Desde 2018 que assino uma coluna semanal na edição eletrónica da VISÃO, quase sempre na abordagem a temáticas relacionadas com teologia ou ciência das religiões. Mas muitas vezes também na área de psicologia, que faz parte da minha formação académica e, mais raramente, escrevo sobre política.
Tenho-o feito na intenção de ajudar a suprir a imensa lacuna sobre literacia religiosa que subsiste na nossa imprensa generalista, onde se contam pelos dedos duma só mão os textos sobre a matéria, dentre os quais os excelentes escritos dos católicos frei Bento Domingues, no Público, e padre Anselmo Borges, no DN.
Geralmente, a comunicação social só dá atenção ao segmento religioso quando há escândalos, bizarrias ou posições políticas, especialmente quando são questionáveis, ou quando se detetam influências de setores religiosos nos partidos políticos.
Fala-se de política, saúde, desporto, arte e cultura, alimentação, ambiente, economia, finanças, educação, humor, relações internacionais, energia, transportes, lazer, agricultura, pescas e tutti quanti, mas de religião só quando o Vaticano mexe ou quando há um atentado terrorista perpetrado por um qualquer fundamentalista islâmico. E, no entanto, o nosso mundo está a ser abalado por motivações e práticas políticas, sociais e económicas decorrentes de opções religiosas. Basta olhar com atenção para o Médio Oriente, a Ásia ou as Américas.
Por outro lado, Portugal é um país cada vez menos católico e vai-se transformando numa paleta religiosa, como atestam os estudos académicos mais recentes. Por isso não se compreende que muitos dos nossos poderes públicos nem sequer façam um pequeno esforço para agir como estando num país que consagrou claramente na sua constituição e nas leis ordinárias o princípio da liberdade religiosa. Muitos nem devem saber que existe em Portugal uma lei da liberdade religiosa desde 2001, ou que, na sua sequência está em funções uma Comissão da Liberdade Religiosa, que tem sido dirigida nos últimos anos por Vera Jardim.
Este alheamento cultural e político é que permite às autoridades fecharem os olhos a abusadores que exploram as pessoas em nome da religião. Se os governantes em regra desconhecem a realidade religiosa portuguesa, por outro lado receiam ferir o princípio da liberdade religiosa. Ora, essa circunstância acaba por dar origem a grupos religiosos de alto controlo e a vigaristas que em nome da fé exploram os incautos, passando por cima da lei, da decência e dos direitos humanos. Muito embora isto não seja nada de novo que não tenha já ocorrido noutras paragens, não significa que seja admissível.
A dificuldade com o fenómeno religioso vê-se constantemente até na comunicação social, quando há jornalistas que não sabem a diferença entre os conceitos de missa e culto religioso, entre o que são rezas e orações a Deus ou entre os títulos de padre e pastor. Ainda recentemente, um jornalista renomado, referindo-se a infiltrações religiosas no partido Chega, as relacionava num canal televisivo com a “igreja evangélica”. Erro crasso. Não há uma igreja evangélica mas sim uma pluralidade imensa delas, e nem as igrejas evangélicas têm um papa ou estão organizadas em pirâmide como a católica, por exemplo. Mesmo as Alianças Evangélicas em todo o mundo são organizações de comunhão e serviço que não interferem no governo das igrejas que as integram.
Há, portanto, um longo caminho a trilhar no sentido de que o grande público saiba alguma coisa sobre a diversidade religiosa em Portugal e no mundo. Por isso, creio que os jornalistas da VISÃO, além do serviço que prestam ao País, ainda o complementam com um excelente contributo cívico e cultural ao manter nas suas páginas um espaço dedicado a dar a conhecer aos seus leitores a realidade religiosa.
Até porque, como dizia Hans Kung: “Não haverá convivência humana sem um ethos mundial das nações; não haverá paz entre as nações sem a paz entre as religiões; não haverá paz entre as religiões sem o diálogo entre as religiões.”
Por tudo isso e muito mais, os profissionais que fazem a VISÃO merecem todo o carinho e apoio que estão a receber do público. No fundo, ao tomarem nas suas mãos o destino da newsmagazine VISÃO estão a replicar a experiência do pai, o velho semanário O Jornal, que era feito por profissionais da velha e excelente escola do jornalismo português, ao qual sucedeu em 1993, com Cáceres Monteiro à frente do projeto. Longa vida à VISÃO.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.