Eu era amigo dele. Ganhei anos de vidas, de experiências, de histórias verdadeiras ou imaginárias em cada dia que passei com ele. Virei noites de fado, de poesias, de conversa, de gargalhadas e de algumas lágrimas. Vi-lhe sol e lua. Vi-o revoltado e apaziguado. Vi como adorava os seus amigos e como lhes era dedicado. Senti e vivi a amizade que me dedicou e que guardarei para sempre como dádiva única.

Isto chegava para lhe estar grato. E sim, sou dos que acham que a amizade é para agradecer, porque não há coisa mais extraordinária do que esse laço de partilha, de dádiva, de aconchego, de cumplicidade que alguém nos dá.

Passei anos a gritar o nome dele por tudo o que é campo de futebol, antes de o conhecer e muito antes de me tornar seu amigo. Gritava porque sabia o que lhe devia, melhor, o que lhe devemos e deveremos para toda a eternidade.

O FC Porto não é um pormenor na minha vida, é uma parte daquilo que sou. Desisti de saber porquê, é o que é (frase que o meu amigo dizia muitas vezes quando falava de uma inevitabilidade). Já não me pergunto porque choro com as suas derrotas e pouco celebro as vitórias por temer que sejam pontuais – talvez porque sou do tempo em que nada ganhávamos –, nem porque me transformo num ser irracional quando a discussão é o mérito das nossas vitórias e muito menos me ponho a raciocinar porque diabo me sinto parte de uma tribo que põe o seu destino numa equipa de futebol.

Sou portista, como sou português, como sou pai, como sou filho, como sou o que sou.

E foi ele que fez do meu clube, de uma das minhas tribos, uma instituição coberta de vitórias, de glórias, de troféus. Ou seja, fez-me e fez-nos grandes e orgulhosos. Não é que o nosso amor fosse menor se não vencêssemos, mas não há nada mais importante do que ver o nosso amor feliz. E nunca ninguém deixou o FC Porto tão feliz, portanto nunca ninguém amou o FC Porto como Jorge Nuno de Lima Pinto da Costa o amou.

O meu primo José Carlos escreveu-me o que eu gostaria de ter dito e escrito: o presidente fez do impossível um hábito. É exatamente isso. O nosso grande líder, o NGL como lhe chamamos (nunca tive a coragem de dizer ao meu amigo que era assim que nos referíamos a ele), fez com que fosse corriqueiro que um clube duma região e duma cidade pobres lutasse contra as mais ricas regiões e cidades do mundo e lhes ganhasse com impressionante regularidade.

Fez um milagre para o país mais centralista e mais macrocéfalo da Europa: o FC Porto ganhar muito mais do que os clubes da capital.

Se o impossível lhe trouxe uma admiração imensa pelo mundo inteiro, o milagre foi um pecado que nunca lhe perdoaram.

Não surpreende que o Real Madrid e o Barcelona estivessem presentes nas suas cerimónias fúnebres e os dois clubes de Lisboa nem uma mensagem de condolências enviassem.

Ter levado o nome do País por esse mundo fora, ter sido o melhor clube da Europa e do mundo mais do que uma vez, ter transformado o futebol português dum negócio de vão de escada na mais vitoriosa indústria nacional só mereceu desprezo. Ser o presidente que no mundo inteiro mais títulos ganhou, ter vencido 25 campeonatos, 15 taças de Portugal, sete competições internacionais, um sem-número de outros troféus no futebol ou ter vencido mais títulos nas chamadas modalidades amadoras do que qualquer outro clube em Portugal só merece um encolher de ombros entre o estúpido e o rancoroso.

O Pinto da Costa era só o chefe dos parolos do Norte, dos marginais que só ganham porque compram os árbitros. Os de lá de cima que são bons e simpáticos quando perdem, quando não chateiam.

Entre dois fados numa casa de Alfama (nunca confundir centralismo com a cidade de Lisboa), o presidente contava-me que Américo de Sá lhe tinha dito para não confrontar os poderes em Lisboa e que ele lhe terá respondido: então como é que quer que o clube que preside ganhe?

O presidente Pinto da Costa conhecia o país onde vivia.

Sabia bem que nunca teria as homenagens nacionais que merecia porque também não duvidada de que para ser amado pelos seus tinha mesmo de ser odiado pelos adversários. É o fado de quem se rebela contra os poderes instituídos, de quem luta contra os que pensam ter um direito divino às vitórias, de quem se ergue contra aqueles que só consideram quem se subjuga. E ele só queria saber dos seus.

Não vale a pena procurar a moral da história porque não a tem. É apenas a crónica sobre um amigo que era um líder inspirado e inspirador. Alguém que tinha defeitos como qualquer homem, mas que se tornou tão grande e com uma obra tão extraordinária que esses defeitos nem no pé de página da história da sua vida merecem estar.

Invoco por uma última vez a minha qualidade de amigo e assim de algum conhecimento sobre o que pensava.

