Não é dogma nem sequer duvidoso do ponto de vista científico nem clínico: a incidência da maioria dos cancros aumenta com a idade biológica, em homens e mulheres. Existem exceções importantes, como certos tumores cerebrais e alguns subtipos de leucemias, que surgem em idades jovens e mesmo em crianças. Nestes casos, o mecanismo não está associado ao envelhecimento, mas sim a alterações genéticas particulares ou a predisposição genética. Ainda assim, a vasta maioria dos casos de cancro ocorre em idades avançadas, com um pico por volta dos 70 anos, embora existam variações entre países, resultantes da eficácia dos rastreios e dos diagnósticos precoces.
As nossas células dividem-se ao longo da vida, embora em ritmos diferentes. Os neurónios maduros praticamente não se dividem, enquanto as células do sangue se renovam rapidamente em resposta a infeções. Em cada divisão, o ADN tem de ser copiado de forma fidedigna. Apesar da existência de mecanismos de reparação altamente eficientes, semelhantes a um controlo de qualidade, alguns erros escapam e persistem. Com o tempo, o acúmulo progressivo dessas mutações, aliado a uma menor eficiência dos sistemas de reparação, aumenta a probabilidade de que genes críticos sejam afetados, em particular os oncogenes e os genes supressores de tumor. Alterações nessas regiões podem permitir a expansão desregulada de células e levar ao desenvolvimento de um tumor.
Estima-se que sejam produzidas cerca de 1 trilião (um milhar de biliões) de mutações, por dia, nas nossas células. Este número absolutamente gigantesco resulta de um cálculo relativo ao número aproximado de células que temos, no nosso corpo, e à probabilidade de serem produzidos erros durante a divisão celular. Logicamente, a exposição a certos carcinogéneos, como a luz ultravioleta, o tabaco, entre outros aumenta em muito o risco de podermos desenvolver diferentes tipos de cancro. Também sabemos que outras alterações celulares são necessárias para gerar um cancro, mas este mecanismo (mutacional) está na sua génese.
Envelhecer aumenta o risco, mas não significa inevitabilidade. O risco pode ser reduzido ao longo da vida através de escolhas conscientes, nomeadamente evitando exposição a carcinogéneos como o tabaco e exposição solar excessiva, mas também manter uma alimentação equilibrada e praticar exercício físico. Envelhecimento, sim, mas vivido da forma mais saudável possível.
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