“Mais do que um concerto, é um espetáculo”, adverte o encenador Carlos Antunes, dirigindo-se à Orquestra do Hot Clube Portugal, no fim do ensaio de Tudo Isto É Jazz!, que se apresenta nesta sexta, 9, no Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém. E é, na realidade, um musical, uma criação de João Moreira dos Santos, que mistura jazz e teatro, produzida pela Égide, Associação Portuguesa das Artes, e pelo Hot Clube.
Um espetáculo groovy a celebrar Luís Villas-Boas, um dos fundadores do Hot, que faria cem anos no próximo dia 26 de março, e também o centenário da primeira apresentação de jazz em Portugal por uma banda internacional, os Pan-American Ragtime Band em maio de 1924. Uma “coincidência engraçada” segundo Pedro Moreira, que dirige a Orquestra de Jazz do Hot. A formação, com Bruno Santos, Luís Cunha, Óscar Graça, Pedro Felgar, Francisco Brito, Tomás Marques, Bernardo Tinoco, entre outros, irá tocar duas dezenas de temas, numa viagem pela história jazzística, em Tudo Isto é Jazz.
O ator João Lagarto transforma-se, em palco, na figura de Luís Villas-Boas, revisitando a sua biografia, do “nascimento até aos últimos anos, em que habitava um espaço que já não reconhecia”, como explica Carlos Antunes que concebeu a encenação a partir da dramaturgia de Fernando Villas-Boas.

Luís Villas-Boas (1924 -1999), sócio nº1 do Hot, é considerado, por muitos, o pai do jazz em Portugal, a começar por João Moreira dos Santos. É esse nome precisamente que dá ao livro Luís Villas-Boas — O Pai do Jazz em Portugal com 70 entrevistas, que vai apresentar nesta sexta, 9, às 19h30. Na personalidade de Villas-Boas, sublinha “a coragem, a ousadia, a inovação, o empreendorismo e a paixão”.
“Era, sobretudo, um homem apaixonado, achava o jazz tão bom e emocionante que tinha de o partilhar com as pessoas”, diz João Moreira dos Santos, reconhecendo que uma pessoa como Villas-Boas, “hoje em dia, era impossível”. “Na nossa sociedade, marcada pelo politicamente correto, tinha sido ‘cancelado’ ao fim de um ano”, afirma com alguma ironia. “Era um homem intrépido, corajoso, ousado, muito franco e direto e que chamava os bois pelos nomes; e foi graças a esse espírito combativo, ousado e tenaz que conseguiu fazer tudo o que fez”.
O maestro e presidente do Hot Clube de Portugal, Pedro Moreira, nota, por seu lado, que Villas-Boas “era um personagem encantador”. “Muito magnético, carismático, entrava numa sala e de repente estava toda a gente a olhar para ele”, afirma. “Era uma pessoa leal e frontal, com uma personalidade muito marcada. E depois tinha aquela paixão gigantesca, o jazz acima de tudo, pela qual lutou a vida toda”, recorda. “Conhecia muitos músicos. Os grandes nomes dos anos 50 e 60, como Count Basie, Thelonious Monk… Tinha sempre histórias maravilhosas para contar deles”. Era um ‘bon vivant’, sublinha: “Gostava de comer bem, do seu copo de vinho”.
Em Tudo Isto é Jazz!, recriando um percurso pessoal e musical, não cronológico, vão tocar músicos de várias idades, dos 20 aos 90 anos, como é o caso de António José de Barros Veloso, piano, e do maestro Jorge Costa Pinto, ambos nonagenários. As cantoras Maria João, Sofia Hoffman e Rita Maria, o saxofonista Ricardo Toscano, Rão Kyao (flauta), Zé Eduardo (contrabaixo), Gonçalo Sousa (harmónica), são outros dos solistas.

Nesta sexta, 9, no CCB, durante a tarde, haverá ainda uma mesa redonda (às 17h15), a estreia de Luís Villas-Boas: a Última Viagem (18h30), documentário sobre a sua última ida a Nova Iorque, realizado por Laurent Filipe, e a atuação do Sexteto Syncopators (18h15) que vai recriar a música dos Wilson Robinson’s Syncopaters, a primeira banda norte-americana, que tinha sido residente do Cotton Club, a dar um concerto em Portugal, em 1927.
Tudo Isto É Jazz! > Centro Cultural de Belém > Pç. do Império, Lisboa > T. 21 361 2627 > 9 fev, sex 21h > €20 (laterais) e €30 (plateia)