Vê-se Monsanto do oitavo andar de Benfica, um ninho de pássaro cheio de papéis e fotografias dos amigos.
E de cinzeiros. «Fumei muito cachimbo, mas dava muita mão-de-obra e eu ficava com pose pedante. O cachimbo ficava bem ao David Mourão-Ferreira. Eu sou mais popular, sou do cigarro», diz Mário Zambujal, 73 anos vividos, sobretudo, no jornalismo e na ficção.
Entrevista publicada na VISÃO nº 874 de 3 de dezembro de 2009
O seu sorriso tornou-se familiar quando apresentou o programa Domingo Desportivo, na RTP. O sentido de humor destacou-se com os textos para o famoso programa de rádio Pão com Manteiga. Mas a comicidade afinada, o sentido de observação, o afecto popular construiu-se com os livros.
Sobretudo, com o primeiro, Crónica dos Bons Malandros (1980), tragicomédia castiça de um bando de larápios que ambiciona subir de statu com um roubo na Gulbenkian, e que Fernando Lopes adaptou ao cinema.
E, depois, com as ficções benfazejas que se lhe seguiram: Histórias do Fim da Rua (1983), À Noite Logo Se Vê (1986), Fora de Mão (2003), Primeiro as Senhoras (2006), Já não se Escrevem Cartas de Amor (2008).
Agora, juntou-se-lhes novo livro em nova editora: Uma Noite não São Dias (Planeta), mostra uma Lisboa de 2044, povoada de túneis e arranha-céus, onde novo assalto faz desfilar personagens |de sempre: humanos, galanteadores e a meterem os pés pelas mãos. Dinis Machado haveria de lhe dizer: «Ó Mário, derramaste-te aqui…»
O que o fez virar-se para o futuro?
Tinha escrito Já não se Escrevem Cartas de Amor, uma evocação dos anos 50, quando os cafés e os casinos mencionados eram reais. Mas aquele passado já foi um tempo presente. Olha-se para trás sempre com um sorriso tolerante e divertido.
«Olha as coisas que eles usavam!» «Olha, eles andavam lá muito entretidos com a internet, uma coisa primária…» Este livro é uma paródia sem pretensões científicas, mas feita de indícios e de tendências.
Quando descrevo um Governo dominado por mulheres, acompanho uma tendência das últimas décadas. Nós, agora, ainda nos espantamos de ver uma mulher na Marinha. Daqui a 35 anos, muitas coisas serão diferentes. Mas o que muda são os objectos. Os seres humanos continuam a ser os mesmos, com paixões, tropelias, triângulos amorosos…
As máquinas não nos mudam?
Não. Ontem, passei em Mértola, junto de um café, onde, há dois anos, um homem matou outro com uma machadinha e o cortou aos bocados. É um episódio que acharíamos possível há dois mil anos, mas acontece ainda agora.
A crueldade e a perfídia, tal como a bondade, permanecem.
Tentei dizer, na simplicidade e despresunção sem filosofia deste livro, que as pessoas são sempre iguais. Os adereços e os cenários hão-de mudar, mas as paixões serão semelhantes às do século XII, quando já havia encontros de amor apenas não se marcavam por telemóvel.
Um dos protagonistas é historiador. Não é suposto aprendermos com as lições da História?
Aprendemos. O meu historiador riu-se muito com esta primeira década do milénio: «Caramba, meia humanidade andava vestida de azul da cintura para baixo.» Mas a História continua. Sou um bocado avesso às máquinas, mas não aos fabulosos engenhos, por exemplo, da ciência médica, que fazem milagres e nos evitam grandes padecimentos. Mas não gosto de uma máquina, dessas que estão aí pelos cantos, que nos vende sandes ou coca-colas, e à qual não posso dizer «olhe, é com um bocadinho de alface» ou «isto é de ontem!». Isso desumaniza-nos.
Essa «democratização negativa» atinge também a escrita?
Diz-se que, daqui a X anos, já não haverá imprensa escrita. Em Uma Noite não São Dias, os jornais ainda existem, porque acho que, tal como o livro, são imprescindíveis. Participei numa mesa-redonda em que alguém dizia que escrever para jornais, para a rádio ou para televisão é a mesma coisa. De maneira nenhuma.
