Trump é quem mais ordena − Nunca pensei, como cidadão comum, ver/viver em minha vida coisas como as que estou a ver/viver hoje. O que tenho a certeza acontece com muito mais gente de variadas gerações. E não estou a referir-me, infelizmente, aos enormes progressos científicos e técnicos, mesmo sociais e comportamentais, verificados em diversos domínios. Eles têm existido, mas estão hoje longe de assumir a dimensão das desgraças, das violações dos Direitos Humanos e de valores essenciais de um mundo livre e civilizado.
São inúmeros os exemplos desta tristíssima realidade. Mas nenhum tão “obviamente ululante”, em simultâneo tão terrível como incrível e caricato, de tão asfixiante presença e tão trágicas consequências, como o de Donald Trump. Presidente dos EUA e, de facto, “senhor do mundo”! A ONU, o direito internacional, o respeito por países, povos e pessoas (incluindo pela sua vida), pela verdade, pelo simples bom senso ou pela simples decência, não contam: Trump é quem mais ordena.
Trump pode dizer uma coisa hoje e o seu contrário amanhã, não importa: o que diz é que dita, do preço do petróleo ao perigo de destruir oito séculos de civilização. Sentado na sua secretária na Casa Branca, rodeado de uma pequena legião que, de pé, o contempla, aplaude ou admira em respeitoso silêncio – ele, aquele homem com o pensamento, o passado, a formação política e o estofo moral que se conhece, é que decide os destinos do mundo!
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Assim na Terra como no Céu − Há centenas de milhares de mortos, cidades arrasadas, bairros destruídos, milhões de homens, mulheres, crianças sem teto e sem pão (e nisso tendo papel decisivo Netanyahu e Israel, o país que mais vezes violou as decisões da ONU, sempre impunemente), milhões de pessoas não vivendo mas sobrevivendo, nem se sabe como. E o Presidente do país mais poderoso do planeta, Trump, que quer ser Prémio Nobel da Paz, é o senhor da guerra.
Mais: soube-se agora, ele próprio informou, que é também o Divino Espírito Santo, pois a ele, Trump, deve Leão XIV a sua eleição como Papa − Papa que já recriminou como ele sabe. Ele, também Jesus Cristo, como, com a ajuda da IA, expressivamente se representou, curando um doente… Imagem depois substituída por outra em que aparece com a sua cabeça encostada à de Jesus. Trump: “Assim na Terra como no Céu”…
O inimaginável, versão Trump caseiro – Ora, em Portugal, tem sido o nosso “Trump caseiro” a fazer-nos ver/viver o inimaginável. São inúmeros os exemplos disso, mas agora fico-me pelo do seu − de André Ventura −, discurso no Parlamento, na comemoração dos 50 anos da Constituição da República.
De facto, como seria “imaginável”, há meia dúzia de anos, que alguém, para mais deputado, e ainda por cima “duce” de uma bancada parlamentar com 60 cadeiras, 52 anos depois de uma revolução que derrubou uma cruel e decrépita ditadura; uma revolução em todo o mundo conhecida como “dos cravos”, por não ter havido outra tão pacífica e sem derramamento de sangue (os três mortos no dia 25 de Abril foram os últimos assassinados pela PIDE); uma revolução com todos os seus princípios democráticos e humanistas institucionalizados na Constituição que se celebrava − fosse classificada por Ventura como “uma revolução miserável”?…
Como seria “imaginável” que alguém, mesmo o mesmo Ventura que tem feito da mentira, da difamação, da propagação do ódio, seu instrumento constante, levasse o seu despudor ao ponto de afirmar ter havido mais presos políticos depois do que antes do 25 de Abril? (o imediatamente antes e depois pressupõe uma “falsa comparação”, porque o depois abrange os que durante 48 anos cometeram crimes impunes, mormente na polícia política).
O desafio de Pacheco Pereira – Face a esse inqualificável discurso de Ventura, José Pacheco Pereira (JPP) entendeu “desafiá-lo” para um debate televisivo. Com o óbvio e louvável objetivo de desmascarar as suas mentiras, distorções e calúnias, como sempre visando atacar o 25 de Abril e propagandear a ideologia, se assim se lhe pode chamar, de extrema-direita, populista e racista, do Chega. Ventura claro que aceitou, acredito que com grande satisfação…
É claríssimo que JPP cumpriria o seu objetivo se… pudesse falar e houvesse de facto um debate e não, mais uma vez, como sempre com Ventura, um espetáculo vergonhoso, inadmissivelmente permitido por um alegado ou hipotético moderador, a não cumprir o seu dever como jornalista.
Um espetáculo em que Ventura interrompe constante e sistematicamente o outro, fala, sempre mais alto, por cima dele, usa uma panóplia de conhecidos truques (muito facilmente desmontáveis se o adversário conseguisse fazer-se ouvir…), falta à verdade, deturpa, manipula.
Extraordinário, e para mim incompreensível, é JPP, com o seu muito saber e a sua larga experiência, ter feito aquele desafio e aceitado a sua concretização, sem ter garantias de o debate ser limpo, decente, com igualdade de armas – e não o que foi. Tanto mais que penso logo à partida se levantarem algumas dúvidas: por exemplo, o discutir-se com Ventura, sabendo como ele é e como atua, se houve mais presos políticos antes ou depois do 25 de Abril, o que pela sua evidência não é sequer uma questão, muito menos de opinião, não poderia ter como consequência levantar entre os menos esclarecidos dúvidas de todo injustificáveis e que não tinham antes?
Não cabe aqui analisar o que foi esse espetáculo, a vários títulos degradante, que me indignou (como a tanta gente), e trouxe à tona o advogado do Plenário e de outras lutas que na circunstância teria atuado de forma diferente. Pacheco Pereira é hoje um excelente historiador, comentador, homem de ação e de cultura, militante cívico – bastava a Ephemera para o tornar credor da nossa admiração e da nossa gratidão –, mas neste caso a intenção foi muito boa, o resultado foi mau…
A falta de assunto à portuguesa
A par da polícia política, a censura foi o mais importante instrumento de repressão e manutenção da ditadura durante quase meio século. Hoje, em geral não se faz bem ideia de quão dura, arbitrária, prepotente, eficaz no pior sentido e abrangendo tudo, ela foi. E da censura Ventura não costuma falar… Conhecia-a bem e sofria-a muito, como jornalista, advogado e cidadão. Em véspera do 25 de Abril, publico aqui (encontrei por acaso uma sua “prova”) a salvo erro última crónica que a Cansura me cortou, com o título em epígrafe, na minha coluna Fogo Livre, no diário República de 23 de março de 1974, uma semana depois do “golpe das Caldas” e 33 dias antes do 25 de Abril.
“A falta de assunto já serviu de assunto a cronistas de todo o mundo aos quais foi imposto, ou a eles próprios se impuseram, uma presença certa, periódica, nas páginas de um jornal ou de uma revista.
Porém, nunca um verdadeiro cronista ou colunista português deve ter tido tantos, tão importantes e palpitantes assuntos como nestas últimas semanas. E apesar disso, ou por isso mesmo, esteve ausente este Fogo Livre que se anunciou para todas as quintas-feiras, em pontual diálogo com os leitores.
Como não queria prolongar esta ausência, resolvi também eu escrever nesta tribuna sobre a falta de assunto. Ou melhor, a falta de assunto à portuguesa: olhar em volta e ver tanta coisa, tanta, impondo-nos palavras, nosso ofício; palavras de indignação ou revolta, palavras de análise e denúncia, palavras de alegria ou tristeza, palavras de esperança ou entusiasmo – palavras que nos morrem ou, pior, apodrecem no peito que nunca conheceu a naturalidade de uma respiração livre; ou que assomam, inquietas, receosas, à tecla da máquina ou ao aparo da caneta, para logo, medindo-se, calculando, se enlearem no papel, buscando outras que as escondam, ou disfarcem, espreitando só nas entrelinhas, piscando o olho ao leitor, fazendo apelo a exercícios de inteligência ou perspicácia, dizendo, quando dizem, a quem menos importa dizer – os que já sabem…
E palavras que assim castradas, assim mascaradas, assim medidas, assim tão poucas, ainda outros matam de uma nova morte, uma morte azul, que é a cor do céu e do mar!…
Para depois ter de se concluir que nunca nos falta tanto o assunto como quando há mais, e fundamentais, assuntos que se nos impõem. E ter de se concluir que a falta de assunto, à portuguesa, é para o cronista como a tourada à espanhola é para o touro – de morte. O que, óbvio, constitui apenas uma metáfora, pois também a nós não nos matam, apenas nos embolam e farpeiam – piedosamente.”
Primeiro, ao que parece, alguns partidos pediram um parecer à Entidade de Controlo e Financiamentos Políticos (ECFP), alegadamente, em nome da proteção de dados pessoais: podia a Entidade da Transparência facultar a terceiros (aos jornalistas, por exemplo) o acesso ao nome dos financiadores partidários e de outros doadores particulares que contribuem, com dinheiro, para os partidos políticos? (Para já, há logo aqui um equívoco: estes dados nada têm de pessoais: se alguém dá dinheiro a um partido, o seu nome pode – deve? − ser conhecido publicamente. Não é um dado pessoal nem faz parte da sua vida privada, mas sim da sua vida pública e da sua intervenção na sociedade). Depois, a dita ECFP dirigiu-se a outro acrónimo sem rosto, a CADA (Comissão de Acesso aos Documentos Administrativos) e esta, por seu turno, ter-se-á pronunciado negativamente: não, senhores, os jornalistas e outros interessados podem saber quanto foi dado, mas não poderão saber, futuramente, os nomes de quem deu. E assim se prepara a reversão de uma lei com mais de 20 anos – e que em muito contribuiu para retirar gás a teorias da conspiração e a polémicas sobre o financiamento partidário – e assim se cozinha um retrocesso, vamos dizê-lo, sem medo da palavra, “civilizacional”, que garantia uma marca de qualidade à nossa democracia. Se antes circulavam rumores sobre malas de dinheiro ou maços de notas em sacos de plástico, ou sobre troca de favores, favorecimento ilícito, nepotismo ou tráfico de influências relacionados com este financiamento escondido, nestas duas décadas muito se evoluiu no escrutínio de irregularidades nas contas dos partidos, que se pretendem abertas ao conhecimento público.
