À entrada, uma passadeira vermelha estende-se até ao palco. Depois de fechadas as cortinas, parte-se para uma viagem documental, em projeção multimédia, que explica as características do fado e da guitarra de Coimbra. Faz-se silêncio: porque se vai cantar o fado! Os artistas, envoltos nas suas capas negras, soltam os acordes e a voz para dar vida a temas imortais como Saudades de Coimbra ou Balada da Despedida.
“O nosso espetáculo tenta recriar uma serenata de Coimbra, onde o amor é tema central”, explica João Farinha, fadista e um dos promotores da casa Fado ao Centro. As paredes estão recheadas de lembranças da vida académica: fitas, caricaturas, códigos de praxe, bilhetes para a queima das fitas…
Também fotos, muitas fotos, de Luís Goes, José Afonso, Adriano Correia de Oliveira e António Portugal. E uma enorme imagem da Monumental Serenata da Queima das Fitas, na Sé Velha.
Ao longo do espetáculo, canções de amor e nostalgia tomam conta dos presentes na sala. Repetem-se palmas e vê-se brilho no olhar de quem ouve atentamente. Uma turista brasileira, entranhada nas especificidades da canção de Coimbra, exalta: “Isto não é fado de Lisboa.” O que mais surpreende os turistas é a forma de cantar, que muitos comparam à ópera. Entre músicas o fadista vai contando histórias e partilhando experiências. O espetáculo não acaba sem que antes se oiça Coimbra tem mais encanto/Na hora da despedida. À saída os turistas levam discos dos artistas do Fado ao Centro, a quem pedem autógrafos e perguntam sobre o significado das fitas e dos rasgões nas capas.
João Farinha (voz, formado em gestão de empresas), Luís Barroso (guitarra, engenheiro de minas) e Luís Carlos Santos (viola, bioquímico) são os promotores do projeto (com cerca de 30 músicos) que pretende “defender e promover a tradição “. Aqui, tocam sobretudo estudantes e ex-estudantes da Universidade.
João sempre conviveu de perto com o fado. Já o seu pai era fadista. Mas só despertou para este estilo musical depois de entrar na faculdade, quando começou a cantar. “O fado é exigente, tem que se cantar com alma”, revela o fadista, 36 anos, que abdicou da sua profissão para se dedicar por inteiro a este projeto. No final de cada espetáculo, apesar do cansaço físico e emocional, sente-se de “alma cheia”. Aberto no ano passado tem atraído sobretudo turistas, embora pontualmente recebam grupos organizados, com muito sucesso.
A casa está aberta durante o dia, não por acaso: os estudos indicam que os turistas que visitam a cidade não ficam para dormir.
Já gravaram dois discos mas, os artistas do Fado ao Centro querem mais. Entre junho e setembro organizam serenatas na Rua do Quebra Costas, às segundas e quartas à noite e, em breve, esperam ter uma escola de música a funcionar no espaço.
AS RAÍZES DA TRADIÇÃO
O que caracteriza o fado de Coimbra, ou a canção de Coimbra como também é conhecido, é uma forma especial de cantar. É um canto de rua, mais lírico que o de Lisboa.
A Secção de Fado da Associação Académica de Coimbra (SF/AAC) na sua página oficial na internet descreve-o como “singular, profundo e marcante”.
“É uma canção terna, nostálgica, de amor. Mexe com os meus sentimentos”, caracteriza António Ataíde, fadista de 44 anos, sócio e cantor residente da casa de fado àCapella. A origem do fado de Coimbra não é consensual. Pela forte ligação ao mundo estudantil a sua evolução terá bebido de muitas fontes, incluindo muitas das regiões de onde provinham os estudantes.
Até aos anos cinquenta do século passado a canção de Coimbra era essencialmente constituída por temas de amor, de serenata.
