Em 1975 Portugal recebeu 500 mil portugueses que deixaram para atrás uma vida construída fora da metrópole, nas então denominadas colonias ultramarinas

Demos-lhe o nome de “retornados” muito embora para uma parte significativa dos que chegavam aquele não fosse retorno algum, pois tudo o que conheciam eram os horizontes e a terra vermelha africanas.

Mais de meio século volvido podemos estar hoje na iminência de repetir esse êxodo, mercê duma situação tumultuosa vivida no país que acolhe segunda maior comunidade emigrante portuguesa: a Venezuela.

País em ebulição há décadas, com convulsões e desigualdades sociais profundas, a Venezuela viveu em 2019/2020 um grande êxodo migratório, sobretudo para o vizinho Brasil.

Nessa altura houve um retorno pouco significativo de portugueses porquanto a situação afetava sobretudo uma classe mais desfavorecida e mais politizada que aquela onde a nossa diáspora se insere.

Com os últimos acontecimentos resultantes das eleições de domingo dia 28 de julho, o país mergulha a passos rápidos numa ebulição social e numa guerra que pode vir a ser civil.

Perante este cenário como fica a situação dos cerca de meio milhão de portugueses que ali vivem?

O nosso Ministério dos Negócios Estrangeiros apela, naturalmente, à calma e transmite algumas orientações genéricas. Em bom rigor, e de momento, é tudo o que pode fazer.

Com os últimos acontecimentos resultantes das eleições de domingo dia 28 de julho, o país mergulha a passos rápidos numa ebulição social e numa guerra que pode vir a ser civil.
Perante este cenário como fica a situação dos cerca de meio milhão de portugueses que ali vivem?

Mas caso se agravem as condições naquele país da América Latina e seja necessário proceder à evacuação dos nossos compatriotas, estaremos preparados para criar, em tempo recorde, uma ponte aérea que não nos deixe à mercê dos nossos parceiros europeus e possa assegurar a segurança dos nossos compatriotas?

Em 1975 foi criado o Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais (IARN), cujo objetivo e função, como o próprio nome indicava, era proceder ao acolhimento dos que regressavam em fuga..

Alvo de críticas até ao momento, o certo é que o IARN conseguiu em menos de meio ano acolher e distribuir todos os que chegavam, a maioria apenas com a roupa do corpo e o olhar perdido num passado que já não existia.

Neste momento, existe uma Agência de Integração, Migração e Asilo.

Por economia de linguagem ou por mera ignorância, que chega bem alto quer em termos académicos quer em termos políticos e jornalísticos, optou-se por designar por Migração toda a mobilidade humana, sem se fazer distinção entre os que entram – imigrantes – e os que saem – emigrantes.

Ora mercê desta nomenclatura, seria lógico que nesta Agência houvesse um departamento que tratasse também da nossa diáspora.

Sim, bem sei que as coisas não correm bem, que a AIMA está numa situação sob holofotes e que dotá-la de mais competências é, à primeira vista, um disparate.

Mas será?

Numa altura em que o Governo se prepara para rever a estrutura de resposta migratória em Portugal e perante a situação que pode vir a acontecer em qualquer dos grandes polos de emigração portuguesa, numa altura em que tanto se fala de atrair os nossos jovens de forma a fazê-los regressar ao País, talvez fosse bom começar por inverter uma tendência muito nossa que é a de pulverização de recursos, responsabilidades e autoridade.

Escrevi em artigo anterior que a AIMA deveria estar sob a alçada do MNE uma vez que este tem a competência para emitir vistos de entrada no País, o que em última análise é o principio da migração regular.

É um dossier escaldante bem sei. Mas distribui-lo por várias “capelinhas” só aumenta a entropia.

Há muito boas vozes na nossa praça que não consideram adequada a junção de E e I migração na mesma estrutura. Francamente não entendo o porquê. São realidades diferentes, argumentam. É um facto. Mas há mais pontos que as une que os que as separam

A AIMA tem a função de integração.

Os que regressam também necessitam de ser reintegrados.

Não é evidente que todos possuam apoio ou rede familiar com que possam contar. E há ainda que ter em conta os jovens que nunca viveram em Portugal e que se forem obrigados a a deixar o único país que conhecem por força da sua nacionalidade herdada ou para seguirem a família, sentir-se-ão tão perdidos como qualquer imigrante oriundo de África ou Índia.

