As declarações de Pedro Nuno Santos sobre as presidenciais, proferidas na semana passada na RTP, têm um profundo significado político. Não versam é sobre as presidenciais. Confuso? Nem por isso.
As ditas eleições são, aliás, também elas, muito paradoxais. Arriscam-se a ser muitíssimo interessantes por várias razões, sendo que nenhuma delas é a eleição do Presidente. Essa está mais do que resolvida e só um assomo narcísico pode transformar a ideia de bater o recorde de Mário Soares num evento significativo. Mas a contenda não deixa de ter, como digo, outros motivos de interesse. Tanto mais que há um conjunto de temas e combates laterais importantes para seguir.
O primeiro desses temas é o do mais do que previsível afastamento entre Presidente e primeiro-ministro. Adquirido que está o apoio (quase explícito) do PS, a Marcelo interessa agora, sobretudo, cuidar da sua base tradicional de apoio. E esta, parece evidente, não vive exatamente confortável com a ideia de um bloco central Belém/São Bento. A descolagem é inevitável, começou já com o fim das reuniões no Infarmed e só se acentuará à medida que, para o Presidente, se for tornando evidente que a situação se degrada ao nível sanitário, económico ou social. O tema pode até ser de pequena política. Mas no quadro de instabilidade em que vivemos pode ter consequências inesperadas.
Outro ponto de interesse é obviamente a medição de forças que se fará à direita. E o problema não é exatamente de um PSD que acabará inevitavelmente por fazer aquilo que Rio adiou, sem qualquer vantagem: declarar o seu apoio a Marcelo. É o CDS que tem um problema bicudo. O seu eleitorado nunca morreu de amores pelo atual Presidente e, na ausência de um candidato alternativo, pode ser tentado a engrossar as hostes de André Ventura. O problema é que o CDS não se pode permitir ver Ventura arrecadar um resultado melhor do que o que teve o partido nas últimas legislativas. Mas para o evitar precisaria de avançar com um candidato próprio… que lhe desse absolutas garantias de bater Ventura. A equação, já se vê, não é fácil de resolver, e a reconfiguração do espaço à direita do PSD pode estar mesmo aí, ao virar da esquina.
Mas é à esquerda que, estranhamente, se trava o mais feroz dos combates. E assim regressamos a Pedro Nuno. O que está verdadeiramente em causa é tão-só a sucessão de António Costa e o posicionamento do PS no espectro político português. Dois temas em relação aos quais o primeiro-ministro tem sido inteligentemente ambíguo.
Ora, as declarações do ambicioso ministro das Infraestruturas são claras para quem as queira entender. Pedro Nuno deseja uma clarificação. E apela a uma grande frente de esquerda que, reunida a pretexto de uma candidatura presidencial (estará seguramente a pensar em Ana Gomes), possa servir como um teste à força de todos quantos desejam a colagem definitiva do PS à extrema-esquerda. E, já que estamos nisto, que lhe sirva como termómetro para aferição da sua própria força.
Tudo isto é interessante. Nada disto tem que ver com a eleição do próximo Presidente.
(Opinião publicada na VISÃO 1428 de 16 de julho)