Passado o 25 de Abril deste ano, é inegável que a adesão e a relevância da data crescem um pouco por todo o País. Das quatro gerações que hoje a comemoram nas ruas, duas delas não viveram a revolução de 1974, mas encontram agora razões políticas e de chão comum para o fazerem. Foi isso que o Presidente da República, melhor do que ninguém, percebeu, e manifestou-o através de um grande discurso.

Muitas, demasiadas vezes, invoca-se os jovens para ficar bem na “fotografia”, mas António José Seguro fê-lo com propriedade e onde mais interessava. Não foi de somenos “o desaparecer da liberdade aos poucos”, depois do apontar das muitas dificuldades com que uma maioria vive hoje em Portugal. E prosseguiu: “Primeiro é uma lei que parece razoável. Depois uma instituição que se esvazia por dentro. Depois uma voz que se deixa de ouvir. Depois outra. O perigo para a democracia raramente chega como nos filmes. É mais frequente afirmar-se com argumentos que parecem inofensivos e, nos dias de hoje, também com algoritmos.”

Se isto não começa também a entranhar-se de certa forma no País? 

A verdade é que o restaurar da relevância maior da data da liberdade e do início do processo democrático esteve longe de ser pouco previsível nos últimos anos. Desde 2020, com os ventos que sopravam já na altura por essa Europa e pelos EUA fora, que uma parte política do País encontrou os pretextos mais descabelados para não só não entender isso, como ignorar o movimento global e local que pretendia e pretende desmantelar os valores fundacionais que se materializaram em Portugal a partir de Abril. Entenda-se, a liberdade, tudo o que ela representa, e a democracia mais tarde. Também é verdade que existem setores da esquerda pouco inocentes neste aspeto que sempre se julgaram “donos” do 25 de Abril; mas, caramba, sempre coube à direita democrática sobrepor ou impor-se a isso e perceber que foi, juntamente com a esquerda democrática, a grande vencedora do que ali se iniciou.

Ver hoje todo um mar de gente que atravessa várias gerações, da esquerda à direita, a compreender o chamamento da memória, mas sobretudo da reação necessária a um certo “ar do tempo” que vem ganhando força, enquanto este Governo vem assinalando a data de forma desconexa e tímida é lamentável. Como foi e é aquela “frente” da separação entre o 25 de Novembro de 75, que nunca foi uma data menor, e o 25 de Abril de 74.

No entanto, já sabemos que falar hoje do 25 de Abril com, por exemplo, qualquer dirigente do descaracterizado e “contaminado” CDS é ouvir isso mesmo e o apontar ao PREC que não orgulha o País, mas que não perdurou. Em vez disso, qualquer “olhar”, com perspetiva de dentro ou de fora, constata uma revolução distinta, que permitiu de forma ímpar uma transição menos sangrenta e mais transversal.

Todavia, as coisas são o que são e a realidade diz-nos que encontrar hoje o equilíbrio, o essencial da visão humanista e o bom-senso quando tantos o proclamam, encontrando-se tão longe disso, é crucial e obriga a alguma coragem intelectual.

Mais do que uma comemoração, o 25 de Abril deste ano também foi, para muitos, uma reação às liberdades que deixámos de ter como adquiridas, num País profundamente desigual e difícil, mas que não pode perder a bússola do essencial das melhores décadas e de maior avanço da sua História.

Uma reação ao flagelo das fake news, da contaminação das narrativas baseadas em falsidades das redes sociais, dos da cassete do jornalixo, da nova exponenciação do racismo contra imigrantes e do discurso de ódio nos jovens em crescendo nas escolas. Uma reação contra a tentativa da menorização do papel da mulher e o retrocesso civilizacional dos direitos, liberdades e garantias das minorias na sociedade. Retrocessos que há pouco mais de sete anos julgávamos inimagináveis, mas que estão aí e não são um exclusivo português. Quase tudo é importado de um flagelo global, diga-se, e que encontra no Chega o seu expoente máximo no País.

Nosso, nosso, só mesmo o 25 de Abril.

Seria bom que este Governo quisesse e fizesse por o perceber. Por isso, termino este artigo da mesma forma que acabei outro há seis anos, também sobre a revolução de 74. Sempre na esperança (ingénua?) de que, passado este tempo, toda a direita democrática política comece a querer estar onde interessa.

“Até nisso o 25 de Abril é clarificador. De ora em diante, não se pode dizer que não se sabe com o que se conta. Chegou a hora de o assumirem e não ficarem pela meia-verdade, como nos diz Sophia.”

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

O Novo Banco foi vendido por 6.700 milhões de euros ao grupo francês BPCE.

Com a venda, o Estado português recebe 1.673 milhões de euros, sendo 906 milhões de euros para o Fundo de Resolução e 766 milhões de euros para a Entidade do Tesouro e Finanças.

Criada no contexto da Porto 2001 – Capital Europeia da Cultura, a Galeria Municipal do Porto tem vindo a consolidar-se como um espaço de experimentação, diálogo e internacionalização, mantendo uma relação próxima com a comunidade local. Sob a curadoria de João Laia, a Galeria Municipal do Porto reforçou a sua missão de apoiar artistas consolidados e emergentes, promover novas produções e responder criticamente a questões sociais, políticas e culturais da atualidade. Através de uma programação diversificada e interdisciplinar, a GMP afirma-se não apenas como espaço expositivo, mas como plataforma de encontro entre arte, pensamento e sociedade, enfrentando os desafios contemporâneos sem perder o objetivo de se tornar uma verdadeira “sala de estar” da cidade do Porto. A conversa com João Laia, a propósito dos 25 anos do espaço, permite compreender o papel central que esta instituição ocupa na afirmação da arte contemporânea na cidade e no panorama cultural português.

1. Evolução da Galeria Municipal do Porto
A Galeria Municipal do Porto nasceu como parte da Porto 2001 – Capital Europeia da Cultura e, 25 anos depois, continua a preservar esse espírito de abertura, experimentação e ligação à cidade. A sua evolução tem passado por afirmar-se como um espaço público de referência na arte contemporânea, combinando serviço cultural, produção artística e projeção internacional.

2. Critérios de seleção de artistas e exposições
A programação baseia-se em três eixos principais: apoiar a cena artística do Porto, criar oportunidades para artistas emergentes e reforçar a internacionalização. A GMP tem promovido exposições de grande escala de artistas com prática consolidada como Jonathan Uliel Saldanha, Mariana Caló e Francisco Queimadela, Isabel Carvalho e André Sousa, ao mesmo tempo que abre espaço institucional a nomes em início de carreira como Rita Caldo, Francisco Pedro Oliveira, Eunice Pais e Leonor Parda. Paralelamente, apresenta artistas internacionais como Pauline Curnier Jardin, Andreas Angelidakis, Kiluanji Kia Henda, Vivian Caccuri, Lydia Ourahmane, Basel Abbas & Ruanne Abou-Rahme, Özgür Kar e Esther Ferrer.

