Assolada pela pior seca no último século, a Cidade do Cabo teve as reservas de água de tal forma baixas que se previa que as torneiras ficassem secas no passado dia 11 de abril, o primeiro dia a ser marcado como o “Dia Zero”. Se se tivesse concretizado, os habitantes estariam agora a abastecer-se nos 200 pontos de recolha de água, onde poderiam receber, no máximo, 25 litros de água por dia por cada pessoa (A Organização Mundial de Saúde estima que só num duche de cinco minutos se gastem cerca de 100 litros…)
No entanto, depois de alguns adiamentos menores, o “Dia Zero” está agora previsto apenas para o próximo ano. Como se reverteu este “apocalipse da água” iminente?
Quando o governo sul-africano anunciou, no ano passado, que fecharia as torneiras quando o nível das reservas de água assim o justificasse, aconteceram várias coisas: a população entrou em pânico, começou uma corrida ao armazenamento de água, o turismo caiu, aumentou o risco de agitação civil e… resultou (ao contrário das tentativas dos anos precedentes para convencer os residentes a pouparem água), graças a uma série de medidas.
O uso de água foi limitado a 50 litros por pessoa por dia, com multas para quem os exceder ou, em alternativa, com um sistema que corta automaticamente a água quando aquele limite é ultrapassado; Os habitantes passaram a tomar banho com baldes aos pés para apanhar e reutilizar a água do duche. Esta reciclagem abrange também a água das máquinas de levar; Puxar o autoclismo só duas vezes por dia.
“Não foi uma solução bonita, mas não era um problema bonito”, defende a diretora de comunicação da cidade, Priya Reddy.
Com estas medidas, a Cidade do Cabo passou de um consumo diário de 600 milhões de litros em meados de 2017 para 507 milhões no final do mês passado. O objetivo é chegar aos 450 milhões.
“Tivemos de o tornar alarmante o suficiente, senão o Dia Zero teria mesmo acontecido”, insiste Reddy.
Com as principais barragens ainda a 20%, a esperança está agora não só nas chuvas do inverno sul-africano, como em várias técnicas que vão desde a reparação das infraestruturas de abastecimento à criação de acesso a águas subterrâneas, passando pela dessalinização e reutilização. Mas à câmara da cidade têm chegado as mais variadas ideias: recolher água do ar, adubar nuvens e até rebocar um icebergue de 100 milhões de toneladas da Antártida… A eliminação de espécies como o pinheiro, o eucalipto e a acácia, que consomem até 38 milhões de metros cúbidos de água por ano, é, por seu lado, a proposta do Fundo Mundial para a Natureza (WWF), que defende que, com esta medida, a cidade obteria mais 7% de água anualmente.