O seu maior amor, desculpem-me os amigos e sobretudo a família, era o FC Porto. Se querem honrar o nome, a memória e o legado do presidente Pinto da Costa, estudem as suas lições e vençam mais do que ele venceu. Nada o faria mais feliz.

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Há uns meses, numa das suas raras intervenções públicas, Pedro Passos Coelho aceitou o convite para apresentar um livro chamado Identidade e Família, com organização de António Bagão Félix e Paulo Otero (entre outros) e contributos de vários autores. Alguns dos textos poderiam, com facilidade, ser conotados como sendo conservadores, passadistas e moralistas. Hoje, esse livro já ficou esquecido na espuma dos dias, mas, na altura, sem se perceber bem porquê, o seu lançamento foi bastante mediatizado. 

Na Livraria Buchholz, em Lisboa, onde decorreu o lançamento, estava Nuno Melo, então recém-empossado ministro da Defesa, e André Ventura, líder do Chega, que acabara de conseguir uma vitória estrondosa nas eleições legislativas. Passos Coelho tinha alguns soundbites preparados para a ocasião que ajudaram à polémica. Recorreu, nomeadamente, a expressões de outros tempos para denunciar o que entende ser a “sovietização do ensino”. “As famílias precisam de ser ajudadas na educação dos filhos, mas dificilmente o conseguiremos com uma espécie de sovietização do ensino, com uma determinada perspetiva que não é a da maioria da sociedade e muito menos das famílias”, disse o antigo primeiro-ministro e líder do PSD. 

Já depois disso, no congresso do PSD que se realizou em Braga, em outubro, também Luís Montenegro regressou ao tema. Foi um congresso sem história e, por isso, uma das notícias principais acabou por ser o facto de o primeiro-ministro ali ter defendido a revisão dos conteúdos da disciplina de Cidadania e Desenvolvimento. Montenegro justificou que se trata de uma “das bandeiras que interessam à população portuguesa” (!). “Vamos reforçar o cultivo dos valores constitucionais e libertar esta disciplina das amarras a projetos ideológicos ou de fação”, rematou. 

Felizmente, o assunto estava, por ora, posto em sossego. Até que, na semana passada, no Parlamento, houve quatro projetos de lei e de resolução do Chega, Bloco de Esquerda, CDS-PP e PAN. Inicialmente, foram todos rejeitados, mas o PSD ‒ que primeiro se absteve na votação do projeto do CDS-PP ‒ acabou por votar a favor, o que permitiu aprovar a resolução que visa “retirar o conteúdo ideológico” do currículo da disciplina. 

Houve uma reviravolta, mas não há aqui equívocos nem mal-entendidos. Montenegro, político talentoso e experiente, sabe perfeitamente que a Cidadania e Desenvolvimento é uma das bandeiras do Chega ‒ que não só aproveita tudo quanto lhe cheira a trincheira como tenta cavalgar guerras culturais e questões identitárias. A aproximação dos partidos de direita democrática aos temas prediletos das direitas radicais tem acontecido pela Europa fora e, por isso, esta posição do PSD pouco tem de nova ou de inédita. Se a estratégia beneficiará o PSD ou se o afastará de forma irremediável da sua matriz fundacional, só o tempo o dirá.  

Também não há aqui inocentes, convenhamos: todos sabemos que, aos críticos implacáveis da Cidadania e Desenvolvimento, o que interessa é a sexualidade e a igualdade de género. Ninguém quer saber de direitos humanos, de literacia financeira ou mediática, de segurança rodoviária, de educação ambiental ou de empreendedorismo (tudo matérias que constam do vasto programa da disciplina). Também é verdade que a política ‒ tal como, em certa medida, o jornalismo ‒ é feita de antagonismos mais ou menos artificiais (se assim não fosse, diga-se de passagem, seria uma grande chatice…). 

No debate polarizado entre a esquerda e a direita, a Cidadania e Desenvolvimento está transformada em arma de arremesso. Mas basta ter algum contacto com escolas para perceber que a disciplina está longe de ser uma prioridade para alunos, professores e pais. O apelo com que termino é, por isso, genuíno e sincero: podem pôr gelo nos pulsos, deixar os miúdos em paz e, por uma vez na vida, ir incendiar para outro lado?

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Esta sexta-feira, 21, deverá ser debatida, no Parlamento, a moção de censura apresentada pelo Chega. André Ventura optou por mais esta iniciativa, depois de o primeiro-ministro, Luís Montenegro, se ter recusado a fornecer mais informações do que as parcas declarações prestadas ao Correio da Manhã, na sequência da revelação de que estaria ligado a uma empresa imobiliária e que essa firma poderia vir a beneficiar da nova lei dos solos. É expectável que esta moção de censura seja inviabilizada por toda a esquerda parlamentar (além da AD), mas a polémica tem todos os ingredientes para perdurar.