3. Papel na cena artística contemporânea portuguesa
A GMP assume-se como uma instituição ágil e produtora de trabalho novo, com papel relevante no apoio à diversidade artística nacional. Através da Direção de Arte Contemporânea, promove bolsas, pensamento crítico e programas de internacionalização, ajudando artistas do Porto a estabelecer contacto com curadores e instituições internacionais.

4. Relação com o público local
A relação com o público tem-se intensificado significativamente, refletida no crescimento de visitantes e na diversificação de perfis. A galeria atrai públicos locais, nacionais e internacionais, incluindo famílias, jovens e turistas, consolidando-se como um espaço cultural central da cidade e beneficiando também da localização nos Jardins do Palácio de Cristal.

5. Projetos e exposições mais estimulantes
Entre os formatos mais relevantes estão as grandes exposições individuais, estreias institucionais de artistas da cidade e projetos estruturantes como o Panorama da Arte Portuguesa e o programa Comissões. Destacam-se também festivais como Fogo Fátuo, dedicado a práticas performativas e sonoras; Circuitos, que reúne agentes da arte contemporânea do Porto; e Abril Febril, focado na relação entre música, memória e política. A exposição “Colapso”, de Silvestre Pestana, é apontada como exemplo marcante pela articulação entre legado histórico e produção contemporânea.

6. Questões sociais e políticas na programação
A programação responde ativamente a debates contemporâneos. Jonathan Uliel Saldanha explorou inteligência artificial e tecnologia; Silvestre Pestana refletiu sobre identidade e media; Mariana Caló e Francisco Queimadela abordaram ritmos naturais e crítica ao consumo; Lydia Ourahmane trabalha inclusão e deficiência visual; Pia Camil questiona sistemas económicos; Mónica de Miranda, Kiluanji Kia Henda e Eunice Pais exploram relações pós-coloniais entre Portugal e África Lusófona.

7. Posicionamento internacional
A GMP posiciona-se como plataforma de intercâmbio entre o Porto e o mundo, colaborando com instituições como Kiasma, Bienal de Gotemburgo, Onassis Air, Istanbul Modern e Kunsthalle Basel. O programa de curadores visitantes trouxe ao Porto nomes ligados ao Whitney Museum, Museion, Wiels, Van Abbemuseum e Reina Sofía, fortalecendo redes globais.

8. Estratégias para tornar a arte contemporânea mais acessível ao público geral
A Galeria Municipal do Porto tem apostado numa estratégia de proximidade como eixo central para tornar a arte contemporânea mais acessível. Essa proximidade manifesta-se tanto na relação com a cena artística local como no envolvimento direto com comunidades e públicos diversos, fazendo com que a galeria seja percebida como um espaço pertencente à cidade. A programação procura integrar artistas, curadores, performers e diferentes agentes culturais em exposições, conversas, performances e júris, reforçando a ligação entre instituição e comunidade.

Outro elemento fundamental é a diversidade disciplinar: a GMP não se limita às artes visuais tradicionais, mas integra dança, música, literatura, performance, imagem em movimento e som, ampliando as formas de entrada para públicos com interesses variados. Festivais como Fogo Fátuo, Circuitos e Abril Febril exemplificam essa abertura ao cruzamento de linguagens.

A galeria aposta ainda numa postura exploratória, promovendo novas produções, artistas menos conhecidos e cruzamentos inesperados entre práticas artísticas, sem se limitar a tendências dominantes. Paralelamente, a renovação da identidade visual, da comunicação e da sinalética — dentro e fora dos Jardins do Palácio de Cristal — procura criar uma linguagem mais clara, energética e acolhedora, reduzindo barreiras simbólicas frequentemente associadas à arte contemporânea.

9. Principais desafios de gerir um espaço institucional de arte hoje
Gerir uma instituição de arte contemporânea implica enfrentar desafios estruturais e novos contextos sociais. Entre os desafios permanentes estão definir uma missão clara, criar ferramentas eficazes para concretizá-la, manter diálogo com a cena artística local e internacional e aprofundar relações com públicos diversos.

No contexto atual, as redes sociais e a mediatização imediata da programação colocam questões específicas: como usar plataformas digitais para ampliar alcance sem permitir que a experiência virtual substitua a visita física ao espaço? A GMP enfrenta o desafio de transformar visibilidade online em participação real.

Outro ponto central é o posicionamento social e político. Num cenário marcado por polarização, fragmentação e discursos cada vez mais acelerados, a galeria procura participar em debates relevantes sem alimentar crispação, promovendo antes reflexão, encontro e diálogo. A gestão institucional exige, por isso, equilibrar relevância crítica, acessibilidade e capacidade de criar espaços de convivência num tempo frequentemente dominado por interações utilitárias e digitais.

10. Planos e direções futuras para a Galeria Municipal do Porto
A direção futura da GMP passa por consolidar as transformações implementadas nos últimos anos e expandir o impacto da sua missão na cidade e fora dela. Um dos objetivos principais é continuar a mapear a produção artística contemporânea, fortalecendo simultaneamente a relação com artistas do Porto, o contexto nacional e redes internacionais.

A galeria pretende aprofundar a ligação a públicos infantojuvenis e seniores, reconhecendo a importância de construir uma relação intergeracional com a cultura. Ao nível institucional, prevê reforçar colaborações com parceiros próximos como a Biblioteca Municipal Almeida Garrett, com quem partilha edifício e missão pública, o Museu Nacional Soares dos Reis, o Batalha, o Rivoli, a Ciclo Bienal de Fotografia do Porto, a Escola das Artes da Universidade Católica e as Galerias Municipais de Lisboa.

Internacionalmente, continuará a desenvolver redes com curadores, instituições e plataformas globais, reforçando o Porto como ponto de circulação artística. Mais do que crescer apenas como espaço expositivo, a ambição da GMP é afirmar-se como uma verdadeira “sala de estar” da cidade: um lugar de encontro, convivência, pensamento e participação cultural, tanto para quem vive no Porto como para quem o visita.

A fotografia que aqui publicamos não será das mais nítidas porque foi tirada de um vídeo captado por uma câmara de monitorização, mas é excelente para assinalar o momento em que um jovem orangotango macho atravessou uma ponte suspensa ao nível da copa das árvores numa floresta tropical que ficou partida em duas na ilha de Sumatra, na Indonésia.

