Todas as identidades têm os seus lugares esquecidos de memória, especialmente quando estes são altamente incómodos e vão contra os mais básicos princípios de humanidade. Assim é o caso da relação de Portugal com a sua memória judaica, especialmente com os momentos de massacre, de morte sistemática e em quantidade que, embora os potenciais anacronismos, nos faz pensar em genocídios, entre outras barbaridades.
A par do chamado “massacre de 1506”, que teve lugar em Lisboa, na Páscoa de 1506, em que poderão ter morrido cerca de 4000 lisboetas, supostamente cripto-judeus, o roubo de cerca de 2000 crianças judias em 1493, tiradas à força aos seus pais, e enviadas em condições desumanas para São Tomé, onde morreram quase todas, é um dos eventos negros da nossa história que nunca ganhou lugar nos manuais escolares – pudera! Como é que a gloriosa gesta dos Descobrimentos poderia ser manchada?
Mas sim, teve lugar tamanha barbaridade. Este episódio encontra-se documentado em fontes da época, como Garcia de Resende, Isaac Abravanel e Ibn Verga. Este tremendo ato de desumanização de toda uma população é o centro do documentário “2000 Crianças Judias Raptadas”, produzido pela Comunidade Judaica do Porto e pela Fundação Hispano-Judia, trazendo a um patamar de consciência coletiva um episódio dramático e pouco conhecido da história de Portugal.
Já com quase 50.000 visualizações, o filme está disponível gratuitamente no YouTube, legendado em vários idiomas, e recorda a deportação de cerca de duas mil crianças judias, em 1493, ordenada pelo rei D. João II. As crianças, com cerca de oito anos, foram enviadas à força para a então desabitada e inóspita ilha de São Tomé, no Golfo da Guiné, a mais de 7.500 quilómetros de distância, depois de os seus pais — judeus sefarditas recém-expulsos de Espanha — não conseguirem pagar o tributo exigido para permanecer em Portugal. Grande parte delas terão morrido durante a viagem, e muitas outras foram comidas pelos crocodilos. A ilha ficou conhecida no mundo judaico como I Ha Timshaim, ou “Ilha dos Lagartos”.
Através de vários espaços museológicos e também de produções cinematográficas, a Comunidade Judaica do Porto tem levado à população escolar portuguesa o conhecimento que tantos nos falta sobre a história judaica portuguesa, peça fundamental para se lutar contra o antissemitismo.
Nos dias que correm, quando grassam radicalismos que fomentam o antissemitismo, filmes como este deveria ser de visionamento obrigatório na disciplina de História. Nenhum português deveria passar ao lado, quer deste terrível roubo de milhares de crianças a suas famílias, quer, ainda mais, do massacre de 1506, também alvo de um documentário produzido pela mesma comunidade.
Não se trata de olhar para o passado com os olhos de um tribunal. O passado não se altera nem se corrige. Contudo, o presente alimenta-se do passado, na medida em que a ignorância alimenta a violência, o preconceito e a perseguição.
Tanto desse distante passado nos interessa hoje para melhor compreender o mundo à nossa volta e a forma como somos instrumentalizados por ondas de reação que nos alheiam de uma mais completa visão da realidade. Sim, porque o mundo é complexo, e as memórias estão repletas de feridas, e a cura implica o conhecimento.
Inevitavelmente, é impossível ver este filme sem criar paralelos com a atualidade, com os eventos também dramáticos de 7 de outubro de 2023. Essa ligação é feita, não no filme, mas na interpretação que imediatamente qualquer pessoa acaba por fazer.
Longe das opções políticas e das linhas que cosem os gestos dos governos, o mais importante neste filme é a tomada de consciência a que ele obriga. Intenso, sem véus nem entrelinhas, trata a brutalidade olhos nos olhos. E essa, não tem cor política ou ideológica. A morte violenta e gratuita, quando bate a uma porta, fere da mesma forma.
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