“Não há nenhuma razão biológica para os portugueses sofrerem de uma maior prevalência de perturbações de ansiedade. Isto tem que ver com as desigualdades laborais e socioeconómicas”

“Não há nenhuma razão biológica para os portugueses sofrerem de uma maior prevalência de perturbações de ansiedade. Isto tem que ver com as desigualdades laborais e socioeconómicas”

O lançamento do Manual de Tratamento da Ansiedade (Lidel), com coordenação de Pedro Morgado, foi pretexto para uma conversa sobre as perturbações de ansiedade, as doenças psiquiátricas mais comuns, que chegam a afetar, ao longo da vida, até 33% da população mundial. O psiquiatra do Hospital de Braga e professor associado da Escola de Medicina da Universidade do Minho, explica porque Portugal está entre os três países europeus com maior prevalência destas doenças e como caminhar para uma sociedade mais equitativa poderia melhorar os índices de saúde mental.

O livro fala da ansiedade como um mecanismo fisiológico que era essencial à sobrevivência e que nos protegia dos predadores. Substituímos os predadores pelo stresse crónico?
A ansiedade tem como principal função proteger a integridade física e psíquica. Sempre que é exposto a um estímulo que interpreta como ameaçador, o organismo vai montar esta resposta, que é extraordinariamente evoluída. Até à Revolução Industrial, havia três fatores de pressão evolutiva: a fome, as infeções, nos períodos pré-natais, e as mortes violentas, quer por predadores quer por conflitos. Depois a sociedade mudou. Temos mais abundância de comida, uma resolução das infeções, graças às vacinas e antibióticos, e uma diminuição brutal da violência intraespécies – o que nos ameaça já não é tão físico, é mais psicológico.

O mecanismo fisiológico continua a reagir, mas a outros fatores…
Chegámos a uma sociedade muito ansiosa. Estamos sempre a correr contra o tempo, com medo do que nos pode acontecer se ficarmos desempregados, se não conseguirmos responder às solicitações no trabalho, se não formos bons pais, se não conseguirmos gerir as nossas relações. Temos um problema com o sistema ansioso, que foi montado para fugirmos depressa, do ponto de vista físico, quando na realidade temos é de fugir do relógio.

Paradoxalmente, há menos razões para estarmos ansiosos, mas a velocidade do nosso tempo leva-nos a reagir de forma patológica?
Do ponto de vista material vivemos melhor do que nunca. Deveríamos estar melhor, mas, de facto, hoje os nossos leões são os moinhos de vento, os nossos próprios pensamentos, preocupações. Isso é muito provocado pela forma de organização da sociedade, que anda contra o tempo, e tem consequências negativas para a nossa saúde.

Quando a ansiedade se torna patológica?
É comum as pessoas, que vão ter um exame importante ou alguma situação mais exigente, se sentirem ansiosas. Isso vai melhorar o desempenho delas nessa tarefa, mas pode ser um problema em duas situações: quando é tão grande que, em vez de ser protetora e otimizadora da performance, vai prejudicá-la, pelo que se traduz em incapacidade; ou quando, mesmo que moderada, se mantém durante um tempo excessivo e já não tem relação com aquilo que está a acontecer.

Os sintomas podem ser incapacitantes?
Uma pessoa que está permanentemente preocupada e, por causa disso, dorme mal, tem alterações no seu comportamento alimentar e sente no corpo uma série de sintomas, gastrointestinais, dores de cabeça ou musculares, pode ver-se muito limitada na sua vida, inclusive nas relações familiares, na capacidade de trabalhar e de desfrutar dos momentos de lazer. Falamos das situações mais graves, e muitas vezes a pessoa está em sofrimento, tem uma incapacidade de usufruir da vida, mas esforça-se de forma estoica para continuar a funcionar. E este funcionar em banho-maria tem consequências muito negativas, não só porque é algo penoso mas também porque no seu cérebro estão a estruturar-se alterações que depois são mais difíceis de reverter com o tratamento. Temos de olhar para estas pessoas e proporcionar-lhes um tratamento adequado.

