As mesmas pessoas que expõem os mais variados detalhes da sua vida privada no Facebook – desde o nascimento dos filhos, ao fim do namoro, passando pela ida às compras com a amiga, o lado da cama para que dorme melhor, além da atualização permanente da localização – queixam-se que andam a ser espiadas pela CIA. É mais um contrassenso do mundo em que vivemos. Isto significa que não têm nada contra a exposição da sua vida privada, desde que seja por vontade própria, o que é absolutamente legítimo. Verdade é que, seja a CIA, a Mossad, a Scotland Yard ou o SIS, têm a vida muito facilitada. Embora não se imagine uma brigada imensa que espie em permanência todas as pessoas do mundo. Por maiores que sejam os meios, será impossível ter todos sob escuta, é como um homem armado perante uma multidão despida, por mais tiros que dispare não consegue matar toda a gente.
Em termos objetivos a CIA não nos investiga em concreto simplesmente porque não quer saber de nós. Não se interessa pelo nascimento do filho, o cachorrinho pantufa que dá a pata ou a gata patusca que toca piano. Não quer saber com quem vamos ao cinema nem das fotografias na praia em fato de banho. Não somos interessantes para a CIA, o que é pena, porque possivelmente tal tornaria as nossas vidas mais excitantes. Mas eles, sacanas, têm mais que fazer. É injusto!
Claro que se pode delinear estratégias para que a CIA repare em nós. Eventualmente, no seu quartel general, acende-se uma luz vermelha sempre que alguém pesquisa no Google “Bomba de Fabrico Caseiro”, ‘terrorismo’, “grande satan”, “ataque suicida”, “jihad”, etc… Usar regularmente estas palavras insistentemente poderá ser um bom princípio. Mas tal requer alguma consistência e insistência como com uma namorada que se faz rogada. Fotografias com armas, citações do Corão, filiações a movimentos extremistas podem ajudar.
Apesar de tudo a paranoia das pessoas simples que não temem lei tem razão de ser. Porque a questão não é a invasão da nossa privacidade por desconhecidos (que provavelmente não se verifica), mas a facilidade com que isso poderá acontecer (caso haja o interesse). É assustador. A nossa privacidade pode ser violada a qualquer momento. Os nossos segredos poderão ser secretamente escutados e até divulgados. É um potencial de terror. É por isso que a divulgação recente de segredos da CIA parece apenas uma justa contrapartida. Vamos espiar os serviços secretos antes que os serviços secretos nos espiem a nós.