Com o Inverno pelas costas e com a Primavera pela frente, começou a época em que, tipicamente, surgem os melhores céus para fazer fotografias de paisagem verdadeiramente épicas. De facto, em consonância com o ditado “em abril, águas mil”, esta é a altura em que existem constantes transições de céus com nuvens carregadas de chuva para céus de bonança, tingindo-os com cores, formas e texturas verdadeiramente sublimes. Paralelamente, no solo, a frágil primavera vai pintalgando as árvores e os campos com flores coloridas, os oceanos moderam a sua fúria sem perder o vigor das suas ondas, e os rios correm feéricos com a vida que pulula nas suas margens.
Com tanta magia no ar, é imperativo fazer fotografias que consigam abarcar a grandiosidade destas manifestações da Natureza. Neste sentido, nada melhor do que enveredar pelas imagens panorâmicas, onde um conjunto de fotografias é registada para, depois, serem combinadas numa única imagem, a qual exibirá um ângulo de visão superior àquele que as objetivas grande-angular nos oferecem com uma só fotografia. É um facto que muito telemóveis e câmaras fotográficas possuem modos de fotografia panorâmica automáticos, mas perderá muito do controlo criativo e da qualidade que é possível obter se tomar as rédeas do processo. Você merece e, certamente, a parede da sua sala de estar irá ficar fantástica com uma impressão em grande formato da sua nova imagem panorâmica.

Imagem panorâmica criada a partir de seis fotografias verticais. Cada imagem foi registada com uma exposição de 20 segundos a f/13, com ISO 200. A montagem e edição finais foram realizadas em menos de cinco minutos, usando o programa Adobe Photoshop Lighroom. Farol do Cabo Sardão, Alentejo, Portugal. © Joel Santos – www.joelsantos.net
Sem complicações, eis os passos que deve considerar para fazer uma excelente fotografia panorâmica:
1) Tripé – é essencial usar um bom tripé, não só para estabilizar a sua câmara, mas sobretudo para garantir que as diversas imagens ficam devidamente alinhadas entre si. Assim, é vital que o comprimento das pernas do tripé esteja ajustado de uma forma que garanta que a cabeça do tripé, onde a câmara está presa, fica completamente nivelada. Ajuda muito se as pernas do tripé tiverem um nível de bolha incorporado, mas, se ele não existir, poderá adquirir um muito barato numa loja de fotografia. Um bom nivelamento fará com que, ao rodar a cabeça do tripé, as múltiplas fotografias não fiquem desalinhadas, evitando recortes desnecessários mais adiante, na fase de pós-produção, logo sem sacrificar partes importantes da imagem final.
2) Câmara (orientação) – uma vez ajustadas as pernas do tripé, chega a altura de colocar a câmara na cabeça do tripé, a qual deverá ficar na posição vertical, pois tal maximizará o ângulo de visão vertical – um aspeto crucial –, deixando o ângulo de visão horizontal a cargo da rotação da cabeça e do número de imagens realizadas, como veremos mais adiante. Novamente, é imprescindível que a câmara esteja também ela bem alinhada, o que poderá ser conseguido através do nível eletrónico incorporado nos equipamentos mais recentes, ou através do tal nível que poderá adquirir e colocar na sapata de flash da câmara.
3) Definições da câmara (exposição) – é essencial que as definições não variem entre cada fotografia realizada, pois as discrepâncias entre elas irão ser exageradamente notadas quando as imagens forem combinadas. Assim, procure usar o modo de exposição Manual, fixando a sensibilidade ISO (quanto menor, maior a qualidade de imagem), a abertura (defina aquela que lhe garante a profundidade de campo desejada, tipicamente entre f/11 e f/16 numa fotografia de paisagem com primeiro plano) e a velocidade de obturação que ofereça uma exposição equilibrada (como ponto de partida, tente alinhar a escala de exposição com o ponteiro em “0”; faça uma imagem de teste e avalie o resultado, ajustando o tempo de exposição até ficar como desejado). Faça estes ajustes direcionando a câmara para a parte mais luminosa da paisagem panorâmica que deseja fotografar, evitando que exista uma sobreexposição.
4) Definições da câmara (focagem) – escolha uma distância de focagem que, quando conjugada com a abertura definida e com a distância focal usada (vulgo, zoom), garanta que todos os planos fiquem nítidos, especialmente se existirem elementos no primeiro plano. Por exemplo, se usar um objetiva ultra grande-angular – 16 a 18 mm – e definir f/16 como abertura, então focar para 1m garantirá uma profundidade de campo que, aproximadamente, se estende dos 50 cm até ao infinito. Depois de definir a distância de focagem, é crucial que esta fique fixa entre cada imagem registada, logo importa passar a objetiva de AF (focagem automática) para MF (focagem manual), mantendo-a bloqueada nesta posição.
5) Definições da câmara (equilíbrio de brancos) – para que haja uma uniformidade das cores entre cada imagem registada, abdique de usar o equilíbrio de brancos automático (AWB), selecionando antes a predefinição mais indicada para o tipo de luz existente. Assumindo que está a aproveitar os céus nebulosos e instáveis dos meses primaveris, sobretudo ao nascer e ao pôr do sol, então defina a predefinição “Nublado” (Cloudy). Se fotografar no formato RAW, o que se aconselha vivamente em todas as circunstâncias, poderá refinar o equilíbrio de brancos na fase de edição de imagem.
6) Registo das fotografias – uma vez ultrapassadas todas as definições de base, chegou a altura de fazer as fotografias que servirão de base à imagem panorâmica. Para tal, não se esqueça de usar um cabo disparador ou o temporizador, para minimizar o contacto com a câmara e evitar fotos tremidas. Desligue, também, o estabilizador se usar tripé, pois, paradoxalmente, irá arruinar a nitidez das fotografias, particularmente se fizer longas exposições. Depois, resta começar o registo das imagens pelo lado direito ou esquerdo da paisagem que elegeu, garantindo que existe uma sobreposição de, no mínimo, 30% entre cada uma delas. Esta sobreposição será essencial para o programa de edição de imagem conseguir “colar” as fotografias de base e determinar a direção em que fez os registos, tudo a partir dos elementos comuns entre elas.