Talvez seja hora de pensar nisto e ter preparado um plano de retorno e de apoio, pois o futuro não se afigura sereno e mesmo que não seja necessária uma intervenção tão imediata, as movimentações geopolíticas a que assistimos não nos devem deixar reféns de soluções de última hora.

Dotar as estruturas existentes de meios humanos e técnicos suficientes para poderem cumprir com as suas atuais e futuras competências é sempre melhor que começar tudo do zero, uma e outra vez.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

As recentes eleições presidenciais na Venezuela desencadearam uma crise diplomática e os Estados Unidos estão a questionar abertamente os resultados anunciados pelo governo de Nicolás Maduro. Antony Blinken, o secretário de Estado norte-americano, afirmou que o país reconhece a vitória do candidato da oposição nas presidenciais da Venezuela, com base em “provas incontestáveis”.

“Tendo em conta provas incontestáveis, é claro para os Estados Unidos e, sobretudo, para o povo venezuelano, que Edmundo Gonzalez Urrutia obteve mais votos na eleição presidencial de 28 de julho”, disse em comunicado divulgado esta quinta-feira.

Enquanto o Conselho Nacional Eleitoral da Venezuela declarou Nicolás Maduro vencedor com 51,2% dos votos, a oposição, liderada por María Corina Machado, afirma que González Urrutia obteve quase 70% dos votos.

Esta disparidade levantou suspeitas de fraude eleitoral, mas, ainda assim, na segunda-feira, o Conselho proclamou Maduro Presidente eleito do país para o período 2025-2031.

O chefe da diplomacia dos EUA disse considerar válida a contagem de votos apresentada pela oposição, afirmando assim que Urrutia “recebeu a maioria dos votos com uma margem insuperável”.

As afirmações de Blinken não são despropositadas, porque, recorda, as contagens foram “recebidas diretamente das assembleias de voto em toda a Venezuela” e corroboram as sondagens à boca das urnas e as conclusões dos observadores independentes e das contagens rápidas.

“Desde o dia das eleições, temos consultado intensamente parceiros e aliados em todo o mundo e, embora cada país tenha tomado caminhos diferentes para responder, nenhum concluiu que Nicolás Maduro recebeu a maioria dos votos”, disse.

O Presidente Nicolás Maduro respondeu às declarações dos Estados Unidos, pedindo-lhes que “tirem o nariz da Venezuela”.

A controvérsia gerou uma reação global, com países como o Brasil, o México e a Colômbia a instarem a Venezuela a publicar dados desagregados por mesa de voto

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O anúncio surge numa altura em que a Intel se depara com resultados financeiros ‘desastrosos’. Ao todo, a Intel registou um prejuízo de 1,6 mil milhões de dólares no segundo trimestre do ano. No trimestre anterior, a empresa já tinha perdido 437 milhões de dólares. 

“O nosso desempenho financeiro no segundo trimestre foi decepcionante, mesmo tendo atingido novos marcos em produtos-chave e em processos tecnológicos”, admite Pat Gelsinger, CEO da Intel, citado em comunicado à imprensa. 

Num memorando enviado aos funcionários, e partilhado pela Intel no seu website, o responsável afirma que as receitas do segundo trimestre não cresceram como esperado, admitindo que a empresa ainda não conseguiu tirar partido de grandes tendências tecnológicas, como a IA. 

No segundo trimestre, a Intel registou receitas na ordem dos 12,8 mil milhões de dólares, numa queda de 1% em comparação com o mesmo período em 2023. 

Apesar das vendas terem mantido alguma estabilidade e de o negócio de PCs e servidores continuar a trazer lucro, a maioria das perdas tem origem no negócio dos semicondutores, com um prejuízo de 2,8 mil milhões de dólares. 

Durante o anúncio dos resultados financeiros do segundo trimestre, David Zinsner, CFO da Intel, sugeriu que o Lunar Lake, o próximo processador focado nas capacidades de IA, poderá não ser suficiente para mudar a situação da empresa, avança o website The Verge.

A Intel tem vindo a perder terreno em comparação com empresas como a Nvidia, em particular, na área da IA. Mas este não é o único problema que enfrenta. Além de depender parcialmente da TSMC para ajudar no fabrico de semicondutores mais avançados, a empresa viu-se forçada a remodelar os seus processadores para portáteis topo de gama para manter a competitividade face à oferta da Qualcomm e da Apple. 