No vídeo que pode ser visto no canal de YouTube da organização britânica Sumatran Orangutan Society (SOS), um orangotango-de-sumatra (Pongo abelii) avança com confiança pela ponte de corda, parando uns segundos a olhar em volta e depois para trás, para casa, antes de retomar a travessia entre a Reserva de Vida Selvagem de Siranggas e a Floresta de Proteção de Sikulaping, no distrito de Pakpak Bharat, que faz fronteira com a província de Aceh, no norte da ilha.

Quando a equipa da Fundação Tangguh Hutan Khatulistiwa (TaHuKah), uma ONG especializada na proteção de habitats que é a parceira local da SOS, viu estas imagens, ouviram-se gritos de alegria. Há mais de dois anos que estavam a ser monitorizadas as cinco pontes suspensas de diferentes tipos (para se adequarem a diferentes espécies), construídas ao longo da movimentada estrada Lagan-Pagindar.

“Ver este orangotango utilizar uma ponte suspensa é um marco muito importante para a conservação, provando ser possível reconstruir esta paisagem fragmentada”, disse Helen Buckland, CEO da SOS.

A ponte que vemos na fotografia fica sobre essa estrada que liga comunidades remotas a escolas, hospitais e outros serviços essenciais. Em 2023, a estrada foi alargada e as copas das árvores ficaram demasiado distantes, impossibilitando a travessia natural para a vida selvagem. De um dia para o outro, cerca de 350 orangotangos-de-sumatra, espécie em perigo crítico de extinção, ficaram divididos em duas populações, uma em Siranggas e a outra em Sikulaping.

Estes orangotangos passam mais de 90% do seu tempo nas copas das árvores e são chamados “guardiões da floresta” porque ajudam a manter o ecossistema, dispersando as sementes e “podando” as folhas nas partes mais altas. Mantidos em dois pequenos grupos, podem ser enfraquecidos pela consanguinidade, o que diminui as suas hipóteses de sobrevivência.

Na TaHuKah decidiu-se, então, que eles precisavam de pontes suspensas para conseguirem passar de um lado para o outro em segurança. Mas será que iriam utilizá-las?

De início, as câmaras apanharam esquilos-das-bananeiras (Callosciurus notatus) e esquilos-gigantes-pretos (Ratufa bicolor palliata) a atravessar as pontes. Depois, começaram a ser percorridas por macacos-de-cauda-longa (Macaca fascicularis), langures-pretos-de-sumatra (Presbytis sumatrana) e gibões-ágeis (Hylobates agilis). Até que, finalmente, um orangotango-de-sumatra, de que se estima restarem menos de 14 mil na Natureza, foi filmado na semana passada a utilizá-la.

“Testemunhar um deles a atravessar aquela ponte é a prova viva de que não precisamos de romper o elo vital da floresta para construir o das nossas comunidades”, disse Franc Bernhard Tumanggor, chefe da regência de Pakpak Bharat, para quem a mensagem é óbvia: modernização não tem de significar destruição.

1. No seu discurso do 25 de Abril, José Pedro Aguiar Branco, presidente da Assembleia da República e segunda figura do Estado, “disse tudo, como os malucos”. E esta frase, na boca do povo, costuma ser mais um elogio do que uma crítica. Normalmente, define um discurso inconveniente, que corresponde ao que muitos pensam e poucos têm coragem de dizer. Mas também tem um lado problemático: é um discurso que não pondera, que não contextualiza e que não relativiza. Um discurso sem arestas limadas, que leva tudo à frente e mistura verdades inconvenientes com (neste caso concreto…) lavagens convenientes. Numa surpreendente intervenção, muito pouco adequada ao que costumam ser os padrões para este tipo de datas, o presidente da Assembleia da República aponta, e bem, a principal ameaça à democracia: a falta de identificação entre eleitos e eleitores, a falta de credibilidade da classe política – que funciona como casta, ou bolha – e o divórcio discursivo entre a realidade e a construção mediática da política. De caminho, enquanto critica o populismo que cavalga estas perceções, Aguiar Branco comete a ingenuidade de certificar, ou validar, essa mesma “cavalgada”, reconhecendo, ou dando a sensação (talvez errada) de que reconhece, a pertinência do discurso político que pretende denunciar. Aguiar Branco disse, embora de forma sofisticada, o que o “Zé das Iscas” costuma dizer, na sua roda de amigos, quando comenta os chavões de qualquer dirigente populista: “O homem diz muitas verdades!”

Aguiar Branco está certo, portanto, no diagnóstico, mas errado na receita. É verdade que há uma preocupação excessiva com o escrutínio e que a transparência, nos nossos dias, em vez de ser um meio para credibilizar a atividade política, se transformou num fim em si mesmo. Comentando o problema das “portas giratórias” − isto é, a obrigação do político que, tendo exercido a tutela de uma determinada área, está impedido de trabalhar para privados nesse setor, ou aquele que, tendo trabalhado nesse setor, estará impedido de tutelar a mesma área −, põe um dedo na ferida: afastados os melhores, barrando a política aos que exercem certas atividades privadas profissionais, definindo um conjunto de incompatibilidades. Mas, depois, queixamo-nos de que só estão na política “os que não sabem fazer mais nada”. Não sabem ou não podem? Em que ficamos? Por um lado, queremos políticos com experiência profissional na vida “lá fora”. Por outro, estamos a criar políticos bacteriologicamente puros. Aguiar Branco tem razão.

Mas, então, o que fazer? Não há uma bala de prata que nos garanta o melhor de dois mundos: experiência de vida e imunidade a interesses. As pessoas não são duas: cada pessoa é apenas uma, e mesmo que tente vestir dois fatos, ou duas peles diferentes, quando entrar na política será sempre culpada, até prova em contrário. Ora, na dúvida, mesmo correndo o risco de ter políticos sem experiência de vida, é preferível garantir transparência, definir incompatibilidades, sim, e bloquear as portas giratórias. Tudo isto é melhor do que permitir que se alimentem suspeitas em torno das Spinunvivas desta vida.

A propósito, Aguiar Branco borrou a pintura, neste parágrafo: “Não bastava declarar rendimentos. Era preciso declarar se a mulher ou o marido é rico, se o primo é pobre, se o enteado é empresário. Se a casa tem elevador [sublinhado nosso], quantas casa de banho (…)”, etc. O presidente da AR não resistiu à tentação de ser explícito. Quantas pessoas conhecemos com elevador em casa (que, portanto, terá de ter vários pisos)? Os portugueses, assim de repente, lembram-se de uma: Luís Montenegro, em Espinho. E é tentador pensar, como terá pensado o deputado do PS, Pedro Delgado Alves (já lá vamos), que Aguiar Branco imaginou todo este intrincado elucubrado com um fim menos inocente do que parecia.