Legenda: As seis fotografias originais, no formato RAW e sem qualquer edição, ficando patente como cada uma delas apresenta uma sobreposição superior a 30% com a antecendente. Serão estas a base da imagem panorâmica final, cobrindo um ângulo de visão horizontal próximo dos 180º, enquando o ângulo vertical cobre cerca de 100º, uma abrangência rectilinear que ultrapassa o que se consegue fazer com apenas uma fotografia, mesmo quando se usa uma objectiva ultra grande-angular. Farol do Cabo Sardão, Alentejo, Portugal. © Joel Santos – www.joelsantos.net
7) Montagem da imagem panorâmica – existem muitos programas que permitem a criação de imagens panorâmicas, mas, para aproveitar o máximo potencial dos seus ficheiros RAW e para uma total simplicidade de processos, o Adobe Photoshop Lightroom CC é uma escolha acertada. Neste programa, bastará selecionar as imagens de base, clicar sobre elas e, no menu de contexto, escolher “Mesclar foto à Panorama …”. Na janela resultante, testar o modo de projeção que proporcione a melhor previsão (tipicamente, será a opção “Esférico” ou, por vezes, “Cilíndrico”). Na versão mais recente deste programa, encontrará uma opção designada “Distorção de limites”, a qual, impressionantemente, irá preencher as zonas da imagem panorâmica que, habitualmente, ficam sem informação e que precisariam de ser “aparadas” – acredite, ficará espantado com os resultados, sobretudo em fotografias de paisagem natural. Para terminar, clique em “Mesclar” a aguarde alguns momentos até que a imagem panorâmica seja criada.

Legenda: Usando o programa Adobe Photoshop Lighroom, escolheram-se as seis fotografias de base e usou-se a ferramenta “Mesclar foto à Panorama…”, o ponto de partida para iniciar a montagem da imagem panorâmica. Farol do Cabo Sardão, Alentejo, Portugal. © Joel Santos – www.joelsantos.net

Legenda: A previsualização da montagem mostra que o resultado da “colagem” será perfeito, mas, como seria de esperar, existem áreas que precisam de ser recortadas ou, melhor ainda, preenchidas com informação, para que a distorção seja corrigida e para que não se percam elementos da composição que sejam relevantes. Farol do Cabo Sardão, Alentejo, Portugal. © Joel Santos – www.joelsantos.net

Legenda: A ferramenta “Distorção de limites” da mais recente versão do Lightroom CC fez um trabalho brilhante, maximizando a áerea útil de imagem através do preenchimento inteligente das zonas sem informação da imagem panorâmica. Depois, bastou clicar em “Mesclar” e esperar alguns instantes para ter a imagem panorâmica. Farol do Cabo Sardão, Alentejo, Portugal. © Joel Santos – www.joelsantos.net
8) Edição de imagem – como sempre, todas as imagens, sobretudo quando realizadas em formato RAW, beneficiam com alguns ajustes ao nível da exposição, cor, alinhamento, entre outros. O Lightroom CC tem a vantagem de a imagem panorâmica permanecer em RAW (no formato DNG), logo pode conduzir os seus ajustes já depois da montada a panorâmica, em vez de os efetuar antes, como é imperativo fazer na maioria dos restantes programas de edição de imagem.

Legenda: Para terminar, recortou-se um pouco do lado esquerdo da imagem para melhorar a sua composição global, ajustando moderadamente o contraste global, a saturação e a nitidez. Note-se que a imagem final ficou com 7231 x 4375 píxeis, ou seja, 32 megapíxeis, uma resolução mais do suficiente para fazer uma impressão de grande formato, plena de informação e detalhes surpreendentes, perfeitos para serem observados num local de destaque na nossa casa ou para oferecer a alguém especial. Farol do Cabo Sardão, Alentejo, Portugal. © Joel Santos – www.joelsantos.net
E já está! Como sugestão final, considere vivamente imprimir a sua obra-prima em grandes dimensões. Verá um mundo de detalhes sem precedentes, além de que toda a grandiosidade da paisagem que o fascinou irá encontrar uma vida própria. Boas fotos!