Recentemente, a tecnológica também se viu a braços com falhas nos seus processadores Intel Core de 13ª e 14ª geração. Embora esteja a trabalhar numa solução através de uma atualização de software, a empresa já anunciou um prolongamento da garantia dos chips por mais dois anos.

Uma pista de atletismo é uma pista e nada mais do que uma pista. É assim que os leigos olham para o local em que assentam os pés velozes dos desportistas olímpicos. Ainda nem tinham começado as provas que os iriam pôr à prova e já havia uma protagonista nesta modalidade. A pista, precisamente, que afinal não é apenas uma pista, nada mais do que uma pista.

A empresa italiana de Alba, responsável pela construção desta de Paris – que é roxa e tem causado sensação apenas ao olhar – é a Mondo, de Maurizio Stroppiana, a mesma que se dedica a esta idealização, de quatro em quatro anos, desde 1976, quando os jogos de verão se disputaram em Montreal, no Canadá.

Alessandro Piceli é o diretor de investigação e desenvolvimento da empresa e assegura que as pistas estão sempre em atualizações técnicas que fazem os atletas melhorar os seus resultados, tal como os equipamentos desportivos. É certo que a pista de Paris é ainda melhor do que aquela aonde se bateram recordes no Japão, conseguindo, através dos avanços tecnológicos, e uma conexão dinâmica com a nova geração de ténis, melhorias na ordem dos 1 a 2 por cento.

Como? Por baixo daquele roxo visível em todas as provas, existem duas camadas de borracha. O nível inferior tem células em forma de favo de mel e é nesses alvéolos que o ar absorve o choque da aterragem do pé durante a corrida. Depois, ele é empurrado para fora, devolvendo a energia à medida que o pé levanta voo. Esta tecnologia, fruto de anos de investigação por parte de químicos, engenheiros e físicos, custou entre dois a três milhões de euros.

Giorgio Lesage, o diretor de inovação e sustentabilidade da Mondo, lembra que esta pista também foi concebida para melhorar os tempos nos Paralímpicos, que começam a 28 de agosto nas mesmas instalações. Como é feita de borracha, a interação com as cadeiras de rodas é mais eficaz.

Aguardemos pelos recordes, então.

Concebido para gamers que precisam de poupar espaço no seu setup, o Logitech G515 Lightspeed TKL destaca-se pelo design compacto, mas também pelo baixo perfil, uma característica ‘herdada’ do G915, um modelo low-profile originalmente lançado em 2019 e que ganhou uma versão Tenkeyless em 2020.

Logitech G515: Compacto e moderno

Com um visual discreto, à primeira vista, quase nem parece que estamos perante um teclado de gaming. Uma percepção que muda assim que o ligamos e que somos ‘cumprimentados’ pela retroiluminação RGB, um pormenor quase indispensável num equipamento feito para apelar a gamers. 

Apesar de ser fabricado em plástico, a construção é sólida e o peso é distribuído de forma equilibrada. Para manter a estabilidade durante o uso, o Logitech G515 conta com pequenos pés em material antiderrapante. A base conta também com uma textura com algum relevo para ajudar a manter o teclado no lugar. 

Este é um modelo low-profile, com uma altura de apenas 22 mm, o que contribui para um perfil mais ‘elegante’. Mas não é só no aspecto estético que esta opção promete ter vantagens. A Logitech afirma que a altura mais reduzida do teclado escusa a necessidade de ter um apoio para os pulsos, contribuindo para uma experiência de utilização mais confortável.

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É verdade que não estamos perante um teclado ergonómico, mas em comparação com outros teclados de gaming que já experimentámos, podemos dizer que sentimos, de facto, menos pressão nos pulsos. Porém, se está acostumado a teclados mais altos, a transição para um modelo de perfil mais baixo pode requerer alguma habituação. Felizmente, o Logitech G515 traz duas opções que permitem ajustar a inclinação do teclado, com duas patilhas na base que o elevam para um ângulo de 4 ou 8 graus.

As dimensões mais reduzidas pedem um aproveitamento adequado do espaço disponível, o que a Logitech consegue fazer neste modelo. Porém, certas teclas acabam por ter de partilhar funções e, aqui, consideramos que a marca perdeu uma oportunidade para usar de uma melhor forma a barra superior. Por exemplo, os botões para controlo de media poderiam ter opções dedicadas nesta barra. 