Mas podemos dormir descansados: as comissões, os reguladores, quem fiscaliza e quem controla, conhecem “todos os nomes” – embora ninguém saiba exatamente quem são as pessoas concretas que compõem este emaranhado de comissões, agências e entidades que medram por entre as catacumbas da burocracia do Estado. E sem que se saiba exatamente quem tomou esta decisão em concreto. Já agora, também podem aconselhar a mudança de nome de Entidade para a Transparência por Entidade para a Opaciodade.
Depois da notícia da TVI, incomodados, dois dos três alegados “perpetradores” desta “conspiração”, PCP e Bloco de Esquerda, negaram veementemente qualquer tentativa de tornar menos clara a informação sobre os financiadores partidários, produziram veementes protestos de intenção de continuar a revelar quem é quem, nesses financiamentos. O pedido à ECFP ficou sem autores: fica-se sem perceber, afinal, qual foi o papel destes dois agentes da política nacional, e o que pediram, concretamente, à ECFP, ou se pediram alguma coisa diferente. O terceiro agente, o Chega, fechou-se mais ou menos em copas: numa declaração lacónica, o gabinete de André Ventura limitou-se a dizer que “concorda que os nomes dos financiadores continuem a ser públicos” – embora tenha estado dois anos sem entregar a lista dos doadores. Aliás, este tema, por ter a ver com a transparência, a moralização política, e com a luta contra a corrupção, deveria merecer uma indignada conferência de imprensa de André Ventura e mais meia dúzia de “entrevistas exclusivas” aos canais privados, para denunciar a trama que estaria a ser urdida, em mais este episódio dos “50 anos de corrupção”. Mas, estranhamente, Ventura ficou bastante calado…
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A intenção revelada pelo PS de levar a plenário um projeto de lei que garanta a revelação pública, quando solicitada, dos nomes dos doadores (e que pode ter sido já votada no momento em que esta edição sairá para as bancas) pode ser, ou terá sido, o teste do algodão, para se saber, afinal, qual a verdadeira posição dos partidos representados no Parlamento, nesta matéria. Duvida-se de que algum tenha, ou tenha tido, a coragem de ir para a frente com o retrocesso legislativo.
Percebo os argumentos de, entre outros, Luís Montenegro e outras figuras do PSD (e de outros partidos), quando falam das solicitações jornalísticas sobre dados sensíveis. O acesso aos nomes dos que contribuem para o financiamento partidário pode tornar-se um exercício de voyeurismo, com a revelação dos nomes a levantar suspeitas infundadas sobre os visados, ou a afetar a imagem de pessoas ou entidades. Mas é preferível correr esse risco a perder a possibilidade de um escrutínio completo e transparente.
Mas, mesmo aqui, em vez de se encarar este tema de uma forma oculta ou envergonhada − discreta ou reservada, se quisermos usar termos mais benignos −, o financiamento dos partidos deve ser valorizado e não demonizado. Faça-se a pedagogia: dar dinheiro aos partidos significa financiar a própria democracia. Não tem nada de mal e tem tudo de bem. É um ato cívico de responsabilidade social, que não deve ser escondido e que deve ser motivo, não de opróbrio, mas de orgulho. Desde que seja feito, lá está, com a máxima transparência.
A entidade reguladora procura descansar o público, dizendo que os nomes estão lá e são do conhecimento do regulador. Mas façamos este exercício: se um magnata com interesses numa televisão privada, por exemplo, vier a financiar, preferencialmente, um líder político, e se esse líder político tiver presença intensiva nessa televisão, que consequências retira o regulador? Não pode retirar nenhumas: o facto, em si, não só nada tem de ilegal, como pode ser explicado por “critérios jornalísticos” − o que costuma, mea culpa, dar para tudo… Mas se a imprensa tiver acesso aos nomes, poderá, essa sim, revelar a coincidência, levantar a questão, explicar a situação e municiar a sociedade de todos os elementos suficientes para que se tirem conclusões. E é por estas e outras que o papel dos jornalistas e de uma imprensa livre, com o acesso a toda a informação relevante, é um dado essencial para a qualidade da democracia. Tudo aquilo que os burocratas que tomaram esta decisão ignoraram olimpicamente. Porque não pensam.
1. Não vou imitar o político António José Seguro, serei, portanto, claro: o Presidente da República quer que a UGT aprove o pacote laboral. O Governo já disse que não admitia que se afetasse a essência da proposta, os representantes das empresas acham tudo muito bem, a maior central sindical está frontalmente contra e a UGT já disse mais do que uma vez que, como a proposta está, não vai aprová-la − apesar de continuar a ir conversar. Há até uma sondagem que diz que quase 70% das pessoas estão contra esta reforma − que é o outro nome que agora se dá às barbaridades contra a comunidade.
Já se sabe que as sondagens não são para aqui chamadas. Isto ainda é, graças a todos os deuses, uma democracia representativa e não a ficção demagógica que é a democracia direta. Não deixa, porém, de ser interessante que seja aproximadamente a mesma maioria que elegeu Seguro a que está agora contra o pacote laboral.
Em termos muito simples: ele quer que o pacote laboral seja aprovado e quem votou nele não. Não há nada de mal nisso, lá está: nós elegemos representantes, não mandatários.
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Cometendo o pecado da autocitação, antes das eleições presidenciais escrevi neste mesmo espaço que Seguro seria o melhor apoiante que Montenegro podia ter em Belém. É cedo para que tenhamos a confirmação plena disso, mas este sinal é claro – e nem vou lembrar a revogação da lei sobre o direito à autodeterminação da identidade de género e à proteção das características sexuais de cada pessoa que Seguro ignorou.
A legislação laboral que o Governo quer aprovar não é um simples pacote legislativo, é algo de estrutural e marcadamente ideológico. Um conjunto de leis que modifica o entendimento do conceito de trabalho e das relações entre empregador, empregado e Estado.
Das duas, uma: ou Seguro abandonou a social-democracia e os princípios que esta defende para as relações laborais ou acha que o principal papel do Presidente da República é colaborar com o Governo.
Para quem está a pensar que Seguro está a trabalhar para um consenso e a tentar construir pontes, recordo que o Governo (e com razão) já disse que o pacote laboral seria descaracterizado na sua essência se tivesse as alterações que a UGT desejava e, mais importante, os consensos não podem ser um fim em si mesmo. Os consensos fazem-se com posições aproximadas, não partindo de pontos que são ruturas com, aí sim, consensos.
Não colhe o argumento de que Seguro não deve iniciar o seu mandato com um conflito com o Governo.
Em primeiro lugar, seria não compreender o papel para o qual foi eleito. O Presidente da República não cria nem deixa de criar conflitos com a Assembleia da República ou com o Governo, ele exerce os poderes que lhe são atribuídos pela Constituição. Aliás, deixaria de os exercer se atuasse contra a sua consciência.
Em segundo lugar, é exatamente igual dizer que se vetaria uma proposta e depois não a vetar ou não vetar uma proposta que é a que se propôs vetar mesmo que tenha a aprovação da UGT.
Tudo isto ser no início ou no fim do mandato pode excitar muito os comentadores políticos, mas é indiferente. As questões são: Seguro quer exercer o mandato que uma larguíssima maioria dos portugueses lhe deu ou ser um ajudante do primeiro-ministro? Seguro quer ser uma espécie de divulgador de caixas de comentários de cidadãos ou atuar com os poderes que a Constituição lhe dá?
Ninguém dúvida de que a coligação que permitiu eleger Seguro é muito abrangente e com pessoas de muitos quadrantes. Mas isso agora não interessa nada. Um político, sobretudo um Presidente da República, é apenas escravo das suas convicções e se as tem é bom que as mostre, que é por isso que foi eleito.
2. Apesar dos bons préstimos do Presidente da República, a legislação não passará na Concertação Social. Se isso acontecesse, mais valeria à UGT fundir-se com uma qualquer associação patronal. No entanto, o Governo verá este delírio ideológico que envergonha a história do PSD aprovado: a coligação PSD/Chega encarregar-se-á disso.
Vejo muita gente afirmar que o Chega se assustará com a falta de apoio popular desta “reforma”. Nada mais errado.
Este tipo de temas não faz parte do discurso do Chega, os eleitores deste partido não o apoiam nem deixam de o apoiar por causa da legislação laboral. E pode-se dizer o mesmo sobre questões relacionadas com saúde, educação ou habitação. Basta ver o programa do Chega ou ouvir os seus representantes para se saber isso. Não há uma proposta sobre esses temas, uma visão, sequer um início de conversa, e os resultados eleitorais são o que são.
O Chega venderá o seu apoio por mais um cargo que lhe permita ir infiltrando as instituições democráticas e umas medidas que sejam contra os imigrantes ou o terrível wokismo ou outro tema qualquer que explore medos e gere sentimentos irracionais. Na altura da votação gritará muito contra a esquerda que matou o País nestes últimos 50 anos e mostrará que através de uma negociação espúria qualquer fez a legislação melhorar muitíssimo.