2. O discurso de António José Seguro, vago, redondo e em grande parte a la Miss Universo (como é seu hábito…), foi, na maioria dos seus 17 minutos e 37 segundos, bastante enfadonho. Numa amálgama onde pretendeu incluir tudo, da crise da habitação à Inteligência Artificial, passando por várias citações eruditas metidas a martelo, contrastou com o estilo elaborado do seu antecessor, Marcelo Rebelo de Sousa, que se focava num tema, sem nunca entrar em áreas executivas ou legislativas. Mas António José Seguro, lá pelo meio, conseguiu ser invulgarmente assertivo, no ponto da transparência na política, e foi mesmo brilhante, na forma como se dirigiu aos jovens. No primeiro caso, levando um discurso escrito e desconhecendo o que haveria de dizer Aguiar Branco, Seguro como que lhe respondeu à letra. Uma coincidência política daquelas que raramente acontecem, no pas de deux não ensaiado que resultou – em termos de análise mediática e comentariado político… − muito bem. Mas Seguro, o mais interventivo Presidente dos últimos 20 anos (ver matéria nesta edição), foi ao concreto, ao insurgir-se contra o fim do acesso público aos nomes dos que fazem donativos a partidos. Essa discussão faz o seu caminho na Assembleia da República, mas o PR não se inibe de a condicionar, declarando a sua discordância de que esses nomes deixem de ser conhecidos do público. O ponto mais brilhante do discurso surge, porém, numa fase que não passa nas televisões nem atravessa o comentário político: trata-se da maneira inspirada, quer na forma, quer no conteúdo, como se dirigiu aos jovens. Num tom intimista, com tratamento “por tu”, como se estivesse a falar com cada um deles, elenca uma série de situações do quotidiano, que fazem parte da ordem natural das coisas e que são dados adquiridos nas expectativas dos mais novos, mas que nunca existiriam sem o 25 de Abril. Eis o parágrafo para gravar em pedra e para figurar em todos os currículos escolares: “Quando deixaste de ser obrigado a combater, ir para a guerra – foi Abril. Quando conduzes um carro e não precisaste de autorização do teu marido ou da família – foi Abril. Quando és mulher e viajas sem ter de pedir autorização ao teu companheiro – foi Abril. Quando optas por uma carreira de magistrada ou diplomata e és mulher – foi Abril. Quando a tua mãe e o teu pai foram à urgência e não lhes pediram que pagassem antes de serem tratados – foi Abril. Quando a tua liberdade apela a propor, participar ou assinar uma petição – foi Abril. Quando leste ou partilhaste uma notícia crítica do poder e ninguém bateu à tua porta – foi Abril. Quando votaste, ou decidiste não votar, sem medo de represálias – foi Abril. Abril está nos gestos. Faz parte da tua vida, porque tens liberdade.”

3. Uma nota final para o comportamento de Pedro Delgado Alves – que, logo a abrir, exagerou nas “condecorações” com vários cravos ao peito… Virar ostensivamente as costas, durante 20 segundos, de pé, em protesto contra o discurso de Aguiar Branco, é uma atitude indigna de um partido que fez a diferença, na nossa democracia, pela tolerância – como ensinou Mário Soares – e pelo respeito mostrado face à diferença de opinião. Por aqui se vê como a postura-padrão do grupo parlamentar do Chega está a tornar-se contagiosa e a fazer escola. Esperava-se aquilo de qualquer dos 60 deputados da direita radical e populista – mas não se esperava de um dirigente socialista com especiais responsabilidades no Parlamento. De uma certa forma, a atitude de Pedro Delgado Alves avaliza a tese de Aguiar Branco, quando fala do desfasamento entre políticos e povo. 

Palavras-chave:

Na área da psiquiatria, como se traduz uma maior compreensão da doença mental?
A psiquiatria tem como objeto o tratamento de doenças mentais. Contudo, também se alicerça muito na antropologia porque, se não se conhecer o Homem, não se consegue entender a doença. O pensamento complexo, juntamente com a consciência de si e a consciência da finitude, é o embrião de todos os fenómenos humanos. Se, por um lado, existe a angústia da insignificância, por outro, quando olhamos para o Universo, percebemos que provavelmente fazemos parte dessa grandeza, de uma certa consciência global. Os fenómenos muito próprios da psiquiatria são sempre os que nos limitam a comunicação com o outro. A doença mental é aquela situação que carece de uma intencionalidade do ponto de vista existencial, isola a pessoa ou, de alguma forma, a impede de uma articulação satisfatória com as suas realidades próprias ou com o outro e com o contexto sociocultural. A doença mental é uma situação de isolamento do indivíduo.

Há aqui então uma sensação de inadequação em relação ao meio.
Exatamente. Há muitas vezes a sensação de que não encaixamos ou que estamos desadequados em relação ao mundo no tempo e no espaço que nos foi dado para viver. As pessoas têm a sensação de que poderiam ter pertencido a outro tempo. Isto é importante porque nós só conseguimos desenvolver os nossos potenciais se chegarmos ao outro. A saúde depende da capacidade de eu usar o meu potencial. Nós estamos cá para nos aproveitarmos e devolvermos ao outro o que a Natureza nos deu. Sempre que o meu potencial não é usado – porque tenho uma neurose obsessiva ou compulsiva, porque tenho de limpar o piano todo antes de o usar, tenho de lavar as mãos dez vezes –, sempre que o potencial é impedido, deve ser considerada doença.

Ou seja, depressão, ansiedade, stresse crónico, tudo isso está a impedir-nos de nos realizarmos.
Porque nos impedem de ter a mente suficientemente canalizada para aquilo em que realmente nós somos bons. Como se fosse um parasita que nos tira energias. Não é para sermos todos ‘normaizinhos’; é para um dia acabarmos e dizermos a nós próprios: eu aproveitei-me. Dei aos outros e a mim mesmo aquilo que a Natureza me deu. A saúde é isto. A depressão não é não ter o que comer. A depressão é a sensação de vazio existencial, a perda de intencionalidade, o ‘O que é que eu ando cá a fazer?’

