A saúde mundial está num ponto de viragem. O que antes eram sinais dispersos – surtos epidémicos, degradação ambiental, desigualdades persistentes no acesso a cuidados médicos – convergem hoje num diagnóstico claro: o sistema global de saúde precisa de ser mais justo, mais preparado e mais colaborativo. Essa foi a mensagem dominante na última Assembleia Mundial da Saúde, onde a Organização Mundial da Saúde (OMS) apresentou uma nova agenda para a próxima década.
Entre os compromissos assumidos pelos Estados-Membros destaca-se o Acordo Pandémico Global, um instrumento inédito que procura garantir uma resposta equitativa e eficaz a futuras pandemias, promovendo a partilha de conhecimento, recursos e responsabilidades. Esta iniciativa reforça a ideia de que a saúde pública não é apenas um problema técnico ou clínico. É, sobretudo, uma questão de governação, solidariedade e ciência.
É neste ponto que o papel das universidades e centros de investigação se torna evidente. Não existem sistemas de saúde resilientes sem sistemas de conhecimento robustos. E não há respostas globais eficazes sem colaboração científica local. A saúde de amanhã será tanto ou mais sólida quanto mais investirmos hoje em formação qualificada, investigação aplicada e pensamento multidisciplinar.
Como sabemos, Portugal enfrenta desafios próprios – demográficos, ambientais, económicos – que se cruzam com os grandes problemas mundiais. O envelhecimento populacional, a prevalência de doenças crónicas, a vulnerabilidade social e a pressão sobre os serviços públicos exigem respostas informadas, integradas e sustentáveis. A ciência pode – e deve – estar no centro destas respostas.
Mas esta ciência não pode ser feita à distância dos contextos que pretende transformar. Esta ciência faz-se no território, com as comunidades, nas escolas, nos centros de saúde, nas residências sénior e nas ruas das nossas cidades. É através de living labs, parcerias com autarquias, unidades de saúde familiar ou organizações da sociedade civil que a investigação ganha relevância social e impacto real.
O relatório apresentado pelo Diretor-Geral da OMS identifica áreas prioritárias que devem orientar a ação coletiva: reforçar a atenção primária, melhorar a preparação para emergências, combater a desinformação, investir na saúde mental e proteger as populações mais frágeis. Em todas elas, o contributo da investigação e do ensino superior é fundamental – pela produção de dados, pelo desenvolvimento de soluções tecnológicas e pelo pensamento crítico que alimenta políticas públicas mais eficazes.
Formar profissionais capazes de compreender a complexidade das crises de saúde do século XXI implica ultrapassar os silos disciplinares. Implica aproximar ciência e sociedade, teoria e prática, laboratório e território. E implica investir em investigação com impacto real – com rigor metodológico, mas também com sentido de urgência.
E cada estudante que formamos com pensamento crítico, espírito ético e visão integrada da saúde representa um investimento no futuro coletivo. São esses profissionais – hoje nas salas de aula – que amanhã estarão na linha da frente na resposta às grandes crises sanitárias e sociais.
O Acordo Pandémico, por exemplo, pressupõe sistemas de vigilância epidemiológica com dados de qualidade, infraestruturas laboratoriais robustas, redes de partilha científica e mecanismos de acesso equitativo a tecnologias e vacinas. Tudo isso depende da capacidade instalada nos países e, em grande parte, do investimento que fazem nas suas instituições de ensino e investigação.
Investir na saúde global começa, assim, por investir na ciência nacional – com investigação aplicada, formação multidisciplinar e aproximação entre conhecimento e território. Mais do que preparar respostas para crises futuras, trata-se de construir um ecossistema de saúde mais inclusivo, preventivo e resiliente.
Trata-se, também, de mudar de perspetiva. A saúde não pode ser tratada como um setor isolado, mas como parte de um sistema interdependente que liga ambiente, economia, educação, urbanismo e cultura. Neste enquadramento, o conceito One Health, que reconhece a interligação entre a saúde humana, animal e ambiental, é cada vez mais relevante.
E as universidades, pela sua natureza transversal e pela missão de serviço público, estão numa posição privilegiada para liderar essa mudança. Na Egas Moniz School of Health & Science, essa visão já está a ser materializada através de programas interdisciplinares, projetos de investigação aplicada e parcerias com entidades locais e internacionais.
O novo ciclo da política global de saúde é um claro apelo à corresponsabilidade. A OMS já delineou o caminho. Cabe agora aos países – e às suas instituições científicas – torná-lo viável. Em Portugal, esse compromisso passa por uma aposta estratégica no conhecimento. Porque, no final do dia, proteger a saúde do mundo é garantir que a ciência local tem voz, meios e impacto real.
* A Egas Moniz School of Health and Science é uma instituição de ensino superior com sede e campus na Caparica (Almada) e unidade especializada em Sesimbra.
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