Em 2019, o papa Francisco questionava diretamente os católicos sobre qual seria o foco da sua adoração, na audiência semanal, na Praça de São Pedro. Questionou aqueles que viviam uma “ideologia seletiva” e “intransigente”, propondo-lhes que a rejeitassem, dado o seu potencial divisionismo, propondo-lhes antes a vivência duma pertença “universal”.
Francisco baseou-se então na biografia de Saulo de Tarso, o mais terrível perseguidor dos discípulos do Cristo, e mais tarde Paulo, o grande apóstolo dos gentios, após a epifania experimentada na estrada de Damasco. Até aí o jovem Saulo surgiu como intransigente, intolerante para com quem pensava de forma diferente, absolutizando a sua própria identidade política ou religiosa, e reduzindo o outro a um potencial inimigo a combater.
Ora, este é o retrato de uma fé transformada em “ideologia religiosa, ideologia social, ideologia política”. E questionou aqueles milhares de peregrinos que o ouviam: “Como é a minha vida religiosa? A fé em Deus, que professo, torna-me amigável ou, pelo contrário, hostil a quem é diferente de mim?” O pontífice concluiu defendendo que, como São Paulo, é preciso aprender que “não se devem combater as pessoas, mas o mal que inspira as suas ações”.
Afinal, como é que os cristãos vivem a sua fé? Estão dispostos a ir ao encontro dos outros, os tais que pensam de modo diferente, ou pelo contrário, estão contra os outros? Pertencem à Igreja universal ou estão centrados numa ideologia seletiva? E o papa terminava a sua reflexão com uma pergunta profundamente pertinente: “Adoro Deus ou adoro as formulações dogmáticas?”
O alerta era que aqueles que preferem a ideologia à fé acabam por se afastar tanto da comunidade humana como da comunidade de fé, o que é dramático, pois ficam enquistados, autolimitados, fechados em si mesmos, com medo de crescer devido ao facto de estarem agarrados “às suas convicções, às suas primeiras convicções, às suas próprias ideologias”.
Mas a grande questão é que este alerta serve para todos os cristãos, tanto de tradição católica, ortodoxa, protestante, evangélica ou qualquer outra. Não é muito difícil que alguma insegurança ou falta de conhecimento se transformem em radicalismos e fanatismos, que depois acabam por ser potenciados pelas estruturas religiosas num reflexo de defesa e preservação do poder.
De resto, tal postura não passa duma contradição nos seus termos. Afinal como é que os cristãos podem ser “sal da terra” e “luz do mundo”, como o seu mestre preconizava se não estiverem dispostos a estar no mundo e a ouvi-lo?
Se não conseguirem que a sua luz brilhe, sabendo que a luz não se impõe à força, simplesmente aparece? Se não forem capazes de cumprir a função do sal, evitando pelo seu exemplo e testemunho que a sociedade se corrompa completamente?
Uma pessoa é sempre mais importante do que uma doutrina. Salvar uma vida é sempre mais urgente do que salvar uma tradição religiosa. Dar pão a um pobre é sempre mais relevante do que cumprir um rito religioso.
Quando a generalidade dos cristãos entender isto o testemunho da Igreja no mundo mudará radicalmente, e nessa altura farão toda a diferença.
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