À entrada para a “úúúúúúúúltima vooooltaaaaa” o speaker João Peres já não consegue estar sentado. Nem ele nem os jóqueis, agora apenas com os pés assentes nos estribos e debruçados sobre a crina dos cavalos, que galopam a grande velocidade. De pingalim na mão, cada um dos cavaleiros tenta acicatar as montadas para um derradeiro esforço. As quadras avançam agrupadas para a curva final e a prova vai acabar decidida à justa, mesmo em cima da linha de chegada. Ulicy Maker, um puro sangue inglês de sete anos, nascido em França, é o primeiro a cortar a meta. O jóquei ergue o braço a celebrar a vitória e dá mais uma volta à pista, tal como os restantes adversários, para acalmar os cavalos.
Noutras paragens o cavaleiro poderia até sair em ombros ou, pelo menos, ovacionado por uma multidão em delírio. Aqui a realidade é bem diferente. Sorridente, com a sensação de dever cumprido, Marino Gomes pega na sela e segue os restantes adversários até à improvisada sala de controlo de pesagens para verificar se não corria com peso a menos. Já mais calmo, Ulicy Maker segue também ele devagar, ao lado de Joaquim Oliveira, o proprietário e treinador do cavalo, para o controlo antidoping.
No hipódromo municipal da Maia, na freguesia de Nogueira-Silva Escura, como nos restantes espalhados pelo País, tudo é feito com o maior profissionalismo mas… por carolice. Não há lugar para glamorosos desfiles de chapéus ou de fatiotas a preceito, como em Ascot, em Inglaterra, ou bancadas vibrantes, com mais de cem mil pessoas a assistir, como em Longcham, nos arredores de Paris, onde se realiza anualmente o Grand Prix de L’Arc de Triomphe, umas das mais conceituadas corridas de cavalos do mundo. Desta vez, por exemplo, não foi sequer necessário montar as bancadas amovíveis porque os espetadores não chegavam às duas centenas.
A melhor forma de perceber a diferente realidade entre Portugal e o resto dos vizinhos continentais é ler o estudo que a European Pari Mutuel Association (EPMA) realizou, em 2009, em parceria com a McKinsey and Company, para perceber “O Contributo Económico e Social das Corridas de Cavalos na Europa”. Aí se conclui que estas, através da contribuição das apostas hípicas, empregavam 300 mil pessoas e geravam receitas de seis mil milhões de euros ao ano.
Em Portugal, e fruto também do papel da Pari Mutuel Urbaine (PMU), a empresa francesa líder mundial de apostas hípicas, e com a qual o Governo reuniu diversas vezes para perceber o sucesso do modelo, a realidade parece prestes a mudar. Com a aprovação do regime jurídico da exploração e prática das apostas hípicas de base territorial, que passam a ser geridas pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, “as expectativas são muito grandes”, afirma Ricardo Carvalho. Para o presidente da Liga Portuguesa de Criadores e Proprietários de Cavalos de Corrida, cujas estimativas apontam para que as apostas venham a gerar perto de 300 milhões de euros por ano e a criação de seis mil postos de trabalho, diretos e indiretos, o que está em jogo é o desenvolvimento do setor agrícola, nomeadamente no que diz respeito à fileira do cavalo, para a qual deverá ser destinada parte dos 27,62 por cento de lucros em apostas que cabem ao Estado. “Desde os criadores de cavalos, passando pelos treinadores, jóqueis, veterinários, ferradores, moços de cavalariças, até à própria produção de alimento para os animais… há aqui um mundo por abrir e as apostas podem dar de comer a todos”, assevera.
Vítor Malheiro, cronista da revista Equitação e especialista nas corridas de cavalos, não está tão otimista, pois não vê como tudo poderá funcionar em velocidade de cruzeiro antes de três a cinco anos. “Ainda falta publicar algumas portarias, nomeadamente a que vai definir a construção dos três hipódromos, um a norte, outro a centro e outro a sul”, explica. “E depois há que perceber exatamente qual o modelo em que vão assentar as apostas que, defendemos todos, deverá ser o francês, de matriz mutualista.”