A barreira comunicacional que o Chega e o PSD conseguiram conquistar fará o resto.
Daqui a uns tempos, quando os apoiantes do Chega sentirem na pele as alterações no quadro laboral, o partido encarregar-se-á de lhes mostrar que a culpa de isso estar a acontecer não é da lei, mas dos imigrantes, do Turquemenistão, da corrupção ou do Sócrates. O problema é que eles acreditarão.
A lei passará no Parlamento e Seguro ver-se-á obrigado a vetar. Depois voltará e o PSD, o Chega e a IL voltarão a aprovar e o Presidente da República nada poderá fazer. Pode ser que nessa altura Seguro perceba o triste papel que desempenhou e que comece a aprender que são mais importantes as convicções do que falsos consensos.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.
Havia razões mais do que suficientes para desconfiar de “Michael” antes mesmo de a luz se apagar na sala. Um biopic de grande estúdio sobre Michael Jackson, com apoio da família, com o sobrinho Jaafar Jackson no papel principal e com aquele perfume industrial de “vamos transformar trauma em espetáculo e espetáculo em dinheiro”, parecia, à partida, uma receita para mais um santinho de altar pop em formato IMAX. E a verdade é que o filme de Antoine Fuqua [“O Protetor: Capítulo Final” (The Equalizer 3) 2023], que estreou em Portugal a 22 de Abril, não faz exatamente um esforço hercúleo para fugir dessa suspeita.
Mas pronto, convém começar pela surpresa, porque ela existe. E não, não estou a falar de uma súbita coragem moral de Hollywood, porque isso seria pedir à indústria americana para trocar o champanhe por água benta. A surpresa está no facto de “Michael” não ser o mono mecânico e totalmente inerte que muita gente receava. Não é uma grande obra, não é um filme particularmente profundo, não é um retrato arriscado e está longe de enfrentar a criatura em toda a sua dimensão contraditória. Mas tem nervo nos números musicais, tem alguma envolvência sempre que decide lembrar-nos porque é que Michael Jackson não foi apenas uma estrela, mas uma espécie de curto-circuito planetário em forma humana. E, acima de tudo, tem Jaafar Jackson, diga-se com justiça.
É aqui que o filme ganha a sua principal razão de existir. Jaafar Jackson, sobrinho de Michael e filho de Jermaine, um dos irmãos dos The Jackson 5 — e também um dos produtores executivos do filme, o que significa que a família não se limitou a dar a bênção, também lá pôs dinheiro —, não entra apenas em cena como truque de marketing genético. Em muitos momentos, entra mesmo como presença. Há ali qualquer coisa de impressionante na forma como reproduz o corpo, o sorriso, o recorte do rosto, os movimentos, a energia, a delicadeza artificial, aquela mistura de fragilidade e precisão clínica que fazia de Michael Jackson um intérprete vindo de outro sistema solar. É evidente, sobretudo nos temas musicais, que a voz não é dele, ou pelo menos não é dele no sentido puro e integral da coisa. Mas isso quase passa para segundo plano, porque o trabalho físico é tão certeiro que há momentos em que o espectador deixa de estar a ver um sobrinho aplicado e passa a olhar para uma aparição tecnicamente muito eficaz do mito. A crítica internacional, aliás, foi bastante mais generosa com Jaafar do que com o filme em si, sublinhando precisamente a sua capacidade de encarnar Michael com uma precisão quase fantasmática.
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O santo, o pai tirano e o resto varrido para debaixo do “moonwalk”
O problema é que “Michael” sabe muito bem o que quer fazer com esse talento todo: não quer tanto compreender Michael Jackson como quer reintroduzi-lo no mercado da veneração respeitável. E isso nota-se logo na maneira como o filme organiza os pecados, distribui as culpas e seleciona os monstros. Joe Jackson, o pai, aparece como o grande ogre doméstico, o tirano fundador, o homem do cinto, da humilhação, da pedagogia à paulada e do terror emocional. E atenção: não é propriamente uma invenção tirada da cartola. A brutalidade de Joe Jackson faz parte da mitologia sombria da família há décadas. O problema não é esse. O problema é a utilidade dramática dessa escolha. O pai torna-se aqui o grande mau da fita, quase como se bastasse colocá-lo no centro da culpa para o resto da narrativa poder circular com as mãos lavadas e a consciência em modo aromaterapia. Ou seja: o filme diz-nos, com muita subtileza de marreta, que Michael foi um génio ferido, um miúdo explorado, uma vítima da máquina familiar, um artista sensível que queria apenas cantar, dançar, curar o mundo, visitar crianças doentes nos hospitais pediátricos e, imagino eu, resolver até o conflito israelo-palestiniano se lhe sobrasse um intervalo entre “Beat It” e “Billie Jean”. É a velha tentação do biopic contemporâneo: transformar sofrimento em desconto moral. Sofreu? Então compreende-se. Foi explorado? Então relativiza-se. Teve uma infância horrível? Então a narrativa começa a pedir-nos não reflexão, mas absolvição emocional em prestações.
Ora, com Michael Jackson isso nunca poderia bastar. E o filme sabe-o. Tanto sabe que opta por não ir lá. A questão mais incómoda da vida pública de Michael Jackson não é enfrentada, nem sequer encarada de lado com aquele ar embaraçado de quem viu o elefante na sala, mas prefere comentar o candeeiro. O filme termina antes de esse território se tornar incontornável, e a crítica tem sido clara ao apontar essa omissão como uma forma de contorno, suavização ou simples fuga. A Associated Press resumiu isso de forma quase cruelmente certeira: o filme não toca sequer de raspão nesses factos, passa por eles em moonwalk. E a imagem até faz sentido: o moonwalk, popularizado por Michael Jackson em 1983, cria precisamente essa ilusão de deslizar para trás enquanto parece que se avança. A Reuters também noticiou que as referências às alegações foram retiradas e que o projeto acabou reposicionado como uma “celebration story”. Refiro tudo isto já com o filme visto, acabado de sair da sala de cinema: o Teatro Tuschinski, uma das salas mais bonitas do mundo, em Amesterdão.
E pronto, estamos conversados. Isto não é exatamente um retrato total. É uma operação de montagem. Uma versão autorizada. Uma narrativa em que o génio entra pela porta grande, o pai abusivo fica com o papel de demónio oficial e o resto é tratado como assunto para sequelas, advogados ou almas particularmente masoquistas. Até porque, no fim, surge a promessa de continuação: esta história vai continuar, depois do concerto mais famoso de Michael Jackson em Londres, a 16 de Julho de 1988, no Estádio de Wembley, durante a Bad World Tour. Um espetáculo histórico, com a presença da princesa Diana e do príncipe Carlos, e que mais tarde viria a ser lançado em DVD. Um portento e um momento mágico do mito.
Um filme que funciona melhor quando se cala e deixa a música trabalhar
Dito isto, também não vale a pena fingir que o filme não tem prazer, energia e algum poder de sedução. Tem. E tem porque Michael Jackson continua a ser maior do que quase tudo o que a cultura pop fabricou no último meio século. O homem não lançava apenas canções: lançava acontecimentos sísmicos. Não fazia videoclipes: refundava a escala visual do entretenimento. Não dançava: humilhava a anatomia normal do ser humano. Há ali uma sucessão de recriações — do período dos The Jackson 5 ao esplendor de “Thriller”, “Beat It”, “Bad” e companhia — que pode não ter a centelha de invenção do original, mas consegue pelo menos reproduzir parte do espanto.
Antoine Fuqua, que conhece bem o músculo da imagem e a eficácia da encenação, percebe isso melhor do que o argumento. Quando o filme se põe a explicar Michael Jackson, tropeça. Quando o filme se limita a mostrá-lo em combustão performativa, melhora logo. É quase como se “Michael” fosse mais convincente enquanto concerto dramatizado do que enquanto cinema biográfico propriamente dito. O que, pensando bem, talvez seja a definição perfeita desta coisa toda: menos um filme sobre uma pessoa do que um espetáculo de reposição de marca com momentos de verdadeira competência cénica.
É por isso que saí da sala mais surpreendido do que rendido. Estava à espera de uma catástrofe embalsamada, de uma espécie de “Bohemian Rhapsody” com luva branca, chimpanzé digital e reverência hereditária a escorrer pelas paredes. E não, não é bem isso. Ou melhor: é isso em parte, mas não apenas isso. Há uma eficácia inegável em vários momentos, há um fascínio que resiste, há um ator central que sustenta imenso, e há uma consciência industrial tão afinada da dimensão icónica de Michael Jackson que o filme, mesmo quando falha, raramente se torna irrelevante.
O que não há é verdadeiro risco. Não há desordem. Não há a sensação de que alguém quis filmar um ser humano inteiro. Há antes a ideia de que se quis preservar uma divindade pop suficientemente utilizável para consumo público, nostalgia geracional e eventual expansão do universo Jackson, que, neste ritmo, ainda acabará por ter spin-off do chimpanzé Bubbles, prequela do chapéu de “Smooth Criminal” e série limitada sobre a luva. Não ponho isso fora de hipótese. Em Hollywood, um cadáver rentável é sempre só o começo.
No fim do filme, o que realmente sobra entre o brilho da lenda e o vazio do retrato
No fim de contas, “Michael” interessa menos como grande filme do que como sinal revelador do nosso tempo. Por um lado, confirma o óbvio: Michael Jackson continua a ser um animal mitológico da cultura popular, alguém cuja obra ainda comanda o corpo coletivo com uma autoridade absurda. Por outro, confirma também que a indústria não sabe — ou não quer — filmar a totalidade da sua contradição. Prefere o brilho ao abismo, a coreografia ao conflito, a hagiografia ao incómodo.