O propósito é essencial.
Ou eu trabalho naquilo em que tenho jeito ou então é muito difícil viver. O propósito ou a missão é muitas vezes o agradecimento que o outro tem perante a nossa habilidade. Isto porque somos a espécie com maior necessidade de vínculo. As nossas crias são mais indefesas e, portanto, têm de se vincular aos cuidadores mais tempo. É por causa disso que, na nossa espécie, morremos pelo outro. O vínculo primeiro é que vai depois determinar toda a capacidade de fazer com que o outro seja importante. E quando o outro é importante, nós somos saudáveis. Quando vivemos num isolamento e o outro desaparece… Li uma frase que dizia: “Na depressão, o mundo torna-se uma massa amorfa desprovida de afeto.” Na depressão, o outro torna-se uma coisa. Mas o afeto é a condição fundamental da saúde na nossa espécie.

O outro não é coisa apenas na depressão. O outro torna-se coisa numa sociedade em que o descartável é regra.
O pós-modernismo, que alguns compreendem ser depois da queda do Muro de Berlim, é caracterizado pela queda das narrativas, as narrativas que visavam um bem-estar comunitário. E, portanto, o indivíduo sentiu-se só. Se os projetos de uma sociedade mais coesa e mais feliz não existem, o que resta? O individualismo. Aquela frase “se eu não gostar de mim, quem gostará?” é absurda, porque muitas pessoas não gostam de si próprias e são amadas. É uma frase horrível do individualismo. Estamos num vazio de ideologias.

As consequências negativas do vício do telemóvel estão para lá da cognição e do foco?
Também estão ao nível dos afetos. Este tipo de estímulos de informação muito repetida vai produzir estimulação de hormonas neurotransmissoras, como a dopamina. E temos de perceber que quem consome substâncias, como a cocaína, tem sensações muito prazerosas e o cérebro consegue ser enganado. São formas ‘masturbatórias’ de ter prazer nas coisas, é um prazer único, virado para o próprio indivíduo, em que o outro não interessa nada.

É a sociedade também da dopamina.
É exatamente o neurotransmissor que sobe quando consumimos cocaína. Mas que sobe também com os estímulos visuais contínuos e repetidos. Dão-nos uma sensação de informado, de ‘eu conheço o mundo’, de capacidade mental, e estimulam a dopamina por uma via que não é saudável.

O que é que perdemos nisto?
A nossa intencionalidade. A única coisa que nos tira a angústia da morte é a possibilidade de amar alguém. A única coisa que nos permite a eternidade é o amor, não há mais nada. Ou nós temos a sorte e a capacidade de amar alguém, e temos uma sensação de eternidade naquela pessoa ou naqueles que amamos, ou então a finitude é uma angústia, mas isto já não é viver, é sobreviver.

Ou seja, continuamos vazios.
Continuamos vazios e com o fim à porta. Há um filósofo que diz que nestas condições somos cadáveres adiados. Isto é muito mau. Amar o outro como? Amar é trabalhar para ele, isto é, sentir a felicidade dele como se fosse minha. Se eu não fizer isto, a vida é um tormento de obrigações e de doenças.

Mas nem tudo é psicológico.
Não é. Já conseguimos em tomografias determinados padrões de funcionamento cerebral que correspondem a certas doenças psiquiátricas. As alterações fisiológicas existem e é um campo que tem vindo a desenvolver-se muito na psiquiatria. Os medicamentos já não se produzem só para aliviar os sintomas, mas fazem-se substâncias para corrigir alterações fisiológicas cerebrais. A medicação faz com que a fisiologia se altere no sentido da normalidade.

É por causa dos avanços nesta área que temos mais diagnósticos ou estamos num tempo e numa sociedade que nos adoecem mais?
Há cada vez mais diagnósticos, sim, hoje em dia até há um diagnóstico para quem rói a pele das unhas. E é verdade que existe uma pressão não muito saudável para se fazerem diagnósticos, pois sem diagnóstico não há prescrição e não se vendem medicamentos. Mas também devemos olhar para a sociedade: quando não há um projeto comunitário, o que resta é o projeto individual. Portugal tem das mais altas taxas de depressão e ansiedade e este adoecer deriva da fraca coesão social, com grandes taxas de desconfiança em relação aos outros, o que provoca comportamentos defensivos. Isto acontece sobretudo nos países onde a justiça não se faz cumprir e o cidadão vive com medo do triunfo da vigarice.

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As grandes conquistas do cérebro

Palavras-chave:

Um dos grandes mitos em torno do nosso cérebro é a falsa ideia, muito propagada, de que usamos apenas cerca de 10% das suas capacidades. Uma “fake news” que se cultiva em terreno fértil porque o cérebro continua a ter, em boa medida, recantos absolutamente misteriosos que a Ciência tenta desvendar. Por outro lado, quem não gostaria de ser uma Lucy, a personagem interpretada por Scarlett Johansson no filme de Luc Besson como o mesmo nome, de 2014? Depois de o seu corpo absorver uma droga psicadélica que contrabandeava, Lucy torna-se uma supermulher com capacidades incríveis que vão do controlo da dor à telepatia, da absorção imediata de todo o tipo de conhecimento à telecinese. Um cérebro pleno, capaz de abraçar o amor fati… ou de o destruir de vez.

Talvez um dia, talvez não assim tão distante, conseguiremos ser Lucy, mas isso será à custa de implantes e de nova tecnologia e não do facto de usarmos apenas uma pequena percentagem do cérebro, como se não tivéssemos acesso aos seus grandes poderes. Temos. Aliás, durante um só dia ativamos praticamente todas as zonas cerebrais e isso está demonstrado através de ressonâncias magnéticas funcionais.

Os mistérios por desvendar são outros ou, como nota um artigo da Johns Hopkins Magazine, estamos perante “uma das maiores ironias da Natureza: o cérebro humano não consegue compreender a sua própria complexidade”. O instituto norte-americano lançou um hub de investigação com o ambicioso objetivo de “alcançar uma compreensão completa do cérebro, desde o nível molecular até aos níveis cognitivo e comportamental”, usando para isso a tecnologia com Inteligência Artificial. É que ainda falta saber muito.

Foto: Dreamstime.com

Por exemplo, sabemos que o cérebro humano tem 86 mil milhões de neurónios, mas ainda não entendemos todos os seus tipos nem o que fazem muitas das outras células cerebrais chamadas da glia. Ou mesmo a totalidade dos seus componentes, o que faz com que não se consiga responder integralmente à pergunta “de que é feito o cérebro?”

Não sabemos tudo sobre a forma como os neurónios comunicam entre si. É certo que o fazem através das sinapses – e cada neurónio conecta-se com outros dez mil – usando moléculas conhecidas como neurotransmissores, como a GABA ou o glutamato. Mas existem muitos outros tipos mensageiros químicos cuja forma de transmitir mensagens ainda não foi desvendada. Na prática, nem todos os medicamentos interagem com a GABA ou o glutamato. “Com substâncias como opioides ou antidepressivos, na verdade não entendemos os mecanismos das moléculas subjacentes com as quais esses medicamentos interagem”, explicou Jack Waters, neurocientista do Allen Institute for Brain Science, num artigo do instituto.

