“A história da produtividade”, dizia o economista norte-americano John W. Kendrick, “mais não é do que a história dos esforços empreendidos pelo homem para se libertar da pobreza.” Talvez tudo tenha começado assim. Mas a palavra produtividade que, em Economia, serve para definir a relação entre o bem produzido e os fatores utilizados na sua produção (recursos naturais, trabalho, capital) tem servido, nas sociedades atuais, fins menos nobres. Como a xenofobia (ou o mito de que os povos do Norte são muito produtivos e os do Sul são uns “preguiçosos”) ou a exploração laboral.
Quando os patrões se queixam de que os seus trabalhadores são pouco produtivos, generalizam a ideia errada de que a produtividade diz respeito apenas ao empenho da mão-de-obra e esquecem-se de um aspeto decisivo pelo qual são responsáveis: a organização do trabalho.
Esta ganha importância com a Revolução Industrial. É dentro da fábrica que surge a necessidade de organizar o trabalho, afastando-o da produção artesanal até aí praticada. O artesão é um criativo que controla todo o processo de produção, desde a matéria-prima até ao acabamento final. Faz uma peça única que exige o seu tempo. Nada disso é admissível dentro das fábricas do século XIX.
Da fábrica Ford (produção em massa) à fábrica Toyota (de acumulação flexível), esta não é a história da indústria automóvel nem apenas um confronto entre o Ocidente e o Oriente trata-se da evolução da organização do trabalho e do papel do homem no meio da engrenagem.
Comparando com o estatuto dos camponeses, ao longo dos tempos e até ao século XVIII, o artesão que produzia as ferramentas com que os camponeses trabalhavam a terra era um privilegiado entre as classes trabalhadoras. Ora trabalhando com a família ora com os aprendizes, em pequenas oficinas domésticas, ele era o mestre, o dono do saber, que tinha por missão transmitir à geração seguinte.
O artesão controlava todas as etapas da produção. Escolhia as matérias-primas, trabalhava-as, e contactava com o cliente.
O seu produto era único no mundo.
Além disso, era o dono das ferramentas e controlava os tempos do trabalho ditava quando se devia parar ou quando era para acelerar. Trabalhava por conta própria, era ele o patrão. De entre os artesãos, nenhum gozava de tanta autoridade e prestígio quanto o metalúrgico e o joalheiro. Na Idade Média, surgem as corporações de ofício, que vieram regulamentar alguns aspetos da produção. Os artesãos de uma mesma profissão agrupam-se num mesmo local (basta olhar para os nomes das ruas da Baixa lisboeta para perceber a distribuição geográfica) e combinam, por exemplo, os preços a praticar, a qualidade dos materiais ou a quantidade de produto a colocar no mercado. Além disso, as corporações davam amparo aos seus membros na velhice e na doença. Eram os primórdios da assistência social.
A partir do século XV, com o mercantilismo, a situação dos artesãos altera-se.
Os comerciantes ascendem socialmente (e economicamente), passando a controlar a primeira e a última fases da produção a compra da matéria-prima e a venda ao cliente. Também se tornam investidores, colocando dinheiro nas oficinas para as expandir e aumentar a produtividade, de forma a maximizar os lucros. O artesão torna-se um assalariado do mercador.
Um operário classificado faz o que se lhe manda e não reclama
FREDERICK TAYLOR
Estes novos capitalistas formam a classe social que irá, em breve, dominar o mundo ocidental: a burguesia. As oficinas já não são o domínio de um só mestre: em cada uma trabalham vários artesãos, sendo cada um responsável por uma etapa da produção, havendo uma divisão do trabalho.
É o sistema da manufatura, que abrirá o caminho para o capitalismo que há de vir.
A administração científica
Param as máquinas na Electro Steel Corporation. É hora de almoço. Um grupo de negociantes vai à fábrica e tenta vender a sua invenção: uma máquina que alimenta os operários de forma automática e enquanto trabalham, evitando aquela paragem tão prejudicial à produtividade.
Testa-se a máquina num trabalhador e o resultado é uma cena hilariante do filme Tempos Modernos, magnífica paródia de Chaplin aos fundamentos do taylorismo, também conhecido como o modelo da administração científica de empresas. Frederick Taylor (1856-1915), um engenheiro mecânico nascido em Filadélfia, EUA, no seio de uma família abastada, foi o grande teórico da disciplina de administração de empresas e dos primeiros a exercerem a profissão de consultor de gestão.
A sua “bíblia”, publicada em 1911, intitula-se Princípios da Administração Científica e tem como ideia base o aumento da produtividade a partir de uma análise científica ao trabalho dos operários. Dito de outra maneira, ele cronometrou os tempos de trabalho e aumentou o ritmo, dando incentivos monetários aos operários que produzissem mais peças. “O indivíduo atinge sua maior prosperidade, isoladamente, quando alcança o mais alto grau de eficiência, isto é, quando diariamente consegue o máximo rendimento”, escreveu.
