Nos corredores do Berlaymont, em Bruxelas, tem-se intensificado entre os altos funcionários da Comissão Europeia um sentimento de “Mais América”. Não se trata apenas de uma perceção de reforço do poder norte-americano como potência unipolar, tal como ocorreu no período imediatamente posterior à Guerra Fria. Antes, este entendimento reflete a visão estratégica da segunda Administração de Donald J. Trump, marcada pela necessidade de afirmação dos Estados Unidos da América como o único centro efetivo de soberania incontestada no espaço ocidental.
À luz da nova Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos, publicada a 4 de dezembro, esta abordagem implica uma profunda reconfiguração da relação transatlântica, relegando a Europa para um papel secundário e assumidamente periférico.
A leitura do documento torna evidente que a visão de Washington deixou de ser somente cética em relação ao multilateralismo. Ela tornou-se ativamente hostil à construção europeia, tal como a conhecemos. O que analistas da Brookings Institution e do Atlantic Council já dissecaram como uma “mudança de paradigma” não identifica a União Europeia como um pilar da estabilidade global, mas, sim, como um concorrente burocrático e um vetor de “apagamento civilizacional”. Esta linguagem, que ecoa o discurso do vice-presidente JD Vance na Conferência de Segurança de Munique, em fevereiro de 2025, sinaliza o fim da “ordem liberal”, enquanto projeto transatlântico partilhado.
A União Europeia é retratada como uma entidade transnacional que “mina a liberdade política”, associada a burocracias que enfraquecem os Estados-nação. Trump propõe “cultivar resistência” dentro das nações europeias contra esta trajetória, apoiando forças “patrióticas”, que se oponham à integração europeia. Um eufemismo para populistas, como a Alternativa para a Alemanha ou a Frente Nacional francesa.
O documento rompe inequivocamente com a linguagem universalista que marcou a era pós-Guerra Fria. No lugar de “valores partilhados”, “responsabilidade global” ou “liderança benevolente”, aparece agora uma estratégia assente numa lógica crua de interesses nacionais, prioridades geográficas e custos políticos internos. O mundo, sugere Trump, não é um espaço a ordenar, mas, antes, um tabuleiro a gerir seletiva e oportunisticamente.
A pergunta que se impõe é simples e desconfortável: estamos perante um abandono da Europa ou perante o fim de uma ilusão europeia sobre a América?
A estratégia parte de um diagnóstico severo. Para Washington, o erro fundamental das últimas décadas foi ter confundido primazia com ubiquidade: tentar estar em todo o lado, ao mesmo tempo, com recursos políticos, militares e económicos finitos. O “America First” da nova estratégia não significa isolacionismo, mas sim hierarquização. Nessa hierarquia, o Indo-Pacífico e a contenção da China assumem primazia absoluta. Por contraste, a Europa é vista como suficientemente rica, estável e institucionalizada para assumir a sua própria segurança.
Este argumento não é novo. O que muda é o tom e a consequência política. Onde antes havia pressão diplomática e ambiguidade estratégica, há agora um aviso explícito: Washington não pretende continuar a ser o garante permanente da segurança europeia. A proteção norte-americana passa a ser explicitamente condicional, transacional e dependente do desempenho europeu. Esta reorientação não é mero ajuste tático. É, sim, uma declaração parcial de divórcio da ordem liberal pós-1945, que os EUA ajudaram e incentivaram a forjar.
Durante décadas, a política externa portuguesa e europeia assentou num pressuposto reconfortante: independentemente de quem ocupasse a Sala Oval, os EUA teriam sempre interesse numa Europa unida, próspera e integrada. A nova estratégia de segurança nacional destrói essa premissa. O documento apela explicitamente ao “cultivo da resistência” dentro das nações europeias contra a “trajetória atual da Europa”. Não se trata de isolacionismo clássico, é intervencionismo político.