Aqui está o ponto. Compreender o cérebro não é apenas um exercício de “conhece-te a ti próprio” – é perceber os mecanismos da doença e a forma de a tratar. Muito se tem caminhado nos últimos anos, sobretudo na forma de tratar a doença de Alzheimer, a demência mais comum e que, com o envelhecimento da população, tem aumentado significativamente. Em 2050, prevê a associação Alzheimer Europe, 20 milhões de pessoas sofrerão da patologia a nível europeu, 367 807 das quais em Portugal, o que representará 3,76% da população total.

Quais são os novos caminhos da Ciência por entre este labirinto altamente complexo que habita em nós (ou que nós habitamos)?

Os novos neurónios

No início do ano, a VISÃO perguntou ao neurocientista António Damásio: a que não podemos fechar os olhos em 2026? “Grande parte daquilo que estamos a compreender de novo como é o ser humano tem a ver com o cérebro, com o sistema nervoso e, dentro desse campo de Ciência, aquilo que tem a ver com a consciência e os sentimentos”, respondeu, ele que tinha vindo a Portugal lançar um livro onde situa a consciência de nós próprios, no cérebro, naquilo a que chama a “feeling mind”, a mente do sentir.

“A sociedade contemporânea está totalmente integrada num fluxo de conhecimentos a que se acede muito rapidamente e sem haver o equilíbrio que vem dos sentimentos, sem os quais não é possível ter uma vida sã, uma vida bem vivida”, acrescentou. É um pouco a ideia do psiquiatra António Sampaio (ver entrevista nas páginas seguintes), que define a doença mental como algo que impede, ou trava, uma pessoa de desenvolver o seu potencial. Um estado em que podemos dizer “aproveitei-me!”, por oposição a um vazio ou a uma perda de intencionalidade na vida.

Porque o cérebro passa toda a nossa vida a desenvolver os seus potenciais. A ideia de que nascemos com todos os neurónios já tinha sido abandonada há algum tempo. A evidência tem vindo a mostrar que a neurogénese, a formação de novos neurónios a partir de células-tronco, não ocorre apenas no embrião, mas acontece também na vida adulta. No ano passado, um estudo publicado na revista científica Science selou esta certeza que ainda era alvo de discussão: investigadores suecos do Instituto Karolinska identificaram células progenitoras de neurónios em adultos, inclusive com 78 anos.

Até agora, não éramos capazes de protelar o surgimento da demência. O passo já foi dado

Miguel Viana Baptista, presidente da Sociedade Portuguesa de Neurologia

Eram células estaminais e neurónios imaturos, muitos dos quais em fase de divisão. Estes diferentes estádios de desenvolvimento neuronal encontraram-se no hipocampo, local onde se consolidam memórias e que também atua ao nível da regulação emocional. É das estruturas mais afetadas pelo Alzheimer e de forma precoce, diminuindo de tamanho perante o acúmulo de beta-amiloide e proteína tau. Assim, as descobertas da equipa sueca são importantes para o “desenvolvimento de tratamentos regenerativos que estimulem a neurogénese em perturbações neurodegenerativas e psiquiátricas”.

Mais: é possível manipular genes para estimular a produção de novos neurónios em cérebros envelhecidos, já tinha mostrado um estudo de 2024 publicado na Nature. Os investigadores da Stanford Medicine chegaram aqui a outra conclusão. Uma vez que um dos genes manipulados era o GLUT4, que transporta glicose, os cientistas sugeriram que níveis elevados de glicose prejudicam a neurogénese. Até porque há, no processo, influência do estilo de vida. Ou seja, uma boa parte está também nas nossas mãos (ver caixa).

Revolução nas doenças

“A neurociência é, provavelmente, a disciplina onde mais se avançou nos últimos anos”, afirma Miguel Viana Baptista, presidente da Sociedade Portuguesa de Neurologia. “Ainda assim, mesmo agora que temos, pela primeira vez, drogas que parecem modificar a história natural da doença de Alzheimer, continuamos a não poder dizer que vamos restituir a função aos doentes que perderam alguma função. Sobretudo se falarmos de funções mentais superiores. Uma coisa é perder a função motora e aí podemos imaginar que vamos arranjar um braço eletrónico que vai ser ativado de maneira diferente – isso será possível que venha a acontecer no futuro. Mas a complexidade do pensamento abstrato e das funções cognitivas… é muito pouco provável que, uma vez perdidas, elas venham de alguma forma a ser refeitas”, explica.

O que está a acontecer então de revolucionário no tratamento de doenças como o Alzheimer ou o Parkinson?  “Temos finalmente alguma capacidade de lidar com algumas doenças neurológicas. Na doença de Parkinson, a estimulação cerebral profunda [colocando um neuroestimulador que envia sinais elétricos ao cérebro] tem ajudado a controlar os sintomas, como os tremores. Isto tem sido um avanço muito grande, cada vez com mais indicações, nesta altura até com a possibilidade de tratar também algumas doenças do foro psiquiátrico”, continua o neurologista.

Miguel Viana Baptista frisa, no entanto, que isto não significa ainda “a cura da doença nem o restituir do processo ao início”. Mas nos tratamentos há todo um admirável mundo novo na área psiquiátrica, por exemplo, à medida que se entendem melhor os neurotransmissores implicados em diferentes vias. E na doença de Alzheimer.

“Até agora, não éramos capazes de protelar o surgimento da demência. Nesta altura, o nosso objetivo é apanhar os doentes na fase o mais precoce possível e, com estas drogas agora disponibilizadas, conseguimos atrasar um bocadinho o processo. Estes novos fármacos foram aprovados pela Agência Europeia do Medicamento, embora não sejam comparticipados em Portugal. Mas o passo foi dado e o passo é irreversível”, diz o médico.

Assim, quando há um diagnóstico de doença de Alzheimer, mas ainda não há um diagnóstico de demência – ou seja, a pessoa ainda é funcional, não dependente, está numa fase de queixas de memória ou de déficit cognitivo ligeiro –, os novos medicamentos permitem que ela se mantenha mais tempo nessa fase em que lhe é permitida alguma autonomia funcional. “Um dos fármacos é comercializado em Portugal, o Lecanemab [anticorpo monoclonal que reduz as placas de proteína beta-amiloide no cérebro], e a curto prazo estará também disponível o Donanemab”, adianta Miguel Viana Baptista.

