A peça acabou. Já se gritou, insultou, alvoroçou, conspirou, jogou, emborcou, espancou, chorou, violentou, abusou, amargou… Já se reclamou do calor… Já se amou, já se odiou, já se procriou… Enfim, tudo coisas que os humanos habitualmente fazem uns com os outros outros, num espaço de uma vida. Não costumam, talvez, é conjugar todos estes verbos num par de horas. Por isso sentem-se os actores assim, no final do ensaio geral da peça (em cena no Teatro Nacional Dona Maria a partir de dia 9), de Tennessee Williams, Um Elétrico Chamado Desejo: esgotados. Como que se precisassem de se voltarem a encher depois de tanto se terem despejado. Levam tempo a retomar as palavras. “É um texto por camadas que se vão entranhando na pele”, comenta Albano Jerónimo (Stanley), o operário polaco de nova-orleães que nutre um ódio e uma repulsa tão brutal, tão visceral, tão animal pela sua cunhada, Alexandra Lencastre (Blanche Dubois), tão exangue, tão vulnerável, tão fragilizada, tão estilhaçada. “Será que se odeiam, será que se desejam? Ele usa a única forma que conhece que é submetê-la. É perverso mas muito típico”, aventa o encenador Diogo Infante. E os actores sentem-se assim, despidos, camada após camada, até à pele esfolada que se soltou, “em carne viva”, diz Alexandra Lencastre. Há que reunir os pedaços de si mesmos que deixaram espalhados no palco, para então falar da história desta mulher que chega num eléctrico chamado Desejo a um sítio onde não é desejada. E a vida dela já vem bem descarrilada, já se lhe soltaram os freios, já pouco lhe sobra do brilho de outrora. É uma mulher no final da carreira do elétrico, outonalmente madura, gasta por um passado implacável, já não há paragens seguintes para a sua existência transitória e baça, o sol já não lhe é benfazejo, o clarão da lâmpada sem proteção é “impiedoso”, procura a indulgência do crepúsculo que não lhe denuncie a idade e a reputação E que lhe sustente a ilusão, ela não quer realismo, quer magia: “Falseio um pouco as coisas, não digo a verdade, digo o que deve ser a verdade” . Mendiga um elogio, toma banhos prolongados como um ritual de purificação ou de regeneração (há imensa humidade nesta peça de Tennessee Williams), e prossegue a fuga em frente, até ficar encurralada. É talvez a peça mais pungente e inclemente para as mulheres. Porque elas estão dependentes dos homens, para a sua sobrevivência e para a sua auto-estima.
Há anos que Diogo Infante tencionava trazê-la para o Teatro Nacional (há 20 anos que não era representada em Portugal), no seguimento da lógica de “representar grandes textos clássicos, universalmente aclamados, garantindo a qualidade, dando-se assim um passo gigantesco para recuperar a vitalidade artística deste espaço de referência”. Por outro lado, o papel de Blanche Dubois seria, diz, o pretexto ideal para o regresso de Alexandra Lencastre aos palcos, ao fim de 12 anos de ausência. A actriz aceitou com a condição de ser Diogo Infante a encenar: “Só poderia ter voltado com o Diogo. Se não fosse ele, não teria coragem. Há uma frase de Óscar Wilde que eu gosto de citar: ‘A única diferença entre um capricho e uma paixão eterna é que o capricho dura um pouco mais'”. É por isso que ela está aqui, “a aceitar este processo de sofrimento, a aceitar tudo isto, com as nossas fragilidades, e às vezes é difícil verbalizar, porque nos emocionamos, porque também se odeia e deseja ao mesmo tempo”. Alexandra Lencastre conta que tinha uma visão de Blanche através de um corredor mais estreito. A personagem encheu-se: “Nós somos assim: não somos só nós. Somos nós e as circunstâncias e as circunstâncias às vezes mudam e fazem-nos felizes e infelizes”. Fazer televisão é, na expressão da atriz, “assim como o napalm: queima-se tudo. O mau e até o que poderia ser bom”.Alexandra Lencastre usa uma imagem tão brutal quanto literalmente visceral para demonstrar o que se passa no processo de entrar na personagem: “Há aquele momento na matança do porco -eu nunca vi, mas já ouvi – em que a violência da faca dá o golpe final e sai tudo cá para fora. É assim connosco todos os dias”. E mesmo que, às vezes chegue “fechada” aos ensaios, recebe as palavras de Diogo Infante (“explorem sempre, vão atrás, capitalizem, experimentem…”, e recebe o desprezo de Stanley (Albano Jerónimo), ou um olhar de Stella (Lúcia Moniz), ou a gentileza de Mitch, o seu tímido pretendente (Pedro Laginha) “e é muito gratificante. É assim que se chega lá. Porque o maior erro que um ator pode cometer é enfiar-se num pacote e pôr um laçarote e dizer ‘já está'”. E desde a altura do primeiro ensaio até ao último, “há um momento que é nosso”. E que talvez se possa dizer como a personagem, ainda que de forma fugaz: “Às vezes Deus existe depressa”.