Portugal está entre os três países europeus com maior prevalência de perturbações de ansiedade.
Há muitas razões que contribuem para isso. As doenças ansiosas estão relacionadas com fatores de organização da sociedade e também com fatores culturais. Não há nenhuma razão biológica para os portugueses serem diferentes e terem maior prevalência de perturbações de ansiedade. Isto tem que ver com as desigualdades laborais e socioeconómicas, que ainda persistem e que têm um impacto muito grande na doença mental. Nas questões relacionadas com a educação e com a literacia, somos dos países europeus com maior atraso, o que influencia a forma como as pessoas percecionam a vida e a doença. Quanto aos fatores culturais, somos uma sociedade que é muito marcada pela aceitação passiva, lidamos com as dificuldades como se fossem algo que não podemos alterar, o que também contribui para um estado de maior ansiedade. Há ainda as diferenças de género. As doenças ansiosas afetam muito mais as mulheres do que os homens, e isso está relacionado com os papéis de género muito vincados na nossa sociedade.

Seríamos uma sociedade mais equilibrada se combatêssemos estas desigualdades?
Esse é um dos caminhos que vamos ter de percorrer para melhorar os nossos indicadores da saúde mental: combater as desigualdades económicas, em primeiro lugar, as diferenças que existem entre os muito pobres e os muito ricos. Temos também de aprimorar as formas de organização da vida familiar, como uma partilha mais equitativa das tarefas, bem como as formas de organização laboral, com uma melhor compatibilização entre a vida pessoal e a vida laboral, e ainda aumentar a literacia em saúde mental, o conhecimento que as pessoas têm acerca do funcionamento psicológico do ser humano para, dessa forma, poderem identificar mais cedo os recursos disponíveis quando estão em sofrimento. Nem sempre sofrimento significa doença. Quando é bem gerido, estamos a evitar a progressão para um estado de doença.

Os portugueses procuram ajuda tardiamente?
Em regra, a maioria das pessoas com doença psiquiátrica tende a procurar ajuda mais tarde do que era desejável. Nos países em que a literacia é mais baixa, esse atraso é maior. Em Portugal, ainda há um caminho a fazer.

Vivemos um contexto particularmente difícil, com a pandemia, a guerra, a crise económica…
Existe a convicção de que haverá um aumento das doenças psiquiátricas. O ser humano viveu sempre em crise, para o bem e para o mal, e temos de olhar para estas crises sempre de um ângulo muito relativo. É óbvio que a pandemia nos pôs perante desafios inimagináveis e que a guerra comporta situações de sofrimento, difíceis de gerir. Mas a maioria das pessoas tem os recursos necessários para se adaptar e ultrapassar estas situações. Mais do que isso: o sofrimento é, ele próprio, um meio de adaptação.

A pandemia pôs em evidência as doenças mentais.
Não sei se estamos mais doentes, mas estamos mais atentos à doença, e isso é muito positivo. A sociedade trabalhou para desestigmatizar a doença. Todos nós sentimos, mais ou menos, sofrimento psicológico e tivemos de nos confrontar com ele, perceber o que significava e ganhar capacidade de empatizar com aqueles que estão efetivamente doentes.

As doenças ansiosas afetam muito mais as mulheres do que os homens, e isso está relacionado com os papéis de género muito vincados na nossa sociedade

Isso também obrigou o poder político a olhar com mais atenção para a doença mental?
O movimento foi anterior à pandemia, mas a sociedade como um todo confrontou o poder político com a importância de se investir em saúde mental. Temos hoje o maior investimento em saúde mental alguma vez feito em Portugal – 80 milhões de euros via Plano de Recuperação e Resiliência, mas não se esgota aí –, e isto é verdadeiramente histórico e importante.