O resultado é a extrema divisão de tarefas, sendo cada trabalhador responsável por um pequeno setor da produção, num execução absolutamente mecânica e repetitiva, a um ritmo ditado pelas máquinas e capaz de levar uma pessoa à loucura como aconteceu ao protagonista de Tempos Modernos. Este lado desumano do taylorismo está na origem das maiores críticas que se fazem a esta corrente, que retirou poder aos operários entregando-o aos gerentes e advogou um grande controlo disciplinar sobre os trabalhadores. “Se é um operário classificado, deve fazer exatamente o que este homem [o gerente] lhe mandar, de manhã à noite. Quando ele disser para levantar a barra e andar, levante e ande, e quando ele mandar que se sente, sente-se e descanse. Procederá assim durante o dia todo. E, mais ainda, sem reclamações. Um operário classificado faz precisamente o que se lhe manda e não reclama”, defendia.
A fábrica Ford
Diz-se que o taylorismo foi levado à prática, em todo o seu esplendor, dentro da fábrica de Henry Ford (1863-1947). É verdade que a linha de montagem da sua fábrica de automóveis estava desenhada para aumentar ao máximo a produtividade. Poupava, por exemplo, movimentos desnecessários aos operários estes não precisavam de ir buscar as peças; elas vinham até eles numa esteira rolante. Mas Henry Ford não comparava, como Taylor, o operário a um “boi”; o industrial destacou-se por dar as melhores condições da época aos seus trabalhadores, além de os incentivar a “comunicar qualquer ideia que tenha, bem como a tentar a sua realização”.
Os patrões só manuseiam o dinheiro quem paga os salários são os clientes
HENRY FORD
Além disso, o fordismo foi muito mais do que a aplicação prática do taylorismo. Henry Ford elevado a Deus no romance Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, povoado pela expressão “O Ford!” em vez de “O Lord!” foi o criador da produção em massa, algo de que o mundo nunca mais quis abdicar.
Na gigantesca fábrica, Ford controlava tudo, desde a entrada da matéria-prima à saída do produto acabado. Duplicou os salários praticados à época, de forma a que os melhores e mais experientes operários afluíssem para a Ford, poupando tempo e dinheiro em treino e formação. Na linha de montagem, cada trabalhador era responsável por uma ínfima parcela das etapas da produção e não tinha a mínima noção do todo. E embora o trabalho braçal fosse alienante e separado do trabalho intelectual, a fábrica Ford melhorou as condições dos operários, reduzindo a jornada de trabalho de 12 para oito horas por dia.
A sua linha de montagem teve outra virtude democratizou o acesso aos automóveis. Isto porque, ao reduzir o tempo de construção de um carro e os seus custos, Ford conseguiu produzir em massa e vender a preços acessíveis. O seu famoso modelo T custava, em 1915, menos de 500 dólares (o equivalente a seis meses de salário de um operário da sua fábrica).
A fábrica Toyota
No final da II Guerra Mundial, o Japão estava falido e o modelo Ford dominava o mundo industrial. Eiji Toyoda (1913–2013), dono da Toyota, e o engenheiro Taiichi Ohno (1912-1990) visitam a fábrica Ford, em Detroit, e percebem que aquilo não iria funcionar no mercado japonês bem mais pequeno do que o norte-americano.
A eliminação dos desperdícios torna-se, para eles, uma obsessão. Um dos principais problemas que identificam na Ford é o facto de a produção em massa obrigar a ter uma quantidade absurda de automóveis em stock. Mas não só: a fábrica Ford produz a maior parte das peças de que necessita, armazenando-as; a fábrica Toyota irá encomendar a maior parte das peças a fornecedores, que as entregam apenas quando a empresa delas precisa. É o chamado just-in-time: as peças chegam à linha de montagem apenas quando são necessárias e, da mesma forma, o produto final chega ao cliente apenas depois de vendido. O stock é mínimo e os operários podem interromper a produção assim que detetam alguma falha (na fábrica Ford as falhas só são detetadas no final).
Antes de fazer carros, façamos pessoas
EIJI TOYODA
Nesta filosofia que ficou conhecida como o Sistema Toyota de Produção e se espalhou à Europa depois da crise petrolífera dos anos 70, as condições dos trabalhadores sofrem também bastantes alterações. Na Toyota, o trabalho humano foi separado do trabalho das máquinas e os operários são mais qualificados e conhecem todo o processo de produção.
A fábrica funciona por equipas, em que o espírito criativo é incentivado, até como forma de competição entre trabalhadores.
Ainda assim, o trabalho repetitivo não desaparece, mas coexiste com o perfil multifuncional. Não é só a produção que é flexível (ao sabor da procura do mercado); os trabalhadores também o são. Isto faz que sejam necessários muito menos trabalhadores na Toyota do que na Ford. A poupança também se faz na mão-de-obra, provocando desemprego e transferindo recursos da indústria para os serviços.
Foi só mais uma etapa na “terceirização” do mundo. Hoje, 73% dos europeus trabalham no setor terciário. Ainda existem fábricas, é certo, mas são cada vez mais deslocalizadas para outras paragens. Em muitas delas (demasiadas), os operários ainda trabalham como Taylor gostava e não se cansava de dizer: “Um dos primeiros requisitos para um indivíduo que queira carregar lingotes de ferro como ocupação regular é ser tão estúpido e fleumático que mais se assemelhe, na sua constituição mental, a um boi.”
Artigo publicado originalmente na VISÃO História n° 34