Apesar disso, na barra superior poderá encontrar três botões específicos: dois dedicados à conectividade e outro que ativa o Game Mode, uma útil opção que permite bloquear determinadas teclas durante os jogos para evitar toques acidentais. 

Foco no desempenho

Olhando com mais atenção para o teclado, a poupança também se aplica ao espaço que existe entre as teclas. Se é um jogador com mãos ágeis e uma maior destreza é provável que nem dê por isso enquanto está a jogar ou a escrever. Por outro lado, quem tem dedos menos hábeis ou mãos de maiores dimensões pode levar algum tempo para se habituar e para reduzir a quantidade de toques acidentais. 

A Logitech afirma que, para uma experiência mais ‘agradável’ aos ouvidos, o teclado está equipado com uma camada de espuma que amortece o som, à qual se juntam teclas em plástico PBT, estabilizadores integrados, e switches pré-lubrificados. Note-se, no entanto, que o Logitech G515 não é um teclado silencioso, em particular se for alguém que não mede a força quando está a ‘teclar’. 

Para combinar com o low-profile do teclado, as teclas também chegam com switches de baixo perfil, disponíveis numa opção tátil ou linear. O modelo que testámos, que se enquadra na primeira categoria, tem switches mecânicos que, de acordo com a Logitech, têm um ponto de atuação de 1,3 mm, além de uma distância de deslocamento de 3,2 mm. 

O teclado responde rapidamente e com muito boa precisão, sem falhas nem atrasos, o que o torna ideal para jogos que exigem maior agilidade. A par do bom desempenho das teclas, as características deste modelo são também apelativas para os fãs de jogos mais competitivos, permitindo manter o impulso durante as sessões mais intensas sem causar demasiado desconforto. 

O desempenho durante a escrita não fica muito atrás. Porém, há um pormenor importante para os gamers portugueses, sobretudo para os jogadores que estão à procura de um teclado multifunções que sirva tanto para gaming como para o trabalho…

Logitech G515: Lost in translation

O modelo que testámos foi concebido em específico para a língua inglesa (Inglês Americano na versão internacional na descrição Logitech). Como verificámos no website oficial da marca, ainda não está disponível uma versão em Português. 

É certo que pode trocar algumas teclas fisicamente ou até aproveitar as opções de personalização para remapear outras, se bem que nem sempre seja prático. A versão que mais se ‘aproxima’ da nossa língua é a que está configurada para espanhol, embora não seja uma troca perfeita.

Da personalização à autonomia

A aplicação Logitech G HUB (disponível para Windows e MacOS através do website da marca) é essencial para conseguir personalizar as funcionalidades do teclado, assim como o aspecto da retroiluminação RGB. Apreciamos particularmente a possibilidade de programar até 15 funções para cada tecla e de definir perfis para diferentes tipos de jogos, o que consideramos uma opção útil para quem quer dar o seu melhor independentemente do título que estiver a jogar. 

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Ao todo, o Logitech G515 oferece três opções de conectividade: wireless (com tecnologia Lightspeed da Logitech), Bluetooth ou por ligação através de cabo USB. Independentemente da opção escolhida, não verificámos falhas nem ‘solavancos’ na estabilidade da ligação ao computador. 

Ao usar a ligação sem fios tem ainda a possibilidade de usar o receptor do teclado para ligar um rato de gaming compatível da Logitech, o que permite libertar uma porta USB no computador para outros dispositivos. 

Na autonomia, a Logitech promete uma capacidade de até 36 horas, isto é, com uma ligação wireless e com a retroiluminação no máximo. É possível prolongar a autonomia do teclado ao reduzir a intensidade da iluminação. Para um jogador mais casual, não fará grande ‘mossa’, mas se costuma passar muito tempo a jogar (sobretudo em modo sem fios) este é um ponto que pode deixar a desejar.

