A palavra “indie”, aplicada à música popular, já teve melhores dias. Serviu para assinalar uma atitude de total independência face a alegadas imposições das grandes editoras e às regras do mercado. Mas tanto essas supostas imposições como as ditas regras mudaram tanto nos últimos anos, e ao longo deste século, que algumas expressões nascidas no final do século anterior bem poderiam ter ficado por lá…
A verdade é que o rótulo de “indie”, assim como o cada vez mais misterioso “música alternativa”, acabou por ganhar valor de mercado, e servir, muitas vezes, como parte de uma estratégia de promoção – e mesmo (sobretudo?) como definição de um tipo de som. Mas hoje não é difícil encontrar uma atitude indie dentro de médias e grandes editoras nem conservadorismo e mera ambição comercial em projetos novos e desgarrados.
A caminhada solitária
Olhando para a já longa carreira dos Radiohead – o seu disco mais aclamado, OK Computer, saiu há 15 anos e o tema que funcionou como ignição para tudo o resto, Creep, foi lançado em single há já duas décadas -, vemos uma banda, composta por jovens licenciados em várias áreas do conhecimento (só Jonny Greenwod não terminou o seu curso de Psicologia e Música), a tentar resistir sempre a fazer aquilo que lhes parece ser o mais previsível, ou o mais adequado, de acordo com as regras do showbiz. OK Computer é aclamado como uma obra-prima, cheio de excelentes canções?
Três anos depois, os Radiohead lançam Kid A, a que se seguirá Amnesiac, dois discos difíceis, repletos de subtilezas eletrónicas e experiências pouco pop, sem nenhum single que pudesse saltar para os tops das rádios. Os fãs que acompanham a banda desde o início adoram Creep e sonham cantar o seu refrão orelhudo em coro com a banda? Os Radiohead retiram essa canção do alinhamento dos seus concertos. A independência sempre foi um valor importante para o grupo de Thom, Colin, Jonny, Ed e Phil, tanto no que toca ao trabalho artístico como nas ideias sobre música e comércio.
Não admira que tenham entrado em rota de colisão com a sua (grande) editora. Hail to the Thief, lançado em junho de 2003, e visto como o regresso a canções mais imediatas e diretas, foi o último disco do grupo a ter a marca da EMI. Depois, optaram por lançar um disco (In Rainbows, de 2007) que muito antes de se transformar em CD ou vinil esteve à venda na internet para download, ao preço que os compradores desejassem pagar. E, em 2011, de modo quase clandestino, sem qualquer esforço concertado de promoção (mas não será essa a mais eficaz promoção para uma banda com a dimensão dos Radiohead?) e apanhando toda a gente de surpresa, chegou The King of Limbs (mais uma vez primeiro com vida digital e só depois com edição física). E eis-nos, então, chegados aqui, ao momento em que os Radiohead esgotam os bilhetes (55 mil!) para um domingo (já este: 15 de julho) de um festival de verão português. O público não se perdeu na marcha solitária dos Radiohead.
Renascimento(s)
Olhamos para eles e não vemos uma velha banda com mais de 20 anos de história (as suas origens remontam a 1985, quando se juntaram para tocar ainda com o nome On a Friday, inspirados por bandas como os New Order, os Talking Heads ou os R.E.M.). Podem ter perdido alguns fãs pelo caminho, uns porque nunca lhes perdoaram não terem composto sucedâneos de Creep, outros porque acham que uma verdadeira banda indie não pode atrair multidões… Ainda é cool vestir T-shirts dos Radiohead, mas também já é cool dizer que não há paciência para os Radiohead – um sinal de grandeza.
Eis-nos aqui: esta é, afinal, a digressão de promoção de The King of Limbs que nunca chegou a existir? Responde o baterista Phil Selway, em entrevista publicada, em abril deste ano, na revista Rolling Stone: “Não foi pensada propositadamente para puxar pelo disco, mas se tudo correr bem vai aproximá-lo das pessoas…” Na verdade, uma das razões para estes concertos terem demorado tanto prende-se, assumidamente, com a dificuldade de levar os sons intrincados dos discos para cima de um palco. Há muito, muito tempo que os Radiohead não funcionam como uma simples e crua banda de guitarras, baixo e bateria. In Rainbows e The King of Limbs revelam-se uma banda mais de estúdio do que dos palcos, com uma trabalhada e quase sempre subtil combinação de efeitos, eletrónica e instrumentos convencionais, tão ao gosto do coca-bichinhos guitarrista-e-muito-mais Jonny Greenwood. Para conseguirem levar o seu som atual para concertos de grande dimensão, os Radiohead precisaram mesmo de fazer uma contratação. Nestes concertos, aos cinco músicos da banda junta-se, dando uma ajuda na secção rítmica, o baterista Clive Deamer, que contribuiu para o som dos, também britânicos, Portishead.
