World Press Photo: A fotografia do ano e todas as imagens premiadas
Vestidos pendurados ao longo de uma estrada para homenagear crianças mortas, um bêbado, cães de olho na carne um talho, indígenas em fila num aeroporto, o desespero de um despejo. O World Press Photo 2022, marcado pela diversidade de perspetivas dos fotojornalistas de todas as partes do mundo, traz-nos, como sempre, imagens fortes, únicas, impossíveis de observar com indiferença. Todos os vencedores aqui
As causas, os movimentos, as manifestações e os alertas: são vários os alvos das fotografias vencedoras do World Press Photo de 2022, o concurso anual que atribui a maior e mais prestigiada distinção de fotojornalismo do mundo.
O prémio de Fotografia do Ano vai para Amber Bracken do New York Times. Na imagem, observam-se vestidos vermelhos pendurados em cruzes ao longo de uma estrada, homenageando as crianças que morreram na Kamloops Indian Residential School, uma das instituições que fazia parte do sistema de internatos para indígenas no Canadá.
Estas escolas residenciais começaram a funcionar no século XIX como parte de uma política de assimilação de pessoas de várias comunidades indígenas na cultura ocidental e predominantemente cristã. “Os alunos eram retirados das suas casas e dos pais – muitas vezes à força – e muitas vezes proibidos de comunicar nos seus próprios idiomas. Os seus cabelos eram cortados curtos e tinham que usar uniformes, em vez de roupas tradicionais dos seus países, recebiam nomes euro-cristãos no lugar dos seus e eram sujeitos a abuso físico e às vezes sexual”, lê-se na descrição da imagem. Segundo a presidente do Supremo Tribunal do Canadá, Beverley McLachlin, o país usou as instituições para cometer genocídio cultural. Mais de 150 mil crianças passaram por estes internatos antes de o último fechar em 1996.
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Amber Bracken tem um trabalho pessoal em andamento que analisa como o trauma intergeracional das Escolas Residenciais continua a impactar os jovens que nunca tiveram de as frequentar, e também como a forma de lidar com isso é transmitida entre as gerações.
“Esta é uma imagem que fica gravada na memória, inspira uma espécie de reação sensorial. Eu quase podia ouvir a quietude nesta fotografia, um momento tranquilo de avaliação global da história da colonização, não apenas no Canadá, mas em todo o mundo”, declara um membro do júri, Rena Effendi.
História do Ano
Além da fotografia do ano, existe ainda o prémio para História do Ano, ganho por Matthew Abbott, da National Geographic. A série de imagens mostra os indígenas australianos a queimar estrategicamente a terra, uma técnica que faz com que o fogo se mova lentamente, queimando apenas a vegetação mais rasteira para diminuir a fonte de alimentação das chamas maiores.
O povo Nawarddeken de West Arnhem Land, na Austrália, faz este tipo queimadas controladas há dezenas de milhares de anos e vê o fogo como uma ferramenta para gerir a sua terra natal de 1,39 milhões de hectares. Os guardas da Warddeken combinam o conhecimento tradicional com as tecnologias contemporâneas para evitar incêndios florestais, diminuindo assim o CO2 libertado.
“Foi tão bem montado que nós nem conseguimos pensar nas imagens de maneiras díspares. Olhamos para isso como um todo, e foi uma narrativa perfeita”, considera Rena Effendi.
Projetos de Longa Duração
A floresta da Amazónia está sob grande ameaça e foi com esse princípio que Lalo de Almeida, da Folha de São Paulo criou o projeto Distopia Amazónica, que lhe deu o prémio na categoria de Projetos de Longa Duração.
O ritmo da desflorestação aumenta à medida que a mineração, o desenvolvimento de infraestruturas e a exploração de outros recursos naturais ganham força sob as políticas ambientalmente regressivas do presidente Jair Bolsonaro. A exploração da Amazónia tem uma série de impactos sociais, principalmente sobre as comunidades indígenas que são obrigadas a lidar com a significativa degradação do seu meio ambiente, bem como do seu modo de vida.
A sequência de fotografias de Lalo de Almeida “retrata algo que não tem apenas efeitos negativos na comunidade local, mas também globalmente, pois origina uma reação em cadeia a nível global”, aprecia a jurada do concurso.
Projetos de Formato Livre
Através de histórias pessoais, o projeto O Sangue é uma Semente (La Sangre Es Una Semilla) de Isadora Romero, ganhou o prémio de melhor produção de formato livre. O filme questiona o desaparecimento de sementes, a migração forçada, a colonização e a consequente perda de conhecimento ancestral. O vídeo é composto por fotografias digitais e cinematográficas, algumas das quais foram desenhadas pelo pai de Romero.
Numa viagem à sua aldeia ancestral de Une, Cundinamarca, Colômbia, Romero explora as memórias esquecidas da terra e das plantações e aprende sobre o seu avô e bisavó, que eram ‘guardiões de sementes’ e cultivavam várias variedades de batatas.
“Há tantas camadas nesta narrativa em termos de uso de áudio, vídeo, fotos e sequencias”, refere Clare vander Meersch, membro do júri global e presidente do júri da América do Norte e Central.
Prémios por Regiões
Além das categorias principais, o 65º concurso do World Press Photo premiou os vencedores regionais – Áfria, Ásia, Europa, América do Norte e Central, América do Sul e Sudeste Asiático e Oceania – para cada uma das quatro categorias; Singles, Stories, Projetos de Longa Duranção e Formato Livre.
“É emocionante ver como o novo concurso regional produziu as mudanças que esperávamos. Mudanças que acreditamos oferecer diferentes perspetivas e uma conexão mais profunda com o fotojornalismo e a fotografia documental de todo o mundo”, congratula-se Joumana El Zein Khoury, diretora executiva da World Press Photo Foundation.
Este ano, os vencedores foram escolhidos entre 64.823 fotografias e inscrições em formato aberto, por 4066 fotógrafos de 130 países.