Tome Nota
Logitech G515 Lightspeed TKL – 149,99
logitechg.com

Características Tamanho: Tenkeyless (75% de integral) • Switches mecânicos Logitech GL de baixo perfil • Ponto de atuação: 1,3 mm • Força de atuação: 45 g (versão tátil) • Distância de deslocamento: 3,2 mm • Retroiluminação RGB personalizável (16,8 M cores) • Conectividade: Wireless 2.4GHz (Lightspeed), Bluetooth, cabo USB (USB 2.0) • Compatibilidade: Windows (10 ou superior), MacOS (12 ou superior) • Autonomia anunciada: 36 horas • 368x150x22 mm • 880 g

Ergonomia Satisfatório
Rapidez Excelente
Conectividade Excelente
Autonomia Bom

Desempenho: 4,5
Características: 4
Qualidade/preço: 4

Global: 4,2

Também nos encontrávamos de dia, mas só a noite nos dava verdadeira intimidade. Esperava, ansiosa, que o céu escurecesse, que todos se recolhessem, e lá ia eu.

Doze, treze, catorze anos, o meu corpo em ânsias de crescer, a brevidade da vida – essa lesma então impossivelmente longa, longuíssima – era-me ainda incompreensível. Nada queria eu com maior querer do que a manobra apressada e bruta com que transformava o diurno sofá do T1 com kitchenette, onde os meus pais e eu vivíamos, na cama por onde tudo passaria. O meu sofá-cama. Fora comprado num concorrente manhoso da Moviflor, o mais barato que existia na loja, com o seu histérico veludo sintético, de uma cor tão indefinível que nunca mais a vi em lado algum, Cor de burro quando foge, ria-se a minha mãe, se nos rirmos não estamos tão sozinhos.

Era quase indecorosa a chiadeira com que o sofá-cama se esparramava. Ainda em V, antes da horizontalidade final, mostrava as suas imperfeitas entranhas de madeira, onde todas as manhãs eu guardava os lençóis e o pequeno candeeiro com pé de madeira e globo de vidro leitoso que, à noite, colocava na mesinha, deslocando-a do centro da sala para a minha cabeceira. Os meus pais no quarto, os televisores dos vizinhos desligados, os miúdos do bairro finalmente a dormir, a avenida do Ultramar vazia, eu podia retornar ao que mais desejava.

A leitura foi minha amante, muito antes de o sexo começar a cravar as suas garras em mim. Um prazer vagamente ilícito retirava-me do mundo dos outros, para me atirar, frangalho, para dentro do mundo de um só outro. O autor. Ele – ou ela – o enigma do seu nome inscrito na capa, travestido em personagens, tal como quando um amante muda o tom de voz para dar início ao jogo e, desarmante, sussurra – súplica ou ordem – Despe-te.

Lia até adormecer, lia sem saber nada acerca dos livros que lia, livros curtos, longos, clássicos, populares, tristes, cómicos, sisudos, de cordel, livros emprestados, requisitados na biblioteca, livros de que os meus colegas se desfaziam ou que eu encontrava junto ao caixote do lixo.

Tapete voador, o sofá-cama levou-me com Mr. Phileas Fogg à volta do mundo. Frágil batel, nele naufraguei com Robinson perto de Trinidad

Atrás da sua secretária, a professora de Português do meu 8º ano, uma mulher severa de carrapito e colar de pérolas, parecia um talhante, ao balcão, a retalhar O meu pé de laranja lima em capítulos, ações, personagens, regras gramaticais e estilísticas, mas à noite, na minha cama, chorava com o Zezé a morte do Portuga,

Dor não era apanhar de desmaiar. Não era cortar o pé com caco de vidro e levar pontos na farmácia. Dor era aquilo, que doía o coração todinho, a ensaiar o choro que me desabou vinte e cinco anos mais tarde quando o meu pai morreu.

Mas no tempo em que eu lia no sofá-cama da sala do J. Pimenta. Eu era feliz e ninguém estava morto.

A minha mãe, aos sábados de manhã, trazia-me ducheses do mercado de Cascais numa caixa de plástico verde-água e a minha cama podia esperar até ao almoço para voltar a ser sofá.

‒ E se eu deixar de saber que sou tua mãe?, perguntou-me, há tempos. No início da doença, a minha mãe ainda fazia perguntas.

‒ Com sorte, demorarei um pouco mais a deixar de saber que sou tua filha, respondi.

Rimo-nos as duas.

Não há nada por que nos rirmos, mas se nos rirmos…

Um sofá-cama não é bem uma cama. De cima a baixo, uma cicatriz longitudinal vinca a irremediável divisão que sempre existe entre dois corpos, mesmo quando,

deitados lado a lado, querem ser um só. Ainda assim, convida os dois corpos a juntarem-se nesse breve abismo. Aí me afundei entre os braços de Heathcliff, as pernas do Dr. Mundinho, o peito de Mellors e de outros tantos. Rameira sem remorso, entregava-me ávida ao próximo e ao próximo e ao próximo. O amor com que os guardei na minha memória nunca sossegou o insaciável apetite pelos que pudessem vir. Que procurava eu? Que procuro eu?

