Enquanto esperávamos pela Assembleia Popular, no Rossio, perguntei a uma amiga como iria ser chamado este período histórico. “A crise das acampadas”? Desde a crónica da semana passada, ainda em torno da primeira carga policial na Praça D. João I, Portugal já tremeu imenso. A polícia e o Governo assumiram plenamente táticas de violência e repressão inéditas em Portugal contra manifestações pacíficas. Os relatos de manifestantes no Rossio falavam de bastonadas, cães, cercos e perseguições de moto por longa distância. Ações deliberadas que apanharam os “acampados” de surpresa, numa noite que terminou com muitos entre o hospital e a esquadra.
Se sábado foi um dia negro, seguido de mais um dia de protestos no domingo, a segunda-feira amanheceu com notícias globais de esperança. Numa vitória absolutamente histórica, Lula conseguiu deixar para trás o desaire do primeiro turno e, em duas semanas, impôs uma “virada” fenomenal, contra as elites, contra as táticas de supressão de votos, contra influências da Meta e contra todo um movimento tecnofascista global desejoso de o derrubar e colocar no poder a dinastia Bolsonaro. A equipa de Lula provou que é possível derrotar as forças antidemocráticas com organização, união, empenho e convicção.
Mas ocorreu um outro terramoto eleitoral no domingo à noite que apanhou todos de surpresa. Num curto espaço de tempo, a Sérvia tornou-se um caso de estudo mundial. As ruas de Belgrado irromperam no domingo em celebrações com a vitória do movimento estudantil nas eleições legislativas antecipadas, que derrotou o candidato populista pró-russo Aleksandar Vucic. Anos de governação corrupta, repressão brutal e falta de liberdade de expressão levaram a uma mobilização nacional constante e que nunca cedeu terreno. Em 2024, a contestação na Sérvia intensificou-se com um projeto de exploração de lítio da Rio Tinto, mas o momento decisivo foi o desabamento da cobertura da Estação de Novi Sad, em novembro desse ano, que causou 16 mortos. Um dos rostos que emergiram dessa tragédia foi a mãe de uma das vítimas, Dijana Hrka, que nunca deixou de lutar pela responsabilização judicial dos responsáveis pelo desabamento e se juntou, solidária, à causa dos estudantes em protesto. A sua história deu um rosto humano à dimensão da tragédia e às denúncias.
Na sequência das agressões e da repressão brutal, as manifestações começaram a tomar uma forma organizada e alastraram-se por todo o país. Em resumo, e porque deixo de lado muitos detalhes relevantes, a Sérvia convocou eleições antecipadas e o movimento estudantil concorreu com o cardiologista Ilija Srdanovic como cabeça de lista. Num inacreditável volte-face, a lista de estudantes (mas também de académicos e especialistas) acabou por ganhar a maioria absoluta. A Sérvia tem muitas razões para celebrar, mas o verdadeiro desafio político será provar que uma organização colaborativa e horizontal consegue assumir o poder e construir uma nova estrutura democrática, livre da influência russa e dos oligarcas. Não vai faltar interesse em acompanhar o caso da Sérvia nos próximos tempos. É a demonstração de que movimentos populares bem organizados podem fazer a diferença.
E não é só a Sérvia. Na altura em que escrevo esta crónica, ainda não sei qual será o resultado das eleições em Israel, a 27 de outubro, onde também ocorrem enormes manifestações contra o governo de Netanyahu. Chegará finalmente ao fim o seu poder? Terá Israel condições para eleger e formar um governo não extremista e que não apele aos piores fundamentalismos, pondo fim aos crimes contra o povo palestiniano, mas também aos bombardeamentos no Líbano e na região? E já a 3 de novembro saberemos se as eleições intercalares americanas serão dominadas pelos democratas ou se Trump irá pôr em causa a legitimidade do processo democrático. Entre os novos protestos e movimentos que nascem por toda a parte e a resistência das velhas elites, importa não deixar o vazio tomar lugar.
Quanto a nós, talvez ainda não seja possível saber como vamos chamar a este período histórico em Portugal, mas o seu nome também depende de quem se recusar a ser apenas testemunha. Vem-me à cabeça a estrofe de José Mário Branco: “Sobre as águas calmas um vulcão de fogo / Toda a terra treme nas vozes deste povo / Mesmo no silêncio sabemos cantar / Povo por extenso é unidade popular.”
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