Valsa de uma mulher carente
Claro que, tal como os fantasmas da vida de Blanche, outros de celuloide, a preto e branco, hão de ensombrar todas as representações que se fizerem de O Elétrico… É impossível não fazer um link mental direto para versão cinematográfica, realizada por Elia Kazan, quatro anos depois da peça, em 1951 (12 nomeações e quatro estatuetas) e para as forças antagónicas e magnéticas, ao mesmo tempo repulsivas e atrativas que moviam Marlon Brando e Vivien Leigh. Diogo Infante obrigou-se a não rever o filme, recomendou o mesmo ao elenco. “Quis voltar à génese que é o texto. Para que não ficássemos impressionáveis perante uma versão tão feliz como a de Elia Kazan. Para poder ter um olhar genuíno e fresco sobre o texto, e sermos nós a encontrar os subtextos e a própria organicidade nas relações entre as personagens”. Não lhe interessou também transportar a ação para os tempos atuais. Afinal, se se passasse agora, comenta Alexandra, a única diferença é que talvez “as pessoas fumassem e bebessem menos” ou talvez se drogassem mais, “mas, de resto, a peça é incrivelmente atual”, continua Diogo. É sobre a amargura, a desilusão, o vício, o alcoolismo, a dependência, o desejo, a loucura. É tudo tão pungente e trágico. “Na essência, é uma peça sobre a natureza humana, refletida por Teneessee Williams de uma forma crua. Não é tanto sobre a maldade, é mais sobre a incapacidade de se colocar na pele do outro”. Quase um duelo, com um perdedor anunciado à partida, que é o que acontece quando o leão e o cordeiro habitam a mesma casa. “E uma questão territorial, também”, acrescenta Albano que encarna a rudeza, a sedução animalizada do macho, e uma nova América miscigenada que implode face à sofisticação decadente dos sulistas.
Mas, apesar deste distanciamento assumido do filme, e desta descontaminação intencional, a peça tem toda ela uma dimensão cinematográfica. Kazan transformara uma peça confinada a um só cenário num objeto cinematográfico, cheio de ação e emoção. Diogo Infante trouxe muito cinema para dentro da peça. A começar pelo dispositivo giratório do palco, que transforma em travellings as mudanças de cena, criando a ilusão de movimentos de câmara, seguindo sempre as travessias de Blanche (é sempre ela que a “câmara” segue), entre aquele pedaço de rua e as duas divisões da casa. Mas também nos jogos de luz , na profundidade de campo, criando-se pontos de tensão priveligiados, enquanto outra cena prossegue em segundo plano, ou noutra perspetiva, lá atrás. E o público fica muitas vezes entre o que vem e o que fica. “Isso tem a ver com a minha formação, com o meu gosto pelo cinema e, de facto, esta peça pede um olhar plástico”, continua Infante. Mas também são cinematográficos os sons, o guincho do gato assanhado como uma premonição, o piano melancólico, o jazz dos anos 40, a polka que só Blanche escuta antes do tiro (aliás, indicações precisas do próprio Tennessee). E em certas alturas, escuta-se um comboio, que sempre sobressalta muito a protagonista. Ela sente que a cada passagem, vai-se deixando ficar para trás, num apeadeiro longínquo, a acenar. Os sonhos são ainda o que a fazem manter-se acordada. Até ao despertar definitivo, ao embarque para um manicómio e à célebre réplica final: “Sempre dependi da bondade de estranhos”.