O ouvinte de rádio ou o espectador de tv não são donos do tempo, este pertence a quem emite. O leitor de jornais ou livros é dono do tempo: pára a meio, volta atrás, vai à frente. Isso é uma coisa extraordinária.
Está ligado às redes sociais?
Recuso-me. Iria substituir qualquer coisa de que eu gosto. O Facebook ser uma roda de amigos, é uma mentira: as pessoas não saem do ecrã, «dá cá um aperto de mão, um abraço». São reproduções de pessoas, são fotografias animadas, sem sentimentos. São multidões, e é muito mais saboroso perdermo-nos numa multidão viva. Mas tenho admiração por quem inventa estas coisas extraordinárias. A única máquina que percebo é a torradeira! Vivi mais de metade da minha vida sem telemóvel, e isso não era obstáculo à verdadeira ambição humana: a felicidade plena. Agora, quando o deixo em casa, já não estou feliz.
Continua a escrever à mão?
Continuo. Mas já tenho uma relação com o computador. Quando me diziam «vou mandar-te um e-mail», era uma complicação. Hoje, já vou mexendo naquilo. E reconheço que receber uma mensagem de um amigo que está em Santiago do Cacém, a dizer «no domingo, vamos encontrar-nos em tal parte», é uma espantosa facilidade.

Tem um Cristo esculpido por Júlia Ramalho na parede. Teve uma educação católica?
A minha mãe era muito católica, fui educado assim. Mas Deus, se há Deus, não é infinitamente bom ou não é infinitamente poderoso as palavras que me ensinaram quando era miúdo. Se o fosse, não permitiria que acontecessem crueldades terríveis e sofrimentos atrozes. Podemos ter a crença num ser superior, e esta ser diferente das pregadas pelas várias religiões. Não acredito na religião católica: quem se diz representante de Deus, as igrejas, são homens. É sobre eles que tenho dúvidas. Defendem que o procurador-geral da República devia vir a público explicar certas notícias. Deus também devia vir explicar, pôr água na fervura.
Durante a polémica à volta de Caim, de José Saramago, de que lado esteve?
Ainda não acabei de ler o livro. Estive do lado do Saramago, porque tem a liberdade de escrever e a liberdade de pensar, e a liberdade de escrever aquilo que pensa. E nós temos que ter a liberdade de aceitar ou recusar. Isto sem rancores. Em Portugal, esse respeito das liberdades é ainda difícil de aceitar: do futebol às artes, há sempre um litígio com o outro que pensa diferente. Talvez porque nunca se tenha aprendido, verdadeiramente, esse respeito.
Como foi a sua aprendizagem familiar?
Muitos dizem isto talvez com igual sinceridade mas sem igual verdade. Tive uma família maravilhosa. O meu pai era subinspector da Comissão Reguladora de Moagens. Tinha um lado boémio e cantava maravilhosamente, o que contribuiu para que ele fosse também um homem dos convívios e dos copos, da alegria da vida. Uma vez, tinha eu 20 anos, fui com o meu padrinho à terra onde nasci, Moura (de onde saí com meses para ir viver para Faro). Fomos àqueles cafés, com alentejanos a «baterem » uma sesta. Dissemos boa tarde. Eles levantaram o chapéu puxado para os olhos e responderam: «Boaaa taaarde.» O meu padrinho perguntou: Sabem quem é este homem? Eles levantam outra vez o chapéu: «Nã, sinhora.» «É filho do Joaquim Zambujal», e eles, «então, tem que cantari.» O único sítio onde acaba tudo a cantar é no Alentejo: alguém entoa Vila Nova de Mil Fontes… e logo os outros respondem, e depois vem o queijinho. É espiritualmente saudável, essa comunhão no canto.
Pai cantor. E a sua mãe?
