Escrever um artigo no pino da época estival costuma chocar num obstáculo enorme: falta de tema. Neste verão essa dificuldade não existe pois, na minha vida de português cá de fora, muitas coisas aconteceram nos vários países por onde andei. Estabelecido que está que a ausência de assunto não é um problema, pode contudo faltar-me engenho e arte para tentar resumir em alguns parágrafos temática tão rica e que que passa por vários países, mas vou tentar fazer um périplo que vai de Sochi à ilha Terceira sem maçar quem lê.
Rússia
Estive em Sochi e Moscovo para acompanhar a seleção portuguesa no campeonato do mundo de futebol. Nunca pensei ver tantas camisolas de Cristiano Ronaldo envergadas por chineses, japoneses, russos e muitos outros fãs de futebol. O meu primeiro encontro com adeptos de Portugal foi em Sochi, no hotel onde estava alojada a seleção. Uma vintena de pessoas aguardavam que a equipa portuguesa saísse do restaurante; entre eles estava um grupo de cinco Ronaldos. Aproximei-me para os cumprimentar com um sonoro “boa tarde malta!”. Já estava a engatar a frase seguinte, qualquer coisa do género “vocês são os primeiros portugueses que encontro”, quando dois dos Cristianos se viram para mim com os olhos em bico, dando como resposta um balbuciante “English?”.
Expliquei em inglês a situação, dizendo que, enquanto português tinha ficado felicíssimo por ver portugueses ao que me responderam com a proverbial gentileza do oriente: “sorry we are not Portuguese”. Ainda tentei desenvolver o assunto, e saber a razão que levava cinco pessoas que não tinham nenhuma aparente ligação a Portugal a envergarem camisolas de CR7, mas a resposta, dada em linguagem corporal, foi clara: “que pergunta estúpida”.
Percebi depois aquilo que todos sabemos mas que bate mais fundo quando o vivemos: para muitos fãs de futebol em todo o mundo, Cristiano Ronaldo resume a essência do desporto-rei e é indubitavelmente quem melhor o representa. Mais. Alguns destes fãs ficavam radiantes por estarem simplesmente a falar com um português. Os poucos adeptos lusos que se deslocaram à Rússia vestidos com as nossas cores viveram todos sem exceção esse tipo de situação: gente das mais variadas nacionalidades pedia para fazer selfies começando a conversa com o nome de Cristiano Ronaldo e um V de vitória com os dedos.
Apesar de Portugal não ter conseguido a prestação que desejaríamos, o Mundial 2018 foi um evento sem igual. Talvez o patrão da FIFA tenha exagerado ao afirmar que este foi o melhor torneio de sempre mas, sem nuances, ficou certamente entre os melhores mundiais ou europeus a que assisti. É difícil descrever o que fez deste evento um momento tão especial, mas acredito que as preocupações (e as paranóias) do russos os levaram a tais extremos organizativos que tudo acabou por correr muitíssimo bem. Essa fome de organização fez também com que os adeptos se encontrassem em locais bem específicos e totalmente seguros (muito longe do clima de medo do Mundial da África do Sul) onde se festejaram vitórias, empates e derrotas sem interrupção, durante um mês.
Luxemburgo
No Grão-ducado, a Caixa Geral de Depósitos decidiu fechar as duas agências que o banco detém no país. A notícia não chegou do governo português, nem da Caixa, mas pelas mãos das centrais sindicais luxemburguesas.
Obviamente, no dia seguinte, os balcões da Caixa foram invadidas por clientes preocupados com o destino do dinheiro que confiaram à instituição. E tal como em Portugal, nas localidades onde o banco fechou, os clientes do Luxemburgo sentiram-se portugueses de segunda, perguntaram-se “porquê nós?” e perderam mais um pouco de confiança nas instituições nacionais.
Entretanto, o atual embaixador de Portugal no Luxemburgo vai deixar o seu posto antes do final do verão. Uma perda para a comunidade pois Carlos Pereira Marques foi um diplomata que apostou em organizar eventos que marcassem uma forte presença da cultura portuguesa no país, no que foi sempre apoiado pelos responsáveis do Camões do Luxemburgo. Felizmente fica connosco o cônsul-geral Manuel Gomes Samuel, ele também uma personalidade próxima da comunidade e que manifesta uma permanente preocupação com a imagem de Portugal e da diáspora no Grão-ducado.
Açores
A Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas organizou, no início de julho, o primeiro encontro intercalar de empresários portugueses da diáspora na ilha Terceira. Depois de encontros em Sintra e Viana do Castelo, o governo lançou um evento intermédio e o local escolhido foram os Açores, origem de muita diáspora lusa.
Apesar de ter menos participação do que os encontros “principais”, e de não ter tantos emigrantes da América do Norte como seria de esperar, o encontro demonstrou mais uma vez o grande empenho do governo em captar investimento da emigração e serviu, sobretudo, como uma boa oportunidade de networking.