Segundo uma investigação do citado matutino, Montenegro teria fundado a firma Spinumvita, de que se terá desligado, quando voltou à política ativa, deixando-a nas mãos da sua mulher, Carla Montenegro, e dos seus dois filhos, Hugo e Diogo, agora com 22 e 18 anos, respetivamente. Entre outras atividades, aliás, de largo espetro, a Spinumvita poderia atuar no âmbito imobiliário, beneficiando do leque de oportunidades conferido, no futuro, pela nova lei dos solos, que abre boa parte dos terrenos rústicos à construção. Ora, a Spinumvita gere o património imobiliário herdado por Montenegro, 49 prédios rústicos, como apurou a VISÃO. E essa é uma das razões por que, alínea a), esse património é suscetível de potencial valorização, com a aprovação da nova lei e, alínea b), o negócio, mesmo com o primeiro-ministro formalmente de fora, decorre no seu círculo íntimo. Esta semana, João Paulo Batalha, vice-presidente da Associação Frente Cívica defendeu que a Spinumvita deveria ser extinta, exatamente porque, através dela, há dinheiro a circular nesse mesmo “círculo íntimo”.

O líder parlamentar do PSD, Hugo Soares, veio negar veementemente que o primeiro-ministro tenha tido – ou a sua família possua – uma imobiliária. De facto, o leque de atividades é extenso: de acordo com o registo comercial, a empresa tem como objeto “as atividades de consultoria de gestão e exploração agrícola, turística e empresarial; consultoria, orientação e assistência operacional às empresas ou a organismos (inclui públicos) em matérias muito diversas, tais como: planeamento, organização, controlo, informação e gestão; reorganização de empresas; gestão financeira, estratégica e organização de eventos; consultoria sobre atividade seguradora, proteção de dados pessoais, segurança e higiene no trabalho; objetivos e politicas de marketing; gestão de recursos humanos; gestão e comércio de bens imóveis próprios ou de terceiros, o arrendamento e outras formas de exploração dos mesmos, bem como o alojamento local; exploração de recursos naturais e exploração e produção agrícola, predominantemente vitivinícola”.

Segundo apurado pela VISÃO e publicado no nosso site esta segunda-feira, a Spinumvita teve, em 2023, um volume de vendas no valor de 235 216 euros, com um ativo total de 417 521,52 euros e um passivo de 66 150,70 euros. Em 2022, último ano em que Montenegro foi sócio, a empresa tinha tido um total de vendas no valor de 415 100 euros. E uma das empresas para quem a Spinumvita terá trabalhado foi, ironicamente, a detentora do Correio da Manhã, órgão que avançou com estas notícias. O gabinete de Montenegro esclareceu-nos que o trabalho foi prestado “no âmbito da aplicação do RGPD [o regime legal de proteção de dados] à Cofina”, antes de esta empresa ser a MediaLivre, e antes de Montenegro ser eleito líder do PSD, mas sem precisar a data.

A empresa gere 49 terrenos rústicos herdados pelo primeiro-ministro. A nova lei pode valorizá-los muito

Ao Correio da Manhã, Montenegro acrescentou que “nunca foi, não é e não será objeto da atividade da empresa qualquer negócio imobiliário ligado à alteração legislativa” feita na Lei dos Solos. Ora, a resposta é muito semelhante à que foi dada por Hernâni Dias, que se demitiu do lugar de secretário de Estado, precisamente por ter constituído com a mulher e as filhas uma sociedade imobiliária já depois de ser governante. Ora, Pedro Nuno Santos, que parece ter uma estratégia de desgaste e de cerco lento ao caso, entrou com pezinhos de lã, protestando acreditar que deve haver “boas explicações” para este caso, mas “que é preciso que elas sejam dadas”. Porém, esta terça-feira, veio juntar argumentos progressivamente mais musculados, afirmando que a situação “é muito semelhante àquela que levou um secretário de Estado a sair do Governo”.

Esta tensão parece ter toda a tração política para crescer, com o Chega a rebentar o balão através de uma moção de censura e o PS a enchê-lo lentamente, procurando encurralar Montenegro “que tem evitado os jornalistas para fugir a perguntas incómodas”. O certo é que o primeiro-ministro continuará a ser confrontado com esta espécie de solosgate. Os mais de 700 mil euros faturados em consultoria, nos últimos anos, vieram, certamente, de clientes concretos. Ora, como lembrou o já referido João Paulo Batalha, é natural que uma consultora possa prestar serviços a empresas ou indivíduos que tenham contenciosos com o Estado e, por isso, a incompatibilidade surge automaticamente quando o serviço é prestado por uma empresa ligada a titular de cargo político.

Segundo fontes da oposição ouvidas pela VISÃO, este caso não se presta tanto a uma moção de censura quanto a, por exemplo, uma comissão parlamentar de inquérito. É que “não é o Governo que é censurável, mas sim a conduta pessoal do primeiro-ministro”. E se uma empresa, vinculada a razões de confiança e confidencialidade, não é obrigada a revelar publicamente a sua carteira de clientes (como exigiu o Chega), em caso de suspeita terá de facultar às autoridades o acesso à documentação e à contabilidade – e o mesmo é válido para uma comissão parlamentar de inquérito.

