Celebram-se os 20 anos da reunificação da Alemanha. Sem esquecer o que representou para o povo alemão, o acontecimento marcou a construção europeia. Permitiu acelerar o processo comunitário, lançar a moeda única e abrir o caminho para Leste. Porém, com o tempo, levou a uma dicotomia, que fere o coração da Europa. A Alemanha é, hoje, um gigante económico que se sente apertado pelo projeto europeu. Parece um motor de grande cilindrada inserido numa carroçaria antiquada e pouco aerodinâmica.
Ao refletir sobre o estado da Europa fico com um sabor a pessimismo. Existe, de um modo geral, um défice de confiança na capacidade e na seriedade dos políticos europeus. Não é apenas porque alguns projetam uma imagem de pilha-galinhas. A gente comum não vê nos dirigentes atuais as qualidades de liderança e o empenho necessários para responder aos desafios. A visão política foi substituída por um sistema de regras de contabilidade. Até Van Rompuy se deixou apanhar por essa armadilha. Sem contar que mesmo essas regras não são inteiramente respeitadas por vários governos. Vive-se, assim, uma Europa sem ambições nem princípios, palavrosa mas ineficaz. É a Europa dos consensos mínimos. Ora, uma Europa minimalista não é sustentável.
As fragilidades de hoje não se limitam às hesitações da Alemanha. A crise económica de 2008-2009 e as derrapagens das contas públicas da Grécia e de outros Estados, em 2010, foram momentos decisivos. Tiveram o mérito de mostrar que sem o euro teria havido descalabro. Mas também revelaram que certos países, entre eles Portugal, são uma ameaça para a estabilidade do todo. Surge assim, 20 anos depois da unificação alemã, uma nova linha de demarcação. A Alemanha e os países do Norte, por um lado, mais perto dos critérios estabelecidos e mais bem preparados para a globalização. A crise é, para eles, uma ameaça superável. Do outro lado, temos um conjunto de economias periféricas e pouco dinâmicas. Com um tecido produtivo insuficiente e sem sofisticação, incapazes de competir nos mercados internacionais.
Não será possível excluir da união os países trapalhões. Vontade não faltaria, em Berlim e noutras capitais. Nem os Estados malcomportados vão sair por decisão própria. Alguém pensa que Atenas ou Lisboa venham, um dia, proclamar que não têm condições para continuar na UE? Também não parece credível pensar na saída da União de países como a Alemanha, a Suécia ou a Holanda. Talvez haja quem encare essa hipótese, uma Europa de elite, só para os mais avançados. Mas, para já, não será mais do que uma posição política marginal.
O certo, nesta fase, é a expansão dos sistemas de fiscalização comunitária. A máquina de Bruxelas vai ser utilizada para impor austeridade, rigor e limites orçamentais aos Estados fora-de-jogo. Um comportamento económico e financeiro medíocre, ou eleitoralista, acarretará perdas adicionais da soberania nacional.
As populações não vão aceitar a austeridade. Para muitos, a capacidade de absorção de mais choques deixou de existir. As almofadas sociais estão a ficar sem penas. O sentimento de injustiça e o desespero dos mais vulneráveis são cada vez maiores. Com o crescer da agitação social, os dirigentes políticos vão compreender que não será possível governar contra os cidadãos. A grande questão será, então, como governar sem cair no populismo? De facto, receio que a falta de coragem política e o populismo sejam, a prazo, as vias rápidas para a falência da Europa.