A pandemia não afetou homens e mulheres da mesma maneira. O facto de alguns dos setores mais penalizados terem um peso maior de mão de obra feminina, fez com que as trabalhadoras sentissem mais o impacto da crise. Segundo a Organização Internacional do Trabalho, em 2021 ainda haverá menos 13 milhões de mulheres empregadas do que em 2019, enquanto o emprego masculino já terá regressado aos níveis pré-crise. Essa desigualdade também chega ao trabalho remoto, com uma partilha frequentemente desigual das tarefas domésticas. Agora que se começa a antecipar o regresso ao escritório, há algum receio de que as mulheres sejam duplamente penalizadas. Caso se confirme que regressarão em números mais baixos ao regime presencial, poderemos ter locais de trabalho mais masculinos, arriscando reverter parte dos ganhos dos últimos anos.
Uma sondagem a mais de dois mil gestores e trabalhadores britânicos mostrava que mulheres com filhos tinham maior vontade de ficar a trabalhar a partir de casa, pelo menos um dia por semana, em comparação com homens com filhos. Seulki “Rachel” Jang, professora de Psicologia Organizacional da Universidade de Oklahoma, diz à EXAME que acredita que este cenário acabará por se concretizar e teme as consequências para as organizações, que terão um grande desafio do desconfinamento: não penalizar ou beneficiar quem escolha regimes de trabalho diferentes.
Na sua edição de setembro, a EXAME publicou algumas respostas de Jang, cuja entrevista colocamos aqui em baixo na sua versão completa, incluindo algumas sugestões para mitigar estes riscos.
A investigação e os dados sugerem que as mulheres podem hesitar mais em regressar ao escritório?
Na literatura existente há falta de investigação que diga que as melhores são mais relutantes em regressar ao escritório. Contudo, eu acredito que isso é verdade. Em primeiro lugar, com base na teoria do papel social do género, as mulheres podem sentir-se mais responsáveis por lidarem com questões relacionadas com a família e estarem afastadas de casa podem fazê-las sentirem-se culpadas. Em segundo lugar, os investigadores concluíram que as mulheres sentiram maior stress e tensão psicológica durante a pandemia em comparação com os homens. Com esses níveis mais elevados, as mulheres podem não se sentir preparadas para regressar ao escritório, onde precisam de interagir com outros e esconder esse stress. Em terceiro lugar, em geral, as mulheres ganham menos do que os homens e essa consideração financeira pode ter um papel na aceitação de trabalho remoto. Quando um casal em que ambos trabalham precisa de resolver algum assunto familiar urgente, é mais provável que quem ganha menos tire algum tempo e trate dessas questões. Devido a esta desigualdade, as mulheres podem ficar inclinadas a escolher o trabalho remoto para terem a flexibilidade de lidarem com questões familiares. Ao mesmo tempo, os homens podem ter mais vontade em regressar ao escritório para corresponder às expectativas de género na sociedade, que vê os homens como pertencentes ao escritório e as mulheres à casa. Isso pode pressionar mais os homens a regressarem.

Se isso se concretizar, há o risco de o escritório se tornar um espaço mais masculino? Isso pode penalizar mais as carreiras das mulheres?
Se mais homens do que mulheres regressarem ao escritório, antecipo que a desigualdade de género aumentará mais no trabalho e em casa. Quando os trabalhadores regressam ao escritório, eles tendem a beneficiar profissionalmente. Por exemplo, podem ser capazes de se concentrar melhor, sem serem distraídos por questões domésticas e potencialmente sendo capazes de mostrar um melhor desempenho. A sua capacidade de execução e conquistas serão também mais visíveis e reconhecidas por superiores e colegas, o que é importante para decisões de recursos humanos, como promoções, aumentos e despedimentos. Além disso, ao trabalhar no escritório, terão mais interações sociais e serão capazes de estabelecer laços mais fortes dentro da organização, o que lhes dará mais influência e poder. Isto pode também exacerbar a desigualdade de género e diferenças salariais. Mais: se os homens tiverem mais promoções e aumentos do que as mulheres, será mais provável que façam mais dinheiro e sejam a principal fonte de rendimento da família. Se um assunto familiar sério surgir e uma pessoa precisar de reduzir o seu horário de trabalho ou despedir-se, uma mulher que receba menos terá mais probabilidades de reduzir essas horas ou abandonar o emprego. Isso colocaria mais responsabilidades familiares sobre os ombros das mulheres.
[No escritório] a capacidade de execução e conquistas serão mais visíveis e reconhecidas por superiores e colegas, o que é importante para decisões de recursos humanos, como promoções, aumentos e despedimentos
O que podem os gestores e as organizações fazer para limitar esses efeitos?
É necessário um esforço coletivo, ao nível individual, organizacional e em toda a sociedade. Ao nível individual, os casais devem considerar adotar estratégias de equidade de género em relação a decisões acerca de trabalho remoto e divisão de tarefas. Por exemplo, os casais podem alternar os dias de trabalho para haver uma divisão justa das tarefas em casa, o que também pode melhorar o seu bem-estar. Ao nível organizacional, os gestores devem estar atentos às diferentes experiências entre homens e mulheres e dar maior flexibilidade e apoio às trabalhadoras. Isso pode ajudá-las a obter melhores resultados, mais reconhecimento, o que as beneficiará nas decisões de recursos humanos e a ter melhores interações sociais, diminuindo a desigualdade de género no trabalho. Na sociedade, o legislador podem considerar opções para que as organizações não discriminem contra o trabalho remoto. Esse tipo de lei pode proteger as mulheres de serem injustamente avaliadas ou perderem promoções e oportunidades de aumentos porque trabalham de casa, com mais responsabilidades domésticas. Estes esforços coletivos podem ajudar a reduzir a desigualdade de género durante e depois da pandemia.
Embora os riscos existam, trabalhar a partir de casa não pode também criar oportunidades, oferecendo mais flexibilidade? Carreiras que, no passado, talvez fossem interrompidas, agora poderão não ser.
Claro. As mulheres poderão conseguir um melhor equilíbrio entre o trabalho e a vida familiar e estarem mais satisfeitas com o seu emprego. No entanto, é preciso lembrar que nem todos os empregos podem oferecer essa flexibilidade. Essa tendência poderá reforçar a polarização entre géneros no mercado de trabalho. Por exemplo, empregos na indústria, que não têm a opção de trabalho remoto, podem ser mais dominados que nunca pelos homens.