Os portugueses vivem, em média, mais de cinco anos menos do que as portuguesas. Parte desta diferença não se explica apenas pela biologia: também conta a consulta adiada, o sintoma desvalorizado e uma prevenção que nem sempre consegue chegar a quem mais precisa.
Pedro Joel, CEO da Float Health
“Não é nada.” Esta é uma expressão muito utilizada pelos homens, seja perante uma dor que dura há meses, um cansaço que não passa ou as idas noturnas à casa de banho, que atribuem à idade. Às vezes, não é mesmo nada de grave. Outras vezes, há um problema de saúde que merecia atenção mais cedo. E essa diferença pode traduzir-se em tempo perdido.
Desvalorizar os sinais do corpo pode parecer inofensivo, mas os números mostram o contrário. Segundo as Tábuas de Mortalidade do INE divulgadas em maio deste ano, a esperança de vida à nascença em Portugal, no triénio 2023-2025, é de 78,99 anos para os homens e de 84,21 para as mulheres. São mais de cinco anos de diferença. Nem toda esta distância pode ser eliminada, porque existem fatores biológicos que influenciam a longevidade. Mas o fosso não é imutável: na última década, a esperança de vida dos homens aumentou 1,56 anos, contra 0,98 anos no caso das mulheres. Uma evolução que mostra que há margem para reduzir esta diferença.
A diferença entre homens e mulheres é particularmente evidente nas mortes prematuras que poderiam ser evitadas. O Eurostat distingue as mortes que poderiam ser evitadas através de cuidados de saúde atempados e eficazes daquelas que poderiam ser prevenidas, reduzindo os fatores de risco. Em Portugal, em 2023, as primeiras foram 1,4 vezes mais frequentes nos homens do que nas mulheres. Nas segundas, a diferença foi ainda maior: 3,5 vezes. Por detrás destes números estão fatores que, em muitos casos, podem ser modificados: o consumo de tabaco e álcool, os comportamentos de risco na estrada e, também, a tendência para desconsiderar sintomas e adiar consultas. Porque, por vezes, o problema não é a falta de resposta dos serviços de saúde, mas o tempo que passa até se procurar ajuda.
No Inquérito Europeu de Saúde de 2019, apenas 70,4% dos homens tinham ido ao médico de família no ano anterior, contra 79,7% das mulheres. Também verificavam menos vezes a tensão arterial, o colesterol e a glicemia, indicadores que permitem identificar fatores de risco e detetar problemas de saúde antes de estes se agravarem. O cancro da próstata é um exemplo particularmente relevante, uma vez que é o cancro mais frequente entre os homens portugueses, com cerca de 7700 novos casos estimados em 2024 pela Agência Internacional de Investigação do Cancro. Apesar da expressão deste problema, Portugal continua sem um programa de rastreio organizado para o cancro da próstata, ao contrário do que acontece com os da mama, do colo do útero e do cólon e reto. Está previsto um projeto-piloto para 2027, em três regiões. É um passo importante, mas importa que os resultados permitam avaliar o alargamento da iniciativa e que a prevenção da saúde masculina não fique limitada a projetos-piloto.
Na saúde mental, o silêncio pesa ainda mais. Os homens relatam menos sintomas depressivos do que as mulheres, mas o suicídio é, em Portugal, um problema sobretudo masculino. Em 2024, segundo o INE, a taxa foi de 14,2 por 100 mil homens e de 4,3 por 100 mil mulheres, mais de três vezes superior. Em 2023, oito em cada dez suicídios registados no País foram de homens. Os homens não sofrem menos. Dizem menos que sofrem e pedem menos ajuda.
É fácil atribuir esta diferença ao feitio, como se viver menos fosse uma consequência inevitável de ser homem. Mas há também uma questão de oportunidades. Ao longo da vida, as mulheres têm contactos regulares com os serviços de saúde, associados à contraceção, à gravidez e aos rastreios. Para muitos homens, entre o fim da adolescência e o aparecimento de um problema de saúde, esses contactos são escassos. Se o sistema de saúde espera que sejam eles a tomar a iniciativa de procurar ajuda, corre o risco de chegar tarde demais.
Novembro, mês do Movember, a campanha internacional dedicada à saúde masculina, é uma oportunidade para ir além da sensibilização e pensar em respostas concretas. Podemos reforçar a prevenção nos cuidados de saúde primários, com uma abordagem mais proativa junto dos homens que menos recorrem aos serviços, mas também levar a informação até eles: às empresas, aos clubes desportivos e às associações locais. Horários mais flexíveis e formas simples de acesso às consultas podem ajudar a eliminar barreiras práticas. E é fundamental falar de saúde mental sem estigma, para que pedir ajuda deixe de ser visto como um sinal de fraqueza.
Os homens portugueses não deviam estar condenados a viver menos cinco anos. Reduzir esta diferença exige mais do que campanhas anuais: exige prevenção ao longo da vida, serviços capazes de chegar a quem mais precisa e uma cultura em que cuidar da saúde não seja sinal de vulnerabilidade. Não devia ser necessário adoecer para perceber que está na altura de cuidar de si.
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