Ao eleger como interlocutores preferenciais os “partidos patrióticos” (entenda-se: a direita populista e nacionalista), a Administração Trump procura contornar Bruxelas e estabelecer relações bilaterais que fragmentem a unidade do bloco.
Para Portugal, país que historicamente equilibra a vocação atlântica com o compromisso europeu, a atual conjuntura configura um verdadeiro pesadelo estratégico. A diretriz norte-americana de “dividir para reinar” coloca Lisboa numa encruzilhada. Se, por um lado, permanecer fiel à integração europeia, arrisca desagradar Washington. Por outro lado, se optar por se alinhar à nova agenda da política externa norte-americana, isso significa minar a própria política europeia.
Na teoria das relações internacionais, esta situação é explicada pela “shelter theory”: pequenos e médios Estados, como Portugal, procuram a proteção ou o abrigo de grandes potências ou organizações supranacionais para se resguardarem de ameaças externas e garantirem segurança, estabilidade e prosperidade. Neste contexto, e no âmbito do abrigo político, verifica-se uma divisão nítida: a esfera político-militar favorece os EUA, porém o plano político-económico beneficia a União Europeia. E é nestas “águas” que Portugal terá de “navegar”, hoje, em 2026 e nos próximos anos.
Mas será que esta “Mais América” implica necessariamente “menos Europa”? E o que significa para o futuro da ordem liberal essa teia de alianças, instituições e valores que sustentou a paz e a prosperidade transatlântica?
Para muitos decisores em Bruxelas, Paris e Berlim, esta mensagem soa a rutura da ordem liberal. Mas talvez seja mais correto vê-la como a sua consequência lógica. A ordem ocidental liberal partia do pressuposto quase incontestado de que os Estados Unidos compensariam sempre as fragilidades militares, estratégicas e políticas da Europa. Essa disponibilidade foi erodida pela fadiga estratégica norte-americana, pela polarização política interna e pelo surgimento de desafios sistémicos fora do Espaço Euro-Atlântico.
A estratégia de Trump torna explícito aquilo que já era implícito: a divergência estrutural entre prioridades norte-americanas e europeias. Enquanto Washington se prepara para cenários de conflito de alta intensidade no Indo-Pacífico, a Europa continua dependente de capacidades militares e críticas americanas. Estas dependências incluem defesa aérea, serviços de inteligência, logística, comando e dissuasão nuclear.
É aqui que o debate se torna existencial. A retirada gradual dos Estados Unidos não implica o colapso da NATO, nem o fim da cooperação transatlântica. Implica, sim, o fim de uma assimetria confortável. Obriga a Europa a escolher entre três caminhos: assumir seriamente a sua autonomia estratégica; resignar-se a uma irrelevância protegida; ou fragmentar-se ainda mais, com alguns Estados a procurarem garantias bilaterais norte-americanas à margem do projeto europeu.
O paradoxo é evidente. A estratégia de Trump pode ser lida como hostil à integração europeia, mas pode também ser o seu maior catalisador. Ao retirar o “amortecedor americano”, Washington força a Europa a confrontar a distância entre o seu discurso normativo e a sua capacidade real de poder.
A ordem liberal internacional não desaparece com “menos América” na Europa. Ela transforma-se. Torna-se mais regionalizada, menos moralista e mais competitiva. O problema não é os Estados Unidos deixarem de liderar. É a hesitação da Europa em decidir se quer, e se sabe, liderar-se a si própria.
No final, a questão central não é se haverá “mais América” ou “menos Europa”. Num contexto em que os parceiros euro-atlânticos divergem quanto à natureza da própria ordem liberal, a verdadeira pergunta é saber se a Europa está preparada para existir estrategicamente num mundo em que a proteção já não é automática e a solidariedade deixou de ser gratuita. A estratégia de Trump não destrói essa ordem liberal. Ao invés, ela expõe as suas fragilidades e, acima de tudo, a dependência dogmática europeia que, durante demasiado tempo, foi confundida com virtude.
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