multiplicado simulações hiper-realistas que fazem o público sentir o trauma de quem usa violência. Isso desresponsabiliza os seus autores e distrai-nos. Nas redes sociais, a fronteira porosa entre realidade e fantasia serve a destruição: em fevereiro de 2025, Donald Trump partilhou um vídeo gerado por IA que transformava Gaza num resort. Mesmo sendo manifestamente falso, o vídeo cumpre a sua missão: não é um discurso nem uma promessa vaga, mas uma maquete visual de um projeto futuro que confere legitimidade ao terror vivido em Gaza.
Contudo, seja qual for a imagem da guerra, esta não pode competir com a realidade da guerra e da violência. No século passado, em todos os cantos do mundo, várias pessoas, entre elas psicólogos da paz, olharam o horror que as palavras e imagens tentavam esconder. E opuseram-se.
Em 1971, Vítor Jara escreveu uma peça musical fundamental dessa oposição: “o direito de viver em paz”. Partia de uma ideia simples: todos somos vulneráveis à guerra e estamos mais próximos de quem a vive do que parece. Por isso, o direito que reclamava não era para um lugar distante, então o Vietname, mas para a humanidade inteira, um direito universal. Isso incluía o seu país, que, dois anos depois, cairia sob a cruel ditadura de Augusto Pinochet, em que Jara, e milhares de chilenos, foram assassinados. Num mundo em que a atenção virou um campo de batalha, há, ainda assim, esperança, pois, de quando a quando, temos a oportunidade de olhar melhor, focar, e ver o que é evidente: o direito de viver em paz não pode ser um privilégio.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.