Pelo 15º ano, a celebração das Luzes da Hanuka não teve medo do frio de dezembro e marcou presença no topo do Parque Eduardo VII, em Lisboa. Há vários anos que marco presença nesta celebração pública, cheia de simbolismo e de sentido de comunidade.
Com a festa do Natal Cristão em pano de fundo, no lado sul do mesmo parque, imagem de que o diálogo não é difícil, a cerimónia pública teve este ano um sentido especial: poucos dias antes teve lugar o terrível atentado terrorista, antissemita, na Austrália.
De facto, e não seria necessário recordar os quinze mortos dessa trágica tragédia, o antissemitismo grassa um pouco por toda a parte, fazendo ressurgirem narrativas que alimentaram as mais bárbaras perseguições de que há memória.
Todos os relatórios internacionais mostram um duplicar, ou mais, de atentados antissemitas na Europa nos últimos anos, num crescendo que há muito ultrapassou os limites do simples irrelevante: a Europa atravessa uma onda de antissemitismo onde à mais comum e tradicional veia neonazi de certa extrema-direita, se juntou mais recentemente a radicalização da extrema-esquerda, alimentada por uma incapacidade dos seus membros perceberem que uma coisa é a luta política contra as posições de um governo, outra são as acusações já do campo do racismo, generalizando uma política a um povo, a uma identidade, a uma religião.
Mas na noite desta quinta-feira, os principais intervenientes foram capazes de pegar na essência da festa judaica e trazer para a partilha com todos os que lá se encontravam uma mensagem positiva, liberta de ódio e rancor, valorizando a paz e o diálogo, reforçando a ideia de Lisboa e de Portugal como pátrias de Liberdade. Assim foi o discurso do presidente da comunidade judaica, David Botelho, reforçado pelas intervenções de cariz mais religioso dos Rabis Eli Rosenfeld e Aharon Eitan.
O poder público, político, fez questão de marcar presença, e fê-lo também com uma inteligência, uma acuidade e sensibilidade notáveis. Carlos Moedas, que chegou no final da cerimónia, fez-se representar pelo vereador Diogo Moura, que leu o seu discurso, uma peça notável de reconhecimento pela liberdade e pelo lugar da comunidade judaica na história da cidade. Por fim, o ministro Leitão Amaro, em aparente improviso, mas com uma muito boa preparação, recorrendo a dados e a factos, reforçou o valor da diversidade, afirmando a natureza de Portugal como realidade de acolhimento e de liberdade para que cada um possa viver a sua fé.
Em síntese, recebendo a luz que esta festa simboliza, falou-se de vida e de amor. Falou-se da liberdade e do respeito por todos os que desejam praticar publicamente a sua fé. Foi uma noite magnífica que a todos encheu de inspiração para nos focarmos no essencial e deixar o ódio no seu lugar.
Historicamente, para além do valor simbólico da luz como oposição às trevas, esta festividade tem origem num evento histórico relatado no livro de Macabeus (texto deuterocanónico que surge na Septuaginta): durante a ocupação da dinastia Selêucida, Antíoco IV ordenou, no ano 167 a.e.c., a construção de um altar para Zeus no Templo de Jerusalém, profanando a sacralidade do espaço.
Após uma longa revolta, as tropas lideradas por Judas Macabeu tomaram Jerusalém e deu-se início à purificação do Templo. Após as limpezas necessárias, um novo altar foi construído e novas alfais litúrgicas foram feitas. No final da purificação, verificou-se que apenas havia um jarrinho de azeite puro no Templo com o selo intacto do Sumo Sacerdote, para que as luzes da Menorah fossem acesas, o que daria apenas para um dia e não para os oito necessários. Contudo, milagrosamente, este azeite deu para os oito dias prescritos nos Textos Sagrados.
A festa é realizada no dia 25 de Kislev (normalmente em dezembro), datada em que o Templo foi purificado.
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