Menos de um ano depois da Imprensa Nacional ter lançado a sua poesia completa e de o festival Escritarias, de Penafiel, o ter escolhido como homenageado, Arnaldo Antunes está de volta à música, com um álbum mais próximo do rock. Nada de demasiado surpreendente para quem conhece o seu percurso.
Recorde-se que o músico brasileiro começou, nos anos 80, por liderar os Titãs, banda de punk-rock que deixou uma marca na música brasileira, em temas como “Comida”, “Pulso” e “Polícia”. O seu percurso deu várias voltas e as suas canções foram vestidas de arranjos diferentes, mas sempre servindo um imenso corpo de poesia.
No disco anterior, chegara ao extremo do intimismo, trabalhando apenas com Vítor Araújo, um jovem e virtuoso pianista.
Novo Mundo, que agora chega às lojas e às plataformas de streaming, marca o regresso de Arnaldo Antunes ao formato de banda. O álbum é eminente político. Faz um alerta para o estado do mundo, traçando um cenário quase apocalíptico, mas, ao mesmo tempo, guarda espaço para canções de amor.
Depois de três anos em digressão, com o pianista Vítor Araújo, sentia falta de um álbum de banda?
Há muito que eu não fazia um trabalho de banda, porque o Real Resiste, gravado antes da pandemia, já era um disco sem bateria, só com instrumentos de corda e piano. Depois quis perseguir a proposta de forma mais serena, fazendo um show só de voz e piano, coisa que nunca tinha experimentado. E a seguir à pandemia saiu o Lágrimas no Mar. Houve uma grande sintonia com o Vítor e tudo correu bem, mas depois de três anos fazendo esse show, comecei a sentir saudades de uma coisa mais vibrante, mais dançante, mais pesada. A tournée de reencontro com os Titãs, que foi um parêntesis dentro desse período, também me deu um empurrão. O disco foi feio com uma banda nova e um produtor novo, para realmente renovar a minha sonoridade.
Este novo mundo é apresentado de alguma forma logo na primeira canção: “Bem-vindos ao novo mundo que se vai desintegrar no próximo segundo”. Isto é um alerta ou um desespero?
Estamos vivendo um período de muita intolerância, ódio, guerra, uma crise ambiental sem precedentes, uma economia global predatória, uma distribuição de renda absurda, a ascensão da extrema-direita e dos ódios impulsionados pelos algoritmos, com o papel crescente da tecnologia na nossa vida, causando também crises de ansiedade em todo mundo. Por isso, o disco tem esse lado crítico, o que é um pouco inevitável. Há essa visão distópica, até um pouco apocalíptica, mas é um alerta. A tomada de consciência daquilo que se está vivendo é necessária para encontrar respostas de como reagir a isso. E o disco acaba oferecendo algumas possíveis respostas de sobrevivência nesses tempos terríveis, através de um lado mais solar, mais amoroso, em canções como “Acordarei”, “Pra Não Falar Mal” ou É Primeiro de Janeiro”.
Esta música também tem uma participação do rapper Vandal. Sente uma particular afinidade com o hip-hop?
Sim, adoro os Racionais, acho que tem muita coisa interessante. Eu próprio já fiz algumas experiências com canto mais falado dentro do ritmo. Adorei o trabalho do Vandal, entra de um jeito muito adequado na canção, com uma letra pertinente, e aquela forma de cantar meio berrada que me lembra a maneira como eu cantava no começo dos Titãs.
O disco também passa a Ana Frango Elétrico, que é uma outra voz com uma energia incrível e muito especial. Como é que ela veio aqui parar?
Acompanho o trabalho dela já há algum tempo, adoro as canções, o som e o charme da sua voz. O último disco eu acho primor. Quis chamar para participações músicos com quem nunca tinha trabalhado, à exceção da Marisa [Monte], que é essa parceira de há muitos anos. A música para a qual convidei a Ana é, na verdade, um dueto, porque o final de um verso acaba por se sobrepor ao início do verso seguinte.
Também há dois temas como o David Byrne. É uma estreia?
Tenho uma grande admiração e uma identificação com o seu trabalho desde o começo dos Talking Heads. Quando assisti o Stop Making Sense, no começo dos anos 80, fiquei pirado. Ele também está sempre a renovar-se, experimentando coisas novas. E tem esse interesse pela música brasileira, trabalhou com o Tom Zé, com a Marisa… Então fazia sentido, de certa forma, fazer-lhe o convite. Ele, na verdade, já tinha escrito, há mais de 20 anos, um prefácio de uma antologia da minha poesia que foi publicada na Espanha.
Mas nunca tinham trabalhado juntos?
Não. Mandei-lhe duas ideias para ele escolher. Ele acabou fazendo a colaboração nas duas, com um resultado incrível. Ficamos quase um ano trocando e-mails e compondo as canções, vagarosamente. Até que chegámos a um resultado satisfatório. A base foi gravada no Brasil, ele pôs a voz lá em Nova Iorque, eu gravei a minha aqui.
Como é que se faz essa parte, que não parece assim tão simples quanto isso, de casar as duas línguas?
Isso acontece de forma diferente nas duas músicas. No “Não dá para ficar parado aí na porta”, mandei a melodia com a letra, pensando que ele faria uma parte em inglês. Ele acabou fazendo uma versão em inglês e mandou uma gravação com uma melodia nova, contrapondo, parecida com a minha. Enfim, ficou uma parceria e aí a gente quis intercalar as partes com a voz dele e com a minha e acho que ficou interessante. Agora, já o “Body e corpo”, mandei uma letra, ele musicou e fez a versão em inglês. Eu achei o meu canto por cima dos intervalos entre os versos, fui fazendo como se fosse uma tradução simultânea.
Esses duetos obedecem todas as lógicas diferentes. Talvez o mais clássico seja o com a Ana Frango Elétrico.. Com a Marisa, por exemplo, parece que este canto em harmonia se tornou uma voz dupla.
Sim, já é uma marca conhecida nossa, aquilo ganha vida própria, uma entidade, as nossas vozes andam juntas. Claro que em grande parte por causa dos Tribalistas, também com a voz do Carlinhos [Brown].
Uma das canções mais bonitas do disco é o “Viu Mãe”, de onde vem esta parceria com o Erasmo Carlos? Onde é que estava esta canção?
É uma canção póstuma. Foi um presente que o filho dele me deu através de um produtor. Recebi a letra e musiquei. É engraçado, porque é o processo contrário das parcerias que fiz com o Erasmo durante a vida. Era sempre ele que me mandava uma melodia e eu fazia a letra. Esta é uma música muito doce, muito amorosa. O tema da mãe é um tema recorrente também na obra dele.
Musicalmente, é um trabalho bastante complexo, mesmo a nível dos arranjos. Como foi toda essa parte, não só da composição, mas depois também dos arranjos e da produção?
Chamei o Pupilo para trabalhar comigo, que é super inventivo e com essa liberdade de transitar em vários géneros, mas sempre com muita originalidade. E aí arregimentamos essa banda, o Kiko Dinucci, o Vítor Araújo e o Betão Aguiar. Criámos os arranjos todos juntos ali no estúdio. Fora essa formação, teve só o Tomé, meu filho, que participou para brincar fazendo a guitarra e o arranjos de cordas
Estão previstos concertos em Portugal?
Ainda não está nada marcado, mas todos os meus show têm passado por Portugal. Espero que este também, porque gosto muito do público daí.