Para nós, aqui no cantinho ocidental com vista para o mar, parece que se tornou consensual, nos últimos dias, olhar para as eleições como um cansaço, até mesmo como uma perda de tempo, segundo alguns. Só que não nos deveríamos esquecer que os votos que forem depositados neste domingo, 18 de maio, podem ter um papel decisivo para o futuro europeu.
Não serão os nossos votos, aviso desde já – até para me livrar de qualquer condenação futura por violação das antiquadas regras do nosso “singular” Dia de Reflexão. Para o futuro da União Europeia o que conta mesmo são os votos contados em Varsóvia e em Bucareste.
Desculpem a franqueza, mas mais importantes do que as nossas eleições legislativas são as eleições presidenciais que se realizam, no mesmo dia 18, na Polónia e na Roménia. Nesses dois países, os mais populosos do Leste europeu, os resultados não terão impacto apenas para polacos e romenos. Podem mesmo ter um efeito (mais desastroso do que benéfico) para a União Europeia.
Na Roménia, existe a forte possibilidade de vitória do populista George Simion (depois dos 40% de votos obtidos na primeira volta), um candidato com uma agenda pró-Trump, que é contra o apoio da UE à Ucrânia e que, se vencer, pode juntar-se ao húngaro Viktor Orbán e ao eslovaco Robert Fico, reforçando o grupo dos dirigentes nacionais que optam por bloquear as decisões importantes que precisam de consenso no Conselho Europeu, nomeadamente a continuação do apoio militar a Kiev, com tudo o que isso implica.
Na Polónia, embora esta ainda seja apenas a primeira volta das eleições presidenciais, estão já em jogo as duas conceções diferentes de projeto europeu e, acima de tudo, de democracia, que deverão enfrentar-se na segunda volta, a 1 de junho. De um lado, temos o presidente centrista da câmara de Varsóvia, Rafał Trzaskowski, empenhado em apoiar o atual governo liderado por Donald Tusk na sua missão de reverter o retrocesso democrático no país. E, do outro, Karol Nawrocki, da direita extremista do Partido da Lei e Justiça, que pretende continuar a bloquear essa missão, dando continuidade ao trabalho que tem estado a ser feito pelo atual presidente, Andrzej Duda.
Por causa destas realidades, quando se veem as primeiras páginas dos jornais com um posicionamento responsável e de referência desses países percebe-se porque – ao contrário do que sucede noutras latitudes muito próximas de nós… – não gastam espaço a noticiar sondagens, quase sempre de eficácia duvidosa. E não o fazem porque sabem que está em jogo, como sublinham, algo muito mais importante: continuar a pertencer a uma Europa democrática, justa e que respeita os direitos humanos.
“Dar voz à democracia” é, por isso, a manchete do jornal polaco Gazeta Wyborcza, desta sexta-feira, 16, cuja primeira página escolhi para ilustrar este texto. A publicação de Varsóvia explica bem o que está em jogo naquele país, cada vez mais central e decisivo nas decisões europeias: “Mais uma vez, nós, cidadãos, estamos diante de uma escolha histórica: ou a Polónia será democrática, europeia e igual para todos, ou será antidemocrática, xenófoba e anti União Europeia. Depende de nós saber que caminho iremos escolher”.
É sobre isto, exatamente sobre isto, que precisamos de refletir neste nosso dia de reflexão: queremos ou não uma Europa unida pelo respeito da democracia, dos direitos humanos, da justiça social, da paz e do progresso social?
Por cá, sem estes dilemas urgentes, caímos facilmente na tentação de pensar que todos estes temas são muito distantes e que nada têm a ver com a nossa realidade. Será mesmo assim?
Se o dia de reflexão serve para alguma coisa que seja para nos ajudar a refletir sobre o que está em jogo na Polónia e na Roménia. Acima de tudo, porque não sabemos se, algum dia, podemos ter de enfrentar um dilema semelhante. E pior: se, nessa altura, já não teremos liberdade nem tempo para refletir, em conjunto, sobre o que fazer – apenas porque já alguém decidiu por nós, sem se preocupar em saber a nossa opinião.
Afinal, o dia de reflexão, mesmo que seja anacrónico, ainda pode ser útil.