Há 20 anos, a terapêutica aguda para tratar os acidentes vasculares cerebrais veio permitir salvar tecido cerebral através da revascularização da zona lesada. Agora a revolução está no tratamento do Alzheimer. Mas também há passos importantes a serem dados na esclerose lateral amiotrófica ou na atrofia muscular espinal.

Memória e vício

No ano passado, uma equipa da Universidade de Yale quis saber porque não nos lembramos dos primeiros três anos da nossa vida, tão fundamentais para o desenvolvimento do nosso cérebro. Há muito que se acreditava que o hipocampo, em desenvolvimento lento mesmo pela adolescência fora, simplesmente não tinha como fixar essas memórias dos primeiros anos. A investigação com bebés entre os 4 meses e os 2 anos de idade mostrou aos cientistas que nós temos memórias, sim, mais acentuadas a partir de 1 ano de idade, mas, por alguma razão ainda desconhecida, não conseguimos aceder-lhes quando crescemos.

Este tipo de amnésia infantil – pois normalmente as nossas primeiras memórias remetem aos 4 ou 5 anos de idade – pode ser uma caixa de Pandora para tratar um sem-número de doenças. Se as memórias dos bebés, de facto, estão lá, mas inacessíveis, o que pode acontecer se descobrirmos uma maneira de as aceder? Na área do trauma, das perturbações comportamentais e da saúde mental em geral, seria abrir as portas da perceção para tratar tudo o que ficou inominável e escondido nas profundezas da nossa mente. Mas também podemos encontrar nesta amnésia dos primeiros anos muitas pistas para a perda de memória dos últimos anos, com o envelhecimento e com as doenças neurodegenerativas.

Se a tecnologia tem sido essencial para a compreensão do cérebro, seja através das ressonâncias magnéticas funcionais, como no caso desta investigação com bebés, seja no estudo dos processos envolvidos nos biliões de sinapses, análise só possível com a big data e a Inteligência Artificial, sabemos, por outro lado, “que a tecnologia avançou a um ritmo muito mais acelerado do que a evolução da própria da estrutura do ser humano”, como frisa Rebeca Cifuentes, pedopsiquiatra. “A acomodação do ser humano a estas novas tecnologias, apesar de trazer alguns benefícios, também tem trazido alguns prejuízos naquilo que são as relações sociais ou o impacto a nível do planeamento. Uma das coisas que se observam muito frequentemente nas crianças e nos adolescentes é a falta de pensamento crítico, um certo desinvestimento em tentar entender como é que funcionam as coisas, o cérebro passou a funcionar de uma forma mais automática e muito mais impulsiva.”

As novas tecnologias dão ao nosso cérebro aquilo que queremos no momento que queremos, sem espera, sem esforço. Um pico de dopamina. Este é o neurotransmissor associado à recompensa e ao prazer. Um estudo recente da Fundação Champalimaud mostra que a dopamina tem também um papel crítico na doença de Parkinson, sendo que níveis mais baixos têm influência no movimento.

Esquizofrenia, transtorno do défice de atenção, depressão… os desequilíbrios de dopamina estão envolvidos em vários problemas do foro psiquiátrico e, naturalmente, nos mecanismos do vício. A incessante procura de estímulos mostra um cérebro ávido de dopamina. “Existem alguns estudos que demonstram que, com o uso continuado de redes sociais e jogos, há certas áreas do cérebro que ficam numa hipofunção, assim como há outras que ficam numa hiperestimulação. Áreas mais ligadas à estruturação, ao planeamento, acabam por sofrer consequências, os jovens tornam-se mais impulsivos, funcionam mais em resposta direta. Por outro lado, a destreza manual desenvolveu-se com os videojogos. O facto é que aumentam os níveis de cortisol com consequências em termos do crescimento, da regulação emocional e dos níveis de ansiedade que estão muito mais aumentados nesta população atual”, nota Rebeca Cifuentes.

“Cada vez atendemos mais crianças com problemas de atenção, com muita dificuldade em se concentrarem, com limitações socioemocionais, dificuldades em iniciar conversas, em manter as amizades. Desde a pandemia, assistimos também a muitos problemas ao nível da linguagem, ou seja, começam a falar mais tarde, não articulam corretamente os sons, têm dificuldade em distinguir sons fonologicamente parecidos, dificuldade na construção frásica. Porque os ecrãs estão a ser dados a crianças muito novas”, descreve a psicóloga Tatiana Louro.

O resultado, continua a psicóloga, traduz-se num progressivo isolamento, num aumento da ansiedade social. “Não se desenvolvem habilidades de inteligência emocional, saber ler a expressão do outro, saber comunicar os seus interesses, as suas intenções ou interagir de forma adequada. Por outro lado, há menos concentração, mais dificuldade no planeamento, na memória, na capacidade de ter um raciocínio lógico mais dedutivo ou em resolver problemas. Há um declínio, a médio e longo prazo, do potencial cognitivo”, conclui.

Talvez a grande ironia não seja o cérebro humano não conseguir compreender a sua própria complexidade. A grande ironia provavelmente está no facto de os grandes feitos saídos da mente humana servirem hoje para atrofiar o cérebro. Assim nunca seremos Lucy.

O que pensa o intestino

As investigações sobre o nosso “segundo cérebro” mostram ligações surpreendentes a doenças neurológicas

O nosso intestino tem neurónios, aliás, tem tantos quantos os que existem na medula espinal. De acordo com um estudo da Fundação Champalimaud, de 2025, é esta rede do nosso “segundo cérebro” que decide se o sistema imunitário entra em modo de ataque ou de reparação dos tecidos, em caso de doenças como cancro ou infeções.

Nas últimas investigações sobre a conexão entre o cérebro e o intestino, percebeu-se que a microbiota intestinal desempenha um papel em certas doenças cerebrais, como o Parkinson ou a esclerose múltipla, influenciando a atrofia cerebral e o declínio cognitivo. Estudos recentes apontam também o microbioma como uma forma de detetar doenças precocemente. Descobriram-se, por exemplo, alterações específicas nas bactérias intestinais associadas ao gene APOE4, o principal fator genético de risco para a doença de Alzheimer. Há muito que se desconfia de uma ligação entre distúrbios gastrointestinais e o Alzheimer. Um estudo longitudinal de 2020 concluiu que pessoas com síndrome do intestino irritável eram seis vezes mais propensas a ter doença.

