Bram Strooker escreveu Drácula sem nunca ter ido à Transilvânia. Imaginou tudo através de atlas, enciclopédias e livros sobre a lendária figura de Vlad, o empaldor (não consta que mordesse o pescoço dos forasteiros, mas fazia bem pior aos seus inimigos). Júlio Verne muito naturalmente também não precisou de dar a volta ao mundo para contar as incríveis aventuras de Willy Fog. Algo de parecido aconteceu com Zilla Van Den Born. A estudante holandesa fez uma magnífica viagem pela Ásia. Enviou fotografias e postais nas principais atrações turísticas, em templos hindus, provando as iguarias de cada região. Como qualquer jovem, usou o skype e o Facebook para postar imagens e matar saudades da família e dos amigos. Só que, tal como Bram Stroker e Júlio Verne, Zilla fez isto tudo sem sair do seu quarto. Não é uma génia da literatura fantástica, antes uma mestra do Photoshop.
Nos primórdios do cinema, os espectadores gritaram em pânico ao ter a perceção que o comboio dos Irmãos Lumiére estava a entrar pela sala a dentro. Com o tempo, passou-se a entender as regras da grande ilusão e hoje, mesmo com o 3D, mantemos uma distância de conforto – sabemos que as imagens não nos atacam fisicamente. Simultaneamente, traçamos uma linha imaginária que separa a ficção da realidade. Ou seja, as imagens em que podemos acreditar: uma coisa é a telenovela, outra, o telejornal.
Se na ficção quase tudo é aceitável, exige-se uma certa autenticidade no real, apesar das constantes manipulações, com objetivos estéticos ou mais perversos. Quem trabalha nos jornais habituou-se à solução: deixa lá, isto resolve-se no Photoshop. E o Photoshop muitas vezes serve para tornar a realidade mais realista, partindo do princípio que qualquer fotografia (ou vídeo) nunca será a própria realidade, mas apenas uma representação da mesma. Acreditamos, então, quando vemos com os nossos próprios olhos. Passo difícil será aceitar que os nossos próprios olhos possam estar enganados. E que a realidade, afinal, é uma mentira bem contada.