Comparar Boris Johnson a Donald Trump é uma asneira grossa. Grosseira. São completamente diferentes, quase o polo oposto, na personalidade, na formação, na experiência e nas posições políticas. Na terça feira a Grã-Bretanha começa a vacinar os seus cidadãos – é o primeiro país – e isso deve-se à tenacidade, empenho e absoluta concentração num objetivo, o que carateriza o modo de funcionamento do primeiro ministro britânico. Teve Covid, esteve mais para lá do que para cá, e isso deu-lhe a força e a lucidez para perceber que o seu objetivo, e do Governo, era não perder tempo quando tivesse as vacinas. Boris, como PM, chamou a si a liderança do combate à pandemia, usando tudo o que estava ao seu alcance para ser dos primeiros. E foi. Se ainda pertencesse à União Europeia, estaria na fila dos aflitos, que lá para Janeiro vão receber umas doses.
É uma vitória muito pessoal, e isso já está a ser reconhecido pelos britânicos. Nem Trump, com a sua permanente pressão, conseguiu ainda a autorização da FDA, que só acontecerá esta semana. Embora seja demasiado frequente tentar misturá-los na mesma panela, nada disso está próximo de qualquer realidade, nem mesmo virtual.
Trump andou num colégio militar e graduou-se depois em economia. Não foi propriamente o mais brilhante dos alunos, e o mais calmo. Boris, pelo contrário, iniciou os seus estudos em Eton, a escola mais elitista da Grã-Bretanha, por onde passaram reis, príncipes e primeiros-ministros. Fica ao lado de Windsor. Depois foi para Oxford, onde se notabilizou nas suas capacidades em Estudos Clássicos. Escreve poemas em grego, tem um fascínio por todo o tipo de atividades culturais, foi jornalista muitos anos, publicou livros, o mais importante dos quais, até agora, foi «O Factor Churchill», e é-lhe atribuído um QI acima da média. Enquanto Trump fazia e desfazia, e voltava a fazer o seu império, Boris interessou-se logo por política, e sempre disse a todos, a começar pela família, que seria primeiro-ministro. Foi Mayor de Londres, com grande sucesso – particularmente por ter conseguido fazer, em tempo útil e sem falhas, os Jogos Olímpicos – e só saiu para voltar ao Parlamento, já com o objetivo de chegar ao nº10.
Cedo percebeu que a Grã-Bretanha não podia alienar o fundamental da sua soberania a Bruxelas, e a menos que existisse um acordo muito especial, e único, entre Londres e a União – que Cameron não conseguiu – o melhor era sair. Ganhou essa batalha, e deixou que Theresa May se espalhasse. Ele foi o primeiro a deixar a pasta dos Negócios Estrangeiros. Por fim, como sempre quis, chegou a primeiro ministro da Grã Bretranha. Começou aos abanões, sem uma linha clara, mas fechou o Brexit. Apanhou com a pandemia, literalmente, e aí deu o melhor de si, como já tinha feito como mayor. Agora, de novo, um sucesso difícil de esquecer. Ser o primeiro país a iniciar a vacinação em massa, coloca Boris na escassa lista dos que têm o tal «factor Churchill», o que jamais aconteceu, ou aconteceria, com Donald Trump. E há, finalmente, uma diferença essencial: um usa laca para segurar o cabelo, e o outro nem sequer se penteia. Têm, apesar de tudo, algo em comum: ambos nasceram em Nova York, e inventam umas coisas. Coisitas.