E, no entanto, mesmo nessa forma domesticada, o filme deixa escapar qualquer coisa que talvez nem queira confessar. Deixa escapar que Michael Jackson continua a meter medo. Não medo no sentido barato do escândalo de tablóide, mas medo enquanto figura artística inclassificável, demasiado grande para ser reduzida a slogan, demasiado estranha para caber numa lição moral e demasiado poderosa para ser descartada com superioridade higiénica por quem acha que basta apagar uma canção da playlist para resolver a história.
“Michael” não é uma obra-prima, nem sequer anda perto disso. É um biopic polido, estrategicamente cauteloso, emocionalmente limitado e narrativamente muito mais obediente à lógica da preservação do que à do cinema. Mas também não é o descalabro absoluto que se anunciava em certos obituários críticos escritos antes do enterro. Funciona várias vezes, sobretudo quando deixa a música entrar, quando Jaafar Jackson toma conta do ecrã e quando o filme se lembra, ainda que por instantes, de uma verdade simples: Michael Jackson não foi apenas famoso. Foi uma mutação da fama.
O problema é que, para fazer um grande filme sobre ele, não bastava filmar a lenda. Era preciso ter coragem para entrar na zona contaminada onde a obra continua a brilhar e o homem continua a não caber em paz nenhuma. “Michael” prefere ficar à porta, ajeitar a lapela, pôr o chapéu de lado e dançar em bicos de pés por cima do incómodo. Vê-se bem, entretém bastante, surpreende mais do que se esperava e confirma o essencial: o ídolo ainda mexe. Só que o filme, esse, mexe menos do que devia.
Acabado de aterrar em Joanesburgo, após quase dez horas de voo desde Istambul, não é só o ar quente e seco do planalto sul-africano que me dá as boas-vindas. O sorriso habitual de quem, com pouco, se habituou a fazer muito é a maior recompensa para o longo voo intercontinental. Mas, desta vez, com um orgulho reforçado, porque, diz-me uma polícia de fronteira, “chegou ao lugar mais seguro do mundo”.
A África do Sul sabe que o planeta a olha com alguma desconfiança. O legado de Nelson Mandela tem sido, numa medida razoável, seguido pela classe política e decisora do país, mas a imagem que passa é tantas vezes de insegurança e luta pela sobrevivência que não tem correspondência nas verdadeiras potencialidades de um país com riqueza humana, natural e patrimonial.
Desdolarização A areia movediça do Médio Oriente continua a exigir recato e sigilo entre os BRICS, que continuam interessados em quebrar o poder dos EUA
Por isso, o conflito no Médio Oriente confere ao hemisfério sul uma curiosa sensação de tranquilidade, abertura e segurança, nestes tempos em que a verdadeira qualidade de vida é tão volátil quanto as declarações e posições dos atores envolvidos.
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A África do Sul, ciosa da sua posição nos BRICS, mantém uma postura de alguma equidistância em relação às partes envolvidas, mas percebe-se, quer nas entrelinhas dos poucos soundbites oficiais, quer nas conversas de rua e de café, alguma incomodidade no que respeita às sucessivas mutações da face norte-americana. De resto, as relações entre os dois países já conheceram melhores dias, e o próprio Presidente Cyril Ramaphosa sentiu, da parte de Donald Trump, um afastamento estratégico que, por exemplo, se revela nas dificuldades impostas aos cidadãos sul-africanos para a obtenção de vistos de entrada em território dos Estados Unidos da América.
É, sejamos claros, um distanciamento que se estende ao movimento do “Sul Global”. Criado justamente para combater, do ponto de vista político e, sobretudo, económico, a ordem mundial vigente, transpondo o epicentro das relações diplomáticas e dos circuitos financeiros para outra geografia, os BRICS (acrónimo para Brasil, Rússia, Índia, China e, desde 2011, “South Africa”) lutam com a dificuldade de estabelecimento de uma comunicação a uma só voz. E sabem-no.
Desafios do Sul Global
Juntar economias tão distintas como a chinesa e a indiana, a brasileira e a sul-africana, transporta problemas adicionais às relações puramente diplomáticas entre países que, em conjunto, tinham apenas “uma ideia diferente” e que, neste momento, com o alargamento de 2023 (acrescentando Egito, Emirados Árabes Unidos, Indonésia, Etiópia e… Irão), representam já 30% da economia mundial, e 48% da população do planeta.
No contexto das tensões entre Estados Unidos, Israel e Irão, os BRICS ocupam uma posição tanto mais delicada quanto marcada por interesses divergentes entre os seus membros
É inegável o poderio financeiro da aliança estratégica iniciada há 17 anos, mas é também um percurso gerido com pinças, e alicerçado, essencialmente, em parâmetros de cooperação económica, com tratados comuns de comércio internacional, justamente na exata proporção da entendida necessidade de transferir para outro epicentro a nova ordem mundial entretanto projetada.
Sendo ainda mais claros, os BRICS pretendem ultrapassar a ideia do sistema unipolar, centrado nos Estados Unidos da América, e estabelecer uma ordem multipolar, cujos princípios são comummente aceites mas a prática se tem revelado pouco dinâmica, e quase nada articulada para lá das cimeiras anuais em que os líderes discursam, apontam caminhos, mas, na realidade, reconhecem obstáculos. Resta perceber se ultrapassáveis para um “bem comum” ou se são reais barreiras que, em definitivo, não deixarão grande margem de progressão e de entendimento em questões essenciais como a livre circulação de mercadorias e pessoas ou a afetação de verbas dos orçamentos nacionais para a área da defesa.
Jogo de xadrez
Dito isto, importa perceber que, também no setor diplomático e de interpretação e reação ao conflito do Golfo, há entraves e diversas formas de perceção. Porque o Irão é, de há três anos a esta parte, membro efetivo dos BRICS, o movimento mantém, nas suas posições conjuntas, um aparentemente discreto distanciamento, numa agregação de segurança em relação à sua coesão interna, e de expectativa quanto à capacidade dos beligerantes diretos para resolverem, na mesa das negociações, o que o teatro de operações tem deixado em aberto.
É um perfeito jogo de xadrez, feito de avanços e recuos, de pequenos passos e de alguns soundbites, mas que, enquanto o tempo passa e amadurece a necessidade de encontro de paz duradoira para a região, deixa no ar uma crítica subliminar à iniciativa bélica dos Estados Unidos.
Da parte da China, por exemplo, pequenos sinais têm sido dados, desde a inicial abertura do estreito de Ormuz a navios com a sua bandeira à recente (e nada inócua) visita oficial do chefe do governo espanhol, Pedro Sánchez, a Pequim, ou mesmo à possibilidade de auxílio militar ao Irão, para lá do que já foi indiretamente conferido com a tecnologia dos mísseis operados por apenas um soldado, ou da compra do hipersónico CM-302, prevista para este ano, como reforço de segurança para a zona costeira iraniana.
Pontos de contacto Cyril Ramaphosa não esconde o afastamento face a Trump e a sua aproximação a Lula, “vizinho” do hemisfério sul
Portanto, a posição do gigante asiático terá, forçosamente, de ser equilibrada em função do contexto e das privilegiadas relações comerciais, no setor da Defesa, no que é acompanhada pela Índia, pelo Brasil, pela Rússia e pela África do Sul, embora, nestes casos, não haja uma direta relação de causalidade no eventual apoio à República Islâmica do Irão.
Aliás, no contexto das tensões entre Estados Unidos, Israel e Irão, os BRICS ocupam uma posição tanto mais delicada quanto marcada por interesses divergentes entre os seus membros.
A China e a Rússia mantêm relações estratégicas com o Irão, especialmente no campo energético e militar. Ambos os países veem Teerão como um parceiro importante para conter a influência norte-americana no Médio Oriente. Além disso, a cooperação sino-iraniana em projetos de infraestrutura e energia acaba por reforçar a interdependência entre os dois países.
A Rússia, por sua vez, tem aprofundado uma parceria com o Irão em áreas como Defesa e Tecnologia, especialmente após o agravamento das suas relações com o Ocidente. É um claro alinhamento estratégico, que se intensificou durante o período de sanções internacionais, levando Moscovo e Teerão a procurar mecanismos alternativos de comércio e financiamento, muitas vezes fora do sistema financeiro dominado pelo dólar norte-americano. Esse movimento surge em linha com os objetivos mais amplos dos BRICS, no fortalecimento de moedas locais nas transações internacionais.
Cautela na Índia e no Brasil
Muito interessante, para a plena compreensão da multiplicidade de estímulos geopolíticos nesta área, é a adoção de posições mais cautelosas por parte da Índia e do Brasil. Se analisarmos bem, a União Indiana, apesar de manter relações históricas de proximidade geográfica e cultural com o Irão, tem feito uma trajetória em dois sentidos, aproximando-se dos Estados Unidos nos últimos anos, e sobretudo olhando para outro essencial (e tantas vezes negligenciado) teatro de operações e de interesses estratégicos: o Indo-Pacífico. É um equilíbrio delicado, que leva Nova Deli a evitar posicionamentos contundentes, dando, ao invés, prioridade aos seus próprios interesses de segurança e desenvolvimento.
Algo comum ao que se observa no Brasil. Distante no planeta, alicerçado na sua política de alianças regionais, o gigante da América do Sul defende soluções diplomáticas e respeito pelo direito internacional, algo que tem caracterizado as intervenções públicas do Presidente Lula da Silva, sempre cuidando de manter uma postura de não alinhamento automático.
