Os ânimos aqueceram hoje, 23, na Assembleia da República. O mote foi dado por José Soeiro, do Bloco de Esquerda, que aproveitou uma intervenção de João Almeida, do CDS-PP, para ficcionar como seria o país com um orçamento de direita.
Na farsa encenada pelo bloquista, a que chamou “exercício de imaginação”, seria ainda ministro da administração interna Calvão da Silva, que ocupou o cargo no governo relâmpago de Pedro Passos Coelho após as eleições de 4 de outubro. “Em Coimbra, o Ministro Calvão da Silva visitou as zonas afetadas pelas cheias. Acompanhado pelo secretário de Estado João Almeida [que ocupou este cargo na Administração Interna], apelou à proteção divina. ‘Deus fará a sua parte’”, declarou.
No “relato possível caso o CDS e o PSD continuassem no governo”, José Soeiro imaginou várias situações, como as relacionadas com a precariedade no mercado de trabalho. “Confrontado com a proposta de um plano plurianual de combate à precariedade, subscrito pelo PS, BE, PCP e PEV, o vice primeiro ministro [Paulo Portas] declarou que ‘mais vale um falso recibo verde do que ficar em casa’, aproveitando para anunciar no debate um novo protocolo entre os Centros de Emprego e a Work4U para recrutamento de jovens estagiários”, disse o deputado bloquista, num discurso preparado por antecedência e lido com paixão no hemiciclo.
Noutro episódio, José Soeiro imagina Assunção Cristas [que é católica, foi ministra da Agricultura e do Ambiente e está na corrida à liderança dos centristas], numa sessão organizada pelo promotores da iniciativa “pelo Direito a Nascer”. Disse o bloquista: “A ministra Assunção Cristas, acompanhada de Isilda Pegado, reiterou o compromisso do Governo com as alterações à lei do aborto. Sobre o congelamento do abono de família que o Orçamento mantém, a ministra do CDS afirmou apenas que foi o resultado das negociações com Bruxelas. Confrontada pelo Bloco sobre as centenas de despejos decorrentes da lei das rendas, Cristas considerou que eles permitem dinamizar o mercado de arrendamento”. A ex-ministra, agora sentada no hemiciclo, torceu o nariz, quando foi referida, um gesto captado pelas câmaras do Canal Parlamento.
O discurso do deputado do Bloco de Esquerda motivou uma dura resposta de João Almeida. “Em termos de austeridade sou agnóstico”, ripostou no início da sua intervenção. O deputado centrista lembrou as agruras de governar com a troika, acusou o Bloco de Esquerda de não ter coragem para governar e de dar a cara por escolhas impopulares. “Continua confortável no mesmo lugar de sempre”, disse. No final, dirigindo-se diretamente a José Soeiro, citou um trecho da letra da canção Portugal, Portugal, de Jorge Palma (álbum Acto Contínuo, 1982): “Não se pode estar direito quando se tem a espinha torta”.