Sangue novo

Um dos novos secretários de Estado entrou com polémica

Ordenamento
Silvério Regalado, substituto de Hernâni Dias (que se demitiu na sequência de uma possível incompatibilidade relacionada com a nova “lei dos solos”), foi apontado como tendo, na qualidade de autarca de Vagos, beneficiado o escritório de advogados de Luís Montenegro, com contratos por ajuste direto no valor de 200 mil euros. Montenegro estaria a beneficiá-lo com esta nomeação. Para isso, é preciso assumir que ir, nesta altura, para um cargo governamental (apesar de tudo, secundário) é um prémio e não uma missão espinhosa…

Inovação educativa
Maria Luísa de Oliveira, de 61 anos, tem, também, experiência como autarca, em Tomar, licenciada em Geografia e Planeamento Regional e mestre em Ciências da Educação-Investigação e Intervenção Educativa

Segurança Social
Susana Filipa de Moura Lima, quadro do Banco de Portugal, doutorada em Economia

Energia
Jean Barroca, mestre em Gestão Empresarial foi consultor do Banco Mundial

Adjunta e da Igualdade
Carla Rodrigues, licenciada em Direito e ex-deputada

Cultura
Alberto Santos, ex-autarca de Penafiel, criador do Festival Escritaria dedicado aos escritores lusófonos. Foi administrador nos Portos do Douro, Leixões e Viana do Castelo

Feitas as contas por alto serão mais de 500 os produtores nacionais e estrangeiros que dão a provar as suas colheitas desta quinta a domingo, 20 a 23, entre o Palácio da Bolsa e o edifício da Alfândega, situados a poucos metros de distância na zona da Ribeira do Porto.

A celebrar a 21ª edição, o Essência do Vinho é o primeiro festival a arrancar já nesta quinta, 20, no Palácio da Bolsa e, este ano, terá mais um dia no cartaz com um novo formato.  Até domingo, 23, o edifício neoclássico oitocentista reunirá 400 produtores nacionais e estrangeiros, dando a provar cerca de quatro mil vinhos.  

Provas, cachaça e queijos de Minas Gerais na Bolsa

O Essência do Vinho junta 400 produtores e quatro mil vinhos no Palácio da Bolsa. Foto: Fabrice Demoulin

Além do TOP 10 que abre o festival logo pela manhã (reservado a um grupo de especialistas que prova uma seleção de vinhos com mais de 92 pontos em prova cega), o destaque vai, como habitualmente, para as provas comentadas: Gaja, Sonhar em Itália (16h30); A nova Borgonha para lá dos clássicos (17h); Os Terroirs da Quinta do Vale Meão (16h30) ou A Sogrape Também é Ímpar (18h30).

Já na sexta, 21, salientam-se as provas Czar: O vinho do Pico que parece impossível (16h30); Alvarinhos de A a S (17h) ou, entre outras, os The Library Release (Portos vintage com mais de 20 e 30 anos) da Sygminton (18h30).

No sábado, 22, celebram-se os 20 anos de vindimas do enólogo Paulo Nunes (16h30) e da Quinta de Lemos (€18h30), e no domingo, 23, o Dão e os Brancos dos Vinhos Verdes (às 16h) estarão em destaque.

Do estado brasileiro de Minas Gerais, região internacional convidada desta edição, provam-se os vinhos mineiros (sexta, 19h); as cachaças (sábado, 18h), consideradas património cultural mineiro; e os seus queijos (domingo, 17h). 

O Veni, Vini, Vici é a novidade desta edição: na segunda, 24, das 12h às 19h, o Hard Club recebe 30 produtores de vinho de baixa intervenção – portugueses da Bairrada, Vinhos Verdes, Dão e Douro, e também oriundos de Rias Baixas, Tenerife, Ribeiro, Priorat e Jerez (Espanha), Loire, Jura e Borgonha (França), Pfalz (Alemanha), Piemonte e Emilia Romagna (Itália).  

Barricas de Jerez na Alfândega

Depois da Geórgia, no ano passado, em 2025 o simplesmente… Vinho tem como convidado especial a região espanhola de Marco de Jerez, na Andaluzia. É a 13ª edição do festival que celebra o vinho e os vignerons, e vai acontecer desta sexta a domingo, dias 21 a 23, na Alfândega do Porto.

Jerez, no sul de Espanha, é a região convidada do festival que celebra o vinho e os vignerons. Foto: DR

Será uma oportunidade não só para aprender sobre (e provar) o complexo mundo dos vinhos jerez, “uma lenda milenar, com mais de dois mil anos”, lembra a organização, mas também para descobrir a “revolução em curso” que ali está a acontecer. O mais curioso é que esta revolução numa região vínica no Sul de Espanha teve “uma faísca” vinda de Portugal – o produtor Dirk Niepoort, que em 2008 fez o Navazos Niepoort.