Há aspetos notoriamente limitativos na esfera de atuação dos BRICS, como fica comprovado pelo amplo leque de opções e de posições, seja de pura natureza diplomática, seja no espectro das relações económicas e dos interesses geoestratégicos. Por um lado, o grupo representa uma alternativa importante ao “domínio ocidental”, oferecendo novas possibilidades de cooperação e articulação política. Mas a matriz de comportamento dos seus líderes, olhando sempre os interesses nacionais, ainda que em contraponto com uma lógica de atuação conjunta, tendente a dar verdadeira consistência a uma “nova ordem mundial”, reflete-se na ausência de uma política externa comum.
Há diferenças internas dificilmente ultrapassáveis, o que, desde logo, é o primeiro (e decisivo?) grande óbice a uma atuação coesa em crises internacionais complexas.
Primado do “silêncio ativo”
É neste amplo cenário que se torna cada vez mais difícil falar “a uma só voz”. Se é verdade que, em situações recentes, os BRICS têm conseguido opiniões unânimes, sempre na referência de uma deslocação do epicentro mundial para uma perspetiva alternativa, de assunção plena de soluções que ultrapassem o tradicional domínio do hemisfério norte e do eixo Europa-EUA, também se torna claro que as diferenças de abordagem aos conflitos tenham, da parte do movimento do “Sul Global”, apenas uma solução, a mais próxima de uma posição una: a diplomacia. E os últimos tempos provam-no, na exata medida em que os principais líderes se têm mantido numa espécie de “silêncio ativo”, privilegiando diálogos entre parceiros, eventualmente conducentes a pontos de equilíbrio e de partida para negociações mais efetivas.
De Xi Jinping a Vladimir Putin, passando por Lula, Narendra Modi ou mesmo Ramaphosa, as palavras públicas são poucas e muito contidas, sabendo os líderes fundadores dos BRICS que, entretanto, o espectro do grupo aumentou consideravelmente, envolvendo agora potências regionais e, no caso do atual conflito, um dos beligerantes diretos.
De Xi Jinping a Vladimir Putin, passando por Lula, Narendra Modi ou mesmo Ramaphosa, as palavras públicas são poucas e muito contidas sobre a guerra dos EUA e Israel no Irão
O Irão sabe disso, tanto quanto percebe a importância dos patamares negociais que conseguiu com alguns destes países, e, em surdina, também até reconhece alguma legitimidade nas posições “silenciosas” dos seus pares.
A areia movediça do Médio Oriente continua a exigir recato e sigilo. A região comporta-se, do ponto de vista geopolítico, como o velho axioma das relações internacionais, segundo o qual “quando uma borboleta bate as asas na China, gera-se uma tempestade na Europa”.
Entretanto, ciosos da sua posição geográfica, agora privilegiada pela grande distância do teatro de operações, os países do hemisfério sul, seguindo embora atentamente o que se passa a milhares de quilómetros de distância – porque, invariavelmente, os reflexos de médio e longo prazo não parecem ser animadores –, sorriem como os funcionários do Aeroporto OR Tambo, quando desembarquei em Joanesburgo.
Afinal, parecemos mesmo estar no lugar mais seguro do mundo…
OS BRICS EM 7 PONTOS
Originalmente formados por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, os BRICS representam um dos blocos mais influentes do cenário geopolítico e económico contemporâneo. Com algumas particularidades
Duelo de gigantes Em 2026, os BRICS consolidaram a sua posição como o maior motor de crescimento do mundo, com quase metade da população mundial, enquanto os países do G7 têm apenas 10%
1. Não são um bloco comercial, ao contrário da União Europeia ou do Mercosul, mas uma associação informal baseada na cooperação política, económica e financeira.
2. O principal objetivo político é a contestação da hegemonia do “Norte Global” (liderado pelos EUA e Europa) e a promoção de uma ordem mundial multipolar.
3. Defendem a reforma de instituições internacionais como o FMI, o Banco Mundial e o Conselho de Segurança da ONU, exigindo maior representatividade para os países emergentes.
4. Procuram fazer diminuir a dependência do dólar americano no comércio internacional, através de um esforço crescente para realizar trocas comerciais com moedas locais.
5. Devido ao crescimento da classe média na China e na Índia, o bloco tornou-se o motor de consumo global do século XXI.
6. O bloco inclui democracias liberais, democracias em transição e regimes autoritários.
7. A China detém um peso económico muito superior aos restantes membros, o que gera tensões e discussões sobre uma possível dependência ou liderança excessiva de Pequim.
A geografia deu ao Japão a insularidade e o isolamento que sempre daí advém. Mas a isso acresce um espírito ilhéu ostensivamente fechado ao mundo. Mais uma vez: as generalizações podem ser falsificações, mas esse fechamento não é apenas uma atitude de desinteresse pelo que se passa fora das suas fronteiras. Resulta de mais de dois séculos de efetivo fecho das fronteiras japonesas, no período Edo (1603-1868). Estrangeiros, entravam pouquíssimos (basicamente coreanos e chineses), e o país estava vedado a europeus – só os holandeses podiam comerciar, mas ficavam numa ilha artificial/prisão, sem poder pisar solo nipónico. Tudo por causa dos jesuítas, que quiseram substituir a ordem social, religiosa e histórica do Japão por uma nova ordem, com um deus único e um soberano, na longínqua Roma, mandatado por esse deus. Se o Portugal moderno se define pelo seu cosmopolitismo e pelo crescimento para lá das suas fronteiras exíguas, a História do Japão é de isolamento e recusa de influências externas. As marcas do passado estão bem presentes nos dois povos. A nossa abertura tornou-nos maiores. O fechamento deles pode ser fatal.
Vai soar estranho, mas Portugal parece um exemplo de recusa do uso excessivo de plástico em comparação com o Japão. As leis tiveram o seu impacto, uma certa mudança de mentalidade também: já viu quantas pessoas levam os seus sacos reutilizáveis para os supermercados e, em muitos casos, dispensam saquinhos para separar as peras das maçãs, das cebolas e dos brócolos? No Japão o consumo de plástico está ao nível do delírio. Nos supermercados quase tudo é embalado – e este “quase tudo” pode ser sacos com três cenouras, ou duas maçãs, ou uma banana. Tudo envolto em plástico. Flores frescas? Expostas num plástico, e depois vendidas dentro de dois sacos… Comprou uma caixa de bolachas? Tira-a do saco de plástico onde a transportou, abre o celofane que envolve a caixa, e lá dentro terá provavelmente uma estrutura semirrígida, de plástico, para as bolachas estarem em perfeita disposição e, por fim, tem as bolachas embaladas uma por uma. Cada bolacha, um plástico. Cada. Bolacha.
Burocracia
Se algum dia tiver o azar de lidar com a burocracia japonesa, nunca mais – mas nunca mais mesmo! – vai queixar-se dos serviços públicos portugueses. No caso de ser migrante tudo é mais difícil, porque é provável que não exista uma alma em todo o serviço que fale inglês, quanto mais outras línguas… Mas mesmo ultrapassando essa barreira, há muitas outras. Tratar de serviços online? Muito improvável, mas possível… se entender japonês. Bom, bom, é ir ao serviço, tirar senha, esperar pela sua vez, e não levar os papéis. Quais papéis? Todos, até aqueles que não lhe eram pedidos. A probabilidade de ser preciso mais um papel, e depois outro, e a seguir mais um, andará pelos 90%. Uma vez, precisei de tratar de um documento num serviço do meu município dentro de Tóquio. Tinha tudo: papéis preenchidos, fotocópias, cartão de residente, passaporte… mas faltava a fotocópia do passaporte. Fui fazê-la no 7Eleven mais próximo. Estava tudo. Era a enésima vez que lá ia. Com uma amiga que falava japonês. A funcionária examinou toda a documentação. Chamou uma colega para examinar também. Foram as duas “lá dentro”, onde se fez um pequeno concílio. Voltou, sorridente, estava tudo OK. Devolveu-me o cartão de residente, o meu passaporte e a fotocópia do dito. Não a queriam para nada, mas as regras diziam que era necessário…
Quotas
No Japão o consumo de plástico está ao nível do delírio. Nos supermercados quase tudo é embalado – e este “quase tudo” pode ser sacos com três cenouras, ou duas maçãs, ou uma banana. Tudo envolto em plástico
As quotas de mulheres permitiram uma pequena revolução na sociedade portuguesa, forçando uma maior representatividade feminina em lugares simbólicos (como Parlamento e Governo), mas também em cargos de decisão e estruturas intermédias. O Japão é o país desenvolvido com maior abismo entre homens e mulheres em toda a pirâmide do mercado de trabalho. Quase não se veem mulheres na administração de empresas, e são poucas em altos cargos políticos. Há agora, pela primeira vez, uma mulher como primeira-ministra. Contudo, Sanae Takaichi é mulher, mas não é feminista. Pelo contrário: no seu conservadorismo, considera que as mulheres devem ser recatadas, do lar e mães. Takaichi não é nada disto: casou-se com um homem divorciado aos 43 anos (quando as mulheres são descritas como “bolos secos”), um casamento-relâmpago que a tornou mãe adotiva dos três filhos do marido – função que sempre ignorou. É contra quotas que mudem este estado de coisas, quer manter a lei que obriga as mulheres a abdicar do seu sobrenome quando se casam, adotando o do marido, e avalia as restantes mulheres pela sua filosofia de vida: “Trabalhar, trabalhar, trabalhar.” Consta que dorme duas a três horas por dia – e há uma semanas teve um chilique no Parlamento por falta de descanso. É a prova do quanto mais uma mulher tem de trabalhar para chegar a um cargo “de homem”.
