Com a crise dos refugiados que procuram abrigo na Europa, Angela Merkel está a revelar uma face, mais humana, que lhe desconhecíamos. Os mais cínicos dirão que a chanceler alemã está apenas a ser lúcida e inteligente. Porque irá receber cerca de 800 mil pedidos de asilo este ano, quatro vezes mais que em 2014. E porque é impossível, e inaceitável, construir uma “muralha” ao longo de toda a fronteira da União Europeia. Pouco importa. O que interessa é que os milhares de refugiados que tentam entrar na Europa são a nova prioridade de Merkel, e que esse será o novo foco dos governos europeus.
Já sabemos que quando a chanceler puxa pelo carrossel europeu, ele mexe-se. E desta vez para o lado certo e com os argumentos adequados. Muito mais do que a Grécia alguma vez o foi, a falta de atuação concertada para acudir aos refugiados é hoje a grande ameaça à integridade, aos valores e à coesão do espaço europeu.
Vive-se em estado de guerra – e na pior das guerras, as civis – em grande parte do Norte de África e no Médio Oriente. A Europa tem uma obrigação moral de dar abrigo aos refugiados de guerra. Sabe o que é a guerra, sabe o que é fugir da guerra e sabe o valor que tem um porto de abrigo quando o mundo à nossa volta já nada mais é do que destruição e violência. A Europa tem de ser generosa e abrir as portas aos refugiados da guerra e da fome. Mas, não tenhamos ilusões, tem de o fazer de forma controlada, concertada e solidária.
De forma controlada porque, se não for assim, vão multiplicar-se os casos de migração clandestina, de concentração de refugiados ilegais em grandes cidades, sem quaisquer condições de vida; vão multiplicar-se os confrontos e os radicalismos oportunistas da extrema-direita. De forma concertada porque, não o podemos esquecer, não existem fronteiras entre 25 Estados europeus, os países do Espaço Schengen, pelo que a entrada e conceção de um visto num desses Estados abre a porta a todos. E, por fim, de forma solidária, porque a Europa só conseguirá absorver esta onda migratória, a maior vaga de refugiados desde a II Guerra Mundial, se todos os países – todos, e não apenas os que estão no anel exterior da UE ou que são alvo preferencial dos refugiados – atuarem de forma generosa e positiva.
Ser generoso não é “atirar” refugiados de um lado para o outro, recebendo-os numa fronteira e despejando-os na fronteira oposta, como quem se livra de uma batata quente. Mas também não é dizer que se está disponível para receber meia dúzia de pessoas. Isso é partir a Europa e dar argumentos a países como a Hungria, a República Checa, a Eslováquia e a Polónia, que prometem contestar o plano de atribuição de quotas aos Estados-membros para acomodar 40 mil refugiados, que será discutido no dia 14. Um novo teste para a coesão da Europa. A Hungria, que levantou uma vedação de arame farpado na sua fronteira com a Sérvia, ameaça utilizar o exército para manter à distância os refugiados. E a República Checa diz que também usará os militares para “defender” as suas fronteiras, já que a UE “não o consegue fazer”.
Atuar de forma generosa, e tanto melhor se é também a forma inteligente, é fazer um esforço sério para receber e integrar um número razoável de refugiados – até porque muitos deles, pela idade e pela formação técnica e académica que têm, podem ser uma mais-valia para uma Europa envelhecida. Como disse Poiares Maduro há dias, no Parlamento, a Europa não deve olhar para o problema dos refugiados como uma questão meramente humanitária. Deve olhar como uma oportunidade de enriquecimento e de crescimento.
É bom, neste caso, ver o Governo português com o discurso alinhado ao de Merkel. Mas atuar de forma generosa e como quem olha para uma oportunidade e não para um risco, não se pode depois traduzir, como parece ser o nosso caso, numa disponibilidade para receber 1 400 ou ?2 000 refugiados. Em 1975, a “metrópole” portuguesa tinha ganho, no espaço de um ano, um milhão de habitantes. Foi um acréscimo de cerca de 15% da população. Não foi um processo logístico nem financeiro fácil. Mas visto de forma fria e distante, deixando de lado todos os dramas individuais daquela migração forçada, foi também um caso de integração exemplar. Os chamados “retornados” entraram rapidamente na sociedade portuguesa “europeia” e deram-lhe um novo fôlego, contribuindo de forma decisiva para a modernização e desenvolvimento de uma metrópole que era, em muitos aspetos, bem mais atrasada que as suas colónias.
Um milhão é muita gente. 1 400 pessoas é ridiculamente pouco face ao que está em jogo. Era bom que Portugal e todos os parceiros europeus percebessem a importância da sua boa vontade