A nível psiquiátrico, as ligações são ainda mais evidentes e mais de 90% da serotonina é produzida pelas células do intestino. A “hormona da felicidade” é um neurotransmissor que regula o humor, o sono, o apetite, a temperatura corporal e a motilidade intestinal. O nervo vago é o canal de comunicação por onde viajam as mensagens dos neurotransmissores, do intestino até ao cérebro (e vice-versa) e a sua sinalização tem fortes implicações em estados de ansiedade, depressão ou mesmo em processos de aprendizagem e memória. Há também associações entre certas espécies do microbioma e o processamento emocional e a impulsividade. Já os mais velhos diziam: isto sente-se nas entranhas.

A mente inflamada

Conselhos da bióloga e nutricionista Ana Santos, autora do livro Um Cérebro (Des)Cansado

Sinais de inflamação
“O cérebro inflama. O sinal mais óbvio é a cefaleia recorrente ou a enxaqueca. O cérebro vai inflamando com o processo de envelhecimento, mas também pela presença de radicais livres, de contaminantes ambientais, de alimentos ultraprocessados, de uma vida muito stressante, da falta de exercício físico, do excesso de peso.”

A alimentação
“O que ajuda é ter uma alimentação de base vegetal, assente nos pilares da dieta mediterrânica, onde temos muita variedade de hortifrutícolas, de carne, de peixe, de leguminosas, que são extremamente importantes para o cérebro. E boa hidratação, um bom aporte de gorduras, nomeadamente através do azeite virgem extra e dos peixes gordos.”

O sono
“Ter uma boa qualidade de sono é fundamental. Em Portugal dorme-se muito mal e muito pouco e temos muita dependência de indutores de sono. Se me deito tardíssimo, acordo com cafés, tenho uma vida superstressada, não pratico atividade física, não apanho luz solar o dia todo e depois vou para a cama e não durmo, tomo um ansiolítico. É uma péssima rotina para o nosso cérebro.”

O exercício
“Sermos fisicamente ativos é essencial e não temos de ir para o ginásio, temos de ter uma vida fisicamente ativa, ou seja, se quiser ir daqui para ali, vou a pé em vez de ir de carro.”

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1. Os factos são o que são e, na verdade, já não deveriam surpreender-nos. E o factual é que, mais uma vez, após longos anos de condenação na praça pública, com as frequentes e sempre habituais fugas de informação, mais um conjunto de figuras públicas constituídas arguidas foram absolvidas em tribunal por falta de provas. Aconteceu agora com o ex-presidente do Benfica, Luís Filipe Vieira (e outros dirigentes do clube), na operação Saco Azul, referente a acontecimentos que terão ocorrido há uma década. Mas já vimos este filme passar inúmeras vezes à frente dos nossos olhos.

E vimo-lo sempre com um argumento-padrão, muitas vezes com os mesmos atores e sempre com a mesma linha de tensão, para criar dramatismo e prender a atenção do espectador nos primeiros momentos: uma sucessão torrencial de revelações que ajuda a criar a ideia de uma acusação perfeita, sem falhas e absolutamente blindada. Mas, depois, o filme de ação transforma-se numa telenovela repetitiva e monótona, que se arrasta durante anos. Tantos que, quando chega o desfecho, já ninguém lhe presta atenção. Até porque é um anticlímax: a absolvição. Foi agora com Luís Filipe Vieira como já aconteceu com os ministros Miguel Macedo (vistos Gold) e Azeredo Lopes (Tancos), bem como com diversos autarcas, quase todos após processos que se arrastaram durante anos e anos.

Pode-se sempre argumentar que é a Justiça a funcionar. Mas é impossível não relacionar isto tudo com as conclusões de uma inspeção agora conhecida ao funcionamento do Departamento Central de Investigação e Ação Penal, responsável por investigar os crimes mais graves, e que são absolutamente arrasadoras: processos que se prolongam por períodos tão longos que escapam à “compreensão”, emails que demoram 100 dias a ser abertos, sistemas informáticos considerados obsoletos e uma gestão de meios que não é objetiva nem eficaz.

A primeira perplexidade, perdoem o pleonasmo, é como alguém ainda fica perplexo com isto. A segunda perplexidade, perdoem agora a irritação, é ainda mais grave: como é que o mau funcionamento da Justiça, em especial nos processos mais emblemáticos, continua a ser recebido com um encolher de ombros pelos decisores políticos? A separação de poderes é essencial, mas o desleixo, assim, passa a ser responsabilidade de todos – sem exceção.

2. Foi há mais de 30 anos, mas há filmes que nunca envelhecem, mesmo estando longe de serem obras-primas. É o caso de Na Linha de Fogo, realizado por Wolfgang Petersen, em 1993, em que Clint Eastwood desempenha o papel do guarda-costas que “deixou” morrer John F. Kennedy, no atentado em Dallas. E que, passadas algumas décadas, volta a ocupar uma posição semelhante, no corpo de proteção ao Presidente. Quem viu o filme lembra-se das conversas telefónicas entre o guarda-costas veterano e o jovem assassino, interpretado por John Malkovich, em que este questiona o primeiro sobre as razões morais que podem levar alguém a arriscar a vida para “salvar um homem como aquele”.

O assassino assumido diz então ao guarda-costas: “Você tem um trabalho tão estranho… Nem consigo perceber se é heroico ou absurdo.”

“Mas porque quer matar o Presidente?”, riposta Clint Eastwood, com a sua voz grave. A resposta, em tom suave, de John Malkovich foi, na época, desconcertante: “Para quebrar a monotonia.”

Com Donald Trump na Casa Branca, o quebrar a monotonia seria quase deixar de haver atentados. E não me refiro apenas ao terceiro de que terá sido alvo, em menos de dois anos. Este novo atentado é mais um passo para a normalização da violência política nos EUA, que se encontra numa espiral de radicalismo e de polarização. Além dos assassínios do ativista ultraconservador Charlie Kirk e de uma congressista democrata, com o seu marido, no Minnesota, há já estudos de opinião que medem bem o escalar desta era de “populismo violento”: 39% dos democratas preconizam o uso da força para remover Trump, enquanto 24% dos republicanos aceitam que o Presidente use as Forças Armadas para reprimir os protestos populares contra ele.

Quando isto ocorre num país em que proliferam as armas e as redes sociais disseminam e amplificam o ódio – como em todos os outros, na verdade… −, é difícil não temer o pior. Nem os efeitos secundários desta violência: Trump beneficia sempre que sobrevive a um atentado. E, em todos os momentos, culpa os seus adversários políticos de instigarem à violência.

Nos próximos meses, até às eleições de novembro, é bem provável que este clima se agudize. Com consequências trágicas para a democracia americana – à qual já muitos estão a marcar o respetivo funeral.

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