Imagine que, num piscar de olhos, a vida transforma-se e o amor leva-o a dedicar os dias, as noites, a carreira profissional – parte da sua existência – a cuidar de um familiar que ama. Imagine e nada será como antes.
Em Portugal, os cuidados informais ganharam visibilidade com a aprovação do Estatuto do Cuidador Informal. Mas bastarão cinco minutos junto de um cuidador, muitas vezes, só e em casa, para concluir que, entre o reconhecimento formal e a transposição prática dos direitos e apoios, existe um abismo onde persiste desigualdade.
Milhares de pessoas são cuidadores informais. Mais preocupante, sabemos que esse número continuará a crescer, impulsionado pelo aumento da longevidade e pela carga, igualmente crescente, das doenças crónicas coligada a novas dinâmicas familiares.
Imagine que é consigo. Que o problema bate à sua porta e, quando dá por isso, cuida de um familiar doente e dependente.
Os estudos mais recentes revelam que a maioria das pessoas que cuida são mulheres (esposas ou filhas) com idades entre os 50-60 anos. É, por isso, curioso que se fale em “cuidadores” e não cuidadoras; mulheres, em idade ativa, mas que se aproximam dos 65 anos e, como tal, cuidadoras quase idosas. Sim, porque o adjetivo “cuidadora” está, sempre, em primeiro lugar.
Imagine que é consigo.
Imagine que a sua vida é interrompida e, durante anos, é obrigado a reduzir ou abandonar o trabalho remunerado, ocupando esse mesmo tempo, agora, a dar banho, alimentar, pentear, lavar os dentes, assoar, proteger e supervisionar, várias vezes ao longo do dia e da noite. E que preparação teve?
É incomparável, mas note-se que, a cada gravidez, o Serviço Nacional de Saúde propõe aulas de preparação para o parto com especialistas em Enfermagem de Saúde Materna e Obstétrica (e bem). Mas intriga-me pensar que não existe este registo, tão frequentemente, quando falamos de cuidadores informais que precisam cuidar de adultos com personalidade, preferências e limitações. É curioso, quase que parece que o cuidar informal é natural e inato.
Imagine que é consigo.
O rendimento diminui, os custos aumentam, sente-se exausto física e mentalmente, com conflitos familiares, num trabalho não remunerado sem descanso que, por amor, nem pode nem quer abandonar. E as medidas, concretas, de flexibilidade laboral? E de (in)formação gratuita? E o direito à substituição temporária? E à saúde? E à proteção social?
Imagino que é comigo e reconheço a inadequação e insuficiência das respostas. É urgente apoiar quem de forma invisível e silenciosa suporta o Serviço Nacional de Saúde.
Demos um passo importante ao reconhecer formalmente quem cuida, mas falta converter esse reconhecimento em medidas personalizadas, continuadas e acessíveis. Sem isso, arriscamo-nos ao colapso do serviço nacional de saúde.
Imagine que é consigo. E depois imagine que está num país onde quem presta cuidados informais tem, efetivamente, o apoio de que necessita.
Imagine, porque, por enquanto, não está em Portugal.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.