Alexandre Soares dos Santos não gosta do investimento chinês em Portugal. Disse-o, alto e bom som, numa conferência pública, há poucos dias. Os defensores empedernidos do politicamente correto caíram-lhe em cima com o reflexo pavloviano do costume. Não se deram ao trabalho de ouvir a sustentação da tese e resumiram tudo a um ataque primário de xenofobia. Até aqui nada de novo. Mas a frase também indignou muito liberal de pacotilha. E do outro lado do espelho muita gente reagiu com a mesmíssima excitação pavloviana. O capital, já se sabe, não tem pátria e a conversa fica por aqui. Casamento curioso, este. Mas adiante.
Pois eu, vão desculpar-me, acho que esta é daquelas discussões onde todos gritam e ninguém tem razão. Desde logo não têm razão os primeiros porque Soares dos Santos não se ficou pela simples boutade. Mal ou bem, no curto espaço que é o possível numa intervenção deste género, sustentou minimamente a sua tese. E cito de cor: “Não traz coisa nenhuma. Nem know how, nem management.” Repito: pode concordar-se ou não com o argumento, pode criticar-se a generalização, mas só com má-fé se vê aqui um impulso xenófobo.
Dito isto, não tem também razão Alexandre Soares dos Santos. A globalização é um facto. Portugal precisa, sempre precisou, de ser uma economia aberta. E nesta matéria dificilmente se pode ter o melhor de dois mundos: querer ter uma economia exportadora, querer ter empresas portuguesas a fazer investimentos no estrangeiro e ceder a impulsos protecionistas ou escolher a regra e esquadro a origem dos capitais que se dispõem a investir em Portugal.
Mas o que verdadeiramente é curioso é que também não têm inteiramente razão todos quantos, em nome de um ideário liberal digerido a mata cavalos, dizem que nada, absolutamente nada, deve ou pode ser feito nesta matéria. É bem verdade que em nome da doutrina económica liberal do laisser faire se pode, com seriedade intelectual, defender que o Estado não deve fazer a distinção entre capitais chineses, angolanos ou suecos. Deixe-se o mercado funcionar e o que vier virá. Acontece porém que não é menos verdade que, em termos políticos, o ideário liberal se funda numa desconfiança profunda relativamente ao poder absoluto ou excessivamente concentrado. É aliás contra o absolutismo que se erguem as mais importantes vozes liberais do século XVIII. Deste ponto de vista é pois absolutamente coerente defender que um liberal deve lutar contra qualquer tipo de concentração de poder. E é portanto legítimo perguntar se não estaremos a ir longe de mais na concentração de poder nas mãos de empresas chinesas (com a agravante de que não estamos exatamente a falar de um país com uma enorme tradição de independência entre poderes políticos e económicos). Não é pois uma questão de rejeitar investimento chinês ou sueco. É uma questão de sentirmos que o grau e a dimensão desse investimento é suscetível de criar uma concentração de poder excessiva.
Ando a dizer há muito tempo que o executivo não pensou o seu programa de privatizações em termos políticos ou geoestratégicos. Sendo certo que se ninguém me ouve o defeito é obviamente meu, a verdade é que a estrutura de poder em Portugal está a mudar profundamente e o país beneficiaria que alguém pensasse dois minutos sobre o assunto. Para que depois de todo este turbilhão não deixássemos aos nossos filhos uma sociedade com uma estrutura de poder ainda mais concentrada do que já estava.