Diversidade
O Japão não gosta de imigrantes. Isso está na moda pelo mundo, bem se sabe, mas o Japão não gostava de gaijin (estrangeiros) antes de ser moda. Há um mito (que, como todos, corresponde vagamente à realidade) sobre o Japão ser um país etnicamente uniforme (não é), e baseou-se nesse mito boa parte da aversão nipónica a estrangeiros e mestiçagem. Com o envelhecimento da população e a quebra da natalidade, entraram milhões de estrangeiros no país para tarefas pouco qualificadas, mas hoje essa necessidade de importar mão de obra é transversal a toda a economia. Ainda assim, a maioria do país rejeita a sua presença. No Japão rural, os donos de propriedades preferem que as aldeias morram do que vender a casa dos seus antepassados a gaijin. A falta de mão de obra e a recusa de diversidade são duas das razões da estagnação japonesa nas últimas décadas. Diversificar não é um verbo japonês, e isso joga contra os japoneses.
Improvisar
Os japoneses são incapazes de improvisar na mesma medida em que precisam de ter tudo planeado. Nisso, Portugal e Japão estão nos antípodas. A nossa mentalidade de “desenrasca” é incompreensível para um japonês. Certo: o planeamento traz, por regra, benefícios de eficiência e previsibilidade.
O reverso é um bloqueio quando surgem situações inesperadas… Como a de alguém pedir uma salada sem maionese por cima: para nós, é só não acrescentar a maionese; para eles, passa a ser outro prato que não está na ementa. Não pode ser.
Situação inesperada também pode ser o desastre nuclear de Fukushima. Enquanto o sistema bloqueava, por causa do tsunami, e os reatores explodiam, os funcionários da central nuclear folheavam os manuais de instrução à procura de indicações sobre o que fazer naquela situação. Problema: aquela situação não vinha nos manuais… Um português talvez tivesse dado jeito.
Nunca houve tantos turistas portugueses a visitar o Japão como nos últimos anos. Em 2025, foram quase 55 mil. A desvalorização do iene ajudou, mas o affaire é antigo. Há séculos que o País do Sol Nascente faz parte do imaginário nacional – pelo menos, desde que chegou a notícia de que três portugueses, em 1543, foram os primeiros ocidentais a pôr pé nesse arquipélago isolado. Foi um acaso – um tufão desviou um junco com destino a Macau –, mas há muitos acasos que fazem História. Acabámos por ser expulsos quando nos tornámos demasiado gananciosos e quisemos impingir-lhes um deus único, criador de todas as coisas. Mas deixámos lá as armas de fogo, a tempura (os nossos peixinhos da horta), as cartas de jogar, o vidro, o pão de ló (identificado como Castela, que então mandava por cá) e a fama de sermos selvagens (de facto, não tínhamos requintes nem maneiras).
Muito tempo depois, foram eles que chegaram cá com desenhos animados que marcaram as crianças da revolução, como eu. O Marco, a Heidi, Conan, o Rapaz do Futuro, A Navegante da Lua… Os dos anos 60 e 70 foram crescendo, e o impacto do made in Japan crescia com eles e com as gerações seguintes. O Walkman da Sony, o Gameboy da Nintendo, o Super Mário, o Dragon Ball, o Naruto, a Hello Kitty, o Oliver e o Benji, o sushi, o ramen, o One Piece…
O país das lendas e do fascínio tornou-se, desde a pandemia, “o destino”. A viagem de sonho ambicionada por muitos, o destino finalmente alcançado por tantos. O Japão está na moda e não é só por cá. Desde a reabertura pós-Covid, todos os anos bate novos recordes de visitantes.
Newsletter
Mas o país do Nippon é mais do que uma moda. Para quem queira entendê-lo, o Japão é uma lição. Ou muitas, conforme o que cada um queira aprender. Eis algumas lições que trouxe dos quase quatro anos que lá vivi.
Espírito comunitário
No início, foi o arroz. A introdução do cultivo de arroz no Japão (por volta do ano 300 a.C.) permitiu que um povo nómada de caçadores/recoletores se tornasse sedentário, constituindo aldeias nos locais de cultivo desse cereal que se tornou central na dieta japonesa. O cultivo em socalcos exigia harmonia e colaboração: a água de um talhão seguia para o seguinte, e para o seguinte, colina abaixo. A entreajuda não era opção, mas necessidade. O ritmo da vida nos primeiros povoamentos era ditado pela sementeira, pela rega, pela colheita. Se faltava alguém, acudia outro. A armazenagem dos grãos, o tratamento do feno, o fabrico do sake, a preparação dos campos, as oferendas às divindades, tudo era comunitário. Cada um tinha o seu lugar numa engrenagem que se tornou cada vez mais complexa.
Vem desses tempos, da fundação da sociedade nipónica, o espírito comunitário que ainda hoje persiste em pequenas aldeias e grandes cidades (e estas, como perceberá indo lá e saindo dos roteiros turísticos, são, na realidade, uma sucessão de pequenas aldeias). Aquilo a que aqui chamo espírito comunitário, e que foi de longe o traço japonês que mais me impressionou, é uma manifestação do conceito fundacional da sociedade nipónica: a harmonia. Ou seja, evitar o conflito, mostrar cuidado com os outros e contribuir para uma base comum de cooperação.
Espírito comunitário O traço japonês mais impressionante é a harmonia. Ou seja, evitar o conflito, mostrar cuidado com os outros e contribuir para uma base comum de cooperação
Limpeza
Lembra-se, nos dois últimos Mundiais de Futebol, das imagens dos balneários da seleção nipónica? Tudo impecavelmente limpo e arrumado, e até com uns origamis a agradecer a quem os recebeu. Foram os jogadores e elementos da equipa técnica que fizeram esse trabalho de faxina. No estádio, os adeptos japoneses recolheram o seu lixo e até o dos outros. Nem podia ser de outra maneira. Nas escolas japonesas, são as crianças que fazem as limpezas – não é trabalho infantil, é formação de cidadãos. Nas empresas, os últimos dias do ano servem para todos (do administrador ao estafeta) limparem a fundo os escritórios, os corredores, as salas de reuniões, para tirar a sujidade e receber devidamente o ano novo.
Não há serviço de varredores municipais nas cidades japonesas: cada um varre o quinhão de rua que lhe fica em frente à casa, à loja ou à empresa. Ou até mais: na rua onde eu morava, uma senhora do templo vizinho percorria a rua de vassoura e pá à cata de alguma sujidade para limpar – na maioria das vezes, sem encontrar uma folha sequer.
Nas escolas japonesas, são as crianças que fazem as limpezas – não é trabalho infantil, é formação de cidadãos. Nas empresas, os últimos dias do ano servem para todos (do administrador ao estafeta) limparem os escritórios
Em Tóquio e na maioria das grandes cidades não há caixotes de lixo na rua. O lixo produzido por cada pessoa é assunto seu, que cada um deve tratar: é guardado num saco, ou no bolso, ou na mochila, e despejado no lixo doméstico, que será recolhido pela autarquia em dias certos, de acordo com a separação de resíduos.
Sem surpresa, o aumento de turistas deu cabo deste sistema de limpeza imaculada. Não sujar o espaço que é de todos é, antes de mais, uma forma de respeito pelo outro – liga-se ao espírito comunitário e aos ideais de harmonia. Mas é mais do que isso: tem a ver com a alma japonesa.
A limpeza, a beleza e o bem são conceitos inseparáveis. O bem, antes de ser uma abstração moral, é um conceito baseado na beleza. E a palavra japonesa para belo também significa limpo. Kirei é o que é belo e o que é limpo. Ou seja, só é belo o que é limpo, o que é limpo é belo. E bom.
Ligação à Natureza
Se a beleza natural do Japão ainda hoje deslumbra, apesar de muitas intervenções humanas (ver mais adiante), imagine-se o que seria em tempos ancestrais, quando foi forjado o carácter nipónico. Mais de 70% do território é montanha, com vales assombrosos, gargantas dramáticas, rochedos imponentes, gloriosas quedas de água por todo o lado. Na costa, o mar a perder de vista, praias de areia fina, até dunas de areia como no Sara. Tudo em flor na primavera, neve a cair no inverno, folhagem vermelha e amarela no outono, chuvas a regar florestas, parques e jardins no verão… As estações marcam a passagem do tempo e o ritmo da vida.
Não é por acaso que a religião indígena do Japão, o xintoísmo, se funda na Natureza. A Natureza não é uma manifestação do divino, de um qualquer paraíso sobrenatural, ou de altas esferas espirituais. A Natureza é essa divindade, esse paraíso, essa essência espiritual.
Natureza Mais de 70% do território é montanha, com vales assombrosos, gargantas dramáticas, rochedos imponentes, gloriosas quedas de água por todo o lado
Os kami (divindades) existem todos na Natureza, seja uma árvore, uma pedra, uma cascata, um animal, o vento, um indivíduo. As entidades superiores, sagradas, são todas alcançáveis pelos sentidos, e vivem connosco no nosso mundo. Por isso, as caminhadas nas montanhas, tradição que remonta a peregrinações seculares e é ainda hoje muito popular, são mais do que uma atividade física, são uma forma de conexão com o divino.
O budismo, que chegou mais tarde e em muitos casos entroncou com o xintoísmo, acrescentou à dimensão religiosa a aceitação da impermanência, que é a condição das coisas do mundo. A excitação com as cerejeiras em flor não é um fetiche – as flores são belas, estar sob um teto delas é sentir o céu ao alcance da mão, mas também são frágeis e efémeras. Voltaremos a este assunto.
