
Rosdiana Ciaravolo
À medida que o romance se foi afirmando ao longo do século XX, a ideia de originalidade tornou-se central. Sedentos de aventuras, os leitores passaram a estar mais interessados na novidade do que na repetição, que é a marca da herança clássica. Já não era só “quem conta um conto acrescenta um ponto”, mas sobretudo “novos contos”. Talvez devido à fúria editorial que marca os nossos tempos, ou pelo esgotamento de soluções, do universo da língua inglesa têm chegado propostas em sentido contrário. Velhas personagens, como Hercule Poirot ou James Bond, voltaram através de outros escritores, que assim homenageiam os mestres. Mais recentemente, a editora Hogarth desafiou oito autores a recriar, em romance, outras tantas peças de Shakespeare, num projeto que coincidiu, em 2016, com a celebração dos 400 anos da morte do dramaturgo. O resultado é inesperado e cativante, com alguns encontros verdadeiramente felizes, como o que juntou Jo Nesbo à tragédia de Macbeth.
Na famosa peça de Shakespeare, Macbeth é sinónimo de ambição desmedida e de avidez sem limites, que corroem por dentro, transformando em inimigos os mais próximos. No mundo do crime em que se movimenta, Jo Nesbo tem descrito cenários idênticos. Os seus policiais estão cheios de desejos veementes e irracionais que acabam em crime, como os de Macbeth. O que seduz na sua recriação é a inversão da lógica. Ainda que instrumentalizada, a negra sede de poder está dentro da força policial que combate o mundo da droga e os seus cartéis em permanente luta. Apesar de não haver bruxas, como na peça, mas capangas bem armados, Macbeth será um inspetor cada vez mais isolado no seu vórtice de paranoia e culpa. E também saberá, tarde demais, que a “fútil ambição” destrói tudo, incluindo “as próprias fontes da sua vida”. Hoje, como ontem.

Dos oito previstos, Macbeth, de Jo Nesbo (Bertrand, 528 págs., €19,90), é o sexto título, publicado em Portugal, desta coleção de romances baseados nas peças de Shakespeare, depois das versões de Anne Tyler, Howard Jacobson, Jeanette Winterson, Margaret Atwood e Tracy Chevalier.