Da região de Jerez, chegam 14 viñadores e bodegas, mas de muitos mais vignerons se faz este festival: serão 100 de Portugal continental e ilhas, e ainda mais alguns vindos de diferentes regiões de Espanha. No sábado, 22, conte-se com provas especiais juntando Portugal e Espanha – Douro e Porto no xisto, Palomino e Jerez na albariza (o calcário da região de Jerez), além da masterclass Jerez – Tradición y Revolución (18h) que conta com Dirk Niepoort e Luis Gutiérrez a comentarem 10 vinhos entre clássicos fortificados e a nova geração jerezana, e da dupla Álvaro e João Roseira que hão-de lançar o Quinta do Infantado Porto Tawny 50 Anos Luís Roseira (às 15h30).

Arte, música e gastronomia fazem parte do simplesmente… Vinho. Foto: DR

Além de provas, haverá dois jantares especiais (um no restaurante Pata Gorda e outro com o chefe Vítor Adão, no sábado, 21) e concertos de música: Porta-Jazz e Samurai Magazine (sexta); quinteto Population:5 (sábado).

A arte também estará presente através de obras do coletivo Gorvell, uma instalação de Karlown e pintura de Maria Cristina Valente. Para aconchegar o estomâgo entre as provas de vinho, conte-se com a cozinha da Forneria São Pedro (Vila Nova de Gaia), Luffa (Porto), Mafalda’s (Matosinhos), padaria artesanal MiBa (Porto), além do restaurante Tua Madre (Évora). Saúde!

Essência do Vinho > Palácio da Bolsa > 20 fev, qui 15h-20h, 21-22 fev, sex-sáb 15h-21h, 23 fev, dom 15h-19h > Bilhete geral: €25/dia, inclui copo de prova; Provas comentadas: grátis, €35 e €50; 24 fev, seg 12h-19h > €30 > essenciadovinho.com > simplesmente … Vinho > Alfândega do Porto > 21-23 fev, sex-sáb 15h-20h, dom 11h-16h > €24 a €30 (bilhete diário, inclui copo e provas), €62 (três dias) > simplesmentevinho.com

Durante os Jogos Olímpicos de 1972, em Munique, os primeiros a serem realizados na Alemanha após a II Guerra Mundial, a equipa olímpica de Israel foi sequestrada por um grupo terrorista, chamado Setembro Negro, que reivindicava a autodeterminação da Palestina.

Essas mesmas olimpíadas estavam também a ser marcadas por uma proeza tecnológica: pela primeira vez, um grande acontecimento desportivo era transmitido em direto para todo o mundo, com recurso a satélites.

O atentado de Munique é um dos mais marcantes episódios da história do conflito israelo-palestiniano, que já fora transposto para o cinema, por Steven Spielberg, em 2004. A mais-valia desta nova abordagem do suíço Tim Fehlbaum é o ponto de vista. Spielberg optara por um plano geral, quase de thriller, Fehlbaum dá-nos a perspetiva dos estúdios transitórios da ABC na cidade. Uma extensa equipa preparada para transmitir para o mundo inteiro um acontecimento desportivo global, mas que teve que se adaptar às novas circunstâncias. Munique tornou-se, assim, a cidade com o primeiro atentado terrorista a ser transmitido em direto para o mundo.

Antes de mais, é um filme sobre jornalismo. Foca, de forma exemplar, a pressão de contar a história, o cuidado com a confirmação da informação, a credibilidade das fontes, os preceitos éticos. Em termos de cobertura jornalística televisiva, serve mesmo de case study, que deve ser mantido como referência apesar da evolução tecnológica ter transformado o mundo da televisão em algo muito menos artesanal.

Os trágicos episódios correm em pano de fundo, submetendo-se à história de quem a quer contar. A criação do ambiente de estúdio, frenético, empolgante, é feita de forma muito bem conseguida, servindo-se também das filmagens originais de 1972 para nos mostrar o exterior.

O argumento é muito bem construído, com personagens fortes, instintivas, dilemas éticos, fricções voláteis. Mas esse argumento, que valeu uma nomeação para os Oscars, sustenta-se também na qualidade da realização e montagem, que sabe colocar o espectador num frenesim permanente.

O Atentado de 5 de Setembro > De Tim Fehlbaum, com Peter Sarsgaard, John Magaro, Ben Chaplin, Leonie Benesch > 95 min

A Microsoft anunciou o Majorana 1, o primeiro chip quântico do mundo com uma arquitetura Topological Core e um novo tipo de material chamado topocondutor. O chip usa o topocondutor para produzir qubits, as unidades elementares da computação quâtica, mais confiáveis e escaláveis. A empresa acredita que esta tecnologia levará, dentro de anos, à criação de computadores quânticos capazes de resolver problemas industriais complexos em poucos anos.

Segundo a informação disponibilizada pela Microsoft, a empresa colocou oito qubits topológicos num chip projetado para escalar para um milhão. O que será necessário para que os computadores quânticos tenham uma aplicação real, como decompor microplásticos ou inventar fármacos. A nova abordagem de medição da Microsoft permite que os qubits sejam controlados digitalmente, simplificando a computação quântica.  