A conjuntura política que o país atravessava e circunstância de aparecer como capital de oposição ao regime do Estado Novo fez da canção arma de protesto. Neste momento a SF/AAC, que nasce em 1980, possui dois grupos de fado ativos, constituídos por estudantes. Todos os anos organizam o mês do fado, em abril, com inúmeras atividades a servir de mote para a Monumental Serenata da Queima das Fitas, “o expoente máximo” da canção de Coimbra, como refere Alice Lopes, presidente da secção de fado. Em Coimbra, duas casas de fado funcionam diariamente: o Fado ao Centro e o àCapella. Contudo, noutros espaços, também se ouve fado de Coimbra pontualmente, como no Café Santa Cruz, no Be Fado e no Diligência Bar.
FADO NA CAPELA
Às dez da noite apagam-se as luzes, ficando a sala iluminada pelas velas acesas no cimo das mesas e por um tom rosa claro que cobre o altar transformado em palco.
Ouve-se a voz sonante de António Ataíde entoar: “Sejam bem-vindos ao àCapella”. Dá-se o mote com Cantigas de Maio de José Afonso. Ataíde é acompanhado ao piano. Para muitos, pode parecer estranho. “Foi o primeiro acompanhamento de fado”, explica o fadista.
No àCapella, instalado na Capela da Nossa Sr.ª da Vitória, do século XIV, situada na zona histórica da cidade, a música renovase sem nunca perder as raízes: as capas, as guitarras, o canto, o fado! Aí as mulheres também cantam. E abriram o leque de sonoridades com novos instrumentos. Para o fadista “é uma forma de evolução natural.
As pessoas que vão ao àCapella podem desmistificar a Canção de Coimbra” pois fazem-na “de uma forma mais moderna e abrangente em termos musicais”.
No espetáculo, dividido em três partes (30 minutos cada),escutam-se vários êxitos do passado como Variações em Ré Menor de Artur Paredes ou Ondas do Mar de Carlos Figueiredo. Tudo num ambiente familiar e intimista. Entre turistas, nacionais e estrangeiros, destaca-se uma açoriana que aproveitou para mostrar parte da cultura do seu país às amigas estrangeiras. Agradadas, elas ouviam enquanto saboreavam vinho tinto português. Além de turistas são muitos os ex-estudantes a frequentar o espaço para reviver tempos passados.
Na casa criada em 2003 por iniciativa do grupo Quinteto de Coimbra ( já extinto), ao qual pertencia António Ataíde, atuam essencialmente estudantes e ex-alunos, mas não só. “Há muita gente envolvida na canção de Coimbra que não foi estudante universitário “, lembra. Por aqui já passaram Vitorino, Paulo de Carvalho, Rão Kyao, Ivan Lins, entre outros. Os artistas residentes são os sócios: Ricardo Dias e Bruno Costa (guitarra), Nuno Botelho e Ni Ferreirinha (viola), António Ataíde e Nuno Silva (voz), e ainda Ricardo J. Dias (piano e acordeão).
Tal como no Fado ao Centro, repete-se a fotografia tipo passe: projetam-se imagens que do país, do fado e da guitarra. Coimbra tem mais encanto/ Na hora da despedida, é a melhor forma de terminar o espetáculo. O público acompanha na melodia. Nessa altura, aprende a dizer “saudade”.
ONDE SE PODE OUVIR FADO EM COIMBRA
FADO AO CENTRO
R. Quebra Costas, 7
T. 913 239 725
Seg-Dom 18h (aprox. 50 min.)
€10 (inclui vinho do Porto)
ÀCAPELLA
R. Corpo de Deus, Lg. da Vitória Capela Nossa Sr.ª da Vitória
T. 239 833 985
Seg-Dom 20h-3h
€10 (€5 para estudantes)
CAFÉ SANTA CRUZ
Pç. 8 de Maio
T. 239 833 617.
Jul-Set: Seg-Dom 22h.
Grátis
BE FADO
R. Adelino Veiga, 33
T. 239 053651/ 239 054929/ 92 628 0296.
Qui-Sáb 22h
DILIGÊNCIA BAR
R. Nova, 30
T. 239 827667/93 4095040
Seg-Dom 19h-02h30.
(Fado e outros géneros musicais)