Em situações de conflito armado, a noção de tempo festivo dilui-se de tal maneira que deixa simplesmente de existir.
O Natal deixa de ter qualquer relevância para ser apenas mais um dia de sobrevivência. Para as crianças que vivem em campos de refugiados, em aldeias sitiadas ou em zonas controladas por grupos armados, o Natal pura e simplesmente não existe. Não há celebrações e a preocupação central é o acesso a algo que lhes mate a fome e a água potável. O objetivo é o mesmo de todos os outros dias: sobreviver.
Para milhares de crianças que vivem em zonas de conflito armado, esta época é apenas, a continuidade do quotidiano, recheado de processos sistemáticos de vitimação, desproteção deslocamento forçado e negação sistemática de direitos.
O Natal, que para todos nós se encontra associado à infância, assume uma dimensão profundamente paradoxal quando olhado a partir de contextos de guerra.
Esta época pode até ter um efeito perverso, funcionando como um amplificador de perdas, desde familiares mortos até comunidades destruídas passando por um sentimento profundo de abandono e insegurança.
Muito embora apenas nos concentremos nos conflitos mediáticos da Ucrânia e da Faixa de Gaza, os conflitos armados em países como a República Democrática do Congo, o Sudão do Sul, a República Centro-Africana ou as regiões do Sahel persistem e perduram no tempo, representando o que de pior existe na (des)humanidade. A violência ali tornou-se estrutural, normalizando a morte, o deslocamento e a privação infantil
Sabemos dos estudos de migração forçada que os conflitos armados são um dos principais motores do deslocamento infantil. Milhares de crianças africanas atravessam fronteiras sozinhas ou separadas das suas famílias, transformando-se em menores migrantes não acompanhados, alvos fáceis para gente e redes sem escrúpulos.
Até mim chegam relatos de meninos e meninas para quem a palavra Natal simplesmente não existe.
Na República Centro Africana ou no Sudão, o dia de Natal começa com a procura de alimento ou água em poços improvisados onde a única água disponível é turva e esconde outras ameaças.
Vistas ao longe parecem formiguinhas carregando baldes de plástico maiores que os seus braços.
Não há luzes de Natal para elas.
Alguns mais velhos mas ainda crianças carregam armas. São os “meninos-soldado”.
Ironicamente, nestas paragens, o Natal coincide com o aumento do recrutamento forçado. Todos sabem que resistir tem um preço, para si e para os seus.
Não há presépio, não há presentes. Há medo.
Pequenos raios de luz em centros improvisados, a maioria ligados a congregações religiosas, onde crianças repetem canções religiosas, são as ténues visões de algum Natal.
As refeições que se distribuem são frugais mas são as mais especiais do ano.
Quando olhamos para estas realidades falamos muitas vezes de resiliência. Mas, observando de perto, percebe-se que aquilo que chamamos de resiliência é a adaptação forçada à violência.
Estas crianças não pedem caridade.
Pedem aquilo que o direito internacional já lhes reconhece: proteção, dignidade e futuro. O facto de o mundo continuar a passar o Natal sem as ver é, em si mesmo, uma forma silenciosa de violência.
NOTA: Este artigo foi feito com a colaboração de dados e contactos com a organização AJUDA À IGREJA QUE SOFRE
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.