O topocondutor cria um novo estado da matéria, um estado topológico, que permite produzir um qubit mais estável, rápido, pequeno e controlável digitalmente. Um artigo publicado na Nature descreve como os investigadores da Microsoft criaram e mediram as propriedades quânticas do qubit topológico.

Ainda de acordo com a Microsoft, o poder da computação quântica, combinado com ferramentas de IA, permitirá que as pessoas descrevam o que desejam criar e obtenham uma resposta que funcione imediatamente.

Em apenas um mês, desde a tomada de posse a 20 de janeiro, Donald Trump dinamitou a ordem mundial, ditou o fim da era de livre comércio global, fez implodir o que ainda restava do soft-power dos EUA pelos cinco continentes, virou ostensivamente as costas aos aliados tradicionais de Washington, acionou o botão para fazer evaporar a aliança transatlântica e, pelo caminho, ainda teve tempo para iniciar o processo de reabilitação de Vladimir Putin perante a comunidade internacional.

Nos seus primeiros 30 dias no regresso ao poder, Donald Trump conseguiu ainda retirar os EUA do lugar que ocuparam nas últimas décadas e mudar completamente as regras do jogo da política global. Não fez nada disto por impulso ou a reboque de instintos básicos. Tudo o que tem feito obedece a um plano, que pode parecer louco para quem queria acreditar que as promessas feitas na campanha eleitoral eram só um bluff para enganar incautos, mas que tem objetivos bem definidos: proteger os interesses norte-americanos, sem se preocupar com acordos em vigor ou alianças erguidas numa conjuntura que já desapareceu.

Desde o primeiro destes 30 dias, Donald Trump tem demonstrado que vê a União Europeia como um adversário, que precisa de dominar ou, simplesmente, abandonar à sua sorte. E, pela voz do seu vice-presidente J. D. Vance, o novo poder de Washington veio à Europa insurgir-se contra a “excessiva regulamentação” da UE em relação à Inteligência Artificial e, pior do que isso, procurar dar lições de democracia e de liberdade de expressão, como se fossem os donos absolutos da verdade.

E, se dúvidas ainda restassem acerca das suas intenções, o mesmo J. D. Vance fez questão de recusar um encontro com o chanceler alemão, preferindo antes reunir-se, em plena campanha eleitoral, com a líder dos neonazis da AfD, Alice Weidel. O que torna tudo ainda mais claro: depois da anunciada guerra comercial e das ameaças em relação aos mecanismos de defesa, os EUA de Trump estão também a declarar uma guerra ideológica aos princípios fundadores da União Europeia.

Perante tudo isto, custa a compreender como a Europa ainda não conseguiu insurgir-se, de forma clara e inequívoca, contra a ameaça que os EUA de Trump representam. Ao longo destes primeiros 30 dias, a administração norte-americana tem esticado a corda o mais possível, sem se importar com as consequências. E a Europa, como sempre, mesmo apesar das promessas de que vai responder “à altura”, continua a mostrar as suas divisões. E também uma postura permanente de prudência, que cada vez tem menos justificação. Até porque os sinais estão à vista, na atual conjunta internacional: num mundo cada vez mais dominado e entregue aos mais fortes, quem se remeter ao papel de fraco acabará, inevitavelmente, por perder.

É verdade que Donald Trump ainda só está há um mês no poder, mas, se a Europa não souber encontrar agora o tom de voz certo para o enfrentar, já sabe que, nos 47 meses que faltam até ao final do seu mandato, tudo tenderá a ficar pior.

“No fundo, somos todos reles, mas alguns de nós conseguem esconder melhor essa condição”, escreveu José Saramago no Ensaio Sobre a Cegueira. De facto, todos nós, num qualquer momento da vida, com justificação ou sem ela, já fomos reles, ou seja, já todos, por instinto de vingança ou de “cabeça perdida”, proferimos acusações injustas, grosseiras e ofensivas.

Há, no entanto, quem faça do insulto a sua forma de estar na política (ou, quem sabe, até na vida…).

Na Assembleia da República, como temos presenciado de forma repetida, há muitos deputados do Chega que são reles por convicção e não por descuido. Fazem-no por vontade própria, como se o insulto fosse a única arma de combate político que conhecem. E sempre com o mesmo objetivo de tentar arrastar a casa da democracia para o caos e a baixeza moral. Continuar a considerar que a permanente falta de educação ou as acusações reles estão dentro dos limites da liberdade de expressão só tem uma consequência: o enfraquecimento da democracia.

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No inquérito Stresse na América 2024, promovido pela Associação Americana de Psicologia (APA), pouco antes da eleição de Donald Trump, mais de 7 em cada 10 adultos (77%) afirmaram que o futuro do país era a maior fonte de stresse nas suas vidas. A economia foi a segunda referida (73%), seguida pelas eleições presidenciais que se avizinhavam (69%). Muitos especificaram ainda estar preocupados com o facto de o resultado eleitoral poder levar à violência (72%) e mais de metade disse acreditar que ele poderia representar o fim da democracia nos Estados Unidos da América (56%).

