O epidemiologia Manuel Carmo Gomes, que hoje na reunião do Infarmed, não poupou críticas à estratégia do Governo e anunciou que ia deixar de fazer estas apresentações periódicas, garante que a decisão de se afastar nada tem a ver com qualquer mau-estar com o Executivo. Aliás, à VISÃO, o especialista garante que a ministra da Saúde, Marta Temido, sabia o que ele ia dizer no encontro de hoje. “”Estou muito agradecido à senhora ministra por ter tido a coragem e a hombridade de me ter deixado fazer a apresentação, porque sabia que eu ia fazer uma apresentação um bocadinho fora da caixa”, disse, garantindo, de seguida: “Não estou zangado com ninguém. Hoje achei apenas que era a minha oportunidade de fazer as pessoas refletir e abrir a discussão a todo o país daquilo que está a ser feito e se podemos fazer alguma coisa que evite voltar a passar por aquilo que passámos em janeiro que foi a pior crise de saúde publica de Portugal dos últimos 100 anos.
Na reunião do Infarmed, Carmo Gomes criticou a atuação do Governo de António Costa, avisando que Portugal andou “sempre atrás da pandemia”, numa referência clara ao atraso na tomada de medidas.
Quanto ao seu afastamento, o professor de Epidemiologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, que nos últimos meses tem feito parte do grupo de conselheiros do Governo para o combate à pandemia, garante que estava programado e que apenas tem a ver com a elaboração das apresentações, podendo manter a colaboração: “O que pedi à senhora Ministra foi que me dispensasse da necessidade de fazer uma apresentação, que é algo que consome também muito tempo, no entanto, se ela quiser que eu esteja presente na sala para ajudar a tirar dúvidas e responder às perguntas da sessão de perguntas, fá-lo-ei com todo o gosto.”
A decisão teve a ver, acrescenta, apenas com questões de agenda e a impossibilidade de conciliar todo o trabalho que neste momento tem entre mãos. “O que acontece é que eu estou na Comissão Técnica de Vacinação, que é muito exigente em termos de tempo consumido. Reunimos, ordinariamente, uma vez por semana, mas, na prática, com as reuniões extraordinárias, acabamos por reunir três ou quatro vezes por semana, o que é muito consumidor.”, diz, continuando: ” Além disso, é uma atividade que obriga a estar a ler constantemente a literatura que sai relativamente às vacinas, para conseguir da um apoio como deve de ser e eu sinto que não tenho dado à comissão de vacinação o apoio que gostaria de dar. Tenho tentado conciliar o apoio à Comissão de Vacinação como o apoio à Senhora Ministra, com estas idas ao Infarmed e na análise da situação epidemiológica, mas, com o retomar das aulas em fevereiro, não consigo fazer tudo, Já trabalho de 12 a 14 horas por dia”. Por isso, confessa, o perito: “Não aguento tanta coisa”.
A substituição de Carmo Gomes, sabe a VISÃO, está agora a ser ponderada e na próxima reunião do Infarmed poderá já estar presente um dos outros elementos da equipa da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa que tem trabalhado com ele na elaboração destes modelos de análise. Entre os elementos da sua equipa está o matemático Carlos Antunes, que costuma ir regularmente à televisão falar sobre os números e os cenários possíveis quanto à evolução da pandemia. É ele quem costuma, com Carmo Gomes, elaborar os gráficos que são apresentados ao Governo naquelas reuniões do Infarmed.
Sem adiantar nomes, Carmo Gomes admite no entanto, que na sua opinião é muito importante que alguém da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa possa continuar a fazer as apresentações, até porque, salienta, são análises menos coladas aos dados oficiais. “É importante continuar a haver alguém, porque esta é uma análise independente que não segue os mesmos padrões do INSA e é sempre útil”, defende, adiantando que o tema também já foi falado com Marta Temido que demonstrou abertura para que um dos peritos o possa substituir .
A Faculdade de Ciências participa nestas reuniões de forma voluntárias, sem que os peritos recebam qualquer valor. Carmo Gomes tem sido um dos mais importantes e mediáticos conselheiros por não poupar críticas às opções tomadas. Foi um dos especialistas que se mostrou contra o aligeiramento das medidas no período do natal, e foi também um dos que mais se debateu pelo encerramento das escolas. Aliás, a segundo a VISÃO apurou, Carmo Gomes, assim como outros elementos da sua equipa, já tinha ponderado fazer uma intervenção mais dura e mais crítica quando à estratégia do Governo quanto à pandemia. No entanto, essa intervenção acabou por ser adiada para esta terça-feira. E na sua intervenção Carmo Gomes deixou claro que aquilo que os elementos da Faculdade de Ciências avisaram quando defendiam o encerramento das escolas logo desde o início, era a opção certa. Segundo o epidimiologista, só no momento em que os estabelecimentos de ensino fecharam as portas é que o vírus começou a ser verdadeiramente combatido. Só aí, sublinhou, se verificou uma redução abrupta de novos casos.