“Antes de ler a ‘Antígona’, o professor precisa de avisar que há um suicídio, porque o estudante pode não querer ser violentado pelo texto? Esta hipervitimização leva à formação de indivíduos não responsáveis”

“Antes de ler a ‘Antígona’, o professor precisa de avisar que há um suicídio, porque o estudante pode não querer ser violentado pelo texto? Esta hipervitimização leva à formação de indivíduos não responsáveis”

Como figuras de eleição, em resposta ao questionário de Proust, proposto pelo Diário de Notícias no último verão, escolheu a chanceler Angela Merkel, o cônsul Aristides de Sousa Mendes e a filósofa Edith Stein. “Têm todos uma ligação a algo que tem muito que ver com a minha formação, a fidelidade aos princípios”, justifica Isabel Capeloa Gil, 56 anos, a germanófila que, desde 2016, assume o cargo de reitora da Universidade Católica Portuguesa. No mês passado, inaugurou a nova Faculdade de Medicina, a primeira do setor privado no País.

A primeira pergunta não é para a reitora, é para a investigadora: a que se deve esta voragem humana pelo conhecimento?
O conhecimento é um processo que tem como objetivo a melhoria das condições de vida, estando estas não apenas centradas no ser humano mas também no respeito pelo ambiente. Não numa lógica predatória, de imposição à Natureza, mas de compreensão daquilo que são os fenómenos naturais. Costumo citar Francis Bacon, que esteve na origem do método experimental do século XIX: ele dizia que a função da Ciência era melhorar a condição humana e, portanto, não contribuir para a destruição. É verdade que, às vezes, perdemos um pouco este horizonte. Ainda há pouco lia uma afirmação de Margrethe Vestager, a comissária europeia para a concorrência, sobre a necessidade de interagirmos essa melhoria no que se refere aos processos de desenvolvimento de Inteligência Artificial, a qual, se não for bem utilizada, pode ter um efeito absolutamente danoso.

Na pandemia, a Ciência, com todos os seus avanços e recuos, esteve muito presente no dia a dia. Isto permitiu reforçar a sua importância?
Sim, sobretudo porque foi uma demonstração clara de que as instituições científicas, as universidades, os laboratórios, as grandes empresas e as farmacêuticas estavam preparados para produzir produtos que tiveram um efeito de mitigação e de combate à pandemia.

A colaboração entre os cientistas tornou esse processo inédito?
A Ciência, por natureza, é colaborativa e cosmopolita. Há uma lógica política das nações que não é a lógica dos cientistas. No século XIX, Goethe já dizia que não existe Ciência patriótica. E isto é interessante, porque os projetos das universidades, sobretudo na universidade moderna que nasceu do modelo alemão, estão muitos ligados à afirmação da Nação. Claro que as instituições científicas são um poderoso acelerador da capacidade de projeção do poder dos países, mas a prática científica faz-se de forma comunitária, através da interação e da colaboração. Quer a União Soviética quer o Estado nacional-socialista utilizaram os mecanismos da Ciência para processos de manipulação do conhecimento, para fins contrários ao que são estes princípios…

Do bem comum?
Exato, do bem comum.

Escreveu há pouco um artigo sobre como a experiência da pandemia veio reforçar a importância do contrato social. Vê sinais deste recentramento?
Vivemos num tempo em que é muito fácil pôr a circular narrativas falsas, que têm o efeito de descredibilizar, causar a incerteza, aprofundar a ansiedade das populações. Mas, nos momentos de crise, é absolutamente essencial reafirmar aquilo que são os princípios básicos do contrato social e do respeito pelo Outro, os valores essenciais das sociedades democráticas. Tem muito que ver com a tal prossecução do bem comum. Tivemos situações extraordinárias na sociedade civil como, por exemplo, a dinâmica criada por um grupo de jovens que, durante os surtos nos lares, se organizou para acompanhar os idosos, quando as equipas dos cuidadores estavam contaminadas.