Estas percentagens vieram dar novamente razão a Kevin B. Smith, professor de Ciência Política na Universidade do Nebraska-Lincoln, nos EUA, que estuda há décadas a maneira como a política afeta o bem-estar das pessoas. “Há uma quantidade considerável e crescente de provas de que a política está a ter um efeito negativo num vasto leque de resultados em matéria de saúde”, comentou, entrevistado pela Monitor on Psychology, a revista da APA. “Esta conclusão vem de diferentes académicos que usam dados, abordagens e medidas diferentes”, observava, “e todos chegam à mesma conclusão: a política não é muito boa para nós.”

Smith já lá chegara em 2019, ao realizar um estudo sobre os custos da política nas relações com a família e os amigos, na sanidade mental e na saúde. No inquérito que ele e a restante equipa levaram a cabo a nível nacional, cerca de 40% dos adultos responderam acreditar que a sua saúde física fora prejudicada pela exposição à política e um número ainda maior referiu prejuízos emocionais e perda de amizades. Cerca de 20% admitiram ter perdido o sono por causa das notícias políticas.

Note-se que a polarização partidária é um fator determinante neste efeito negativo da política na saúde mental. A mentalidade “nós contra eles”, que vem dos tempos pré-históricos (quando um grupo diferente podia ser sinónimo de luta pelo território), parece estar incrustada no nosso cérebro, podendo comprometer a estabilidade emocional por causa do stresse que provoca.

Os investigadores têm constatado isso mesmo nos EUA, desde que Trump foi eleito pela primeira vez. Num dos estudos, publicado em 2021 na revista Social Science & Medicine, mas com o trabalho de campo feito entre dezembro de 2019 e janeiro de 2020, uma equipa da Universidade de Northeastern, em Boston, concluiu que as pessoas que disseram que o estado onde moravam estava a tornar-se mais polarizado politicamente também tinham uma probabilidade maior de desenvolver ansiedade ou depressão.

Polarizada e crescentemente beligerante, a política americana está a ameaçar a saúde mental dos eleitores – e, naturalmente, a acender sinais de alerta noutros países que também estão cada vez mais “nós contra eles”.

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A amígdala (do grego amygdále, “amêndoa”, pelo latim amygdala) é a parte do cérebro responsável por orquestrar emoções. Para simplificar, costuma-se usar a palavra no singular, embora na realidade sejam duas pequenas estruturas de neurónios (em forma de amêndoa, pois), localizadas no interior dos lobos temporais do cérebro, que estão ativas durante os estados de medo e de ansiedade. É graças a elas que nos apercebemos das ameaças à nossa sobrevivência e ficamos alerta para fugir ou lutar. São, por isso, associadas a comportamentos relacionados com a segurança e a cautela.

Em 2011, foi a partir desse pressuposto que investigadores da University College London, no Reino Unido, decidiram comparar os cérebros de 90 estudantes conservadores e progressistas, através de exames de ressonância magnética. O estudo, então publicado na revista Current Biology e amplamente partilhado um pouco por todo o mundo, demonstrou que os jovens universitários que se diziam conservadores apresentavam um aumento do volume da amígdala direita.

Recentemente, uma equipa de cientistas do Colégio Americano da Grécia, em Atenas, e da Universidade de Amesterdão, nos Países Baixos, quis comprovar essa ideia de que os eleitores têm diferenças identificáveis na anatomia cerebral. Recorrendo a uma amostra dez vezes maior e mais diversificada do que a do estudo original, confirmaram que a ideologia política está relacionada com o tamanho da amígdala – embora, desta vez, com uma ligação mais matizava do que se pensava.

Nesse novo estudo, publicado em outubro de 2024, na revista iScience, os investigadores utilizaram exames preexistentes de 928 indivíduos, com idades compreendidas entre os 19 e os 26 anos, cujos níveis de educação e identidades políticas eram representativos da população holandesa. Descobriram, então, que a relação entre o tamanho da amígdala e o conservadorismo era três vezes mais fraca do que a relatada no estudo original.

Ainda assim, tratou-se de um resultado importante, sublinhou o seu autor principal, que sugere estudos futuros integrando as ligações funcionais entre a amígdala e diferentes partes do cérebro.

“Foi realmente uma surpresa termos replicado a descoberta da amígdala”, disse o investigador em psicologia política e neurociências Diamantis Petropoulos Petalas, em comunicado. “Sinceramente, não estávamos à espera de replicar nenhum destes resultados, mas a amígdala controla a perceção e a compreensão das ameaças e da incerteza do risco, pelo que faz todo o sentido que os indivíduos mais sensíveis a estas questões tenham maiores necessidades de segurança, algo que normalmente se alinha com ideias mais conservadoras na política.”