Abraçar a efemeridade
Em terra de sismos, tsunamis, vulcões e tufões, a efemeridade é um facto da vida. Por cá talvez ambicionemos a persistência, a estabilidade, nalguns casos até a eternidade. Os nossos monumentos são feitos para resistir e deixar testemunho de tempos idos. O equivalente japonês a esta vã glória de persistir será a ambição de abraçar a efemeridade. Viver o momento. Desfrutar dos intervalos entre tremores de terra, maremotos, chuvas diluvianas, ventos demoníacos, derrocadas mortais, fogos que obliteravam cidades.
Há monumentos que resistem ao fim de séculos? Sim. Mas não foi essa a intenção com que foram edificados. Aliás, muitos deles não são os originais, mas reconstruções. Porque houve incêndios, houve bombardeamentos, até porque para construir uma estrada ou um edifício foi conveniente desmantelar um templo e reedificá-lo noutro sítio.
É surpreendente a quantidade de templos, santuários e outras construções que mudaram de morada. E também a quantidade de edifícios modernos, icónicos, deitados abaixo. Frank Lloyd Wright desenhou um majestoso hotel no centro de Tóquio – foi demolido para construir um hotel maior, sem ponta por onde se lhe pegue. A Nakagin Capsule Tower, a construção mais importante da arquitetura metabolista japonesa, foi desmantelada em 2022 e nesse terreno brotou um edifício mais alto. No Japão, quase ninguém achou estranho.
Elogio da efemeridade É surpreendente a quantidade de templos, santuários e outras construções que mudaram de morada. E também a quantidade de edifícios modernos, icónicos, deitados abaixo
O mais importante lugar xintoísta do país, o Santuário de Ise, construído há cerca de dois mil anos, talvez seja uma exceção a esta ideia de efemeridade e constante mudança. Ou talvez não. Decida por si: nos últimos 1300 anos, os dois edifícios mais sagrados do complexo foram totalmente desmantelados e reconstruídos de raiz de 20 em 20 anos.
O desenho, as técnicas, os materiais, a origem dos grandes ciprestes, são rigorosamente os mesmos; a localização é sempre ligeiramente ao lado de onde estava o santuário anterior. Com esse processo são mantidas a beleza, a perfeição e a pureza originais, sem que o edifício de madeira se adultere. A última reconstrução foi em 2013 – o templo tem 13 anos ou 1300?
Ainda sobre efemeridade: o profundo amor dos japoneses pelas flores de cerejeira não tem só a ver com a sua beleza. Tem sobretudo a ver com a sua fragilidade. O momento em que a floração está em pleno esplendor é esperado com ansiedade, e todo um país se prepara para grandes romarias a apreciar cada flor, e a fazer piqueniques sob esse céu florido. Por azar, também é na altura das primeiras grandes chuvas, dos ventos fortes e, por vezes, até de tufões. Daí a urgência de desfrutar das sakuras enquanto as flores não são levadas.
Planeamento
Os japoneses são mesmo bons a planear. Demoram eternidades a fazê-lo. Um plano implica muita gente, passa por muitas mãos, por muitos pares de olhos, num processo que uns encaram como o cúmulo da inclusão (para manter a harmonia) ou o suprassumo da desresponsabilização – se todos concordaram, ninguém tem responsabilidade exclusiva no caso de correr mal. Por regra, os planos são tão elaborados, incluem tantos contributos, são ponderados de tantos pontos de vista, que têm boas hipóteses de sucesso.
Ainda hoje, qualquer português que tente fazer negócios com o Japão sabe o que isso é: uma eternidade até ser tomada uma decisão. Vantagem: uma vez tomada, nada pode pará-la. Desvantagem: não há folga para imprevistos. As nossas capacidades de improviso e desenrascanço são conceitos inalcançáveis para os nipónicos. Se não está expressamente previsto, não pode ser.
A nossa lei baseia-se no princípio de que tudo o que não é proibido é permitido; a filosofia japonesa é oposta – tudo o que não está previsto é proibido. Não há jeitinhos, ninguém facilita, ninguém desenrasca. Eis um caso em que podemos aprender mutuamente.
Prevenção de catástrofes
O Japão não é só o país do mundo mais afetado por sismos (todos os dias tremem várias partes do país). Também lida desde o início dos tempos com um rosário de tormentos naturais: tsunamis, tufões, fogos, enchentes, inundações, derrocadas.
Desde a II Guerra Mundial, os sucessivos governos tomaram o encargo de proteger os cidadãos, incluindo de si próprios. Roland Barthes chamou ao Japão O Império dos Símbolos, porque as grandes cidades (mas não apenas) estão cobertas de letreiros, néons, cartazes, avisos, e todo o tipo imaginável de escrita. Uma parte considerável dos cartazes nas paredes são a alertar os transeuntes para comportamentos censuráveis ou perigos à espreita: não andar nas escadas rolantes, não deixar que tarados fotografem as moças por debaixo das saias, não falar alto, quem vai sentado no metro, não cruzar a perna, quem vai em pé, não largar os apoios, não saltar para a linha do comboio se deixar cair alguma coisa… Muitos avisos parecem patetas e infantilizam o público, mas a ideia é antes prevenir do que remediar.
Também há, claro, os avisos e a planificação para grandes catástrofes. Em todas as entradas do metro sabemos a que altura estamos em relação ao nível da água do mar; em qualquer cidade ou vilarejo há avisos com as rotas de evacuação em caso de tsunami; todos os alunos fazem, todos os anos, vários simulacros sobre o que fazer em caso de terramoto, tsunami, incêndio ou entrada de um estranho na escola. Qualquer destes perigos iminentes faz disparar o telemóvel.
Há uma regra japonesa segundo a qual chegar a horas é chegar tarde. Os transportes públicos andam invariavelmente à tabela – se isso não acontecer, os condutores desfazem-se em pedidos de perdão
No caos do quase inexistente planeamento urbanístico, há duas garantias: nenhum prédio pode estar encostado a outro (para poderem abanar em caso de sismo) e todos os edifícios com dois andares ou mais têm de ter vidros quebráveis em caso de emergência, com cordas que possibilitem a descida pelo exterior da construção. Todas as restantes janelas têm, sem exceção, o vidro reforçado com rede de metal. A construção antissísmica é rigorosa, preparada para que os imóveis dancem, mas não quebrem.
Os rios e canais nas cidades grandes têm amplas zonas verdes nas suas margens (são normalmente campos de jogos e piqueniques), para que a água possa transbordar as margens sem causar danos. E Tóquio tem o mais colossal sistema de prevenção de cheias, gigantescos túneis capazes de absorver e canalizar quantidades diluvianas de água (esse feito de engenharia, conhecido como Catedral Subterrânea, pode ser visitado pelos turistas, sob marcação).
A certa altura, a obsessão nacional com a segurança talvez tenha chegado longe demais na pretensão de domesticar a Natureza. Cada vez mais cidades e vilas costeiras têm no oceano grandes muros de betão construídos para travar a força de tsunamis. Cada vez mais encostas nas montanhas têm redes de aço ou estruturas de betão para prevenir derrocadas – o resultado raramente é bonito. E são cada vez mais raros os rios com margens naturais, substituídas por betão armado. Não só é feio, como quebra a harmonia com a Natureza. Mas outro valor mais alto se levanta.
Segurança
Tóquio é a megacidade mais segura do mundo. A partir dos 6 anos, todas as crianças vão para a escola sozinhas, seja um percurso pedestre no bairro ou uma viagem que inclua metro ou autocarro
De acordo com vários rankings, o Japão não é o país mais seguro do mundo. A Islândia leva sempre a palma e Singapura costuma ser o mais bem colocado entre os países asiáticos. Até Portugal surge em vários rankings bem acima do Japão. Então, por que razão nos sentimos mais seguros caminhando sozinhos em qualquer bairro de Tóquio do que em Lisboa? Simples: Portugal tem menos de 11 milhões de habitantes; a Islândia, 370 mil; Singapura, seis milhões… No Japão, são 125 milhões. Facto: o Japão é o país mais seguro do mundo olhando apenas para os que têm mais de 100 milhões de habitantes. O centro urbano de Tóquio tem dez milhões de almas – e é, de longe, a megacidade mais segura do mundo. Segue-se Osaka. No Japão quase não há crimes violentos, e ainda menos crimes de sangue. Há a Yakuza (a máfia local), a corrupção é endémica, mas raramente cidadãos aleatórios são vítimas de violência. Nunca olhei por cima do ombro mesmo quando caminhava em bairros ou vielas duvidosas. Não há roubos (a não ser de guarda-chuvas, quando cai uma chuvada repentina… e todos aceitam esse facto da vida). É habitual deixar o PC ou a mochila a marcar mesa num café – ninguém os rouba. A partir dos 6 anos, todas as crianças vão para a escola sozinhas, seja um percurso pedestre no bairro ou uma viagem que inclua metro ou autocarro.
Lá vão, de passe ao pescoço, carregando a mochila de couro, com o seu chapeuzinho colorido, e levantando o braço quando atravessam a passadeira. A comunidade olha por eles. A polícia de bairro também – há uma enorme rede de pequenas esquadras (koban), há polícias a cirandar de bicicleta, e esse policiamento de proximidade acrescenta segurança à sensação de segurança.
Descalçar-se
Demorei a acreditar quando percebi que o contrato de arrendamento da nossa casa em Tóquio tinha a mais insólita das regras: estávamos estritamente proibidos de usar dentro de casa o calçado da rua. Pantufas e chinelos domésticos era OK, sapato que fosse à rua era PROIBIDO.