O meu pai também cantava poesia. Como as quadras do António Nobre: «Eu não sei qual é o motivo/o motivo que não desvendo/porque é que eu por ti morrendo/ há tanto tempo que vivo./O motivo não desvendo/ e é por isso que discorro/que não é por ti que eu morro/é por ti que vou vivendo.» O velho era sedutor, era sedutor. Intenso nas paixões, nas zangas, na ternura. A minha mãe era a pessoa mais bondosa do mundo, alentejana, grande cozinheira. Maria Antónia. Lia muito, mas também lia A Bola [primeiro jornal da capital, onde Zambujal trabalhou]. Aos 70 anos, saía de casa para o ir comprar. A minha mãe era uma santa, sempre a apagar qualquer discórdia. Eu também detesto os conflitos. Tal como o meu irmão, Francisco, que foi um grande caricaturista [aponta para a parede]. Aquele desenho da equipa do Pão com Manteiga é dele. Tive mais duas irmãs, Lurdes, ainda viva, e Fátima, que morreu estupidamente, aos 50 anos, com um cancro na mama. Não sou muito ambicioso, considero que a felicidade está no que tenho: a minha alegria de viver. Os grandes golpes da minha vida foram as perdas, dos meus pais e irmãos. Posso fumar? [Acende um cigarro] Tenho um amigo, médico no Porto, que me receitou um medicamento. E eu perguntei-lhe: «Isto não me estragará o sabor do tabaco, ó Zé?»
Nos últimos anos houve grandes perdas: Dinis Machado, Vítor Direito, Edite Soeiro, Raul Solnado, Acácio Barradas…
Tenho agora esta prática já regular dos velórios, cerimónias extraordinárias. É preciso analisar o estado de espírito do frequentador: vai, naturalmente magoado, dar uma despedida do amigo, e vê lá outro. Daqui a bocado, está a contar uma história engraçada sobre quem partiu. Depois, vêm as anedotas, e o dizer a amigos da mesma geração: «É pá, estás óptimo!» Cumprimenta-se com a alegria do sobrevivente. «Olha, ainda não fui eu.»
No que se deixa para trás, os livros têm importância?
Sim. Para mim, cada livro é uma pessoa que está a conversar comigo, um companheiro que me dá as suas opiniões.
Escreveu cinco livros, em trinta anos. Ainda tem pudor em afirmar-se escritor?
Eu sei distinguir entre a realidade e os rótulos. Escritor também é um rótulo. O Augusto Abelaira tinha uma latitude imensa: para ele, quem escreve, é um escritor. Ó Augusto, também não vamos generalizar tanto, porque, senão, ficamos sem uma palavra para o Eça, para o Camilo! Devia ser reservada para quem faz ficção.
Escreveu o primeiro livro, Crónica dos Bons Malandros, aos 44 anos. Mais do que o pavor da crítica, teve o pavor da autocrítica?
Escrevi A Crónica dos Bons Malandros numas férias, foi uma brincadeira. Já tinha escrito, aos 15 anos, contos para jornais. Depois, houve um espaço, abençoado, no jornalismo: a crónica, que permitia fantasiar. Este livro era mais uma crónica mas maiorzinha e com lombada. Quando o livro chegou à décima edição, passou-me pela cabeça fazer uma edição mais literária. Concluí que não tinha esse direito, iria atraiçoar a despretensão com que o escrevi. Alguns, incluindo o meu querido companheiro Dinis Machado, diziam-me assim: «Ó Mário, o difícil é o segundo livro, porque no primeiro a gente derrama-se. » Eu respondi-lhe: «Bem, se o problema é o segundo livro, vou escrevê-lo já.» Saiu Histórias do Fim da Rua, um livro mais construído, retocado. Mas como não era hilariante, a recepção foi. enfim. fria. Ficou o patinho feio.
A juventude vivida em Faro foi feliz?
Sou do tempo da transição entre o Algarve antigo província rural e piscatória, cheia de praias desertas e o Algarve actual. Afeiçoamo-nos aos lugares da juventude, a coisas que não têm piada nenhuma: um jardinzeco com uns bancos e um repuxo, mas que é o jardim dos meus 20 anos. Recordo-me das férias em Olhos d’Água, em que se juntavam meia dúzia de famílias em lugares onde nem estrada havia. O [presidente] Cavaco Silva era um dos miúdos com quem brincava.
Ainda comparando épocas, que mais se perdeu?
As mulheres hão-de ser sempre uma das paixões da minha vida. Falamos sempre delas quando reunimos os Empatados da Vida [tertúlia semanal com Baptista-Bastos, Fernando Dacosta, entre outros]. Nos anos 50, cortejar era como respirar. Hoje, nem os homens têm tanta apetência para fazer piropos nem elas os fomentam. Quando tinha 16 ou 17 anos, os bailes eram muito importantes. Aí, aparecia uma cidadã, que nem nos tinha sido apresentada e, instantes depois, estávamos com ela nos braços. Fora dali, nem mão dada se permitia. Eu tinha o que achava ser uma boa forma de meter conversa com uma rapariga nova: «Não quer dançar comigo, pois não?» Nenhuma dizia que não, «coitadinho, tão modesto». As tecnologias mataram esses conjuntos de música que nos faziam dançar.
