Eu era amigo dele. Ganhei anos de vidas, de experiências, de histórias verdadeiras ou imaginárias em cada dia que passei com ele. Virei noites de fado, de poesias, de conversa, de gargalhadas e de algumas lágrimas. Vi-lhe sol e lua. Vi-o revoltado e apaziguado. Vi como adorava os seus amigos e como lhes era dedicado. Senti e vivi a amizade que me dedicou e que guardarei para sempre como dádiva única.
Isto chegava para lhe estar grato. E sim, sou dos que acham que a amizade é para agradecer, porque não há coisa mais extraordinária do que esse laço de partilha, de dádiva, de aconchego, de cumplicidade que alguém nos dá.
Passei anos a gritar o nome dele por tudo o que é campo de futebol, antes de o conhecer e muito antes de me tornar seu amigo. Gritava porque sabia o que lhe devia, melhor, o que lhe devemos e deveremos para toda a eternidade.
O FC Porto não é um pormenor na minha vida, é uma parte daquilo que sou. Desisti de saber porquê, é o que é (frase que o meu amigo dizia muitas vezes quando falava de uma inevitabilidade). Já não me pergunto porque choro com as suas derrotas e pouco celebro as vitórias por temer que sejam pontuais – talvez porque sou do tempo em que nada ganhávamos –, nem porque me transformo num ser irracional quando a discussão é o mérito das nossas vitórias e muito menos me ponho a raciocinar porque diabo me sinto parte de uma tribo que põe o seu destino numa equipa de futebol.
Sou portista, como sou português, como sou pai, como sou filho, como sou o que sou.
E foi ele que fez do meu clube, de uma das minhas tribos, uma instituição coberta de vitórias, de glórias, de troféus. Ou seja, fez-me e fez-nos grandes e orgulhosos. Não é que o nosso amor fosse menor se não vencêssemos, mas não há nada mais importante do que ver o nosso amor feliz. E nunca ninguém deixou o FC Porto tão feliz, portanto nunca ninguém amou o FC Porto como Jorge Nuno de Lima Pinto da Costa o amou.
O meu primo José Carlos escreveu-me o que eu gostaria de ter dito e escrito: o presidente fez do impossível um hábito. É exatamente isso. O nosso grande líder, o NGL como lhe chamamos (nunca tive a coragem de dizer ao meu amigo que era assim que nos referíamos a ele), fez com que fosse corriqueiro que um clube duma região e duma cidade pobres lutasse contra as mais ricas regiões e cidades do mundo e lhes ganhasse com impressionante regularidade.
Fez um milagre para o país mais centralista e mais macrocéfalo da Europa: o FC Porto ganhar muito mais do que os clubes da capital.
Se o impossível lhe trouxe uma admiração imensa pelo mundo inteiro, o milagre foi um pecado que nunca lhe perdoaram.
Não surpreende que o Real Madrid e o Barcelona estivessem presentes nas suas cerimónias fúnebres e os dois clubes de Lisboa nem uma mensagem de condolências enviassem.
Ter levado o nome do País por esse mundo fora, ter sido o melhor clube da Europa e do mundo mais do que uma vez, ter transformado o futebol português dum negócio de vão de escada na mais vitoriosa indústria nacional só mereceu desprezo. Ser o presidente que no mundo inteiro mais títulos ganhou, ter vencido 25 campeonatos, 15 taças de Portugal, sete competições internacionais, um sem-número de outros troféus no futebol ou ter vencido mais títulos nas chamadas modalidades amadoras do que qualquer outro clube em Portugal só merece um encolher de ombros entre o estúpido e o rancoroso.
O Pinto da Costa era só o chefe dos parolos do Norte, dos marginais que só ganham porque compram os árbitros. Os de lá de cima que são bons e simpáticos quando perdem, quando não chateiam.
Entre dois fados numa casa de Alfama (nunca confundir centralismo com a cidade de Lisboa), o presidente contava-me que Américo de Sá lhe tinha dito para não confrontar os poderes em Lisboa e que ele lhe terá respondido: então como é que quer que o clube que preside ganhe?
O presidente Pinto da Costa conhecia o país onde vivia.
Sabia bem que nunca teria as homenagens nacionais que merecia porque também não duvidada de que para ser amado pelos seus tinha mesmo de ser odiado pelos adversários. É o fado de quem se rebela contra os poderes instituídos, de quem luta contra os que pensam ter um direito divino às vitórias, de quem se ergue contra aqueles que só consideram quem se subjuga. E ele só queria saber dos seus.
Não vale a pena procurar a moral da história porque não a tem. É apenas a crónica sobre um amigo que era um líder inspirado e inspirador. Alguém que tinha defeitos como qualquer homem, mas que se tornou tão grande e com uma obra tão extraordinária que esses defeitos nem no pé de página da história da sua vida merecem estar.
Invoco por uma última vez a minha qualidade de amigo e assim de algum conhecimento sobre o que pensava.
O seu maior amor, desculpem-me os amigos e sobretudo a família, era o FC Porto. Se querem honrar o nome, a memória e o legado do presidente Pinto da Costa, estudem as suas lições e vençam mais do que ele venceu. Nada o faria mais feliz.
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