O que está a ser feito?
Além de estarmos a investir na melhoria e no aumento do internamento nas situações mais graves, estamos a mudar o modelo de trabalho. Passámos de um modelo muito centrado nas consultas entre um profissional e uma pessoa com doença, para um em que as pessoas estão a beneficiar de intervenções multidisciplinares, que incluem psiquiatras, psicólogos, terapeutas ocupacionais, assistentes sociais, enfermeiros… Estas equipas vão trabalhar mais perto das pessoas, não só nos hospitais mas também em rede, junto das instituições que existem na comunidade. Temos 20 equipas-piloto comunitárias em funcionamento ou em constituição e outras 20 serão constituídas nos próximos dois anos.

O abuso dos fármacos é provocado pela falta de acesso à psicoterapia?
Temos bom acesso a médicos de família, capazes de tratar a ansiedade do ponto de vista farmacológico, mas ainda nos faltam respostas para a acessibilidade à psicoterapia. Por vezes, por causa desta limitação, a medicação passa a ser a única opção, o que não significa que seja uma má opção. É claro que não consigo excluir que haja situações que estejam excessivamente medicadas no sistema, mas isso não é um exclusivo das doenças psiquiátricas. É uma forma de estigmatização estar sempre a falar do excesso de medicação. Na diabetes ou na hipertensão, é um critério de boa prática o número de pessoas adequadamente tratadas com fármacos. Na psiquiatra, transmite-se a ideia de que a má prática é tratar bem as pessoas. Isto tem que ver com o estigma de se pensar que a doença psiquiátrica não é uma doença como as outras, pensando-se que, se a pessoa que sofre de ansiedade fizer um esforço, ela consegue ultrapassar esta doença – mas não consegue. Se somos dos países da Europa com mais perturbações ansiosas e depressivas, é normal que também sejamos dos países que usam mais fármacos.

Há cada vez mais crianças e jovens com perturbações de ansiedade?
Sim, tem muito que ver com o meio em que crescem, seja familiar seja escolar. Quando temos uma sociedade muito competitiva, que deposita demasiado valor na imagem ou na publicitação de estilos de vida que não são sustentáveis, em que as redes sociais servem de megafone de pequenos momentos que dão a imagem de que são a vida da pessoa… parece que a tristeza não faz parte da vida, mas esta é normal, adaptativa e ajuda-nos a crescer e a estarmos mais preparados para o futuro. Toda esta magnificação da alegria ilimitada faz com que a ansiedade interna de crianças e adolescentes seja favorecida.

Como podemos protegê-los?
Através da mudança do modelo de ensino, que é centrado na aquisição de uma série de competências muito cognitivas (e bem), mas que exclui ou não valoriza outras competências. Precisamos de valorizar mais as competências relacionais e emocionais na formação, bem como a diversidade no contexto escolar. As escolas ainda são espaços de muita formatação de pessoas. Há tempos li uma frase muito acertada: “As crianças chegam à escola como pontos de interrogação e saem como pontos finais.” É isto que temos de mudar. Esta mudança não é só uma responsabilidade da escola; as famílias têm de tirar o peso da competitividade de cima das crianças.

Há cada vez mais figuras públicas a falar dos seus problemas de saúde mental. Isso ajuda a combater o estigma?
É importantíssimo. Quer queiramos quer não, as figuras públicas chegam a muitas pessoas e são fatores identitários para diferentes grupos. Sabermos que, em todos os estratos sociais, há pessoas com problemas de saúde mental acaba por ser reconfortante e dar força, àqueles que estão em sofrimento, para procurarem ajuda – e ajuda, àqueles que estão à sua volta, a compreender que uma doença psiquiátrica não é um sinal de fraqueza, não é um sinal de que as pessoas não possam sentir-se realizadas e seguir o seu sonho; é apenas uma dificuldade adicional com que têm de lidar, mas que pode ser tratada. As figuras públicas não podem é desviar-nos de uma ideia essencial: os mais pobres, os mais invisíveis, são ainda mais vulneráveis à doença psiquiátrica e aos problemas de saúde mental.

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