A brincar… mas a sério
Considerado um país em vias de desenvolvimento pelas associações internacionais da qual faz parte, como a European Horseracing Federation ou a IFHAR – a federação de cavalos de puro sangue árabe -, Portugal captou já a atenção do canal francês Equidia, que esteve recentemente por cá a conhecer o potencial do mercado. E o que viu foi uma atividade completamente amadora mas gerida com enorme profissionalismo. Estamos ainda muito longe da realidade de Ascot, por exemplo, onde o montante de prémios para a edição deste ano quase atingiu os oito milhões de euros. E em Espanha, onde a modalidade atravessa agora um período mais complicado devido a questões políticas e autonómicas, Marino Gomes, um dos poucos jóqueis profissionais que por lá competiu durante dez anos, “tinha um salário na ordem dos 1 300 euros e depois, no dia das corridas, recebia 66 euros por cada monta e 10 por cento do prémio que alcançasse”. Os valores mínimos rondam os dez mil euros por cada prova, com o vencedor a encaixar cerca de quatro mil. Por cá, na sexta etapa do campeonato nacional, as sete provas – quatro de galope e três de trote atrelado – não chegavam a um valor total de 4 500 euros em prémios, parte dele conseguido com as inscrições na prova e o restante com patrocínios e uma parca bilheteira.
A paixão do ‘senhor corridas’
Na Quinta de Santa Justa, paredes-meias com o hipódromo da Maia, Ricardo Duarte tem 45 cavalos (dezassete dele e os restantes de outros aos quais aluga as boxes). ?A empresa dá aulas de equitação a cerca de 120 alunos e recorre a inúmeros serviços externos, como os de Rodrigo Silva, cidrotécnico – ou ferrador, em linguagem que se entenda – há mais de vinte anos, e que todas as semanas é chamado a colocar ‘calçado’ novo e a aparar os cascos dos equinos. “Não falta gente para trabalhar nem trabalho para lhes dar, assim venham as apostas… O negócio pode aumentar, e muito”, acredita Ricardo Duarte. O sócio, Joaquim Armando, acena com a cabeça, em sinal de concordância. Com seis animais de galope, é um dos poucos que vive quase em exclusivo das provas mas tem para isso de se deslocar várias vezes ao país vizinho para participar em corridas com prémios mais compensadores. A paixão pelos cavalos, “ou a doença”, como ele próprio a classifica, não é barata. Os custos com cada cavalo, em alimentação e treino, andam à volta de 300 euros por mês. “Em Espanha, só os treinadores cobram 1 200 euros. Os custos da box, do veterinário ou do ferrador são pagos à parte.”
Mas se a realidade atual das provas em Portugal está longe de ser fácil, seria impossível de atingir sem aquele a quem chamam o “senhor corridas”. Manuel Armando Oliveira, 52 anos, anda ‘nisto’ há mais de trinta anos e é a alma da modalidade. Começou como quase todos, desafiando os amigos para umas corridas com os cavalos que durante a semana eram usados para trabalhar no campo. “Não havia segurança nenhuma, corríamos em caminhos de terra ou estradas de paralelo, nem hipódromos improvisados lhes podíamos chamar…” Um grave acidente numa dessas provas, em 1993, deixou-o em coma durante quatro semanas. Quando recuperou, e apesar de já não poder montar, não abandonou a paixão pelos cavalos, dedicando-se a organizar a modalidade. É, há mais de vinte anos, diretor nacional de corridas e membro da direção da Liga. Além de ter sido também um dos interlocutores com o Governo, para acelerar a alteração legislativa sobre as apostas – que, de resto, fazia parte do memorando assinado com a Troika – Manuel Armando é o responsável por toda a logística de cada prova, zelando pelo cumprimento escrupuloso dos regulamentos. Nem que isso custe, por exemplo, retirar a vitória na secretaria à sobrinha. “Tem de ser, se queremos ser respeitados e levados a sério”. Só assim se conseguirá fazer crescer o setor e competir lado a lado com os melhores. Da vontade e capacidade dos portugueses não restam dúvidas. Vai uma aposta?