Porque trocou Faro por Lisboa?
Vim fazer uma substituição de um colega, n’A Bola. O que me fez vir foi o medo de ter medo. A ideia de vencer o medo é algo que nos deve acompanhar. Mas foi doloroso: fui viver para um quarto alugado, entrando como intruso numa família que não era a minha, sentia-me sozinho.
As farras nocturnas foram o antídoto para a solidão?
Eu já tinha a tendência para a noite, gostava dos bailes, dos copos, das farras. A classe jornalística, na altura, era exígua, toda concentrada no Bairro Alto. Saíamos juntos, às quatro da manhã, e as casas da noite é que estavam abertas. Havia uma intensidade, com os cabarets e etc., que tinha a ver com os anos vinte. A equipa de jornalistas do Diário de Lisboa [para onde Zambujal foi trabalhar em 1967] foi extraordinária: José Carlos de Vasconcelos, Joaquim Letria, Manuel Beça Múrias, Afonso Praça, Fernando Assis Pacheco, Vítor Direito. Éramos 19 jornalistas que hoje não estão esquecidos. Pessoas politicamente marcadas mas crescidas.
Como lidava com a censura vigente?
Tinha um telefone directo e todos os dias havia a conversa. «Senhor coronel, está aqui uma coisa cortada que não pode ter sido o senhor, porque isto é demasiado estúpido», dizia eu. Era uma escalada de medos: os censores tinham medo de deixarem passar algo que não deviam, uns por convicção política, outros porque não se queriam «entalar». Hoje, sou presidente do Clube de Jornalistas e, às vezes, pedem-me para escolher os «25 melhores jornalistas». Isso é possível em Inglaterra, que tem 200 anos de jornalismo democrático; aqui é desonesto, pois não se abrange estes grandes jornalistas a quem cortaram as asas.
Como viveu o 25 de Abril?
Tenho muitas histórias, mas há uma particularmente saborosa. Estávamos numa euforia, no dia 27. Era chefe de redacção de O Século e marquei uma reunião, às duas horas da manhã. «O que vai acontecer é que vamos ser o primeiro jornal que vai ter um chefe de redacção eleito, já que eu fui escolhido pelo patrão», disse-lhes. Eles elegeram-me por unanimidade. «Bem, agora estão lixados comigo. Tenho autoridade democrática.» [Risos].
Trabalhou, ainda, no Mundo Desportivo, no Diário de Notícias, no Sete, fez tv e rádio, escreveu para teatro de revista, foi director-interino da revista Modas e Bordados…
Fui empurrado para fazer televisão. No primeiro dia, rodeado de luzes e máquinas, só queria fugir dali. Mas era outra vez a história de vencer o medo… A Modas e Bordados pertencia ao Século, e as meninas da redacção (as Antónias) entraram em greve. Fui chamado ao presidente do Conselho de Administração, que era o [Francisco] Sousa Tavares. Perdido de riso, disse-me que as jornalistas só voltavam a trabalhar se eu fosse director. Mas, depois de um 25 de Abril, ter uma revista com este nome era execrando. Decidi que ia chamar-se Mulher, com moda e bordados escrito por baixo. E decidi nomear directora honorária Maria Lamas. Meti a redacção toda no carro e fomos a casa da Maria, em Évora, que nos recebeu com chá e bolinhos.
Pão com Manteiga foi a liberdade total?
Sim. A rádio estava cheia de programas protocolares e, de repente, aparece um bando de malucos a fazer non sense. Aparecemos num período de água parada, qualquer pedrinha a agitava. Anos depois, quando o programa regressou contra a minha opinião o ambiente era diferente: já havia o Herman, o género tornara-se mais banal. Mas divertimo-nos muito. Foi uma das coisas que gostei de fazer na vida.
Ainda é o «bom malandro», acima de tudo?
Posso ainda vir a escrever um excelente livro, mas eu hei-de ser sempre o tipo dos Malandros. E há coisas que me levam a estimar mais o livro: o já ter atravessado três gerações e haver meninos que fazem trabalhos sobre o livro e me dizem que os cativou para a literatura.