Tapete voador, o sofá-cama levou-me com Mr. Phileas Fogg à volta do mundo. Frágil batel, nele naufraguei com Robinson perto de Trinidad. Certa noite, o Jumbinho pôs-se a ladrar do 6º B, como se adivinhasse o que Raskólnikov estava a fazer. Carrego ainda a culpa de ter deixado a Anna sozinha para ir beber leite com chocolate à cozinha, como se ao abandoná-la por instantes a tivesse empurrado para os carris. É realmente possível dizer a outra pessoa o que se sente?, tinha-me perguntado ela. Ou terá sido a Emma antes de se envenenar, deixando-me este amargo de boca que nunca mais me largou, Quando é que as mulheres deixarão de morrer assim? Confundo-me cada vez mais no que li, no que vivi, no que escrevi.

A verdade é que

Há muito muito tempo, os livros salvaram-me. Se não quiseres acreditar, não acredites. Acreditar também é uma decisão. Há coisas que não se podem decidir. Ter sede, por exemplo. Ser salvo por livros.

confessou o protagonista d’A biblioteca, um assassino que aguardava o tiro que o iria matar. Confessei-o eu, travestida dele, no início desse conto que escrevi há quase década e meia.

O sofá-cama do J. Pimenta já não existia quando, de repente, era o meu nome que estava inscrito numa capa. Foi desconjuntado pelo meu pai, há mais de quarenta anos, com um machado improvisado. Um dia de sol e os pedaços de madeira e de veludo sintético a arderem no baldio onde hoje existe uma bomba de gasolina BP

que disponibiliza também lavagem automática de carros, Quem escolhe a bomba certa tem a 4ª lavagem de oferta.

Estou ao volante do meu carro. Não o conduzo, mas ele anda sozinho. É empurrado por mecanismos misteriosos, através de uma densa espuma branca que não deixa ver mais nada, Quem escolhe a bomba certa… E se qualquer coisa avaria e fico aqui fechada para sempre nesta clausura irreal? Quero um vento forte que desenterre as cinzas do meu sofá-cama (de certeza que ainda aqui estão) e que elas me devolvam… me devolvam, o quê?

Dou conta de que é impossível fechar um sofá-cama como se fecha um livro. Tal como a vida, um sofá-cama tem ferragens menos flexíveis e mais perras do que uma lombada. Ou então são as suas páginas que, demasiado estofadas, não se deixam espalmar umas contra as outras.

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Enquanto peço o café, o olhar desvia-se para a televisão. Páro. Estremeço ao ver a notícia que ocupa o ecrã. Um homem, um avô, violou o neto de três anos. Sento-me e continuo a olhar, enojada. Em estúdio, o apresentador lança a discussão. “Este homem merecia o quê?”. Ouve-se, ainda fora do plano, alguém a responder “castração”. Os minutos seguintes são para uma psicóloga discorrer sobre como a castração química, por não impedir o desejo, pode tornar os abusos ainda mais perversos.

No dia a seguir, deixo as crianças na escola e, junto ao portão, tropeço no fim de uma conversa. Comenta-se a forma como algumas pessoas se recusam a dar prioridade a grávidas e bebés. Um pai, de ar plácido, reage perante um desses relatos, com uma voz que não denuncia sequer irritação. “Esse homem merecia a pena de morte”. Nenhuma reação.

Ponho os auscultadores e sigo pela rua, ouvindo um podcast. A reportagem do The New York Times é sobre o que será um Trump 2.0 e fala sobre a forma como o agora candidato à Casa Branca tem um plano para remover os obstáculos que refrearam o seu primeiro mandato.

O microfone vai para Ed Young, de Brick, New Jersey, que está num comício de Donald Trump. É 78.º comício de Trump a que vai. “Espero que quando for reeleito se acabe o Mr. Nice Guy. Espero que haja um acerto de contas”. E como? “Bem, sabe, esta é a minha fantasia, aquilo de que este país precisa mesmo. Quer dizer, não vai acontecer. Na minha fantasia aquilo de que precisamos é de um julgamento ao estilo de Nuremberga para este país. E que todos os eleitos democratas sejam julgados por traição. E, se forem condenados, que sejam castigados, tal e qual como os nazis em Nuremberga. Espero por Deus ver criminosos malvados e traidores como os democratas serem presos e condenados”.