Depois de vários anos de recolhimento, estes concertos sabem a regresso, mesmo a renascimento – para o público, mas também para os músicos e até mesmo para algumas canções, que aqui surgem transformadas, renovadas. Os milhares (muitos deles vindos de Espanha ou Inglaterra) que, no próximo domingo, 15, vão até Algés para ouvirem os Radiohead podem contar com um concerto que recua até alguns temas de OK Computer (Paranoid Android, Climbing Up the Walls…) mas que, sobretudo, revela as mais recentes composições num formato propositadamente criado para esta digressão. Os Radiohead não gostam de passar duas vezes pelas mesmas estradas. E, afinal, o público acaba sempre por segui-los nos novos caminhos, mais ou menos confortáveis, que eles vão inventando.
Quem são os Radiohead
THOM YORKE – Vocalista, multi-instrumentista e, com a sua pálpebra esquerda descaída, a cara mais reconhecida dos Radiohead. Estudou Arte e Língua Inglesa na Universidade de Exeter. Em 2006, lanço o disco a solo The Eraser. Com Flea (dos Red Hot Chili Peppers), o produtor Nigel Godrich e outros músicos, formou, em 2009, o grupo Atoms for Peace que deu vários concertos nos EUA e poderá lançar o primeiro disco em 2012. Tem dois filhos.
COLIN GREENWOOD – Baixista e multi-instrumentista, formado em Literatura em Cambridge, tem 43 anos. É casado com a escritora e crítica literária norte-americana Molly McGrann e têm três filhos.
JONNY GREENWOOD – Guitarrista, irmão de Colin e o mais jovem da banda, com 40 anos. Quando tocou no primeiro concerto do grupo (ainda com o nome On a Friday), num pub, em Oxford, tinha apenas 14 anos. Foi o único que não terminou o seu curso universitário, de Psicologia e Música. Multi-instrumentista e hábil em computadores, tem desenvolvido um trabalho a solo, nomeadamente compondo várias bandas sonoras para filmes. Recentemente, lançou um disco a meias com o compositor polaco Krzysztof Penderecki. Tem três filhos.
ED O’BRIEN – Guitarrista, 44 anos. Estudou Economia na Universidade de Manchester. Colaborou, como guitarrista, no disco Enemy of the Enemy, dos londrinos Asian Dub Foundation. Tem dois filhos.
PHIL SELWAY – Baterista, e o mais velho do grupo, com 45 anos. Formado em Literatura e História das Ideias. Em 2010 lançou um disco a solo: Familial
Passagens por Portugal
1993 – Pavilhão do Restelo (Lisboa) e Coliseu do Porto
Pouco tempo depois da edição de Pablo Honey, os Radiohead faziam a primeira parte dos concertos dos James. Antes de chegar a Portugal, o grupo tinha efetuado a sua primeira digressão pelos EUA, que não correu particularmente bem. Ponderavam mesmo acabar com a banda, revela Álvaro Covões (que então organizou esses concertos) na revista Blitz deste mês, mas a reação entusiástica do público português, cantando Creep em coro, entusiasmou os músicos e terá contribuído para mudarem de ideias.
1997 – Paradise Garage (Lisboa)
Durante três noites (entre 15 e 17 de maio) o público lisboeta teve o privilégio de ouvir em primeira-mão as canções de OK Computer, disco que só sairia nesse verão, para se transformar, com o passar do tempo, numa referência, num clássico. Mas, nessa altura, ainda não ocorria a ninguém chamar aos Radiohead a “melhor banda do mundo” e os bilhetes não se esgotaram em nenhum dos dias.
2002 – Coliseus de Lisboa e Porto
Foi um momento tão especial para ver os Radiohead ao vivo que os bilhetes para uma noite no Coliseu de Lisboa desapareceram em 24 horas. Acabariam por tocar três noites em Lisboa e duas no Porto, numa digressão ibérica em que anteciparam alguns temas do disco Hail to the Thief, que só sairia no ano seguinte. Quem esteve presente no concerto de 27 de julho no Porto não esquece o final, surpreendente e apoteótico, ao som de Creep, a tal canção que os Radiohead tinham decidido deixar de tocar ao vivo, cantada em coro entre os riffs ruidosos da guitarra de Jonny Greenwood.