Que papel podem ter as universidades, além de contribuir para o conhecimento?
A universidade é uma instituição central para a coesão das sociedades, porque capacita profissionais mas também educa cidadãos. Aliás, só formando pessoas é que podemos ter profissionais competentes. Formar pessoas significa fornecer-lhes os instrumentos para poderem gerir a própria vida com espírito crítico, terem a capacidade de eleger os seus caminhos, as competências para poderem escolher, de forma responsável, aquilo que vão ser ao longo da vida. Aquele discurso de que os indivíduos estão ao sabor das decisões dos outros é terrível: o “eles” – o governo, a igreja, a empresa… – é uma expressão retórica terrível na Língua Portuguesa. Somos cocriadores do nosso destino.

Na inauguração da Faculdade de Medicina, falou na necessidade de haver um novo paradigma de ensino da Medicina em Portugal. Que paradigma é este, privado?
O facto de termos uma instituição não estatal a formar médicos, que é algo natural em todo mundo, revela que há de facto uma mudança de paradigma institucional. Mas não me referia apenas a isso. É fundamental ter um modelo pedagógico de formação que acompanhe a evolução do estudante de forma muito próxima e que reconheça os ritmos diferenciados das aprendizagens. Aquele chavão do “aprender a aprender” é fundamental neste curso. O modelo de Maastricht, o modelo pedagógico que estamos a usar, de aprendizagem baseada em problemas, assenta muito, para lá do sistema tradicional das aulas em seminários, numa aprendizagem acompanhada por tutores.

A realidade da Medicina está a mudar?
O corpo humano tem modelos fisiológicos de reação que são padronizados e que todos têm de aprender, mas a forma como se tratam as patologias vai evoluindo constantemente, e por isso o médico está sempre em formação durante a sua prática enquanto clínico. Desde o primeiro momento que estes estudantes são incentivados, não tanto a decorar todos os ossos do corpo, como n’A Canção de Lisboa [risos], mas a se integrarem nesta lógica de aprendizagem constante, de autoaprendizagem e de autossuperação. Há ainda outra questão de que tenho falado: existe uma parte muito importante da Medicina que é relacional, que se traduz em comunicar de forma coerente e, ao mesmo tempo, em perceber aquilo que são as ansiedades do paciente. Há coisas tão simples quanto isto: quando um doente entra no consultório, qual é a primeira coisa que o médico deve fazer? Apresentar-se, dizer quem é.

Existe uma parte muito importante da Medicina que é relacional, que se traduz em comunicar de forma coerente e, ao mesmo tempo, em perceber aquilo que são as ansiedades do paciente

Portugal precisa de mais médicos?
Os modelos para aferir o número de médicos necessários estão a mudar. E têm mesmo de mudar: podemos ter os mesmos números, mas temos populações com muito mais patologias. Mais idosas, claro, mas, mesmo entre os mais jovens, temos outra atenção relativamente à saúde, ao equilíbrio, à prática de uma vida saudável. Não se vai ao médico apenas quando há uma dor, mas para se melhorar a própria condição. Por isso a Medicina é preventiva e não só reativa face à doença. Tudo isto significa que, cada vez mais, vamos necessitar de médicos.

Mas não temos a capacidade de reter todos os alunos que querem ser médicos. Na República Checa, um estudante português disse-lhe…
Uma coisa terrível de que nunca mais me esqueci: “O meu país não me quis.” São ótimos alunos, com ótimas médias, querem fazer Medicina por vocação e têm, relativamente a Portugal, uma sensação de rejeição. São talentos que estamos a desperdiçar. Por outro lado, a geração que hoje está nas universidades cresceu numa Europa aberta, onde a circulação é quase um dado adquirido. É natural que queiram ter uma experiência internacional, e isso não é, de todo, mau para o País. O que é mau é se o País não consegue atrair também estudantes internacionais.