A castração, a pena de morte, a prisão política. O desejo de aniquilação do outro, motivado por um suposto sentido de justiça. A forma como a racionalidade desapareceu de um discurso público inflamado por uma indignação contínua e estéril, está a ter efeitos profundos.

Pode dizer-se que são efeitos de linguagem. Talvez a comentadora que, em estúdio, fala na castração estivesse a agir sob o efeito da repulsa óbvia que o crime provoca. Talvez o apresentador não se tenha sequer questionado sobre os efeitos que a pergunta que lançou tem sobre quem acaba de ser confrontado com um ato tão abjeto. Certamente que o pai que conversava à porta da escola não pretendia matar quem recusa dar a vez a uma grávida. E o apoiante de Trump usa mesmo a expressão “fantasia” e tem o cuidado de afirmar que aquilo que deseja “não vai acontecer”. E, no entanto, esta forma de agir sobre o mundo com a vontade de aniquilar o outro é cada vez mais frequente, ao ponto de se tornar banal. É com a banalização do mal que estou preocupada.

Estamos perante o fim da política. Aniquilar aquele com quem não se concorda, de forma real ou simbólica, é renunciar à política. Quem nos instiga a indignação excitada, quem promove o ódio sobre o outro, quer verdadeiramente que renunciemos à política, deixando o campo aberto para que sejamos conduzidos sem reação para um mundo que promete lei e ordem, mas que se alimenta do caos necessário para que uma pequena elite reine incontestada sobre a turba oprimida e alienada.

Do que precisamos não é de indignação. É de pensamento crítico. Aquele que obriga a tudo o que está fora de moda. Ouvir, ler, refletir, atrasando a reação, aceitar o erro, mudar de ideias, abdicar de certezas. Seremos ainda capaz disso?

Antes dos jogos de Tóquio, que aconteceram em 2021, nunca o Comité Olímpico Português tinha integrado uma nutricionista na equipa. Aqui estão algumas razões que demonstram, em todas as fases da preparação, a importância dessa decisão e da presença de Cláudia Minderico, que antes pertencia ao Centro de Alto Rendimento do Jamor.

Os planos alimentares são personalizados para cada atleta?

Sim, dependem do peso, da massa muscular, da modalidade, do tipo de treino. Mesmo tratando-se do mesmo atleta, isso varia consoante o ciclo em que está, pois há que alimentar o treino de acordo com o que vai acontecer: se for mais exigente, precisarão de mais hidratos de carbono, por exemplo. 

Quais as principais diferenças entre modalidades?

Para um maratonista, que tem de correr durante duas horas, ou um velocista, que faz os 100 metros, as necessidades são completamente diferentes. Este último tem de ser explosivo e muito rápido, e isso consegue-se através da fosfocreatina e depois do glicogénio. O maratonista precisa de ácidos gordos e de hidratos de carbono, mesmo durante a prova que é muito longa. Se não ingerir hidratos, vai buscar energia à gordura, que é de produção lenta.

Até que ponto a falta de líquidos pode influenciar um resultado?

A nossa primeira preocupação é uma boa hidratação. Sem ela, nem vale a pena pensar em alimentação ou em suplementos. O nosso corpo é composto por 70% de água, e precisamos de lá ter a quantidade necessária para que as reações bioquímicas e fisiológicas aconteçam. A desidratação reduz o rendimento desportivo. E basta perder 1% de peso corporal (se tiverem 70 quilos, são 700 gramas) para isso afetar em 30% do desempenho. Temos feito um grande trabalho educacional ao longo destes três anos.

Como se controlam os níveis de hidratação?

Através da cor e da densidade da urina, mas também temos balanças em todos os quartos para verificar se o peso diminuiu depois dos treinos. Se isso aconteceu, é sinal de que perderam água e não beberam o suficiente para a repor.

Que outros ensinamentos fazem parte do processo educativo dos atletas?

Nós envelhecemos, porque respiramos, e, quando treinamos, ainda respiramos com mais intensidade – logo envelhecemos mais rapidamente. Explicamos-lhes, pois, que devem compensar esse declínio celular com a toma de antioxidantes.

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