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Por que razão tememos tanto a ansiedade se ela é um mecanismo natural?
A ansiedade é um mecanismo fisiológico que tem como objetivo final proteger a integridade das pessoas e garantir a sua sobrevivência do ponto de vista físico e psicológico. Falamos de uma integridade, de as pessoas sentirem-se “parte de”, seguras, tranquilas. Quando isto está em causa, os mecanismos são ativados com uma função imediata e também futura, para ajudar a aprender a gerir a ansiedade e a decidir melhor o que fazer. Mas a ansiedade pode ter comprometimentos fisiológicos e cognitivos.

E parece que nunca se viu tanta gente ansiosa. O que mudou?
Houve um aumento muito significativo dos estímulos a que estamos sujeitos. Numa hora, há mais estímulos do que num dia no passado. Em menos de um século, isto cresceu exponencialmente. E cresceu nos estímulos imediatos e nos factos de que temos conhecimento. Há cem anos, sabíamos o que acontecia na nossa freguesia e à volta. Hoje, dá-se um acontecimento insólito na Índia e nós ficamos a saber no momento seguinte.

É natural, uma vez que agora trazemos o mundo no bolso, no telemóvel.
E com isso também aumentou o número de conexões com outras pessoas, virtualmente. Elas são muito importantes para a nossa sensação de pertença e para o nosso bem-estar, mas não são verdadeiramente relações. São meras conexões e, portanto, não são gratificantes como as verdadeiras, o que também gera alguma ansiedade, porque é tudo tão rápido e tão pouco profundo que nem chegamos a perceber o impacto que temos nos outros. As relações são mais automáticas e não são construídas com bases sólidas. Em suma, há um excesso de estímulos ansiogénicos negativos e um défice daquilo que poderia ser ansiolítico, como são as relações próximas que nos dão paz para vivermos melhor.

É esse desequilíbrio que contribui para esta sociedade mais ansiosa?
Há mais um fator: as redes sociais, muito eficazes a disseminar conteúdos curtos que geram perceções longe da realidade. É um fenómeno novo que está a ser intencionalmente usado por pessoas com fins políticos, e nós somos uma sociedade que ainda está a aprender com isto. Na minha perspetiva, temos mais pessoas com medo de coisas que não são tão sérias nem assustadoras como elas as percecionam.

A escolaridade e a literacia têm peso nisso, não?
Têm, claro, sendo que em Portugal elas estão abaixo da média europeia. Mas eu ainda destacaria uma outra questão, que é mais permanente na nossa cultura: a passividade, o “podia ser pior” e aceitar o destino como algo que não se pode mudar. E é todo este caldo cultural, levando em cima com as redes sociais a disseminarem ideias que não são verdadeiras, que está a potenciar a ansiedade.

E é uma ansiedade patológica? Ela deve preocupar-nos?
Não quer dizer que as pessoas estejam com perturbações do seu aparelho ansioso, mas estão a ativá-lo mais e isso tem implicações. As pessoas têm mais medo do que pode vir aí do que o risco efetivo – porque a ansiedade é uma antecipação daquilo que pode correr mal, não é só uma resposta. Na clínica, vemos que, em Portugal, há muitas perturbações mentais. Claro que nem todos os que experienciam a ansiedade ficam doentes, mas existe um maior risco de isso acontecer. Num país onde as narrativas são permanentemente negativas e pessimistas, em que tudo está mal e vai correr mal, as pessoas têm uma perceção distorcida que não permite que usufruam o momento que estão a viver. Esta perceção toma conta das suas vivências, e, por isso, há mais pessoas em risco de virem a desenvolver ansiedade patológica.

Narrativas permanentemente negativas por parte de quem?
Os próprios políticos, nos seus discursos, ao selecionarem alguns temas que são episódicos, como o tema da insegurança ou a relação entre a imigração e a criminalidade (que os números demonstram não existir), estão a contribuir para esta ansiedade generalizada que tem consequências no que as pessoas pensam e no que fazem em relação a outras pessoas. Às vezes, com isto compromete-se o futuro da sociedade.

Já vimos no último Barómetro da Imigração que existe uma perceção errada de insegurança ligada aos naturais do chamado subcontinente indiano.
Fico zangadíssimo com estas coisas, porque se há uma comunidade que é pacífica, que não traz problemas nenhuns para nós, é a indostânica. É mesmo absurdo.

É absurdo, mas sabemos que é um tipo de perceção que vem dos tempos pré-históricos: o grupo diferente era potencialmente inimigo, porque viria tentar roubar território.
Claro que é básico, primitivo. Há vinte séculos, um ser humano contactava com vinte ou trinta pessoas. Essa realidade mudou, mas o nosso cérebro ainda está programado para estarmos apenas com essas vinte ou trinta pessoas. A sociedade evoluiu, toda a gente veio para as cidades (porque se viverá melhor aqui na cidade, temos de deixar de romantizar a vida no campo…), mas o nosso cérebro ainda precisa de tempo para se adaptar. Por isso, precisamos de humanismo, de pensamento, para mediar e controlar as nossas reações fisiológicas.

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