Fora do mundo ocidental, também assistimos a situações – como no Afeganistão – em que as mulheres são impedidas de ir à escola. O que podemos fazer?
No Afeganistão, tudo correu mal, desde o primeiro momento. Há, de facto, uma dificuldade da Europa e do mundo, que remonta já ao tempo do Império Britânico, em compreender aquela realidade rural. Nos últimos 20 anos, com todos os erros que foram cometidos, houve uma abertura progressiva da sociedade, com a emancipação das mulheres em cargos políticos, nas escolas e nas universidades. O que podemos fazer? Creio que podemos pôr em prática projetos de apoio à integração de mulheres refugiadas. Aqui, na Católica, trabalhamos com a rede Aga Khan e estamos disponíveis para receber estudantes e também para encontrarmos algumas posições que possamos oferecer a mulheres que vieram com as famílias.

No ano passado, a Católica foi uma das universidades que tiveram nos seus muros pichagens racistas e xenófobas. Como reagiu?
Fizemos uma queixa ao Ministério Público e a polícia levou todos os registos das câmaras. Trata-se de um ato de discriminação racial que é punido por lei. Em primeiro lugar, não é representativo da sociedade portuguesa. Em segundo lugar, é um ataque à ideia da universidade enquanto espaço aberto, sem muros, inclusivo. Para nós, isso é crucial: a universidade é um espaço onde todos, independentemente da crença, da raça e do género, se sentem seguros; um espaço de diálogo, de defesa da integridade dos valores da pessoa.

Vivemos tempos de intolerância em que, por vezes, o diálogo não é possível?
Essa é uma pergunta muito difícil. Trabalho em estudos culturais há muitos anos, é a minha área de investigação. A posição cultural é a do diálogo mesmo, mesmo…

Em situações-limite?
Mesmo em situações-limite, quando a pessoa com quem dialogamos nos quer destruir. A posição verdadeiramente cultural é esta: eu hei de lutar sempre para que aquele que não quer que eu exista tenha o direito à palavra. Isto não é fácil e implica alguma assertividade. Também é nesse sentido que leio a catolicidade enquanto valor. Edward Said, um autor palestiniano que foi professor na Universidade de Columbia, fala justamente no sentido de catolicidade do espírito humanista. E as apropriações da tradição humanista numa lógica de intolerância são uma negação deste princípio.

Nas universidades norte-americanas, temos assistido a muita discussão sobre as questões do politicamente correto e das guerras culturais, para tentar dominar o pensamento livre. O que pensa sobre isto?
Há duas situações. Em primeiro lugar, muitos destes movimentos começam com uma agenda de justiça social, de afirmação dos direitos de minorias que não têm representação no espaço da universidade para serem ouvidas. O Black Lives Matter está muito ligado ao racismo estrutural, sistémico, que inegavelmente existe na sociedade norte-americana. Em segundo lugar, o perigo é que estes legítimos interesses ou reivindicações de justiça social se transformem naquilo que, hoje, é chamado woke culture: que é um awakening [despertar], mas que no fundo é um silenciar de todas as vozes que não sejam aquelas de uma agenda que se torna cada vez mais radical e que, por exemplo, leva ao silenciamento académico de obras da tradição intelectual. Grécia e Roma não eram cidades perfeitas, tinham escravatura e todo o tipo de discriminação, diferenças sociais e modelos conflituais, mas temos de entendê-las nesse contexto. Não podemos é proclamar que, hoje, não podemos ler Tucídides. Antes de ler a Antígona, de Sófocles, o professor precisa de avisar que há um suicídio, porque o estudante pode não querer ser violentado pelo texto? Esta hipervitimização leva à formação de indivíduos não responsáveis. O mundo tem dimensões luminosas e obscuras com as quais é necessário ter contacto, como é o caso da realidade brutal do genocídio, do Holocausto, do genocídio arménio…

Faz parte da formação?
Sim, quem obscurece, quem não conhece aquilo que são as contradições do passado pode cometer muito mais atos deste tipo no futuro. Se nunca forem confrontadas com essas realidades, as pessoas não conseguirão encontrar mecanismos para lidar com isso. Estamos a criar uma sociedade em que todos são vítimas e acusam os outros de criminosos e de predadores, e isso é altamente destrutivo.

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