Para os japoneses isto é evidente e aprende-se com o primeiro par de sapatos; para os ocidentais nem por isso. Não foi difícil cumprir: chegámos lá ainda durante a pandemia e tínhamo-nos habituado ao ritual de trocar de sapatos ao chegar da rua. As casas japonesas delimitam o espaço, curto, que se pode pisar com o calçado da rua: é normalmente em tijolo ou azulejo, tem um armário onde está o calçado doméstico e onde se guardam os sapatos que se descalçam. Um degrau delimita essa fronteira. A razão é óbvia. Por muito imaculadas que sejam as ruas do Japão, a rua é um espaço sujo e essa sujidade deve ser mantida fora de casa. O mesmo acontece em muitos restaurantes, nos provadores das lojas de roupa, em alguns templos ou museus. Por isso o japonês comum usa sapatos largos ou com os atacadores laços, para pôr e tirar o calçado facilmente. Também por isso costumam arrastar os sapatos. Repare nisso.
Pontualidade
Há uma regra japonesa segundo a qual chegar a horas é chegar tarde. Os transportes públicos andam invariavelmente à tabela – em Tóquio, sabia exatamente a que horas passava o metro, e é mais comum um autocarro fazer tempo na paragem para não se adiantar do que chegar tarde. Se isso acontece, os condutores desfazem-se em pedidos de perdão. Quanto às pessoas, ser pontual significa chegar antes da hora – ou se está adiantado ou se está atrasado. Isso de chegar à hora não existe, porque pode haver imprevistos, e, ainda que não haja, é preciso chegar, entrar, talvez descalçar-se, pousar as coisas, integrar-se no ambiente onde se é esperado. Aconteceu-me ter convidados que chegaram a nossa casa meia hora antes do combinado, com total à-vontade. Já o contrário – aquela coisa muito portuguesa do “a caminho, estou dez minutos atrasado”, que afinal é meia hora – é muito raro e considerado extremamente rude.
Agradecer
Quando voltei a Portugal dei-me conta de que não agradecemos o suficiente. Vinha de um país onde sentia que se agradecia demais, e aqui dei-me conta de que agradecemos de menos. No Japão, o agradecimento é uma regra da vida, manifesta em palavras e em atos. Obrigado (arigatou), muito obrigado (arigatou gozaimasu) e uma espécie de muito obrigado eterno (arigatou gozaimashita) são repetidos a cada instante, acompanhados de uma vénia ao outro, de acordo com a familiaridade, o gap social, a circunstância e a possibilidade de um reencontro.
“Arigatou” No Japão, o agradecimento é uma regra da vida, manifesta em palavras e em atos
É um reconhecimento por aquilo que o outro dá, mesmo que seja um bem ou um serviço remunerado, porque o sentimento de dívida vai para lá de retribuições imediatas – a gentileza, a dedicação, o empenho, não se pagam. Agradecem-se.
Ikigai
Sim, há livros sobre isso, com rebuscadas teorias sobre como ser feliz, como viver até aos 100 anos, como ser mais produtivo… Tudo muito new wave, tudo muito ocidental, tudo autoajuda de pacotilha. No Japão, ikigai é um conceito simples que pode ser uma filosofia de vida: iki (vida) + gai (valor, resultado) é aquilo que nos faz levantar pela manhã e nos conduz a cada dia. A razão de existir. Uma vida feliz e plena implica que cada qual encontre aquilo que lhe dá sentido. É pessoal e é diário. Pode ser um objetivo, uma rotina, um hobby, um pequeno prazer. Pode ou não estar relacionado com resultados − alcançar algo, fazer alguém feliz, providenciar conforto, contribuir para a harmonia da comunidade (e voltamos, assim, ao início deste texto).
Mas ikigai não é um conceito utilitário, por isso raramente está associado, na sua origem, ao trabalho ou à carreira. Contudo, esse sentido pode retirar-se do trabalho, feito com brio, afinco, perfeccionismo. O protagonista do filme Perfect Days, de Wim Wenders, retira essa plenitude do cuidado com que limpa casas de banho públicas, e também da luz que atravessa as folhas das árvores. Num caso dá, no outro recebe. Simples, não?
Guia instantâneo de viagem
As escolhas de quem viveu no Japão
5 destinos “obrigatórios” no país
Quioto e Nara − Cidades históricas conhecidas pelos templos e santuários.
Hiroshima e Miyajima: O Memorial da Paz,e a ilha com o famoso Templo Itsukushima.
Osaka: Cidade vibrante conhecida pela culinária e a vida noturna – não recomendo, mas sou o único…
Kanazawa: Cidade histórica, com um castelo magnífico.
Hakodate: Cidade portuária, com excelentes frutos do mar.
Hokkaido: A ilha mais setentrional do Japão, reconhecida pela Natureza e as paisagens.
Os “meus” 5 lugares de Tóquio
Santuário Nezu e Yanaka Ginza – A cidade old school como quase já não se vê.
Kappabashi – O grande bairro dos utensílios de cozinha.
Feira da Ladra do Hipódromo – Por regra, aos domingos. Esteja preparado para tudo.
Ameyoko – O mais antigo mercado de rua de Tóquio. Comida, bebida, bugigangas, confusão e até um templo escondido.
Tsukiji – Onde havia o grande mercado de peixe ficaram as lojas e os restaurantes circundantes.
Os “meus” 5 destinos preferidos no país
Kamakura – Templos e o Grande Buda.
Gunkanjima – Ilha desabitada, com edifícios industriais abandonados.
Naoshima − Uma pequena ilha que se tornou um grande centro internacional de arte contemporânea.
Ine – Vila de pescadores conhecida pelas casas tradicionais funaya.
Kumano Kodo – Rede de rotas de peregrinação que atravessa as montanhas de Kii.
*Jornalista da VISÃO em 1998/9. Está a preparar um livro sobre o Japão onde viveu quase quatro anos e foi correspondente da CNN Portugal
Há 50 anos, um golpe militar instaurou uma das ditaduras mais brutais da América Latina. Com o apoio tácito dos EUA, à semelhança do que tinha acontecido três anos antes no Chile, um grupo de oficiais derrubou o governo eleito democraticamente, sob o pretexto de pôr fim a uma era de instabilidade política na Argentina. Meio século depois, já poucos se recordam das peripécias que ocorreram naquele país da América do Sul durante a Presidência que Isabel Perón − eleita vice-presidente pelo voto popular − assumiu após a morte do marido. Mas durante todos os anos seguintes foi difícil esquecer as atrocidades cometidas pela ditadura militar que controlou a Argentina, de forma brutal, até 1983 – quando teve de se “retirar” na sequência da derrota na Guerra das Malvinas/Falklands, frente ao Reino Unido.
Durante anos, foi lembrada a resistência das mães que, todas as quintas-feiras, se concentravam na Praça de Maio, em Buenos Aires, a reclamar pelo paradeiro dos seus filhos desaparecidos. Ao fim de várias investigações e inquéritos, com muitos sobressaltos pelo meio, foi possível chegar ao consenso de que a “guerra suja” da ditadura argentina provocou cerca de dois mil mortos e, oficialmente, 8 690 desaparecidos – embora diversas organizações de direitos humanos calculem que o número verdadeiro de desaparecidos chegue aos 30 000. Sabe-se também que milhares desses desaparecidos foram atirados para o mar, ainda vivos, de aviões, nos chamados “voos da morte”. Também ficou fundamentada a morte e o sequestro de bebés, das famílias vítimas da repressão, com alguns a serem adotados pelos militares.
Logo em 1985, com a restauração da democracia, iniciou-se o julgamento dos diversos integrantes das juntas militares, levando à condenação de muitos deles, num processo que foi considerado exemplar pela comunidade internacional – o ditador Jorge Videla seria mesmo condenado a prisão perpétua, morrendo na sua cela em 2013, depois de reconhecer muitos dos seus crimes, mas sem demonstrar qualquer arrependimento.
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Desde que Javier Milei chegou ao poder, em 2023, essa narrativa oficial, até então consensual, começou a alterar-se. Nas suas intervenções públicas duvidou abertamente do número de desaparecidos e, aos poucos, começou a tentar impor a versão de que todos os assassínios e raptos tinham uma justificação: a “guerra” contra a guerrilha esquerdista. Ao mesmo tempo, retirou importância à Secretaria de Estado de Direitos Humanos, cortou apoios aos grupos da sociedade civil que se dedicavam à preservação da memória daqueles tempos e tornou inoperacional a comissão que ainda procurava localizar as crianças raptadas durante a ditadura.
Em Portugal, felizmente, ainda não atingimos este nível de reescrita da História. Mas vemos acumularem-se, todos os dias, diversos sinais no mesmo sentido e várias tentativas para procurar impor uma nova narrativa em relação ao 25 de Abril e a tudo o que esse dia significou para o País.
Num tempo de indignações à pressão, em que podem soltar-se números sem contraditório ou fazer afirmações sem o mínimo de sustentabilidade histórica, a tática é a de sempre: procurar desfazer o grito unido de “liberdade” que em 1974 ecoou por todo o País – fazendo, por isso, cair uma ditadura esclerosa – e impor uma narrativa de confronto, destinada a criar confusão e a aumentar a divisão.
Nestes tempos em que tantos procuram reescrever a História, é cada vez mais importante conservar os mecanismos que nos permitem manter a memória preservada. É para isso que são fundamentais os museus, as bibliotecas, mas também tudo o que seja arquivo físico, com os documentos e testemunhos que marcaram cada época. Tudo aquilo que, no fundo, possa servir de prova para desmentir aqueles que tentam impor uma narrativa “alternativa”, destruir consensos estabelecidos e, na verdade, atacar a liberdade e a democracia.
É por isso que a batalha pela preservação da memória do 25 de Abril não é um sintoma de saudosismo, mas sim um plano para salvaguardar o futuro. Mais urgente do que nunca. Em nome da democracia, mas também da verdade histórica.